25 junho 2009

Quem mandou apedrejar a adúltera?

Jesus não deixou que apedrejassem a mulher apanhada em adultério.

Sim, que ele mesmo mandou apedrejar, já que é um com o pai, e disse:

“Não julgueis que vim abolir a lei ou os profetas. (...) Pois em verdade vos digo: passará o céu e a terra, antes que desapareça um jota, um traço da lei.”
A ordem para apedrejar adúlteros está em Levítico, 20:10, e é dada pelo próprio 3 em 1, o JJP (Javé/Jesus/Pomba). Se Jesus é um com Javé, foi ele também que ordenou as matanças abomináveis de Canaã, participando ativamente delas ao fazer chover pedras sobre aqueles que fugiam para salvar a pele, exigindo a morte de cada criança, cada bebê, cada animal.

JJP mudou as regras no meio do jogo e sei lá qual exercício mental absurdo o crente que se permite pensar(1) faz para acreditar que de fato nenhum jota da lei desapareceu, Jesus a levou à perfeição, não há conflito entre os ensinamentos do Velho e do Novo Testamento, JJP ordenar a morte de criancinhas inocentes é simbólico... Parte-se do pressuposto de que tudo na Bíblia é bom e depois se tenta achar uma explicação que a salve de qualquer crítica. Acho que simplesmente o crente prefere aquele "não entendemos a 'lógica' de Deus"...

O poder de dissociação dos crentes não permite que enxerguem aquele Jesus hippie do NT como ele seria de fato se tudo aquilo fosse verdade, se ele de fato fosse um com o pai e se este realmente tivesse aprontado tantas presepadas no VT, como afogar a humanidade inteira para acabar com o mal na Terra e fracassar vergonhosamente, afinal o mal ainda está por aí...

E atende pedido de capetas para possuir milhares de porcos, arruinando os pobres suinocultores da região, que o escorraçaram de Gerasa por causa da sandice...

E fora as ameaças, chicotadas nos vendilhões, tinha um prazer em mandar os outros para o inferno... Aliás, ele deixa bem claro que poderia ensinar de um modo que mais pessoas se salvassem, mas diz preferir as parábolas para que as pessoas “de fora” não entendam o ensinamento e assim não se convertam, obrigando-o a salvá-las... Vejamos em Marcos 4, 11 e 12:
“Ele disse-lhes: A vós é revelado o mistério do Reino de Deus, mas aos que são de fora tudo se lhes propõe em parábolas. Desse modo, eles olham sem ver, escutam sem compreender, sem que se convertam e lhes seja perdoado.”
Claro, isso entra em choque com o "ide e pregai", com o modo como tratou o centurião romano, como estendeu a salvação ao gentio, etc... Mas a Bíblia é isso aí: um amontoado de coisas conflitantes que servem àquele que quer discriminar gays e àquele que os tolera. Sob a moral de hoje imagina-se um Jesus pacifista. Na moral da época de Santo Agostinho imaginava-se o Jesus que não veio trazer a paz mas a espada, o chicoteador de vendilhões. O que ameaça o tempo todo com o fogo eterno estava mais na moda, assim como os métodos do Javé do Velho Testamento, brutais, monstruosos, assassinos.

____________________________

(1)na verdade: "...que se permite pensar livremente sobre o assunto em questão..."

É óbvio que existem crentes gênios, crentes burros, descrentes gênios e descrentes burros; talvez até seja necessário um pouquinho de "estupidez" (entre aspas, claro) para não se impressionar com algumas engenhosíssimas exegeses ad hoc de gente "inteligente" porém comprometida emocional e culturalmente até os ossos com a ideologia / fé que defende. Na verdade, as interpretações seriam inspiradas pelo Espírito Santo, embora variem ao longo dos séculos e de acordo com as conveniências... O texto é ditado por Javé, mas é tão confuso e contraditório que o Espírito Santo ajuda nas interpretações...

A interpretação, assim, só é garantida, "mais do que àquele que compreende o texto original e domina o latim, o grego, o árabe, o aramaico, o atlante e a História -, ao 'dono' da religião cujo texto pretende interpretar. E as interpretações vão bailando, ora são simbólicas ora literais" (de um texto do D.A.)

Na verdade, o que há é uma confiança imensa de que tudo aquilo é verdade. Quando o patinho nasceu, adotou a lata puxada por um fio como mãe e pronto. Podem lhe mostrar ad nauseam como as latas são feitas e que há mais como aquela, que ele é muito mais parecido com uma pata adulta, mas o patinho só se sentirá verdadeiramente protegido e confiante ao lado da lata amassada de Heineken que ele viu ao sair do ovo...

É desta maneira que gente muito inteligente acredita em absurdidades pueris de sua própria religião enquanto ri de absurdidades semelhantes na religião alheia, para a qual usa seu senso crítico sem impedimentos. Conheço católicos que riem da reencarnação (sendo que bilhões acreditam nela, inclusive gente muito inteligente), dos deuses zoomórficos hindus, etc. E eu rio tanto dos deuses zoomórficos hindus quanto de Javé não gostar de toucinho, de Maria ter subido ao espaço sideral com carne, osso, sangue, cabelos, e de ainda estar por lá, perto do corpo físico de Jesus, o mesmo corpo crucificado, rio das setenta virgens do islamismo... Opa, daqui um tempo o islã descobrirá a jogadinha do simbólico/literal e o Corão passará a ser um livro "zen budista", "paz e amor", como o Velho Testamento...

7 comentários:

Roger disse...

Certa vez vi alguém criticando a Xuxa por ela ter relatado a visita de duendes em sua casa. O autor da crítica tem lá sua crença nos mistérios divinos, mas não admite que outra pessoa veja duendes. Ora, por que exige-se que somente o "seu" deus seja respeitável? Quer dizer que o cara pode acreditar na ressurreição, no voo da virgem e quetais, mas não pode aceitar que outros tenham visto duendes ou o Grande Monstro do Espaguete Voador? Ah, ok, há a tradição... Jesus chegou primeiro. Hmmm... se o critério for o tempo, a Lua foi cuspida por um crocodilo.

Catellius disse...

Obrigado pelo comentário, Roger!

Toda essa atmosfera "sagrada" em torno à fé vem bem a calhar para os sacerdotes. Tudo se discute, tudo se questiona, e é assim que a humanidade evolui.

Fazemos troça de tudo, menos do que queremos proteger e do que não pode ser questionado. O Chávez proíbe que se fale mal da Venezuela, na ditadura era proibido falar mal do Brasil, hoje ainda é proibido "ofender" a nossa bandeira. Prefiro o modelo americano. Lá se pode queimar a bandeira dos EUA em praça pública. Os americanos colocam a liberdade de expressão acima desse "respeito ao sacrossanto". Não veriam problema em um Von Helder chutar aquele boneco tosco pintado de preto, vulgo Nossa Senhora Aparecida.

Qual o problema? Qual o problema em se fazer charges de Maomé?

É que sem a aura sacrossanta, todas essas coisas ficam ridículas mesmo. Como eu escrevi, setenta virgens no paraíso, Maria subir com corpo e tudo para o céu, etc.

Catellius disse...

Um santo subiu com corpo e tudo para o espaço.
Bom, ao menos um pedaço do corpo...


BENTO XVI COM ASTRONAUTA QUE LEVOU RELÍQUIAS DE TERESINHA AO ESPAÇO

http://www.zenit.org/article-21969?l=portuguese

Bom, o artigo apenas fala em relíquia. Reliquias... aquelas coisas macabras que assombram as igrejas e em frente as quais os devotos rastejam pedinchando por milagretes. Imagino que seja um pedaço de pano ou algum caco de osso.

zefirosblog disse...

Por algum motivo o teísta tem prerrogativas semelhantes às “minorias”, ou seja, não é chamado a se responsabilizar por nada que diz ou acredita. Tem carta verde para fazer e defender praticamente o que quiser em nome de sua crença.

Não faz muito tempo, numa mesa de bar, quando confrontei um amigo ao dizer que o deus dele havia assassinado todos os primogênitos do Egito apenas por pertencerem à determinada raça, ele brandiu um pouco desconfortado o seguinte argumento: “Mas àquele que dá a vida também é dado tirá-la”. Não demorou muito para que ele ficasse constrangido enquanto pensava sobre o que acabara de falar, foi interessante e divertido observar o processo.

Sobre o deus de múltiplas personalidade - JJP – já escrevi alguma coisa no Zéfiros:

http://zefirosblog.wordpress.com/2009/04/28/os-monoteistas-pagaos/

Catellius disse...

Interessante seu post, Raphael.

E eu escrevi algo muitíssimo parecido neste post:

http://pugnacitas.blogspot.com/2007/04/santo-subito.html

Trecho:
"Karol será mais um semideus da religião que é, na verdade, o próprio politeísmo do Império Romano travestido na heresia judaica chamada cristianismo, cuja sede nunca deixou de ser a Cidade Eterna. “Por que semideus?” – pergunta o católico indignado – “O santo é tão somente um exemplo. Se um parente pode rezar por mim, por que um santo não pode fazê-lo?” Ora, ele ganha poderes especiais após a morte, passa a ser onipresente, já que de qualquer canto do universo poderá ser acionado por meio de preces, ainda que feitas de maneiras diversas por um bilhão de pessoas ao mesmo tempo; passa a ser praticamente onisciente, já que desmascara aquele que mente, o que pensa mal de si, terá presciência; e passa a ser quase onipotente, já que os fiéis, cansados da burocracia de terem de pedir por intercessão, pedincham as coisas diretamente ao semideus, sem delongas, chamando-o de poderoso, conferindo-lhe especializações, invocando-o como casamenteiro, protetor de viajantes, de doentes, etc."

E outro:

"Revelaram-me (ao que não acreditar cabe desmenti-lo) que a Virgem de Guadalupe, que no momento do atentado estava em Cancun ajudando um porto-riquenho a vencer uma partida de arremesso de dardos, zombou da pontaria da portuguesa (N.S. de Fátima), e desde então as duas não se falam. Nossa Senhora Aparecida, que segundo os preconceituosos entrou para o panteão romano pelo mesmo sistema de cotas que beneficiou São Benedito, tentou ser a mediatrice, mas as duas não lhe deram ouvidos."

Seu amigo disse: "Mas àquele que dá a vida também é dado tirá-la"

Então um pai de 60 anos poderia matar um filho de 40, ou recém nascido, se na concepção de sua religião ele havia dado a vida ao filho...

Abraços

zefirosblog disse...

Foi a indagação que eu fiz, mas sem muita necessidade. Acho que ele logo percebeu o quanto isso soava absurdo quando pensou no que acabara de falar.

“a Senhora de Fátima desviou os projéteis disparados por Ali Agca, os quais acertariam a cabeça do Papa, para outras partes do corpo. Bem que lhe ocorrera desviar totalmente de JPII as balas, mas lembrou-se que ainda não havia um padroeiro para o mal de Parkinson, e assim achou por bem fazer a coisa ao seu modo.” O Dawkins também já tinha dito algo parecido, sempre tirando algumas risadas de mim.

Excelente artigo o do link, Catellius, como sempre.

Abraço,

JJ disse...

É por aí mesmo,  mesmo atos hediondos são justificados com certos/corretos  pois para os crentes o deus deles pode fazer qualquer coisa que  deseje , e por mais maligno/mau que seja o ato dele,  este  será visto como certo/correto,  pois terá sido a vontade do poderoso.


Enfim é a idéia de um  sistema ético absolutista,  no qual a vontade do poderoso é o princípio fundamental.  Basicamente se resume a:

Se o manda-chuva gosta/deseja, então é certo.  Se o manda-chuva não gosta/deseja, então é errado .


Este é o princípio básico do estranho sistema ético que eles aceitam/defendem.

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