07 agosto 2009

Santa Arte

Não é nenhum crime ver alguma beleza naquelas formações militares impecáveis de nazistas, fascistas, comunistas, do Império de Star Wars, nas suas construções monumentais, na música marcial, nos cartazes comunistas mostrando aqueles super-homens segurando instrumentos de trabalhadores braçais como pás e martelos, onde o peão é santificado para que fique satisfeito e orgulhoso com sua condição – algo semelhante à santificação do “humirde” e do “inguinorante” feita pela classe sacerdotal em conluio com os nobres, bem comum antes das Luzes.

Normalmente, a preocupação com a estética é grande entre ideologias que se pretendem santas, inspiradas. São lindas aquelas obras bem humanas que conferem “divindade” a alguns templos cristãos e que não deixam de ser, em grande parte, imitações da estética que conferia divindade a Júpiter e a outros deuses, como a estatuária, a cúpula, os capitéis clássicos, a colunata, os afrescos, incensos, as togas dos sacerdotes, as palavras mágicas em latim, etc.

Muitos consideram o Vaticano um bom exemplo de inspiração divina, do quão alto o homem pode ir motivado pela fé no verdadeiro deus. Ora, na Renascença, o mesmo artista que pintava uma madona ou um menino Jesus poderia pintar, enquanto a outra obra secava, uma Afrodite e um menino Hércules lutando contra serpentes. Para ambos temas às vezes eram os próprios papas os clientes, que encomendavam obras sacras para as igrejas e profanas para seus palácios. Tudo que um artista precisa é de técnica, demanda, competição, remuneração e até mesmo de um pouco de inspiração e talento.

Os devotos veem mais santidade em um lugar como a Basílica de São Pedro do que em uma capelinha miserável no interior do Piauí com rachaduras nas paredes e ar cheirando a ricota velha, ainda que para eles o pão transubstanciado em carne no interior do Piauí não deveria ser menos Cristo do que aquele transubstanciado perante o Papa B16. Mas o que a presença física do próprio Cristo pode contra Bernini, Bramante e Michelangelo? Nada! A aura "santa" que se sente no Vaticano sente-se também no Louvre, embora no primeiro caso a fé potencialize a sensação e crie aquela estupefação pretendida por Leão X.

Cave uma gruta nas cercanias de Jerusalém e diga a turistas ignorantes que foi lá onde Jesus fez a penúltima ceia com sua gangue. Ficarão arrepiados, sentirão a aura de santidade do local, tocarão nas pedras, sentirão o próprio Cristo no local. E experimente ainda acrescentar uma roseira de bronze na entrada, uma estátua de mármore muito bem talhada, acender incensos e velas; terão orgasmos múltiplos.

E a mesma sensação de direito, de santidade, de sublimação, de superioridade sentiram com a ajuda da arte aqueles que foram iludidos pelas ditaduras desastrosas que mencionei no começo do post.

2 comentários:

zefirosblog disse...

"Cave uma gruta nas cercanias de Jerusalém e diga a turistas ignorantes que foi lá onde Jesus fez a penúltima ceia com sua gangue. Ficarão arrepiados, sentirão a aura de santidade do local, tocarão nas pedras, sentirão o próprio Cristo no local. E experimente ainda acrescentar uma roseira de bronze na entrada, uma estátua de mármore muito bem talhada, acender incensos e velas; terão orgasmos múltiplos."

Perfeito.

Luciano disse...

Causa me estranheza o comentário do zefiro, creio que no fundo todo mundo teme é a si mesmo, acho que ele está sentindo uma comichão no bolso da vontade de dar todo o salário dele para a Fogueira Santa de Israel.

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