30 outubro 2009

A falta que faz um Napoleão



Janer Cristaldo



Entre 9 de fevereiro e 9 de março de 1807, Napoleão Bonaparte constituiu na França um sinédrio – conselho judeu de 71 membros – que sucedeu à Assembléia de Notáveis, que tinha por função oficializar as medidas de secularização em matéria de decisões doutrinárias, do ponto de vista da lei judaica. Ao sinédrio e aos notáveis, o imperador fez doze perguntas:

1. É lícito aos judeus casar-se com várias mulheres?
2. O divórcio é permitido pela lei judaica? O divórcio é válido sem que seja pronunciado pelos tribunais e em virtude de leis contrárias ao Código francês?
3. Uma judia pode casar-se com um cristão e uma cristã com um judeu? Ou a lei pretende que os judeus se casem apenas entre eles?
4. Aos olhos dos judeus, os franceses são irmãos ou são estrangeiros?
5. Em um ou outro caso, quais são as relações que a lei judiaprescreve para com os franceses que não são de sua religião?
6. Os judeus nascidos na França e tratados pela lei como cidadãos franceses vêem a França como sua pátria? Sentem a obrigação de defendê-la? Sentem-se obrigados de obedecer às leis e de seguir todas as disposições do Código Civil?
7. Quem nomeia os rabinos?
8. Qual jurisdição de polícia exercem os rabinos entre os judeus? Qual polícia judiciária é exercida entre eles?
9. Estas formas de eleição, esta jurisdição de polícia são desejadas por suas leis ou apenas consagradas pelo uso?
10. Há profissões que são proibidas pela lei dos judeus?
11. A lei dos judeus os proíbe de praticar usura com seus irmãos?
12. Ela proíbe ou permite praticar usura com estrangeiros?

A França vivia então um problema, as queixas permanentes dos departamentos do Leste contra os créditos dos judeus. Napoleão queria saber se os judeus que tinham nacionalidade francesa eram franceses ou estrangeiros que viviam sonhando com as colinas de Sion. É uma boa pergunta a se fazer aos judeus que vivem hoje no Brasil.

Leio no noticiário on line que a Justiça brasileira ordenou ao Ministério da Educação que marque outro dia - que não o sábado - para que 21 alunos de um colégio judaico de São Paulo façam o Enem. A prova está marcada para 5 e 6 de dezembro - sábado e domingo.

O sábado é o shabat, dia em que os judeus descansam. Do pôr do sol da sexta ao pôr do sol do sábado, não trabalham, não dirigem e não escrevem. Mais ainda: não acendem fogões, não ligam computadores, não portam qualquer objeto. Nem mesmo guarda-chuva. Aqui em meu bairro, majoritariamente judeu, quando chove aos sábados, os filhos de Israel, apesar de bem trajados, portam capas de plástico, dessas que se compram a cinco reais nas bancas de jornais.

Vendo que seus alunos perderiam o Enem, o colégio Iavne apresentou a ação judicial. Na primeira instância, a Justiça não viu motivo para mudar a data. O colégio recorreu. E o Tribunal Regional Federal deu razão à escola. O juiz Mairan Maia escreveu que o MEC deveria permitir que a prova fosse resolvida pelos alunos do Iavne "em dia compatível com o exercício da fé". Seria um exame com "o mesmo grau de dificuldade. Ninguém será privado de direitos por motivos de crença religiosa."

Onde estes senhores pensam que estão? Em Israel, onde o shabat é sagrado? Neste Brasil laico, nem mesmo o domingo, dia sagrado para os católicos desde Constantino, é dia em que qualquer atividade seja interditada. Israel é um Estado teocrático e os judeus brasileiros estão querendo impor seus dogmas a um Estado laico. A decisão do juiz Mairan Maia abre portas para que os muçulmanos exijam não fazer vestibular nas sextas-feiras, seu dia sagrado. Mais um pouco, e teremos vestibular em datas diferentes para católicos, judeus e muçulmanos. E também para os seguidores da Igreja Adventista, que descansam nos sábados.

Está faltando um Napoleão nestes trópicos, para bem dividir as águas. Os judeus com cidadania brasileira precisam decidir se respeitam as regras do país onde escolheram viver ou se preferem seguir regras escritas na Judéia há cinco mil anos.

16 outubro 2009

1531: Deus x Correggio

Cliquem nas imagens ao lado para ampliá-las.

Figura 1

- Título: Nossa Senhora de Guadalupe
- Autor: O famosíssimo e eterno Deus Todo-Poderoso, onisciente, onipotente e onipresente, o ser mais perfeito de todo o universo - aliás, sua obra mais célebre.
- Ano da obra: 1531
- Técnica: Pigmentos divinos desconhecidos que simulam tinta terrena desgastada pelo tempo, esmaecida, fosca. O substrato é um tecido com propriedades impressionantes: é fibra de cacto quando observado por criaturas de sotaina, e linho e cânhamo quando observado por criaturas de jaleco.
- Estilo: Jeová, o ser mais perfeito do universo, optou por um estilo tosco-pueril indígena a macaquear o maneirismo pré-barroco europeu. Não quis fazer algo muito surpreendente para não tirar a liberdade das gentes de não acreditar e, assim, valorizar a fé no absurdo, como gostava Tertuliano. O tema é sublime, transcendental. Deus retrata ao mesmo tempo a mãe e a filha.

Figura 2

- Título: Júpiter e Io
- Autor: Correggio, um reles mortal nascido em Reggio Emilia, Itália. Teve apenas uns trinta anos para desenvolver suas habilidades pictóricas.
- Ano da obra: 1531
- Técnica: A ordinária tinta a óleo sobre tela.
- Estilo: Renascentista para uns, maneirista para outros. O tema pagão, de um erotismo repugnante, retrata a absurda fecundação de uma mulher por um deus em forma de nuvem. Como se sabe, mulheres engravidam, no máximo, de deuses em forma de pomba.

14 outubro 2009

Ministro não pode?

A prisão do cineasta Roman Polanski na Suíça, 31 anos após ter admitido ter relações sexuais com uma menina de13 anos nos Estados, acabou sobrando para o atual ministro da Cultura e Comunicação francês, Frédéric Mitterrand - sobrinho do titio -, acusado por declarações feitas em um livro há quatro anos. (Sobrinho do titio, porque François Mitterrand era popularmente conhecido como Tonton, Titio). La Mauvaise Vie, publicado em 2005, no qual Frédèric fala de suas experiências sexuais com rapazes na Tailândia, foi bem aceito pelo público, com cerca de 190 mil exemplares vendidos.

Em um momento de sinceridade inusitada em um homem público, escreveu Frédéric Mitterrand : "Eu paguei por meninos. (...) Evidentemente, eu li o que foi escrito sobre o comércio de meninos aqui. (...) A miséria ambiente, a cafetinagem generalizada, as montanhas de dólares que isso produz quando os meninos não ganham senão migalhas, a droga que faz devastações, as doenças, os detalhes sórdidos de todo este tráfico. Mas isto não me impede de lá voltar. Todos esses rituais de feira de efebos, de mercado de escravos, me excitam enormemente. Não se pode julgar tal espetáculo de um ponto de vista moral, mas isto me agrada além do razoável. A profusão de jovens muito atraentes e ao mesmo tempo disponíveis me põe em um estado de desejo que não tenho mais necessidade de refrear nem de ocultar. O dinheiro e o sexo – estou no centro de meu sistema – aquele que funciona porque sei que não serei recusado".

Mitterrand, diga-se lá o que dele se quiser dizer, bem que merecia o Nobel de honestidade, se tal prêmio existisse. Admitiu fazer o que milhares de franceses e tantos outros europeus fazem na Tailândia. Seu crime foi tomar a defesa de Roman Polanski. Marine le Pen, na televisão France 2, o acusa de ter descrito – há quatro anos – a forma de que faz turismo sexual e o prazer que tem em pagar meninos tailandeses.

É a nova hipocrisia que toma conta da Europa e mesmo do Brasil. Se as pessoas fazem turismo gastronômico, porque não turismo sexual? Viajamos em busca de prazeres. Se alguém viaja em busca de boa comida, por que não viajar em busca de mulheres? Ou meninos? Ou, neste século XXI, alguém no Ocidente tem algo contra a homossexualidade? Homossexualismo, hoje, só crime em alguns países muçulmanos, onde quase todos os crentes são homossexuais mas não admitem que o sejam.

Mitterrand é acusado pelo porta-voz do Partido Socialista, Benoît Hamon, que considerou chocante este episódio de seu livro : "No momento em que a França se une à Tailândia para lutar contra este flagelo que é o turismo sexual, eis que um ministro do governo explica que ele próprio é um consumidor".

E daí? Não se pode mais viajar em busca de sexo? Nos anos 70, o grande atrativo dos países escandinavos era a oferta sexual. Alguém denunciou Suécia ou Dinamarca por tais chamamentos? Nada disso. A Escandinávia, na época, entronizou as prostitutas na condição de assistentes sociais beneméritas. Porque demonizar a Tailândia?

O argumento é associar homossexualismo à pedofilia. Em que consiste a pedofilia? No caso da denúncia do Partido Socialista, é ter relações com alguém que tenha menos cinco anos que o acusado. É a estúpida filosofia ianque. Relações com adolescentes é mercado reservado para adolescentes. Não se está falando, no caso, de relações com criancinhas. Mas de relações de um homem adulto que faz sexo com meninos de quatorze ou quinze anos. Os franceses parecem esquecer que na vizinha Espanha, a idade de consenso sexual é treze anos.

Ministro de Estado não pode ser consumidor de sexo? Pelo jeito, o que é permissível a cidadãos comuns, não o é a homens públicos. Em meus dias de jovem, quando optei por viver na Suécia, tenho de admitir que fui em busca de sexo. Não era exatamente turismo, era uma opção de vida. E daí? Sou por acaso um criminoso por gostar daquilo que todo mundo gosta?

Considero de uma franqueza extraordinária a confissão de Frédéric Mitterrand. Fugiu à hipocrisia de seu tio, o François, que além de seu passado nazista, manteve vida dupla, tripla ou quádrupla, com suas amantes. Ou mesmo Giscard d’Estaing, que hoje insinua, em uma ficção inusitada, relações com a vaca louca britânica.

Milhares de europeus vão à Tailândia em busca de sexo. Por que um ministro não pode? Fréderic penitencia-se do aspecto turismo sexual e, a meu ver, penitencia-se à toa, já que lei alguma pode, em sã consciência, condenar um turista por relacionar-se com pessoas dos países que visita. Quanto ao aspecto pedofilia, o “indigitado réu” afirma que falou de rapazes genericamente. Que não se relacionou com nenhuma criança, mas com pessoas adultas. Só o que faltava, em pleno século XXI, em um França que teve como expressão de sua cultura homens como André Gide, Marcel Jouhandeau, Jean Genet, condenar o homossexualismo de alguém. E inclusive Simone de Beauvoir, que nunca se privou do bom esporte com suas discípulas.

Thomas Mann, em Morte em Veneza, cria uma versão masculina da adolescência erótica, com Tadzio. Tadzio tem quatorze anos e espicaça o desejo do senil Aschenbach. O barão Wilhelm von Gloeden, em Taormina, fotografa adolescentes nus com um realismo que Visconti jamais ousaria. Segundo as más línguas, a fama dos meninos de von Gloeden teria feito até mesmo Nietzsche rumar à Sicília. A título de ilustração, segue uma rápida mostra dos meninos do fotógrafo alemão: http://tinyurl.com/yjhte3l

Em 1920, Gide publicou Corydon, livro que defende abertamente a legitimidade e dignidade do homossexualismo. Em Os Frutos da Terra, canta abertamente o amor à Nathanael. Alertado certa vez por amigos de que se expunha excessivamente buscando meninos em mictórios públicos, declarou tranqüilamente: “meu Nobel me dá cobertura”. Jouhandeau, em suas obras, nunca escondeu suas preferências por efebos. Genet, que foi expulso do exército por ser flagrado em atos homossexuais, fez a apologia do homossexualismo em Diário de um Ladrão, Nossa Senhora das Flores, Querelle.

No que de dependesse de Benoît Hamon, porta-voz do Partido Socialista, que considerou chocantes as confidências de Mitterrand em seu livro, e de Marine le Pen, que denunciou o ministro, Oscar Wilde seria queimado em efígie por suas relações com o jovem Bosie. Artistas como Clark Gable, Cary Grant, Gary Cooper e até mesmo o insuspeito Humphrey Bogart, deveriam ser jogados ao fogo do Hades. E mesmo divas como Greta Garbo, Marlene Dietrich e Edith Piaf, que não foram indiferentes ao chamado amor sáfico. Que dizer então da poetisa americana Mercedes Acosta, que teve a suprema ventura de participar da cama destas três musas? O Banquete, de Platão, onde vemos as investidas do jovem Alcibíades em cima de Sócrates, deveria ser queimado na Praça da Bastilha.

Bernard-Henri Lévy, no Libération, fala de “uma nova ordem moral que, há quinze dias, parece virar as cabeças que acreditávamos imunizadas contra o moralmente correto tão caro a nossos Pais e Mães do Pudor. (...) A nova Brigada dos costumes vigia. Triste época”.

Triste mesmo. Na arte e no universo dos artistas, pode. O que não pode é no mundo dos políticos e nos preciosos instrumentos de Estado. É espantoso que nesta França de 2009 políticos empunhem bandeiras da Idade Média.

13 outubro 2009

Ciência confirma a Igreja - Nossa Senhora de Coromoto

- Reportagem do mui respeitado jornal Zenit - O Mundo visto de Roma
- Página 8 do jornal venezuelano Versión Final
- Reportagem em Blog isento intitulado 'Ciência Confirma a Igreja'

A mídia mundial agora se ocupa, mais que de qualquer outro assunto, das surpreendentes descobertas na minúscula imagem de Nossa Senhora de Coromoto, padroeira da Venezuela.

A notícia, primeiramente lida em um jornal católico venezuelano confiabilíssimo, que três páginas antes trata Chávez como um grande estadista, elogiando-o por aumentar seu arsenal bélico para se prevenir contra a Colômbia de Uribe, e em blogs católicos daqui e de outros locais da América Latina, causou profunda comoção no mundo científico, a ponto de unir cientistas, que agora consideram a imagem barroco-indígena cucaracha, ótima para filtrar água, uma prova incontestável do sobrenatural.

Os cientistas, que se dedicam por vezes a derrubar teses e modelos consagrados, porque, entre outros motivos, a ciência os premia se provarem que uma verdade científica aceita por centenas de anos não é verdade em todas as situações, ou simplesmente não é verdade, neste caso se renderam desconcertados à pesquisa encomendada pelo clero venezuelano, sabidamente o clero mais cético da região mais cética do mundo.

O Papa da ciência, o único com autoridade concedida pelo Sumo-Cientista para definir o que é certo e o que é errado no mundo científico, exigiu dos cientistas da Itália, China, Japão, dos EUA, que se unissem e desistissem de quaisquer contra-provas. Decretou que estão proibidas novas análises e o cientista que discordar será excomungado da comunidade científica, instituição tão infalível que se disser que algo inexplicado é inexplicável, é porque não dá para explicar mesmo. Se não é explicado hoje, não o será jamais.

Os olhos da imagenzita tosca - como tudo que é do período rococó e indígena - são borrados e disformes, mas quando os ampliamos nos deparamos com olhos perfeitos, fotográficos (ao lado, imagem retirada do jornal venezuelano), com reflexo de cílios, iris perfeita e uma silhueta de alguma coisa que só pode ser um índio a querer agarrar à força a Mãe de Deus.

A imagenzinha do bugre está contida na pupila, bem definida como um desenho feito no PaintBrush. E algo que não aparece nas reportagens, uma injustiça: essa mesma Nossa Senhora de Coromoto chorou óleo perfumado em 2003. Gosta mesmo de agradar cucarachos!

Impressionante, deveras, mas nada comparável ao índio perfeito visto nos olhos da Virgem de Guadalupe, imperatriz das Américas.

Não é fruto da imaginação daqueles que procuram imagens em vidraças manchadas. É evidente que é um índio. E há também um unicórnio na pálpebra e uma revoada de corvos no supercílio. Observem a imagem abaixo.


01 outubro 2009

Melhor estivesse no Madame Tussauds

Trecho do PowerPoint que recebi sobre o corpo de Bernadette Soubirous:

"(…) …tantos anos depois de sua morte, por seu corpo corre ainda sangue líquido. É algo Sobrenatural e todo o sobrenatural é obra de DEUS. O caso é que a Igreja decidiu pô-la numa urna de cristal em Lourdes, para a veneração de todos os que ali acodem. Hoje, Santa Bernadette teria 165 anos de idade."

Todo sobrenatural é obra de um deus? E por que não de um ET brincalhão? Ou por que não de Pierre Imans, o designer de manequins que reconstruiu o rosto e mãos de Bernadette com cera a pedido da Igreja, para os fiéis não ficarem chocados?

Foram necessárias fotografias para ele chegar às feições porque, embora o cadáver estivesse meio preservado por sais de cálcio(?), o rosto estava escuro, desfigurado, os olhos afundados, estava sem a ponta do nariz, trechos do corpo sem pele. Basta ver as fotos de Bernadette para entender que o artista que se celebrizou pelos manequins de loja deu de presente ao cadáver da camponesa uma rinoplastia para aproximá-la do ideal estético greco-romano, pagão, como toda iconografia católica.

Para vermos bonecos que pareçam vivos basta ir ao Madame Tussauds, aquele famoso museu de cera. Pelo menos não vêm recheados com um cadáver. E figuras como Shakespeare, que lá também parecem vivas, foram muito mais importantes para a humanidade do que uma camponesa que afirmou que a mãe de Jesus, a quem é dado um tratamento meio de segunda classe a partir dos trinta anos do filho - este nem se digna a lhe receber durante uma pregação, quando ela manifesta esse desejo -, nasceu sem herdar o pecadilho de Adão e Eva. Parece coisa de São Tomás de Aquino, o Doctor Angelicus, que sabia até o número de penas que um anjo tinha. As coisas passam a ser ou a não ser de acordo com pronunciamentos papais, de teólogos e de santinhos.

Esse culto à morte, essa fixação necrófila com glotes, cabeças, dedos, esse circo de horrores católico, é grotesco. Exumaram recentemente os restos de Joana D'Arc, perante os quais tantos se ajoelharam e obtiveram milagretes e curas, e acharam um fêmur de gato, uma costela humana e um trapo de múmia egípcia com uns 2500 anos de idade. Como bem disse Carlos Esperança, "O carbono 14 faz pior às relíquias católicas do que o CO2 ao aquecimento global". E, por séculos, diversos sagrados prepúcios de Cristo (circuncidado, como bom judeu) estiveram espalhados por igrejas italianas, e foram sumindo um a um, até o último ser roubado em 1983, após uma procissão com centenas de devotos católicos. O Sagrado Prepúcio era bom para fazer mulheres estéreis engravidar. É para rir!

Para um ser omni-tudo, o milagre do corpo incorrupto de Bernadette Soubirous foi tão mal feito, tão pela metade, que foi preciso um artista de bonecos para não deixar o resultado repulsivo. Da próxima vez que se invoque Zeus, Odin, Baal. Quem sabe o cadáver não ficará mais bonitinho, como o da Santa Evita Perón?

"por seu corpo corre ainda sangue líquido" - Mentiras "bem intencionadas", para variar...

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Voltando à Joana D'Arc

Por que o deus dos católicos os curaria por se ajoelharem perante um trapo de múmia, um fêmur de gato e uma costela humana que teriam pertencido a uma santa que matou cristãos ingleses em nome de Jesus sob as ordens do próprio criador do universo transmitidas por anjos?

O seu deus estaria endossando milhares de coisas apenas no simples ato de atender alguém que pede uma graça ajoelhado perante as relíquias de Joana D'Arc; desde a completa inutilidade de uma relíquia ser verdadeira - imaginem que tipo de relíquia apareceria por aí - até o assassínio em nome de um deus.

Há, claro, a hipocrisia da Igreja que não coloca a mão no fogo pela autenticidade das relíquias mas às vezes reluta em submetê-las à análise de cientistas, reconhece sua falsidade mas não as retira dos altares ou tenta inibir que fiéis façam promessas perante elas. A própria Catholic Encyclopedia diz, no site, que muitas relíquias são comprovadamente falsas mas como o povo, por tradição, está acostumado a venerá-las, a coisa é, digamos, tolerada.

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San Genaro

O Catholic Encyclopedia não diz que o "milagre" de San Genaro é falso. Diz, contudo, que a mesma liquefação tem lugar em várias outras relíquias nas vizinhanças de Nápoles ou em relíquias Itália afora trazidas dessa cidade. Acontece o mesmo com o suposto sangue de João Batista, de Santo Estevão, São Pantaleão, Santa Patrícia, São Nicolau de Tolentino, São Luis Gonzaga e muitos outros. O site cita um ou outro como "probably a pure fiction".

Pois bem... O mesmo patrão da Catholic Encyclopedia é o patrão das igrejinhas ao redor de Nápoles que também fazem seus milagres de liquefação. O patrão sabe mas deixa o rebanho crédulo lá estupefato perante a "ficção" porque, afinal, é tradição...
Só por isso?

Folha publica deputado comunista e mentiroso

Janer Cristaldo


O deputado federal Aldo Rebelo (PC do B-SP), presidente do Grupo Parlamentar Brasil-China, ex-presidente da Câmara dos Deputados e ex-ministro da Secretaria de Coordenação Política e Assuntos Institucionais, celebrou ontem na Folha de São Paulo os 60 anos da revolução chinesa, que estão sendo comemorados hoje na China.

Segundo o velho comunista, a revolução “mudou a história dessa grande nação asiática e influencia de forma decisiva as estratégias geopolíticas e econômicas da atualidade. Hoje, a contribuição da China para o crescimento mundial é superior à dos EUA e sua economia é considerada mais aberta que a do Japão pelos padrões internacionais. E, se podemos dizer que a China de economia agrária corresponde a um país de passado remoto, vale dizer também que a China dos produtos de baixo valor agregado já pertence ao passado recente, uma vez que se amplia a presença de mercadorias de alta tecnologia na pauta de exportações chinesas”.

E prossegue: “O que chama a atenção na revolução chinesa de 1949 é o fato de a construção da nova China ter se dado sobre base econômica extremamente atrasada, o que tornou desafios e conquistas ainda mais surpreendentes. Nos anos que precederam a conquista do poder pelo Partido Comunista, a atividade industrial moderna representava 10% da produção nacional, contra 90% da agricultura e da indústria artesanal. Era uma base "pobre e inexpressiva", como costumam definir os próprios chineses. A reforma agrária posta em marcha pelo governo revolucionário golpeou a estrutura feudal e dos senhores da guerra e liberou a força produtiva de 300 milhões de camponeses, que puderam ter acesso à terra e dedicar-se com entusiasmo à produção”.

Não bastasse isto, continua: “O Estado aboliu oficialmente atividades consideradas degradantes, como a dos eunucos e a das concubinas, e desenvolveu campanha contra o comércio e o uso do ópio. Em 1952, a produção industrial chinesa já havia aumentado 77,6% em relação a 1949, ano da revolução. Os salários dos trabalhadores tiveram ganho de 70%, e a renda dos agricultores, um aumento de 30% em relação ao período anterior”.

Só esqueceu um pequeno detalhe. O Livro Negro do Comunismo debita a Mao 65 milhões de cadáveres em tempos de paz. Em Mao, a História Desconhecida, de Jung Chang e Jon Halliday, os autores falam em 70 milhões. 65 ou 70, não se tem notícia na História de homem que, sozinho, tenha matado tanto. Entre 58 e 61, no Grande Salto para a Frente, 28 milhões de chineses morreram de fome. Segundo Jung Chang, foi a maior epidemia de fome do século XX - e de toda história registrada da humanidade. A China produzia carne e grãos, mas Mao exportava estes produtos para a União Soviética, em troca de armas e tecnologia nuclear. Segundo o Grande Timoneiro, como era chamado Mao, as pessoas "não estavam sem comida o ano todo - apenas seis ou quatro meses".

Aldo Rebelo é uma flor de eufemismos quando fala do Grande Salto: “A partir daí, a China conheceu uma fase de turbulências marcada por dois movimentos: o primeiro, o Grande Salto à Frente, de caráter voluntarista, buscava alcançar resultados econômicos acima das possibilidades reais e das condições do país. A economia chinesa declinou rapidamente por três anos consecutivos, e o povo viu-se ante grandes dificuldades”. Como militante comunista, informações não lhe hão de faltar. Omitiu acintosamente os 28 milhões de chineses que morreram de fome durante o Grande Salto.

Para Mao, morrer fazia parte da vida. Era preciso que as pessoas partissem para dar lugar às que chegavam. Claro que jamais lhe ocorreu perguntar se alguma pessoa aceita partir antes do devido tempo. "Vamos considerar quantas pessoas morreriam se irrompesse uma guerra - diz Mao -. Há 2,7 bilhões de pessoas no mundo. Um terço poderia se perder; ou um pouco mais, poderia ser a metade. Eu digo que, levando em conta a situação extrema, metade morre, metade fica viva, mas o imperialismo seria arrasado e o mundo inteiro se tornaria socialista."

A partir de 1953, foi imposto o confisco em todo o país, a fim de extrair mais alimentos para financiar o Programa de Superpotência. A estratégia era simples: deixar para a população apenas o suficiente para que permanecesse viva e tomar todo o resto. Segundo Chang, Mao via vantagem práticas nas mortes em massa. "As mortes trazem benefícios", disse em 1958. "Elas podem fertilizar o solo". Os camponeses receberam ordens para plantar sobre os túmulos. Usar luto foi proibido e até mesmo derramar lágrimas, pois segundo Mao a morte deveria ser celebrada.

O homem que brilha sobre o Leste – este é o significado de Tse Tung - não se contentou em matar e torturar. Procurou também humilhar a inteligência. Em 1966, durante o Grande Expurgo, fez arrastar e maltratar professores e funcionários da universidade de Pequim diante da multidão. "Seus rostos foram pintados de preto e puseram chapéus de burros em suas cabeças. Forçaram-nos a ajoelhar-se, alguns foram espancados e as mulheres foram sexualmente molestadas. Episódios semelhantes se repetiram em toda a China, provocando uma cascata de suicídios."

Os Guardas Vermelhos invadiram casas onde queimaram livros, cortaram pinturas, pisotearam discos e instrumentos musicais - conta-nos Yung Chang - destruindo tudo em geral que tivesse a ver com cultura. Confiscaram objetos valiosos e espancaram seus donos. Ataques sangrentos a residências varreram a China, fato que o Diário do Povo saudou como "simplesmente esplêndido". Muitos dos que sofreram os ataques foram torturados até a morte em seus lares. Alguns foram levados para câmaras de tortura improvisadas em antigos cinemas, teatros e estádios. Guardas Vermelhos vagando pelas ruas, fogueiras de destruição e gritos das vítimas: esses eram os sons e as cenas das noites do verão de 1966.

Que um tirano mate, isto nada tem de original. Faz parte de sua estratégia para manter-se no poder. O que mais me causa espécie em Mao foi um episódio de seu regime que bem demonstra a insanidade de homens que se atribuem poderes absolutos. Sigo ainda o relato de Yung Chang. "Um dia, Mao teve a brilhante idéia de que uma boa maneira de manter os alimentos seguros era se livrar dos pardais, pois eles comiam grãos. Então designou esses passarinhos como uma das Quatro Pragas que deveriam ser eliminadas, junto com ratos, mosquitos e moscas, e mobilizou toda a população para sacudir paus e vassouras e fazer uma algazarra gigantesca, a fim de assustar os pardais e impedi-los de pousar, de tal modo que eles cairiam de fadiga, seriam capturados e mortos pelas multidões".

Vi certa vez um documentário sobre esta insânia. Milhares de chineses perseguiam pardais por ruas, árvores e telhados, businando, batendo latas e tambores. Que Mao matasse, até que se entende. O mais difícil de entender é ver um líder levando milhões de chineses a matar pássaros... no grito. O problema é que estes pássaros, além de comer grãos, eliminavam muitas pragas, "e não é preciso dizer que muitas outras aves morreram na farra da matança. Pragas que eram mantidas sob controle pelos pardais e outros pássaros floresceram, com resultados catastróficos. Os argumentos dos cientistas de que o equilíbrio ecológico seria afetado foram ignorados".

Resultado da Grande Matança de Pardais: o governo chinês acabou pedindo, em nome do internacionalismo socialista, que os russos enviassem 200 mil pardais do leste da União Soviética assim que possível. E durante anos houve quem cultuasse no mundo todo - e principalmente entre nós - como salvador da humanidade, este assassino ridículo.

A Folha de São Paulo – jornal onde gostei de trabalhar – já não é mais o que era. Além de dar colunas a um senador corrupto, a um deputado corrupto e a um jornalista bolsa-ditadura, publicou ontem esta excrescência de um deputado comunista e mentiroso.

O que não deixa de ser uma redundância. Ou alguém conhece algum comunista que não seja mentiroso?
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