24 setembro 2009

O Centro da Bíblia

A maioria de meus amigos e parentes é católica. Pois bem, recebi um e-mail de um católico apostólico romano praticante com o qual travo discussões amenas sobre religião que não raro terminam num “cada um com sua fé ou não-fé” ou em um “há mais mistérios entre os céus e a terra do que pressupõe a vossa vã filosofia”. Se Hamlet, aquele homicida alienado e vingativo que palestrava com a alma penada do pai, cria nisso, quem sou eu para discordar? Não há Raios Gama, UVA, UVB, fótons, ondas eletromagnéticas, entre o céu e a terra?

Vejamos o e-mail perturbador que quase abalou minha não-fé, um PowerPoint com imagens de pôr-do-sol e música singela com piano:

-----------------------------

- Qual é o capítulo mais curto da Bíblia? Salmo 117;
- Qual o capítulo mais comprido da Bíblia? Salmo 119;
- Qual o capítulo que está no centro da Bíblia? Salmo 118;
- Há 594 capítulos antes do Salmo 118. Há 594 capítulos depois do Salmo 118. Se somar estes dois números totalizam 1188;
- Qual é o versículo que está no centro da Bíblia? Salmo 118:8. Este versículo diz algo importante sobre a perfeita vontade de Deus para nossas vidas. A próxima vez que alguém te disser que deseja conhecer a vontade de Deus para sua vida e que deseja estar no centro da Sua Vontade, indique a ele o centro de Sua Palavra, Salmo 118:8 - "Melhor é colocar sua confiança no Senhor teu Deus que confiar nos homens".

Agora, diga, seria isto apenas uma casualidade?
DEUS TE ABENÇÕE HOJE E SEMPRE!

-----------------------------

Se essa inconcebível proeza matemática, essas contas decimais, cabalísticas, são um sinal divino, então, católicos, urge que se convertam ao protestantismo o quanto antes.

Em um site de estatísticas bíblicas onde se fala em 1189 capítulos, não se vê Tobias, Judite, Macabeus e outros livros da bíblia católica. Logo, no Calhamaço de Embustes que meu amigo considera ser o livro verdadeiro, aquele do qual não se pode tirar nem acrescentar uma única vírgula, não há esse "easter egg" divino.

Em compensação, há uma mensagem muito mais interessante, possivelmente escondida pelo próprio Coisa Ruim.

Centro da Bíblia Católica:

Temos 1074 capítulos no Velho Testamento. http://catholic-resources.org/Bible/OT-Statistics-NAB.htm

E 260 capítulos no Novo Testamento. http://catholic-resources.org/Bible/NT-Statistics-Greek.htm

E atenção (rufar de tambores).... o número é par, 1334! Logo, o capítulo que está bem no meio da bíblia católica, bem no meiozinho, é o nada.

Sejamos benévolos e consideremos o centro os dois capítulos que ficam ao lado desse capítulo inexistente. Cheguei, com duas contas simples (acessem o primeiro link), a I Macabeus, capítulos 4 e 5! Temos exatamente 666 capítulos antes, a partir do Gênesis, e 666 capítulos depois, até o Apocalipse.

O número da besta, ho ho ho!

Para quem gosta de ver provas do metafísico em números, simetrias, coincidências e acontecimentos pouco comuns, pouco prováveis, isto deve ser um prato cheio! Devemos reconhecer que o acaso favorece mais os protestantes do que os católicos, mas como estes estão sempre corretos e os primeiros são hereges, tudo não passa de uma coincidenciazinha e não devemos ser supersticiosos, claro! Ratio divinus est!

Destaquei os trechos mais edificantes do Centro da Bíblia Católica! Um deleite espiritual!

I Macabeus, 4

(...)
10. Gritemos agora para o céu para que ele se apiade de nós, que se lembre da Aliança com nossos antepassados e queira hoje esmagar esse exército aos nossos olhos.
(...)
14. Travou-se a batalha, mas os inimigos, derrotados, puseram-se em fuga através da planície.
15. Os últimos tombaram todos sob a espada, enquanto eram perseguidos até Gazara e as planícies de Iduméia, de Azot e de Jânia. E sucumbiram cerca de três mil.
(...)
23. Judas voltou para pilhar o acampamento, e seus homens apoderaram-se de muito ouro, prata, jacinto, púrpura marinha, e de grandes riquezas.
24. Ao voltarem, cantavam hinos e elevavam ao céu os louvores do Senhor, porque ele é bom e sua misericórdia é eterna.
...)
30. Tendo ante os olhos esse poderoso exército, rezou nestes termos: Sede bendito, Salvador de Israel, vós que quebrastes a força do poderoso pela mão do vosso servo Davi e entregastes os exércitos estrangeiros nas mãos de Jônatas e do seu escudeiro.
31. Entregai esse exército ao poder do povo de Israel e confundi nossos inimigos com suas tropas e sua cavalaria.
32. Inspirai-lhes o terror, fazei derreter seu orgulho audaz. Que eles sejam sacudidos e pisados.
33. Derribai-os sob a espada dos que vos amam e que todos aqueles que conhecem vosso nome cantem vossos louvores.
34. Travou-se então o combate, e do exército de Lísias tombaram cinco mil homens, que sucumbiram diante deles.
(...)
36. Judas e seus irmãos disseram então: Eis que nossos inimigos estão aniquilados; subamos agora a purificar e consagrar de novo os lugares santos.


I Macabeus, 5

(...)
3. Por eles perseguirem desse modo Israel, Judas atacou os filhos de Esaú na Iduméia, junto de Acrabatan, infligiu-lhes uma grande derrota, esmagou-os e apoderou-se de seus despojos.
(...)
5. Foram rechaçados em suas torres, onde ele os sitiou e os exterminou, queimando as torres com todos os que ali se achavam.
6. Em seguida atacou os amonitas, entre os quais ele descobriu um forte exército e numeroso povo, sob a chefia de Timóteo.
7. Travou com eles numerosos combates; foram aniquilados aos seus olhos e despedaçou-os.
8. Apoderou-se da cidade de Jazer e de seus arrabaldes e voltou depois à Judéia.
(...)
28. Judas mudou de caminho e atravessou o deserto para alcançar Bosor de improviso. Tomou a cidade, mandou passar a fio de espada todos os homens, apoderou-se dos espólios e incendiou a cidade.
29. Na mesma noite partiu e atacou a fortaleza.
(...)
68. Judas voltou para Azot, na terra dos estrangeiros, derrubou seus altares, queimou seus ídolos, sujeitou suas cidades à pilhagem e em seguida voltou para a terra de Judá.


LINDO!

18 setembro 2009

Desde o fundo do poço a uma vida plena de graça

Janer Cristaldo


Senhor pastor:

Houve época em que cri em um deus onipotente e salvador e muitas vezes a ele orei por minha salvação, pela salvação de meus próximos e mesmo da humanidade. Foram meus dias de adolescência, pastor. Justo naqueles dias, fui assaltado pelo clamor, não dos povos – como fala o Livro – mas pelo clamor da carne, clamor tirano, imperioso e impossível de ser domado. Por melhores propósitos que fizesse, acabava dominado pelos ditos prazeres da carne. Dizem que a carne é fraca, pastor. Nada disso, a carne é forte. Fraco é o espírito, que sempre acaba cedendo à carne.

Entrava em pânico, via à minha frente as chamas eternas do Hades, onde tudo é choro e ranger de dentes. Me sentia condenado ao convívio com demônios. Arrependia-me, fazia atos de contrição, confessava meus pecados a sacerdotes e recebia a absolvição. Por um dia ou dois, conseguia viver sem pavores. Mas não mais que um dia ou dois. No terceiro, eu já estava pecando de novo. As noites de tempestade eram noites de pavor. Talvez fosse megalomania. Mas cada raio que caía, eu sentia que era dirigido a mim.

Eu era pobre, pastor. Filho de camponeses, nunca tive facilidades em minha infância. Muito menos na adolescência. Fiz minhas universidades mal tendo dinheiro para o restaurante universitário. Vivi em repúblicas abomináveis, pequenos apartamentos, sem grana suficiente para tomar um vinho decente. A bebida mais ao alcance de minha boca era a mais barata, a cachaça. Ainda adolescente, tomei grandes porres de cachaça. Naqueles dias de pouca grana, bebia muito e bebia mal. Em minha juventude, pastor, eu estava no fundo do poço. O senhor Jesuis era um encosto em minha vida, despacho de catimbó feito a Exu, praga rogada por urubu para infernar meus dias.

Foi quando então, pastor, durante três dias e três noites, li atentamente a Bíblia. Foram dias em que quase não comi. À noite, pegava um cavalo em pêlo, sem freio nem buçal, e saía a galopar nas madrugadas, olhando o céu estrelado e esperando ouvir daquele universo magnífico alguma resposta. Não ouvi nada, pastor. Foram três dias e três noites decisivas em minha vida. A partir da leitura do Livro, tornei-me ateu. Aquele deus proposto pelas Escrituras, que se pretendia criador daquele firmamento esplêndido e cravejado de estrelas, que só vemos na pampa ou no deserto, sempre longe das cidades, não me convencia. Aquele deus matava e exterminava, mandava matar e exterminar. Não me servia.

Disse então a mim mesmo: sai de mim, Coisa Ruim! Me larga, ó Espírito Castrador, sai de minha vida, ó Supremo Estraga-prazeres! Desapareçam de minha vida vocês três, o Pai, o Filho e o Paráclito. E a Mãe também, antes que me esqueça. E todos os santos do céu e todos os padres de todas as igrejas. Xô, Espírito Imundo, xô, Assassino de Povos. Ouste, Pai das Doenças e Exterminador de Nações. Rua de minha alma, ó velho Deus castrado!

Então, pastor, tudo mudou em minha vida. Saí do fundo do poço, rumo à luz do bocal. Mulheres começaram a cair-me dos céus, justo daqueles céus mudos aos quais eu pedia perdão por meus pecados. Como perdera a noção de pecado, nunca mais pequei. Tornei-me um santo homem e procurei imitar os bíblicos patriarcas. Curti plenamente os prazeres que tanto apraziam ao rei Davi, ao rei Salomão, à Sulamita. Verdade que nunca consegui sustentar setecentas mulheres e trezentas concubinas. Mas fiz o que estava a meu modesto alcance.

Por mais de quarenta anos, as mulheres me caíram nos braços como o maná caiu do alto por quarenta anos para saciar a fome do Povo Eleito. Comecei minha vida afetiva com duas, às quais muito amei. Por circunstâncias dos dias, perdi uma. Vivi quatro décadas de muito carinho e cumplicidades com a segunda. Fui feliz em meu casamento. Divórcios, separações, o espírito do ciúmes, amargura, traições, nunca rondaram minha existência.

Quando minha amada partiu, não acusei deus algum, afinal não acreditava em nenhum. Estas duas primeiras amadas logo se multiplicaram por dois, cinco, dez, vinte, cinqüenta. Não saberia dizer quantas, nunca contei. Mas digamos que a metade da “listina” de Leporello. Corri atrás delas com a hybris de um fauno grego, para compensar os dias de vacas magras e sem leite de minha juventude. Após deixar de crer no tal de deus, minha vida foi uma profusão de prazeres. Corri nu atrás de valquírias nuas pelos bosques de Estocolmo, em plena luz da meia-noite. Isto, pastor, teu deus não confere aos mortais, exceto se forem majestades apaniguadas pelo Senhor. Isto é ventura só concedida pelos deuses lúbricos do Valhala. Tack tack, Odin!

Uma vez descrente, apesar de pobre consegui educar-me. Fiz duas faculdades, três pós-graduações no Exterior, viajei por todos os países da Europa, por mais alguns do Leste europeu, pela África, Estados Unidos, Canadá e América Latina. Nasci nos peraus do Upamaruty, em um rancho de pau-a-pique e fiz doutorado em Paris. Consegui escapar de meu pequeno mundinho e sai a navegar pela vastidão do anecúmeno. Au bord’elle, la Seine, conheci uma peoniana adorável, a quem dediquei minha tese. Havia também Úrsula, uma polonesa, que me sussurrava: “mon ours tropical”. Música para meus ouvidos.

Não cheguei a amar a filha de Faraó, muito menos moabitas, amonitas, edomitas, sidônias e hetéias, como o sábio rei Salomão. Mas tive namoradas lindas em várias cidades do mundo. Desde suecas a francesas. Desde macedônias até mesmo a turcomenas e usbeques, passando por polonesas e russas. Adorei a turcomena. Era de Achkhabad, palavra que soava deliciosamente à minha fome de exotismo. Uma vez ateu, fascinou-me a idéia de ouvir mulheres gemendo em línguas que desconheço. E as ouvi. Paris sempre foi pródiga em estrangeiras de todos azimutes e não recusei o que a cidade generosamente me oferecia. Tive do bom e do melhor, como dizem suas ovelhas, senhor pastor. Mas só depois que deixei de crer.

Ateu, fui abençoado com dinheiro e vida confortável. De camponês tosco, tive acesso a línguas, à filosofia, à literatura, à música erudita, a óperas, em suma, ao dito mundo da cultura. De Teixeirinha passei a Mozart, de Luiz Gonzaga a Bizet. Abandonei a cachaça e passei a cultivar bons vinhos e bons uísques. Do mondongo fui promovido ao foie gras, do arroz com feijão às andouilletes. Curti a boa gastronomia da Espanha, França, Itália, Alemanha, Portugal. Percorri as cidades mais esplendorosas do Ocidente. Vivi em três prestigiosas capitais da Europa e em quatro grandes capitais de meu país.

Perambulei por paisagens magníficas, que me fizeram chorar. A beleza extrema sempre me provoca lágrimas. Andei pelo deserto, por oueds, montanhas, dunas, fjords, rias e ventisqueros. Chorei nos Andes, chorei nos Alpes, chorei no Saara, chorei nas costas da Noruega, chorei no Estreito de Magalhães. Chorei também em Santorini. De Madri, saí chorando. Eu estava em uma bodega, tudo era cores, dança, música, canções, madriles lindas, muito vinho, odores de assado bom, os sons rascantes de uma língua que adoro.

Quando me dei conta que, dali a duas horas, estaria voltando ao Brasil, chorei como um terneiro desmamado. Fui chorando até o aeroporto. Não porque estivesse voltando ao Brasil. Mas porque estava abandonando a festa. Dentro de pouco eu estaria voando, espremido num assento apertado, rumo a um país sin flamenco ni cante hondo, sin bailaoras ni cantaores, sin cochinillos ni lechales. Na bodega, continuariam todos cantando e dançando, comendo e bebendo. Muito chorei em minha vida, pastor. Raras vezes de tristeza. O mais das vezes, foi por deslumbramento, perplexidade ante a beleza. Felicidade também nos faz chorar. Choro também com certas árias de Nabucco, Carmen, Don Giovanni, Norma.

Depois que abandonei o tal de Deus, senhor pastor, passei a viajar quase todos os anos à Europa. Quando nele acreditava, só conseguia ir de Dom Pedrito a Ponche Verde. Fiz pelo menos cinco travessias divinas do Atlântico – com perdão pelo trocadilho – de navio. Sabe, pastor? Aqueles navios cheios de Emmas Bovarys sedentas para conhecer o mundo e experimentar emoções outras que não as medíocres emoções proporcionadas pelo Charles. Vivi grandes momentos, “ao quente arfar das vibrações marinhas”, como canta o poeta. Fiz cruzeiros também divinos pelo Mediterrâneo, pelo Báltico, pelo mar do Norte e pelo mar Negro, pelo Egeu, pelo Adriático e pelos Canales Fueguinos.

Durante pelo menos uns trinta anos, sempre celebrei a bona-chira nos mais antigos e acolhedores restaurantes da Europa, com minha Baixinha adorada. Agora que ela partiu, ora a celebro com minha filha, ora com alguma namorada. E com meus amigos. Bastou-me abandonar Deus, pastor, e minha vida se tornou repleta de bênçãos, que me caíam dos céus em catadupas.

Fui salvo por minha descrença, pastor. Quando cria em Deus, era um adolescente fodido e sem nenhum vintém. Não tinha nem como convidar uma amiga para um bom jantar. Bastou-me deixar de crer e a vida se tornou linda. Cheguei aos sessenta jovem e cultivando minhas antigas amadas. Não tenho carro, nem nacional nem importado, como ostentam vossos crentes, é verdade. Mas isto é opção minha. Com carro não se vai longe. Ora, eu gosto de ir longe.

Sem ser rico, vivo bem. Não tenho contas em vermelho, nem nome sujo na praça, nem problemas na justiça. Jamais fiz empréstimos. Não sei o que seja um cheque sem fundo. Muito menos problemas familiares. Hoje, minhas únicas dívidas são luz, água e condomínio. Vivo em bairro bom, prédio ótimo, apartamento confortável. Ano passado, regalei uma antiga namorada com uma viagem a Paris, Barcelona e Madri. Com uma noite em Bruxelas, só para curtir um café que adoro.

À minha filha – doravante designada Primeira-Namorada – dei de presente os fjords noruegueses, o sol da meia-noite, Estocolmo e o arquipélago de Estocolmo e de novo Paris. Na próxima primavera européia, estou combinando um giro pela Itália com uma amiga da Finlândia. Neste novembro próximo, partirei com a Primeira Namorada rumo a Madri e às ilhas Canárias. Madri porque não concebo ir a Espanha sem visitar Madri. Ilhas Canárias, porque quero passear entre os vulcões de Lanzarote e comer carnes assadas no calor das lavas.

Por vários anos vivi soterrado no fundo do poço. O senhor Jesuis sempre foi um atraso em minha vida. Tudo só se tornou lindo, divino e maravilhoso quando o abandonei. Sei que o senhor pastor, por questões de fé, não pode gozar dos prazeres que gozei e gozarei ainda.

Seja como for, felicidades, senhor pastor.

16 setembro 2009

Para uma amiga muito querida, que passou a gostar de óperas

Janer Cristaldo


Uma amiga muito querida – que tive a honra de introduzir no mundo da ópera - me pergunta se é possível a qualquer pessoa gostar de ópera ou é um gênero musical exclusivo aos apreciadores de música erudita. Qual o motivo de a ópera ser tão pouco divulgada no Brasil, a ponto de praticamente não existirem CDs e DVDs produzidos aqui? Quais minhas óperas diletas em termos de enredo e música?

Para começar eu diria que o normal seria as pessoas gostarem de música erudita. Anormal, a meu ver, é gostar de bate-estaca. Não considero que se precise conhecer música a fundo para gostar de ópera. Claro que quem conhece música terá melhores condições de curtir o gênero. Eu, para não ir mais longe, aprendi a ler partituras no ginásio. Hoje, não consigo mais lê-las. Nem por isso deixo de me comover até as lágrimas com certas árias. Quando me perguntam se uma ópera foi bem executada, minha resposta é: “não sei”. Não conheço música a ponto de saber se os cantores foram sublimes em suas interpretações. Fico apenas no adorei, gostei ou não gostei. Isso vai depender de outros elementos que não apenas a música, como o libreto, a encenação e inclusive le physique du rôle dos personagens. Uma mulher gorda ou velha pode cantar muito bem Carmen. Daí a representá-la, em carne e osso, vai uma longa distância.

Já contei, mas conto de novo. Foi por aí que adquiri ojeriza à ópera, quando jovem. A soprano pra toda obra, em Porto Alegre, era uma rotunda senhora, a Eny Camargo. Até poderia ser uma aventura intelectual ouvi-la cantar, já não lembro. E não lembro porque havia uma barreira, aquela mulher baixinha, velha e quadrada representando uma cigana jovem, sedutora e sensual. Assim, não há quem possa gostar do gênero. Há alguns anos, comprei uma Carmen com a mezzo-soprano grega Agnes Baltsa. Não dá. Passou da idade. Voz também envelhece. Prova disto, é que você consegue identificar a voz de um velho ao telefone. Em compensação, sou capaz de rever e rever a versão filmada de Francesco Rosi, com Julia Migenes. Vou mais longe: Carmen, se não tiver cara de puta, não convence.

Só fui me reconciliar com o gênero aos trinta anos, em Paris, quando vi uma Carmen divina, toda meneios, dançando chez Lillas Pastia. Ópera podia ser algo lindo, não aquele espetáculo grotesco que eu via na Reitoria da UFRGS, em Porto Alegre. Música erudita é como literatura. Você começa lendo autores como Machado e passa a detestar toda a literatura.

Da mesma forma, um Pavarotti ainda jovem representando Don Giovanni, tudo bem. Seria ridículo se o representasse no final de sua vida, quando chegou a carregar 175 quilos. Me consta que em uma de suas últimas apresentações, teve de ser posto no palco com um guindaste. Suas pernas não agüentavam a subida. Nessas circunstâncias, creio que eu não iria nem ao bar da esquina.

A ópera foi um gênero popular entre os séculos XVII e XIX. Era o cinema da época, onde se encontravam nobres, burgueses e povão. Tanto que os teatros, se tinham camarotes de luxo, também previam coxias populares, para estudantes e gente do povo, que levavam banquinhos ou assistiam o espetáculo em pé. Como ainda hoje. Aliás, participei disto em Viena. Estávamos, eu e a Baixinha, em um café em Viena, justo face a Wiener Staatsoper. Foi quando ela inventou: e se fôssemos à ópera? É só atravessar a rua. A idéia me pareceu utópica. Como conseguir uma entrada na hora numa ópera em Viena? Tentar não custa nada – insistiu a Baixinha. Atravessamos a rua. A obra era O Rapto no Serralho, de Mozart. Ainda havia ingressos. Mas só os reservados para estudantes, no último poleiro e em pé. Preço equivalente a dois dólares, na época. O café que eu acabara de tomar custou-me cinco.

Passei maus bocados na Staatsoper. Todo mundo em smoking e black tie. Eu, com meu humilde parka, fiel companheiro de todas minhas viagens. Pior ainda: fui despido na chapelaria. Meu parka foi intimado a ficar na entrada. Me senti nu. Enfrentei a multidão de pingüins em manga de camisa. Enfim, não iria alugar um smoking para assistir um espetáculo pelo qual paguei dois dólares. Mas que é desconfortável, é.

Na Europa, as casas de ópera ainda insistem no traje a rigor. É hoje um espetáculo para elites. Mas você não será barrado se entrar com jeans e parka. Uma das poucas coisas que gostei em Nova York foi a nonchalance dos freqüentadores do Metropolitan ou da City Opera. Não lembro de ter visto ninguém emperiquitado. De modo geral, traje esportivo e mesmo jeans e tênis.

Ópera é o espetáculo multimídia por excelência, concebido séculos antes mesmo de que se pensasse não digo em multimídia, mas em mídia. Tem tudo: som, imagem, movimento, canto e música, pintura, teatro, literatura e poesia. O libreto de Don Giovanni é de uma poesia extraordinária. O mesmo diga-se de Carmen. A origem do gênero retrocede aos anos 600, quando surge o cantochão da liturgia cristã-católica ocidental. Uma missa cantada sempre tem um pouco de ópera. Eu, ateu, já me comovi com missas na Stephansdom, em Viena, na Notre Dame e na Madeleine em Paris. E já assisti inclusive uma missa gregoriana no mosteiro São Bento, aqui em São Paulo. Nós, ateus, não somos hostis à grande arte. Ainda que religiosa.

Quanto ao fato de ser pouco divulgada no Brasil, isto se deve em parte que estamos irremediavelmente contaminados pelos bárbaros ruídos ianques. Não é que apenas a ópera não seja divulgada no Brasil. A boa música popular européia também não o é. Quem conhece aqui cantores como Evert Taube, Sven-Bertil Taube, Mikis Theodorakis? Ou mesmo este monumento da canção francesa – que em verdade é belga – Jacques Brel? As letras de Brel me enlevam quase tanto quanto os libretos de Da Ponte. Mas se vou procurar em uma loja os CDs de Brel, aqui em São Paulo, só por milagre vou encontrá-los.

Um outro problema no Brasil é que ópera é uma produção cara. É preciso corpos de ópera em constante treinamento e isto não custa pouco. Justo quando se necessitaria de um auxílio estatal, o Estado está ausente. O Estado só se faz presente para financiar mediocridades, tipo os caetanos e gils da vida, a Máfia do Dendê. Na Europa, dado o grande público, a ópera é bem mais difundida.

Mesmo assim, há um certo público no Brasil para a ópera, um tanto restrito mas não muito pequeno. Quando fui ver a Cavalleria Rusticana, no Theatro São Pedro, quase não havia lugares vagos. E isso que foi encenada por uma orquestra, não de Nova York ou Viena, mas de Guarulhos. (Tive a honra, no dia seguinte, de almoçar com Santuzza, isto é, com a soprano Laura de Souza, que conheci em Santa Maria quando ela, menininha, ainda nem sonhava com a brilhante carreira que faria na Europa).

Aqui, quando surge uma ópera de prestígio, o Teatro Municipal lota. Claro que na Europa há um público bem mais amplo. Viena, Salzburg, Paris, Roma, Berlim, Madri são grandes centros operísticos. Nova York também. Daí uma produção maior e mais caprichada. O advento do DVD estimulou muito a produção de óperas. Agora posso ver, no conforto de meu apartamento, óperas de Mozart mais vezes – dezenas, centenas, milhares de vezes mais, se quiser – do que o próprio Mozart conseguiu ver. Em versões que ele nem sonhou.

Minhas óperas prediletas? Já devo ter contado. São três. Carmen, Don Giovanni e A Flauta Mágica. Tenho várias versões destas três. Cada uma é cada uma. A Carmen mais linda que conheço é a de Francesco Rosi. É filme, não ópera filmada. Isto é, a história não se desenrola em um palco, mas em cidades como Sevilha e Ronda, e na montanha. A dança que Carmen dança para seduzir Don José é um dos mais sublimes - e sensuais - momentos da ópera.

Depois, posso pensar em Nabuco (o "Va pensiero" sempre me faz chorar), Aida, Rigoletto, Cosi fan Tutte, Le Nozze di Figaro, La Traviata, L'Elisir d'Amore, Il Barbiere di Siviglia, Il Trovatore, L'Italiana in Algeri. Dica ao leitor: para guiar-se no mundo da ópera, há um dicionário soberbo, o Kobbé. Já está traduzido no Brasil e foi publicado pela Jorge Zahar.

Falar nisso, em novembro próximo, estarei em La Favorita, em Madri. Com a Primeira-Namorada a tiracolo. É um restaurante onde os garçons são estudantes de música e cantam árias durante a ceia. Caso o leitor queira visitá-lo, ainda que virtualmente, le voilà: http://www.youtube.com/watch?v=Ql-o8KRPOSM.

Vale a viagem.

15 setembro 2009

Vivamos, nós que estamos vivos!

Passeei ontem pelo Cemitério da Consolação, em São Paulo. É uma galeria de arte - da mais fina arte - a céu aberto, e era precisamente isso o que eu visitava.

Claro que a dor dos parentes congelada nas estátuas de bronze e mármore sobre criptas de cem, cento e cinquenta anos de idade, torna o passeio abalador no bom sentido, sem falar no inusitado silêncio em um bairro movimentado de São Paulo, na ausência de semoventes fora eu, minha filha e uns passarinhos que pareciam cantar repetidamente "es-que-le-to" (que espécie será?), nos ciprestes romanos que conferem um quê de Porta do Hades ao local, no cheiro de cravo de defunto, na vegetação rasteira que, com paciência, vai tomando conta dos túmulos menos visitados, e sem falar em toda aquela pedra, o material "eterno" escolhido pelas efemérides humanas que têm esperança de também ser eternas...

É mais comovente essa vã esperança traduzida nos túmulos e nas ebúrneas figuras desesperadas do que a própria dor sentida pelos entes que ficaram ou pelo destino dos que partiram, já que, afinal, é o destino de tudo o que vive.

Humano, demasiado humano. Passei a achar cemitérios desse tipo, tradicionais, mais bonitos e inspiradores quando neles vi apenas o seu lado humano - que é o único que há. Nada disso se sente no Campo da Esperança, esta porcaria espartana daqui de Brasília, onde só há cerrado, cruzes toscas, fotos esmaecidas e velas, os três últimos o que de pior pode haver em um cemitério - depois do corpo de um conhecido, claro!

Vivamos - e vivamos bem -, nós que estamos vivos...

11 setembro 2009

Agora os moradores estão protegidos

Correio Braziliense: Moradores do Bloco C da 113 Sul rezam para pedir bênção e segurança
Publicação: 11/09/2009 09:05

A pedido dos moradores do Bloco C da 113 Sul, foi realizada ontem uma bênção no térreo do edifício. O padre Adilson Marques, da Paróquia Nossa Senhora de Guadalupe, localizada na 312 Sul, rezou um Pai-Nosso em homenagem às três vítimas e jogou água-benta nas prumadas do prédio. “Este crime não assustou só os moradores do prédio, mas Brasília inteira. Eles (as vítimas) eram extremamente educados, discretos e ótimos vizinhos.

Esperamos que o caso seja resolvido”, disse uma mulher que preferiu não se identificar. Quinze pessoas compareceram à cerimônia — na estrutura original do edifício, havia 36 apartamentos, mas os Villela reformaram o 601 e o 602 para transformá-los em um imóvel único. Assim, o bloco passou a ter 35 condôminos.

Após a breve celebração, que durou cerca de 20 minutos, os moradores se reuniram para discutir mudanças na segurança do prédio. Na próxima semana, o Bloco C passará a contar com 16 câmeras de segurança, que serão espalhadas por pontos estratégicos. Ao contrário das atuais, os novos equipamentos gravarão as imagens captadas. Segundo Orivaldo Ferrari, 58 anos, integrante do Conselho Consultivo do edifício, os porteiros receberão treinamento para lidar com as mais diferentes situações. Quem quiser visitar alguém no local terá de mostrar documento de identificação na portaria e ainda tirar uma foto na webcam do computador.

Os condôminos cogitaram ainda a contratação de vigilantes, que fariam a segurança externa do bloco 24 horas por dia. “Resolvemos não adotar essa medida porque seria apenas mais gente estranha no prédio. As câmeras são suficientes”, destacou Ferrari. O investimento em todo o aparato tecnológico será de R$ 8 mil. “Já vínhamos discutindo essas mudanças havia três anos. Pena que elas só sairão do papel depois de um crime brutal como esse.”
------------------------------

Meu comentário: certamente agora é a hora de encher o local de câmeras, seguranças e ex-integrantes da SWAT, já que todos bandidos do país sabem que assaltar o bloco C da SQS 113 dá lucro, bastando, para obtê-lo, afiar a faca e se armar de um pouco de ousadia. Mas, quando se passarem 2, 3, 10 anos sem outros ataques desse tipo no bloco C da SQS 113, a explicação não estará nas probabilidades nem nos dispositivos de segurança, e sim na água mágica que o representante divino (pastor, pajé, xamã, padre no caso) aspergiu no pilotis ao som de palavras mágicas, em contato com o mundo invisível (inexistente)... Pergunta: por que não joga água-benta no planeta Terra de uma vez?
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...