31 dezembro 2009

Um Feliz 2010!

Feliz Ano Novo para todos.

O 2010 anterior - aquele a.C. - não foi dos melhores, afinal nossos colegas de espécie ainda estavam a domesticar cavalos, não possuíam antibióticos, vacinas, não conheciam técnicas cirúrgicas eficazes, embora já contassem com um meio ainda em voga neste século XXI para prevenir doenças e males em geral, que é invocar amiguinhos imaginários poderosos em rituais ridículos.

Construamos um feliz 2010 d.C., único, marcante, melhor do que aquele de Arthur Clarke, onde computadores são inteligentes, E.T.s nos deixam monolitos negros de presente e fundam colônias em satélites de Júpiter, que explode e vira um segundo sol.

Vendamos tudo que possuímos e aproveitemos ao máximo o tempo que nos resta, porque dezembro de 2012 está chegando e os maias, como sabemos, não tinham como errar a data do fim da nossa civilização, embora não tenham sido capazes de prever o fim da própria.

21 dezembro 2009

Os deuses precursores

Janer Cristaldo


1. JEZEUS CRISTNA

Desta última viagem, voltei com alguns livros daqueles que não encontramos aqui. Destaco dois. De Karen Armstrong, minha teóloga predileta, Los Orígenes del Fundamentalismo en el Judaísmo, el Cristianismo y el Islam. Armstrong, eu a conheço desde há muito e tenho boa parte de suas obras em minha biblioteca. O outro livro foi Pablo de Tarso, ¿Apóstol o Hereje?, de autora espanhola que desconhecia, Ana Martos. Apesar de alguns lapsos, como falar da existência de três reis magos na Bíblia – o Livro fala apenas de magos, jamais diz que são reis e muito menos que são três – Martos faz importantes reflexões sobre as origens do cristianismo e sobre a heresia de Paulo.

Para começar, segundo a autora, os poemas e livros sagrados hindus, que narram o mito do primeiro casal que desobedeceu e foi expulso do paraíso terrenal do Ceilão, afirmam que Brahma finalmente os perdoou, mas que, posto que era um deus, conhecia de sobra a natureza humana e soube de antemão que continuariam pecando e ofendendo-o, porque o mal já havia entrado no mundo e não era fácil tirá-lo dali. Por isso, decidiu enviar Vischnu, a segunda pessoa da Trindade, para que se encarnasse no ventre de mulher mortal e redimisse o gênero humano do mal e da morte eterna. Vischnu se encarna mais de uma vez. Sua oitava reencarnação foi Cristna, e a nona, Buda. 3500 anos antes de nossa era, Cristna nasceu de mãe virgem, tendo sido profetizada sua vinda ao mundo pelos livros santos. Acho que o leitor já conhece história semelhante.

Adelante! A concepção da mãe de Cristna foi marcada pelo divino. Vischnu apareceu em sonhos a uma mulher justa e boa chamada Lakmy, que esperava um filho, advertindo-a que daria luz a uma filha, que seria eleita por Deus para ser mãe do futuro redentor do mundo. A criança deveria chamar-se Devanaguy e não deveria conhecer varão, mas permanecer virgem e entregue à oração.

Anos depois, Cristna foi concebido milagrosamente durante uma cena mística, na qual Devanaguy entrou em êxtase enquanto orava fervorosamente, ofuscada pela luz e esplendor do espírito divino que se encarnou em seu ventre. Mas Rausa, tirano e tio de Devanaguy, foi advertido em sonhos de que a criança que nasceria de sua sobrinha o destronaria algum dia e a encerrou em uma torre.

Nove meses depois chegou o momento esperado do parto e, ao primeiro gemido de dor da parturiente, um forte vendaval a elevou milagrosamente e a transportou até a cova do pastor Nauda, onde nasceu um menino a quem deram o nome de Cristna.

Todos os pastores acudiram a adorá-lo e a atender a mãe e o filho, mas Rausa soube que a criança havia nascido fora de sua prisão e, enfurecido, mandou degolar todos os meninos que tivessem nascido naquela noite. Devanaguy recebeu a advertência celestial e fugiu com o menino para colocá-la a salvo da degola, quando os soldados do tirano se aproximavam perigosamente.

Passaram-se os anos e Cristna, a criança celestial, cumpriu dezesseis. Chegou então o momento de abandonar a proteção materna para percorrer a Índia e predicar uma nova moral. Uma moral que a todos impactou, porque se atreveu a proclamar a igualdade entre os homens e inclusive, com coragem, entre as castas hindus, algo que ninguém até então havia sido capaz de mencionar. E não só isso, mas também pôs em destaque a hipocrisia dos sacerdotes brâmanes, o que lhe valeu sua ira e suas contínuas perseguições.

Quando foi necessário, Cristna realizou o milagre de curar enfermos e leprosos, fazer andar os paralíticos, devolver a visão aos cegos e inclusive ressuscitar os mortos. Muita gente o seguiu porque sua doutrina falava de bondade, de ajudar e amar-se mutuamente e de socorrer os frágeis e inválidos. Ensinou que é preciso amar aos demais como a si mesmo, que é melhor devolver bem por mal e que a melhor forma de viver é praticar a caridade e todas as virtudes.

Disse ter vindo ao mundo para redimir os homens do pecado de seus primeiros pais, rodeou-se de discípulos que continuariam seu trabalho e ensinou sua doutrina através de parábolas. Certa ocasião, Cristna teve de repreender o principal de seus discípulos, Ardjuna, por sua escassa fé, já que ele e outros seguidores entraram em pânico quando sentiram aproximar-se os esbirros do tirano. Mas Cristna soube infundir neles novo ânimo, mostrando-se com todo seu divino resplendor da segunda pessoa da Trindade divina. Após sua transfiguração, seus discípulos começaram a chamar-lhe Jezeus, que significa “nascido da essência divina”.

Quando soube que havia chegado sua hora, retirou-se a um lugar para rezar, proibindo a seus discípulos que o seguissem. Submergiu no rio Gânges e logo ajoelhou-se às suas margens, recostando-se a uma árvore e esperando sua morte. Enquanto rezava, chegaram os soldados do tirano e os esbirros dos sacerdotes e um deles feriu-o com uma flecha. Para que terminasse de morrer, o dependuraram em uma árvore para que o devorassem os animais selvagens.

Seus discípulos o procuraram ansiosos quando souberam de sua morte e correram para apanhar seus restos, mas nada encontraram porque o filho de Deus havia ressuscitado e voltado aos céus.

Isto aconteceu 3500 anos antes de nossa era. Qualquer semelhança com aquela outra história não é mera coincidência. Continuo mais tarde o relato dos demais mitos anteriores ao cristianismo, feito por Ana Martos.


2. AGNI E MITRA

Segundo a autora, encontramos mais um mito precursor nos Veda, os livros sagrados da Índia revelados pelo próprio Brahma e compilados por Vyasa, que datam do século XIV antes de nossa era. Traduzo.

Agni nasceu no 25 de dezembro, solstício de inverno, tendo sido sua vinda anunciada ao mundo por uma estrela no firmamento. Desde então, quando reaparece, os sacerdotes anunciam a boa nova ao povo e repetem o rito do descobrimento do fogo, esfregando os lenhos cruzados, até que surge a chispa como uma criatura celestial que colocam sobre palhas para que prenda fogo. Os sacerdotes levam até o berço de palha uma vaca que leva a manteiga e um asno que leva o soma, um licor alcoólico de cor dourada, com os quais alimentam a pequena chama, à qual chamam criatura.

No ritual, os sacerdotes lhe oferecem pão e vinho e cada fiel recebe uma pequena partícula da oferenda, que contém parte do corpo de Agni, nome que se transformou em Agnus, cordeiro em latim, no contato com o povo romano. O cordeiro que se oferece a Deus como vítima propiciatória pela redenção dos homens, o cordeiro de Deus, Agnus Dei.

O nome de Agni significa “unção”, que em grego se diz “cristnos”, de onde procede “cristo”, o “ungido”, o Messias judeu e cristão dito em grego, porque em hebraico se mashiakh, que se translitera como messias. Os dois lenhos cruzados são a cruz onde se gera o fogo, o Sol, que é a origem do deus segundo o dogma ariano de uma trindade composta pelo Sol, pai celeste; o fogo, encarnação do Sol e o espírito, sopro de ar que acende a chama.

Nos conta a autora que a Índia teve um outro deus, não tão importante, mas que passou ao panteão persa – e depois ao romano – com todas as características de um deus principal. Seu nome era Mitra, também chamado o Senhor, e fez nascer com suas flechas a fonte eterna do batismo, já na Pérsia. Nasceu de mãe virgem, em um 25 de dezembro, a festa mais importante da religião dos magos persas. Seu nascimento foi anunciado por uma estrela que apareceu no Oriente e os magos acudiram a adorá-lo, levando-lhe perfumes, ouro e mirra. Mitra morreu no equinócio da primavera, em março, para ressuscitar triunfante no terceiro dia.

Na religião mitraica, que primeiro foi hindu, logo persa e finalmente foi adotada por Roma como religião oficial, Mitra, que originalmente foi o ministro principal do deus Ormuz, venceu o touro que simbolizava a vida, arrastou-o a uma cova e lá o degolou para beber seu sangue, porque de seu sangue surgiu a vida e de sua carne se originaram todos os animais e todas as plantas. Por isso, Mitra se converteu em criador do universo e, ao mesmo tempo, em mediador entre Ormuz e o ser humano. Os ritos de iniciação nos mistérios de Mitra incluíam batizar o neófito com sangue de touro sacrificado em um lugar mais elevado, de onde o sangue manava para banhar o iniciado. A iniciação começava com o batismo e terminava com a comunhão, em que se consumia a carne do touro com água, pão e vinho. O pão e o vinho se consagravam previamente com uma fórmula mística que os converteria em corpo e sangue do deus. O culto de Agni surgiu 1400 anos antes de nossa era. Qualquer semelhança com aquela outra história não é mera coincidência.


3. OSÍRIS, DIONISOS E SERAPIS

Ana Martos vai adiante e envereda pela mitologia egípcia. Os Textos das Pirâmides mostram que Osíris oferece seu corpo como pão de vida e seu sangue como vinho. “Tu és o pai e a mãe dos homens que vivem de teu sopro, comem a carne de teu corpo e bebem teu sangue. O que come tua carne e bebe teu sangue viverá eternamente”.

Os gregos identificaram Osíris com Dionisos, o deus encarnado, o salvador, filho de Deus, nascido de uma mulher mortal, em um 25 de dezembro, em uma cova humilde onde pastores o adoraram. Osíris Dionisos oferecia a seus seguidores o renascimento para a vida eterna mediante a imersão ritual na água. Em sua vida terrena converteu a água em vinho durante uma cerimônia nupcial. Entrou triunfalmente na cidade montado em um asno, enquanto as pessoas brandiam palmas. Morreu na Páscoa (na primavera) pelos pecados do mundo, desceu aos infernos e ressuscitou no terceiro dia para ascender glorioso à sua morada celestial, de onde descerá ao final dos tempos para julgar os homens bons e os maus. Dionisos, como Baco e, em alguns cultos, Orfeu, foi crucificado pelos pecadores, mas não em uma cruz de dor, senão em uma cruz de salvação, porque a cruz é símbolo e totem de muitos povos. Sua morte e ressurreição se celebravam com um ágape ritual com pão e vinho que simbolizavam sua carne.

A conversão do pão e do vinho em carne e sangue do deus era um ritual tão popular que Cícero, cético, chegou a protestar em De natura deorum e a perguntar se alguém podia estar tão louco para acreditar que o que ingeria era a carne e o sangue de um deus.

O culto a Osiris se ampliou e se aperfeiçoou durante o período helenístico, no qual o Egito esteve governado pelos gregos, para configurar uma nova divindade cuja morte e ressurreição assegurava vida eterna a seus fiéis. Unindo todas estas facetas, Ptolomeu I proclamou a religião de Serapis no Egito como religião oficial imposta, não espontânea como a de Isis ou Adonis, mas mantendo a tolerância em relação a outros deuses e outras religiões. Serapis era a união de Osiris e Apis, dois deuses egípcios que naquela época já incorporavam os aspectos do deus grego Dionisos, pelo que se proclamou Redentor filho da Trindade egípcia.

Serapis nasceu de mãe virgem no solstício de inverno, morrendo no equinócio da primavera para ressuscitar no terceiro dia. Não escapou de ameaças de morte, o que obrigou sua mãe, a virgem Isis, a fugir com o filho, montada em um asno. Isso sem falar da imagem de Orfeos Bakkikos, a primeira que se conhece de um deus crucificado, utilizada nos mistérios órficos e dionisíacos celebrados no Mediterrâneo... desde o século VI antes da era cristã.

Conhecemos essa história, não? É a do cara aquele que nasceu num 25 de dezembro de mãe virgem, foi anunciado por anjos, curou enfermos e leprosos, fez andar os paralíticos, devolveu a visão aos cegos, transformou água em vinho e ressuscitou mortos. Sua doutrina falava de bondade, de ajudar e amar-se mutuamente e de socorrer os frágeis e inválidos. Ensinou que é preciso amar aos demais como a si mesmo, que é melhor devolver bem por mal e que a melhor forma de viver é praticar a caridade e todas as virtudes. Desafiou os sacerdotes de sua época, foi crucificado, morto e sepultado e ao terceiro dia ressurgiu dos mortos.

Se alguém ainda acha que isto não é ficção de hábeis sacerdotes, que se vai fazer?

16 dezembro 2009

Nada de novo sob o sol

Janer Cristaldo


Há Estados interferindo na legislação de outros Estados. Nestes dias em que estive na Espanha, Baltasar Garzón, o famigerado juiz espanhol, pretendeu julgar os familiares de Pinochet por supostos crimes cometidos ... no Chile. A impressão que o magistrado deixa é que a Espanha se arroga o direito de julgar atos em qualquer país do mundo. Isto não é novo. Nos anos 90, um cidadão francês foi condenado por crime que teria cometido... na Tailândia. Só que na Tailândia não era crime. Comentei isto há quase dez anos.

Amnon Chemouil, funcionário dos transportes públicos franceses, descobriu em 92 a praia de Pataya, na Tailândia, para onde voltou em 93 e 94. Na terceira viagem, em companhia de um turista suíço, Viktor Michel, decidiu iniciar-se na pedofilia. Viktor trouxe-lhe uma menina de 11 anos, que praticou uma felação em Chemouil, pelo preço módico de 125 francos. Até aí, nada fora do previsível. É internacionalmente sabido que o Estado tailandês tolera tais práticas, daí boa parte do afluxo turístico àquele país. O suíço, que além de pedófilo era voyeur, filmou a cena. De volta ao mundo europeu, Chemouil recebeu do amigo suíço uma cópia do vídeo, para sua coleção. E aqui começam os problemas do funcionário.

Anos depois, em uma revista no apartamento de Viktor, a polícia suíça encontrou o vídeo e enviou uma cópia do mesmo à gendarmeria francesa. Chemouil foi detido e levado ante um tribunal parisiense, que o acusava de transgredir o código penal francês de 94, pelo crime de violação sexual de menor. Além do mais, uma lei aprovada em 17 de junho de 1998, autoriza os tribunais franceses a julgar as "agressões sexuais cometidas no estrangeiro", mesmo quando os fatos imputados ao acusado não sejam considerados delitos no país onde foram cometidos.

Claro que a França jamais condenaria um cidadão francês que fosse a Cuba – como vão – para curtir os encantos de uma jinetera a preço de baguete. Nem a Alemanha condenaria os Fritz que vêm ao Brasil em busca das celebradas mulatas do Rio e Bahia. Quanto à Tailândia, é crime. Mesmo que lá não seja crime.

Na ocasião, o escritor peruano Vargas Llosa, em artigo para El País, afirmou que o precedente estabelecido pela França é impecável, pois uma democracia moderna não pode aceitar que, saltadas as fronteiras nacionais, seus cidadãos possam ser exonerados de responsabilidade legal e delinqüem alegremente porque, no país estrangeiro, não existem normas jurídicas que proíbam aquele delito. (...) Os legisladores franceses decidiram estender a jurisdição das leis e códigos a esta sociedade globalizada de nosso tempo, o que permitiu assentar um precedente e um exemplo, como ocorreu, já não no campo dos delitos sexuais, mas no dos crimes contra a humanidade, com o general Pinochet na Espanha e Inglaterra.

O lúcido Vargas Llosa parece ter-se imbuído da arrogância européia, que se julga no direito de julgar um chileno por crimes cometidos no Chile, mas jamais ousaria pedir a cabeça de um Clinton ou Blair pelo bombardeio de populações civis na Iugoslávia. Diga-se de passagem, Barack Obama acaba de receber um Nobel da Paz por seus bombardeios no Afeganistão.

Por uma lei de 1998, Amnon Chemouil foi condenado na França a sete anos de prisão. Por um fato ocorrido em 1994, na Tailândia. Não é preciso ser versado em Direito, para entender-se que tal atitude gera uma insegurança total no campo dos atos humanos. Ora, no artigo 11 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, lemos: "Ninguém será condenado por ações ou omissões que, no momento de sua prática, não constituíam ato delituoso à face do direito nacional ou internacional".

Tenho comentado, ao longo destas crônicas, uma outra tendência cada vez mais em moda em nossos dias, a de criar diferentes legislações para os cidadãos pertencentes a um mesmo Estado. No Brasil, negro vale por dois brancos em vestibular, índio pode espancar mulheres e matar crianças, desmatar e exportar mogno, o MST pode invadir propriedades e próprios federais, demolir laboratórios e culturas transgênicas. Se um outro cidadão que não pertence a estas tribos fizer o mesmo, cai sobre ele todo o rigor da lei.

Na Europa, os muçulmanos reivindicam o direito a práticas que na Europa constituem crime, como a ablação do clitóris e a poligamia. Na Alemanha, citando o Corão, a juíza Christa Datz-Winter, de Frankfurt, negou o pedido de divórcio feito por uma mulher muçulmana que se queixava da violência do marido. A juíza declarou que os dois vieram de um "ambiente cultural marroquino em que não é incomum um homem exercer um direito de castigo corporal sobre sua esposa". Se um alemão bate em sua mulher, estão estabelecidas as condições para o divórcio e para a punição do marido. Muçulmano pode bater à vontade.

Costumo afirmar que quando em um Estado há duas ou mais legislações, então há dois ou mais Estados. Falei em “tendência cada vez mais em moda em nossos dias”. Me corrijo. Isto não vem de nossos dias. Há dois mil anos, uma seita de fanáticos já tinha a mesma pretensão.

Celso, nobre romano, autor de Discurso Verídico, que foi queimado pela Igreja e do qual só temos notícia pela contestação de Orígenes em Contra Celso, em sua época já acusava os cristãos de rebeldes contra a ordem estabelecida. Se se negavam a participar na vida pública e civil, isto equivalia a estabelecer um Estado dentro do Estado, com normas e costumes próprios, mas distintos aos do Império. Se se contentassem em anunciar um deus novo, isto pouco importava aos romanos. Mais deuses, menos deuses, tanto faz como tanto fez. Ocorre que se empenhavam em denegrir os deuses do país que os acolhia.

Como dizia o Koelet, nada de novo sob o sol.

12 dezembro 2009

Abaixo a história e a geografia!

Janer Cristaldo


Fiz muitas escolhas erradas na vida. Nasci no campo, só fui conhecer cidade aos dez anos, nunca tive mestre que me orientasse. Tive de ser meu próprio mestre e assim sendo cometi não poucos equívocos. Um deles, diria, foi ter feito Filosofia. Filosofia, desculpem-me os filósofos, não passa de palpites. Um pensador diz: o mundo é assim e vai pra lá. Surge um outro e diz: o mundo é assado e vai pra cá. As filosofias, fundamentadas na razão, se derrubam umas às outras e nenhuma é perene. Já a literatura, que com a razão pouco ou nada tem a ver, consegue mais perenidade.

Se leio hoje a República ou o Fédon, de Platão, tenho de dar grandes descontos ao saber da época. Mas A Arte de Amar, de Ovídio, escrito no início da era cristã, conserva hoje todo o frescor dos dias em que foi concebido. “Retira o grão de areia do seio da bela, mesmo que não haja grão algum no seio dela”. Isto é eterno.

Mesmo assim, cometi um outro equívoco, o de ensinar literatura. Literatura não se ensina. Literatura se lê e estamos conversados. Ocorre que, um belo dia, querendo desfrutar de Paris, postulei uma bolsa na França. Pedi a bolsa na área de Letras, área que conhecia bem. E a ganhei. Sem jamais ter pretendido o magistério, acabei fazendo um doutorado em Letras Francesas e Comparadas. Minha pretensão não era ser professor. Mas apenas curtir os vinhos e queijos, a cultura e as mulheres que Paris me oferecia. E assim foi. Voltei com um título na mão (mas não o diploma, já explico) e acabei lecionando literatura por quatro anos na UFSC, o que foi certamente o período mais vazio de minha vida.

Ah, estudei também Direito. Ontem ainda, uma colega de curso me lembrava que hoje comemoram-se quarenta anos de nossa formatura. Horror! Como passam rápido as décadas. Foi outra errância minha. Não direi que Direito seja um curso inútil. Mas não me servia. Pra começar, não suporto usar gravata. Continuando, mais do que usar gravata, detesto chamar alguém de Meritíssimo. Meus diplomas hoje mofam em algum canudo perdido em meus arquivos. Exceto o de Dr. em Letras. Havia tanta burocracia para apanhar o diploma, que acabei por deixá-lo lá por Paris mesmo.

Enfim, o magistério em literatura não foi tão inútil. Naqueles dias, ganhava bem e tive o lazer suficiente para escrever um romance, Ponche Verde, onde escrevi, na voz de um personagem:

"Quarenta anos, pois. Sem filho, sem livro, sem árvore. Bons propósitos os alimentara por quatro décadas, mas de bons propósitos Paris transbordava há séculos e era aquele bordel. Como um bordel também estava sua cabeça quando chegou au bord’elle, la Seine, que agora estaria correndo com tanta mansidão mas sempre debitando toneladas de sangue em seu curso. Agora, vendo seu passado do alto da alto da torre Eiffel, conseguira unificar algumas linhas. No direito buscara a justiça. Não a encontrando lá, fora perguntar à Filosofia. Os pensadores haviam permanecido silentes e tivera de estudar História para entender a Filosofia. Descobria agora que sem a Geografia jamais entenderia a História et le voilà, o erudito, careca e enregelado em meio à avara primavera berlinense, com ar mais abestalhado que aquele orangotango".

Meu personagem – uma hipóstase de mim mesmo – descobrira um pouco tarde que sem conhecer geografia ou história ninguém entende o mundo em que vive. Mas, que sabemos da vida quando temos quinze ou dezesseis anos? Hoje, não leio mais ficções – posso até reler as que mais me tocaram – e só tenho lido ensaios históricos, particularmente sobre religiões.

Assim sendo, é com perplexidade que leio na edição do Le Monde de hoje que, naquela França onde descobri que sem história ou geografia não conseguimos entender o mundo, foi suprimido no secundário o ensino de história e geografia. Diz Luc Chatel, ministro francês da Educação: “Os alunos não farão história em cursos terminais, mas atualmente eles também não fazem francês e não tenho a impressão de que eles sejam iletrados”. É um ministro da Educação que afirma que tanto o estudo da língua vernácula como o de história ou geografia são perfeitamente dispensáveis. Se Lula dissesse isto, seria coerente. Mas ouvir isto da boca de um ministro francês é no mínimo chocante.

Chocante, mas nem tanto incoerente. Estudar história significa tomar conhecimento dos horrores que uma igreja, ainda hoje influente, cometeu na França e na Europa. Dos horrores cometidos pelos revolucionários de 79. Dos horrores cometidos por Napoleão, um dos vultos mais cultuados na história da França. Dos horrores do comunismo, dos quais foram cúmplices boa parte dos intelectuais franceses, a começar pelo stalinista Sartre. Dizia Norodom Sihanouk, príncipe do Camboja: “ os jovens cambojanos, se tivesse de mandá-los estudar no Exterior, mandaria para Moscou. De Paris, eles voltam comunistas.”

Ainda no Le Monde, alguém que se assina como Mika, “simple citoyen”, se pergunta: “Em uma época onde se vê a falta de curiosidade da mais jovem fatia da população, a necessidade de uma identidade nacional, porque atacar esta matéria? A história-geografia é a meu ver uma das matérias-chave da educação. Para começar porque ela é necessária socialmente. Conhecer seu passado, descobrir a formação das civilizações, a criação dos diversos sistemas políticos, é também conhecer a si mesmo, é descobrir como o mundo no qual se vive chegou a ser como é. Que é o comunismo? Que é a república? Que é o conflito israelo-palestino? Aliás, o que é Israel? De onde vem a democracia. E, finalmente, a democracia é o quê?”.

Perguntas incômodas. Ao que tudo indica, ao ministro francês da Educação, estas perguntas não têm importância alguma. É espantoso constatar que, na França de Renan e Voltaire, de Montaigne e Balzac, uma autoridade tome uma atitude que nem os países dominados pelo stalinismo ousaram tomar.

E se na França hoje não mais se estuda história ou geografia, podemos confiar que mais dia menos dia a moda chega até nós.

11 dezembro 2009

Muçulmanos em Malmö

Janer Cristaldo



Comentei, no último post, os problemas gerados pelos muçulmanos na Suécia, que fizeram com que cinco mil suecos abandonassem a cidade de Malmö. O leitor Filipe Liepkan Maranhão me remete a este texto de um blog português:

ASPECTOS DO MOTIM MUÇULMANO EM MALMÖ, SUÉCIA

Os recentes confrontos urbanos ocorridos na cidade sueca de Malmö revestiram-se de uns quantos aspectos assaz significativos e que constituem por si um sinal dos tempos que se avizinham e que há décadas se adivinhavam: as forças da extrema-esquerda incitam a principal e mais aguerrida das minorias étnico-religiosas contra «o sistema».

Durante dias a fio, os jovens muçulmanos atiraram cocktails Molotov e travaram batalhas campais contra a polícia quando as autoridades quiseram fechar uma mesquita, porque o proprietário do espaço onde a mesquita funcionava decidiu, findo o contrato anual com a comunidade islâmica, que o dito espaço seria utilizado para outros fins que não os do culto muçulmano.

É notória a intervenção de anarquistas e antifas no sentido de aoelerar o tumulto...

A comunidade muçulmana, por seu turno, alega que, uma vez que o espaço alugado pela comunidade a determinado proprietário foi usado como mesquita, esse terreno passou a ser considerado como sagrado à luz do Islão, pelo que terá de ser sempre muçulmano.

Isto deve servir para dar uma ideia de como será uma Europa cheia de mesquitas e de centros culturais islâmicos - uma região do mundo com numerosos postos avançados da «nação islâmica», zonas conquistadas pelos muçulmanos que só pela força poderão voltar ao pleno controlo dos Europeus.


(http://gladio.blogspot.com/2008/12/aspectos-do-motim-muulmano-em-malmo.html)

10 dezembro 2009

Islã não merece Europa

Janer Cristaldo


E segue o baile no baile no galpão. A decisão dos suíços de proibir a construção de minaretes em seu território está granjeando simpatias na Europa. Ontem ainda, Nikolas Sarkozy escreveu um longo artigo no Monde, onde se mostra simpático ao resultado do plebiscito no país vizinho. “Em lugar de condenar irremediavelmente o povo suíço, tentemos também compreender o que eles quiseram expressar e o que sentem tantos povos na Europa, inclusive o povo francês".

Isso sem falar que pesquisas de opinião entre as populações da Espanha, Grã-Bretanha, Bélgica, Alemanha e França indicaram que um referendo sobre a proibição de minaretes seria aprovado, assim como ocorreu na Suíça. E provavelmente também na Holanda e países nórdicos, que já começam a sentir as conseqüências de sua tolerância ao Islã. Em Malmö, Suécia, por exemplo, cinco mil habitantes já abandonaram a cidade por não suportar a convivência com árabes.

No Estadão de hoje, em artigo muito em cima do muro, com o título safado França cristã hostiliza 'convidados', Gilles Lapouge comenta o artigo de Sarkozy: “Na França, a votação suíça provocou indignação. A esquerda considerou o resultado detestável, vergonhoso e populista, de uma grosseria suprema. A Frente Nacional, de Jean-Marie Le Pen, pelo contrário, gostaria que a França seguisse o exemplo da Suíça e também lançou uma pequena cruzada contra os minaretes”.

Lapouge está confundindo França com esquerdas francesas. Esqueceu que a França elegeu Sarkozy como presidente, que não pode ser considerado um homem de esquerda. A França abomina árabes e negros. As esquerdas francesas, oriundas do finado marxismo, os adoram. São herdeiras do ódio de Marx à Europa. O Manifesto começa com uma ameaça: “um fantasma ronda a Europa, o fantasma do comunismo”. Hoje, sabemos que foi fantasma. Mas fantasma diligente, produziu cem milhões de mortos no mundo todo. O fantasma fracassou rotundamente. Hoje é ridículo falar em luta de classes. As esquerdas herdeiras do profeta alemão muniram-se hoje de duas novas armas, o aquecimento global e a defesa do imigrante. Mais especificamente, do imigrante árabe. Se não foi possível destruir a Europa jogando trabalhadores contra detentores do capital, ainda há uma chance: destruir a cultura européia defendendo o Islã.

Continua o correspondente perpétuo do Estadão: “E, dessa maneira, Sarkozy retornou a esses "temas fundamentais" que criaram tormentas quando dos seus antigos discursos: a França é uma terra cristã. As outras religiões são "convidadas", e serão acolhidas dignamente, se forem sensatas, reservadas, gentis, não ostensivas”.

Que a França é um país historicamente católico, disto sabemos. Tanto que é considerada “la fille ainée de l’Église”. Que tenha convidado outras religiões a se instalarem no país, disto nunca tive notícias. Ocorre que os imigrantes trazem suas religiões a tiracolo. No caso dos árabes, este contrabando se complica, pois o Islã é uma religião expansionista e intolerante. O muçulmano não aceita as regras do país que o hospeda. Quer impor as suas. Daí o conflito.

Não há religiões “convidadas” na França. País algum convida uma religião. O que há são imigrantes que, se um dia foram convidados – em função da escassez de mão-de-obra no pós-guerra –, hoje são indesejados. Tarik Ramadan afirmava, em artigo que citei na última crônica: “Eles (os suíços) se recusam a reconhecer que o Islã é hoje uma religião suíça e européia”.

Ora, que existam muçulmanos na Europa, isto não se pode negar. Daí que o Islã seja uma religião suíça ou européia vai uma longa distância. O cristianismo, através de Constantino, se instalou na Europa. O mesmo não ocorreu com o islamismo. O cristianismo, por sua vez, se se instalou no continente, viu-se constrangido a abandonar a idéia de Estado teocrático. O único Estado teocrático na Europa hoje é o Vaticano, se é que pode chamar-se de Estado.

O Islã não concebe um Estado laico. Não merece a Europa.

09 dezembro 2009

Tarde piaram os suíços

Janer Cristaldo


Eu chegava em Lisboa, dia 29 do mês passado, quando algo ocorreu na Europa, mais precisamente na Suíça. Cidadãos conclamaram um plebiscito para decidir se seria permitida a ereção de minaretes nas mesquitas construídas para culto dos imigrantes. Dava-se como certo que a maioria da população rejeitaria a proibição. Mesmo assim, analistas temiam que pelo menos 30% da população votasse contra os minaretes, o que azedaria as relações com o universo muçulmano. Aconteceu então o insólito: 57 % dos suíços votaram contra os minaretes.

Preponderou a argumentação do líder político Oskar Freysinger, que denunciou o avanço do Islã na Europa. “Em nome da tolerância, não se deve introduzir a intolerância na Suíça. O pensamento muçulmano não vê o mundo como nós e escapa a todo controle democrático”. Freysinger desmontou os argumentos de adversários desta iniciativa, que temiam medidas de represálias. Os petrodólares permaneceriam na Suíça mesmo se a medida passasse, pois os Estados muçulmanos conhecem bem as vantagens de aplicar no país.

«Se a vida é insuportável para os muçulmanos, eles podem muito bem apanhar suas coisas e voltar aos países de origem», disse um delegado romanche. Um outro evocou a «erradicação do cristianismo» com a construção dos minaretes. Não me parece que a construção de minaretes possa erradicar o cristianismo da Europa. Mas tampouco posso conceber Genebra ou Zurique com minaretes sobrepondo-se às catedrais. Da mesma forma, é de supor-se que os países árabes não admitiriam a proliferação indiscrimanada de catedrais em seus territórios.

Mas o problema não reside nisto. Por um lado, mesquita é o lugar onde o crente reza e ponto final. No Saara argelino, vi mesquitas que sequer tinham paredes ou teto. Eram vazios no deserto. Se os crentes ali rezavam, era lugar de oração. Minarete já é uma ostentação de poder. Sem falar que você tem de agüentar cinco vezes por dia a voz esganiçada – e amplificada - do muezim conclamando os brutos à prece. Verdade que na Suíça esta conclamação não existe. Mas quem diz que quando a Suíça estiver crivada de minaretes, os cabeças-de-toalha não irão exigir o direito à conclamação à prece?

Por outro lado, os muçulmanos não aceitam as regras dos países para os quais migram e querem impor as suas. Suas mesquitas são madrassas, escolas de islamismo e ódio ao Ocidente. Insistem na poligamia, no casamento forçado, na ablação do clitóris, no véu e no feriado às sextas-feiras. Nada tenho contra a poligamia. Mas se um homem pode ter quatro mulheres, por que uma mulher não pode ter quatro homens? E se um imigrante em países ocidentais pode ser legalmente polígamo, por que não pode o cidadão ocidental? Quando existem duas ou mais legislações distintas em um país, não temos mais um país, mas dois ou mais países.

Quanto à ablação do clitóris, se estes animais alimentam medos em relação à mulher, melhor que voltem a seus estreitos universos mentais. Nos dias em que estive em países muçulmanos, aceitei suas regras. Não bebi álcool, não entrei em mesquitas com calçados, tampouco olhei para as mulheres locais, o que é considerado ofensivo. Se eles quiserem viver na Europa, que respeitem as regras do continente que os acolhe.

A decisão dos suíços está tentando países como Dinamarca, Alemanha ou Holanda a pensar no mesmo plebiscito. Que a meu ver é urgente. A França, muito politicamente correta, com complexo de culpa da guerra argelina e já entregue à invasão islâmica, olha com espanto para o país vizinho. O mesmo não pensam Portugal e Espanha, onde « los moros » não gozam de simpatia alguma.

O mesmo não pensa Tarik Ramadan, filho de imigrantes nascido em Genebra, que considera ser o islamismo uma religião européia. Ocorre que não é. Se o cristianismo aclimatou-se à Europa, o mesmo não se pode dizer do Islã. Para Ramadan, a UDC – partido que promoveu o plebiscito - pretendia inicialmente promover uma campanha contra os métodos islâmicos tradicionais para abater animais, mas temeu esbarrar na sensibilidade dos judeus suíços, e se voltou então contra os minaretes, eleitos como alvo mais adequado.

Ramadan sofisma. Não é uma questão de abate de animais o que move os suíços a repelir minaretes. E sim o totalitarismo de uma religião intolerante, que até considera que quem nela não crê deve ser exterminado. O mesmo criam os seguidores da Bíblia, e aí está a Inquisição como prova. Mas o cristianismo civilizou-se pelo menos um pouco e hoje até seus sacerdotes praticam tranquilamente o homossexualismo. No Islã, esta prática continua sendo punida com prisão e morte.

Ramadan continua sofismando:

“Todos os países europeus escolhem símbolos ou temas específicos por meio dos quais os muçulmanos locais são perseguidos. Na França, é o lenço ou a burca; na Alemanha são as mesquitas; na Grã-Bretanha, a violência; na Dinamarca, os quadrinhos; na Holanda, o homossexualismo - e assim por diante. É importante enxergar além desses símbolos e compreender o que está de fato acontecendo na Europa como um todo e na Suíça em particular: enquanto países europeus e seus cidadãos passam por uma crise de identidade real e profunda, a nova visibilidade dos muçulmanos europeus se mostra problemática - e assustadora”.

Nada disso. Muçulmano algum está sendo perseguido. Pelo contrário, gozam de todos as benesses das sociais-democracias européias que os acolhem, de benefícios sociais que jamais teriam em seus países de origem. Mulher alguma é proibida de usar véu ou burka na França. Apenas não pode usar na escola. Como identificar uma aluna de burka ou com véu que lhe cubra o rosto? Na Itália, os muçulmanos chegaram a exigir o uso de véu nos documentos de identidade. Ora, como identicar um rosto com véu?

Se a violência é quinhão dos árabes na Inglaterra – como também em vários países da Europa – pretenderá Ramadan que esta violência seja ignorada? Quem condenou os quadrinhos na Dinamarca? Foram os mulás, que não admitem a reprodução da imagem do profeta. Mas não tiveram a ousadia de condenar as enciclopédias que desde há muito a reproduzem. Quanto ao homossexualismo, façam-me o favor. Em pleno século XXI, não se pode condenar alguém à prisão ou à morte por uma questão de preferência sexual.

Ao proibir minaretes, os suíços estão rejeitando uma visão medieval do mundo e o totalitarismo inerente ao Islã, a uma filosofia de Estados teocráticos. Tarde piaram os suíços. A meu ver, deveriam ter rejeitado há muito até mesmo as mesquitas. Em Estados democráticos, não se pode aceitar filosofias, partidos ou religiões que neguem a democracia.

07 dezembro 2009

Palhaço de CTG traduz Fierro

Janer Cristaldo

Na ilha de Santa Catarina corre uma antiga piada, que já devo ter contado. Qual é o menor circo do mundo? São as bombachas. Só cabe um palhaço dentro. Verdade que os ilhéus não gostam muito dos habitantes do Estado vizinho. Mas não deixam de ter razão. Porque afinal não têm idéia do que seja um gaúcho. Conhecem apenas os palhaços de CTG, que gozam de prebendas no Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore. Gigolôs da gauchidade, criaram do gaúcho uma visão romântica e totalmente falsa. Que rende muito dinheiro e prestígio. Prestígio pelo menos entre gente inculta. Como esta gente é sempre maioria, o prestígio rende até mesmo poder.

De um pobre diabo marginalizado pela sociedade de sua época, fizeram uma espécie de herói, o tal de centauro dos pampas. O gaúcho, para os cetegistas, é um homem todo virtudes. Uma moça já perdeu o título de prenda destes circos por ter engravidado sem casar. Homossexualismo, ni pensar. Covardia, muito menos. O gaúcho, ou é valente ou não é gaúcho. Foge à condição de ser humano. É uma espécie de deus sem jaça, muito mais perfeito que o bíblico Jeová, que afinal era um assassino de mão cheia.

Terá sido esta cultura de “machos” que relegou ao oblívio um dos mais profundos ensaios jamais escrito no Rio Grande do Sul sobre as origens do gaúcho. Falo de Gaúchos e Beduínos, de Manoelito de Ornellas, que vê as raízes deste personagem não nos portugueses que desciam de São Paulo, como pretendem certos intelectuais da universidade, mas no mundo árabe. Ornellas era homossexual. Anátema seja.

Esta idealização do gaúcho tem suas origens em O Gaúcho, ridículo romance de José de Alencar, escritor nordestino do século XIX, que jamais deve ter visto um gaúcho de perto. Não contente em mistificar este personagem que é mais uruguaio e argentino do que brasileiro, Alencar também falseou a imagem dos bugres, em Iracema e Ubirajara. Mesmo assim, é até hoje considerado um dos grandes vultos da literatura nacional. E depois há quem me pergunte porque não morro de amores pela literatura feita neste país.

Um leitor de Uruguaiana me envia artigo de um destes palhaços, publicado há alguns meses na Zero Hora, de Porto Alegre, louvando sua própria tradução de Martín Fierro. Ora, os cetegistas sempre ignoraram solenemente o Martín Fierro. Imitavam as sextilhas de Hernández, faziam uns poemetos que eram um triste arremedo do grande poema latino-americano, mas jamais citavam o poeta argentino.

Sempre houve, entre os donos da cultura no Rio Grande do Sul, uma ojeriza a qualquer coisa que cheirasse ao Plata. Por estas razões, não foi publicado em vida de seu autor o mais autêntico – e certamente o único - romance gaúcho, Memórias do Coronel Falcão, de Aureliano Figueiredo Pinto. “Tem espanholismos”, alegaram os donos da cultura. Como se o gaúcho não fosse produto, antes de mais nada, de uma cultura hispânica. O gaúcho do Rio Grande do Sul é apenas uma extensão – e muito pequena – do gaúcho platino.

Esta cultura cetegista inclusive se apropriou da palavra como gentílico de todo aquele que nasce no Rio Grande do Sul. Como se gaúchos fossem pessoas que nasceram no asfalto e que jamais viram vacas ou cavalos de perto. Que sem jamais ter montado em um cavalo, se locomovem com carros ou motos. Como se gaúchos fossem pessoas que nasceram dançando valsas e comendo chucrute. Ou dançando tarantelas e comendo pizzas.

Falava do palhaço que pretendeu traduzir Fierro. Não vou citar seu nome, não quero poluir meu blog. Mas terei de citar algumas bobagens que escreve.

“Não há gaúcho no Rio Grande do Sul que desconheça Martín Fierro, a saga de José Hernández” – começa o palhaço. Ora, se por gaúcho hoje se entende quem nasce no Rio Grande do Sul – tanto que o turquinho Pedro Simon é chamado pela imprensa de senador gaúcho – podemos afirmar serenamente que a maior parte desta população sedizente gaúcha jamais ouviu falar de Fierro. Já ministrei um curso sobre Fierro na Universidade de Passo Fundo, cidade que se gaba de sua gauchidade, e meus alunos jamais haviam ouvido falar do poema. E há muito professor nas universidades gaúchas que até pode ter ouvido falar de Hernández, mas não consegue continuar o “Aqui me pongo a cantar”. O palhaço cetegista, já na primeira fase de seu artigo, profere uma tremenda bobagem.

Escreve ainda o clown: "Aliás, o nosso Estado está de certa forma intimamente ligado ao poema. Para começar, o poeta iniciou a escrevê-lo quando estava exilado no Brasil, mais precisamente em Santana do Livramento. O próprio sobrenome do herói é abrasileirado – “Fierro” está mais próximo de “ferro” do que de “hierro”... De resto, a escritora argentina Olga Latour de Botas provou em livro que existiu de fato no Uruguai um bandoleiro que teria sido a inspiração de Hernández: chamava-se Martín Fiero... e andava com capangas brasileiros, muito “conectado” com o Rio Grande do Sul..."

Para começar, se o poema está ligado ao Rio Grande do Sul, isto é mero acidente. Perseguido pelas tropas legalistas na Argentina, Hernández buscou asilo do outro lado da Fronteira. Não há mérito algum nosso na criação do poema argentino. E Fierro não é palavra abrasileirada coisa nenhuma. No Diccionario de la Lengua Española, da Real Academia Española, fierro consta como uma variante de hierro: (del lat. Ferrum) Hierro, úsase hoy en América y en algunas partes de España. O “tradutor” que pretende traduzir o poema começa por não saber a origem do sobrenome do personagem. Continua o bruto:

"Martín Fierro não era o herói “sans peur et sans réproche” de um Rolando ou de um Olivério. Ele passa o tempo todo cheio de autocomiseração, acusando todo mundo, embriagando-se e matando e, quando perseguido pela Justiça, sempre põe as culpas na autoridade. Não compreendeu o índio, nem mesmo tendo vivido com eles quando foi rejeitado pelos brancos seus iguais.

"E com certeza tampouco compreendeu o negro, pois matou um sem motivo, e quando trovou com outro sempre destacou que o adversário era negro. Quando muito amenizava o epíteto –negro –, chamando-o de “moreno”.

"Por isso e por outras razões Martín Fierro não é o meu herói predileto. Chora demais, não demonstra arrependimento pelo que fez e sua relação com Cruz é marcada por uma efusão emocional em tudo distante da alma do gaúcho. Como se não bastasse, em nenhum momento sente falta de mulher..."

Ocorre que Hernández não pretendeu criar nenhum herói mítico. Limitou-se a descrever um tipo humano, com suas fraquezas e virtudes, sem nenhum retoque. Hernández era de uma época em que negro era chamado de negro. Ou pretenderia o “tradutor” que, há mais de século, Hernández falasse em afrodescendente? Sempre houve uma certa hostilidade entre negros e brancos na geografia do gaúcho, a tal ponto que, ainda há pouco – e não duvido que até hoje -, nas cidades da Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul, havia bailes de negros e bailes de brancos. Por uma especial deferência dos brancos, os negros podiam dançar uma música, a “valsa dos negros”, no baile dos brancos. Os negros retribuíam na mesma moeda, permitindo aos brancos uma dança. Mas Fierro matou em legítima defesa. Ou pretenderia o “tradutor” que Fierro não defendesse seu pelego?

Estuve un poco imprudente,
Puede ser, yo lo confieso,
Pero el me precipitó,
Porque me cortó primero,
Y a más me cortó la cara,
Que es un asunto muy serio.


Fierro matou um negro como podia ter matador um branco. Aliás, os matou em sua briga com “la polecía”, junto a Cruz. Matou ainda em uma pulpería “un gaucho que hacia alarde de guapo y de peliador”:

Se tiró al suelo; al dentrar
le dió un empellón a un vasco
y me alargó un medio frasco
diciendo: “Beba, cuñao.”
“Por su hermana”, contesté,
“que por la mía no hay cuidao.”


Quantas vezes não morreram maulas na campanha rio-grandense por terem proferido uma palabra que soa a insulto? Tenho casos até em minha familia. O gaúcho não é nenhum ser civilizado, e já ouvi falar de muitos assassinatos por razões passionais. Que, aliás, mesmo no universo urbano eram considerados direito do marido, sob a eufemística alegação de “legítima defesa da honra”. E não foram só estas as mortes de Fierro. No confronto com a policía, quando encontra Cruz, mata vários de seus contendores. É claro que o “tradutor” não fará nenhuma objeção às fanfarronadas de Jayme Caetano Braun, em Bochincho. Afinal, comem no mesmo cocho.

Talvez quem ouça - não creia,
Mas vi brotar no pescoço,
Do índio do berro grosso
Como uma cinta vermelha
E desde o beiço até a orelha
Ficou relampeando o osso!

O índio era um índio touro,
Mas até touro se ajoelha,
Cortado do beiço a orelha


Quanto aos índios, mesmo tendo se refugiado entre eles, Fierro os via como um povo hostil. Buscou refúgio entre eles fugindo da polícia, que o havia recrutado para matá-los.

El que maneja las bolas,
el que sabe echar un pial,
o sentar en un bagual
sin miedo de que lo baje,
entre los mesmos salvajes
no puede pasarlo mal.


É clássica na gauchesca platina a imagem da cativa, a branca raptada pelos índios, vide o soberbo poema de Esteban Echeverria, La Cautiva. E é para defender uma cautiva que Fierro mata um índio.

Era una infeliz mujer
Que estaba de sangre llena,
Y como una Madalena
Lloraba com toda gana;
Conocí que era Cristiana
Y esto me dio mayor pena.

(...)

Toda cubierta de sangre
Aquella infeliz cautiva
Tênia dende abajo arriba
La marca de los lazazos;
Sus trapos echos pedazos
Mostraban la carne viva.

Alzó los ojos al cielo,
En sus lágrimas bañada;
Tenía las manos atadas,
Su tormento estaba claro;
Y me clavó una mirada
Como pidiéndome amparo.

Yo no sé lo que pasó
En mi pecho en ese instante;
Estaba el índio arrogante
Com una cara feroz:
Para entendernos los dos,
La mirada fue bastante.

(...)

En tamaña incertidumbre,
Em trance tan apurado,
No podia por de contado
Escapar-me de outra suerte,
Sino dando al índio muerte
O quedando allí estirado.


Fierro arrisca sua vida para defender uma cativa branca, e o insigne “tradutor” fala de “ranço colonialista, racista, preconceituoso e etnocida que às vezes permeia o belo poema de José Hernández”. Talvez já tenha se acostumado à idéia da moderna antropologia, para a qual é perfeitamente permissível aos selvagens espancar e matar mulheres e crianças. Pelo jeito, já se imbuiu dessa idéia tão encontradiça no Rio Grande do Sul, de que espancar e matar mulheres é perfeitamente legal, digno e justo.

Cabe também lembrar que a prática da degola é uma das mais antigas tradições gaúchas. Escritores e historiadores do Rio Grande do Sul não gostam de tocar no assunto. Erico Verissimo, considerado um grande intérprete da gauchidade – pelo menos para quem não sabe o que é um gaúcho – passou a vol d’oiseaux pelo assunto. Distante da literatura do Erico, e sem falar que jamais me aprofundei em sua obra, perguntei a especialista no assunto onde Verissimo aborda o assunto. Está em O Tempo e o Vento, em Incidente em Antares, em O Resto é Silêncio, e também no conto Os Devaneios do General. Sempre para se referir ao comportamento dos coronéis autoritários ou algo assim.

Quer dizer, o gaúcho que degola é um anjo de candura, a soldo de homens maus. Ora, a prática da degola foi corriqueira entre gaúchos. Segundo o folclorista pendurado nas tetas do Estado, Adão Latorre, a quem se atribui a degola de 300 pica-paus, em Hulha Negra, Bagé, às margens do Rio Negro, não pode ser gaúcho. Verdade que há quem conteste esta versão, dizendo que 300 seriam as baixas totais do inimigo, e apenas 23 “patriotas” teriam sido degolados. Mas não ouvi ninguém contestar a degola de 250 maragatos, pelo pica-pau Cherengue, no Combate do Rio Preto, em represália à degola do Rio Negro.

É óbvio, segundo a ótica do cetegista, que nem Adão Latorre nem Cherengue eram gaúchos. Gaúcho é um santo homem cheio de virtudes. Onde se viu um santo degolar? Com uma diferença. Latorre e Cherengue são personagens históricos e não entes de imaginação, como Fierro.

“Oscilando entre a depressão e o ódio, Martín Fierro é um homem perigoso, bipolar diríamos hoje” – continua o animal. Como se um personagem de mais de século pudesse ser definido por conceitos ianques contemporâneos. Além do mais, não há depressão nem ódio no poema. Fierro canta suas desdichas, que é o que tinha para cantar. E nutre um grande apreço pela humanidade. Quanto ao inimigo... bom, tem de combatê-lo.

Como se um personagem pudesse ser perigoso. Suponho que o sedizente tradutor não goste de ler Homero, afinal na Odisséia Édipo casa com a mãe, comportamento absolutamente condenável num galpão de CTG. Certamente abominará o belíssimo Família de Pascual Duarte, de Camilo José Cela, no qual o personagem-título esfaqueia a própria mãe. Deve odiar Dostoievski, afinal Raskolnikov mata uma velhinha e se arroga o direito ao crime. Shakespeare, ni pensar.

Certamente, detestará ler a Bíblia, onde o bom deus dos judeus e cristãos manda massacrar, arrasar, degolar, destruir cidades, matar tudo que respire. Só o santo homem Moisés mandou degolar três mil judeus. Nem Adão Latorre nem Cherengue ousaram tanto. Em sua estreiteza mental, o “tradutor” pratica, certamente sem saber, um zdanovismo rasteiro, eivado de stalinismo. O gaúcho não é humano, mas um arquétipo do bem. Ora, realismo socialista é coisa dos anos 30, mas parece só agora ter chegado a Porto Alegre.

“Mas o poema Martín Fierro, sim, é o meu poema predileto”. Se o conhecia desde a infância, como declara, porque pensa em traduzi-lo só depois de velho? E, sem ter jamais traduzido sequer uma canção de ninar, como pretende traduzir poesia? Mais ainda, um dos poemas de mais difícil tradução do continente?

O “tradutor” dedica sua tradução a seu filho. “A ele eu dedico este trabalho com a esperança de que ele continue o meu esforço em defesa da cultura gaúcha e o transmita ao meu neto e aos bisnetos que possam vir. Isto é amor”. Ora, se por cultura gaúcha este senhor entende essa cultura farsesca de CTGs, isto nada tem a ver com Hernández.

Fierro é poesia. CTG é palhaçada, parasitismo estatal. Para este clown, Fierro não é gaúcho porque, pelas circunstâncias da vida, teve de matar alguns inimigos. Seria gaúcho se se pendurasse nas tetas do Estado, sustentando seus luxos com a contribuição compulsória de quem paga impostos, se se fantasiasse com uniforme de gaúcho nos fins de semana e freqüentasse esses lucrativos circos que exploram a credulidade de rio-grandenses ignorantes, que sequer têm a idéia do que um dia foi o gaúcho.
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