11 setembro 2008

Algumas coisas para fazer antes do fim do mundo

Janer Cristaldo

- ler a meia centena de livros das últimas viagens, que ainda me esperam em minha cabeceira
- organizar meus baús de cartas, herança daquela distante época em que se escrevia cartas. Se bem que... para quê?
- comprar um leitor de ebooks
- rever uma bugra guarani, que namorei nos dias de Dom Pedrito e que me sussurrava ao ouvido: xemboraihú
- rever uma gaúcha de Porto Alegre que um dia reencontrei no Kungsträdgården, transida de frio, em Estocolmo. E com ela fazer de novo tudo o que fiz naquele dia
- ouvir czardas no Café Central, em Viena
- ouvir violinos ciganos nalgum café de Budapeste
- tomar uma Leffe radieuse no Metropole, em Bruxelas
- uma jarra de cerveja, daquelas de litro, na Hofbräuhaus, em Munique
- um cochinillo no Sobrino de Botín, em Madri, regado por um Marqués de Riscal
- uma andouillette A.A.A.A.A. no Aux Charpentiers, em Paris, com um bom Cahors
- um baba au rhum no Julien, em Paris
- uma île flottante, no Bofinger, em Paris
- rever aquela Carmen filmada pelo Francesco Rosi, com a Julia Migenes
- rever Die Zauberflötte, com a orquestra do Ludwigsburger Festspiele, com Deon van der Walt e Ulrike Sonntag, como Tamino e Pamina
- rever Don Giovanni, regida por Wilhelm Furtwängler, com Cesare Siepi no papel-título e Otto Edelman como Leporello
- ouvir Chavela Vargas, Miguel Aceves Mejía, Jorge Negrete
- subir Toledo a pé
- comer um cordero lechal no Aurélio, em Toledo
- descer Toledo a pé
- beber uma manzanilla no Venencia, em Madri
- degustar outro cochinillo naquela cave medieval do Café de Oriente, também em Madri
- subir de novo Santorini em lombo de mula
- descer Santorini em lombo de mula
- revisitar os vulcões de Lanzarote
- comer um churrasco assado nas lavas dos vulcões de Lanzarote
- rever a árdega peoniana de Skopje, que alegrou meus dias em Paris
- ver de novo um nascer de sol junto ao Tridente, no Assekrem, no Sahara argelino
- ouvir tuaregues contando histórias em torno a uma fogueira no topo da montanha
- beijar mais uma vez uma distante amiga numa meia-noite gélida em Paris, vendo além dos olhos dela a agulha da Notre Dame penetrando a lua em quarto crescente
- rever também aquela sabra baixinha e linda que alegrou meus dias numa travessia do Atlântico
- ver uma aurora boreal
- rever o sol da meia-noite, tomando um vinho naquela noite que não é noite com a Primeira-Namorada, em Tromsø, Noruega
- conhecer Svalbard
- Atacama, que ainda não conheço
- viajar ao México e empinar una copa junto a uma banda mariachi
- cantar canções de corno com os mariachis
- flanar pelas ruas desertas de Veneza, ouvindo o chiado dos sapatos no silêncio da noite
- reencontrar a peoniana na Piazza San Marco, num domingo ensolarado, no Café Florian, com violinos ao fundo
- rever o rancho onde nasci, lá na Linha, hoje tapera
- debruçar-me sobre os pastos e beber água na cacimba frente ao rancho
- abraçar minha professora de francês, dos dias de ginásio, em Dom Pedrito
- uma janta de despedida com o pequeno círculo de amigos que até hoje me acompanham. Discutiríamos a Bíblia, teologia e o apocalipse. Sempre embalados pelo sangue das uvas
- tomar mais um vinho com a Primeira-Namorada no topo do Edifício Itália, enquanto o sol se põe sobre esta São Paulo desvairada
- quando soarem os primeiros sinais do Apocalipse, vou sentar-me nalgum boteco e ler o Qohélet
- não é dado aos que partem voltarem. Se fosse, trocava tudo isto por um dia – um só dia, não mais que um só dia - com minha Baixinha adorada. E mergulharia feliz no buraco negro

Variações sobre Che nesse 11/9

Já fiquei meio surpreso quando o Steven Soderbergh começou a rodar esse filme sobre o Che, pois logo fiquei sabendo que eram DOIS filmes. O primeiro mostra a guerrilha e a Revolução, talvez a tomada de Havana, com os primeiros dias de glória e o subseqüente tédio. Governar é uma chatice, deve ser, acho.

Não sei se o filme começa ou termina com ele aparecendo numa daquelas reuniões pasteurizadas da ONU. Dizem que é um dos pontos altos.

O segundo filme corta direto para os últimos dias de Che na selva boliviana.
E é chato saber que o excelente Benicio Del Toro entrou nessa. Só espero que a imagem batida do Che não faça com que ele fique parecendo muito um personagem de Chico Anysio em algumas cenas, que isso seja só impressão minha. Viver figuras históricas sempre é problemático. Interpretar ícones, santos e mártires é pior ainda.

Tudo bem, toda pessoa de esquerda vê Guevara como a face mais humana daquela coisa linda e maravilhosa que infelizmente se desnaturou, se desvirtuou — a Revolução Cubana.

Já é — sempre foi — o sujeito que foi sem nunca ter sido. Foi solidário, bonzinho, camarada, socialista, guerreiro e herói da resistência.

Como fica difícil defender o Fidel, ao menos para alguns esquerdistas, Guevara acabou servindo para outra coisa também, de uns anos pra cá. Virou a única defesa possível, plausível, da Revolução para certas pessoas. Virou um arauto do futuro e uma justificativa para muita gente de esquerda. Uma forma delas dizerem: “Nem tudo foi ruim na “experiência” socialista. O Che, por exemplo, ah, ele era o cara.”

É sempre a mesma conversa. “Ah, se ele não tivesse morrido tão jovem, ah, ele era diferente, era um revolucionário legítimo, queria libertar os povos...” Libertar os povos de quê? De quem? E pra quê? Era extremamente egocêntrico e arrogante, em parte foi por isso que morreu. Nem sei como não morreu no Congo, onde passou mais aperto do que na Bolívia. Do ponto de vista militar, era um péssimo guerrilheiro. Não tinha a menor noção do que fazia, cometeu “n” erros grosseiros, mas nem falemos nisso. O negócio dele era política com auto-promoção. Era um bom propagandista de si mesmo. Sabia se promover. Duvido, no entanto, que imaginasse que iria acabar se tornando essa coisa toda. Por mais inflado que fosse.

Pelo menos o filme parece ter alguns momentos divertidos e seqüências de ação. Pior que o sonolento Diários de Motocicleta, de um dos ricos irmãos esquerdistas Salles, não deve ser. Filme engajado, feito por filho de banqueiro com eterna crise de consciência por ser rico, não dá.

Aliás, Walter Salles está promovendo Linha de Passe, seu novo filme. Ele acha que “cinema não deve buscar lucro, deve fazer um retrato da sociedade”. Que meigo. E fazem isso com dinheiro público. “Não tem solução...” como dizia Dorival Caymmi.

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No livro La Autobiografía de Fidel Castro, do jornalista e escritor cubano Norberto Fuentes, há um trecho muito curioso sobre Che Guevara, o herói romântico de tantas gerações de desinformados:
“Era um coitado. Mas a verdadeira biografia desse coitado que todo mundo conhece como Che Guevara e que se chamava Ernesto Guevara de la Serna é dificilmente compatível com a do personagem criado pela revolução cubana. Sei que para todos vocês será um travo amargo reconhecer que levam 40 anos prostrados de admiração por um homem que só existe como propaganda.“
(...) Ele forçava a mão, queria chegar mais e mais longe, e ao mesmo tempo se metia em situações extremas, coisas que fazia como um desafio a si mesmo. Muitos anos depois — e como resultado direto de minhas observações sobre o Che — entendi que a força de suas convicções e estoicismo diante do perigo e sua vontade de ferro nada tinham a ver com autênticas convicções, estoicismo ou vontade. Era a asma. É uma coisa consubstancial com os asmáticos. Esse afogar-se permanente curte o doente para resistir a qualquer onda de medo e com muita consciência”.
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Num texto sobre a provável situação atual de bin Laden e os porquês da dificuldade em capturá-lo no Paquistão, lá pelas tantas, aparece uma comparação entre ele e Guevara:

“Bin Laden has been as badly battered by time as Bush. Unable to achieve any of his political goals, unable to mount another attack, he reminds us of Che Guevara after his death in Bolivia. He is a symbol of rebellion for a generation that does not intend to rebel and that carefully ignores his massive failures.
Yet, in the end, Guevara and bin Laden could have become important only if their revolutions had succeeded. There is much talk and much enthusiasm. There is no revolution. Therefore, what time has done to bin Laden's hopes is interesting, but in the end, as a geopolitical force, he has not counted beyond his image since Sept. 11, 2001.
What happens to bin Laden is, in the end, about as important as what happened to Guevara.
Legends will be made of it -- not history.
But when the world's leading power falls into the psychological abyss brought about by time and war, the entire world is changed by it. Every country rethinks its position and its actions. Everything changes.”
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Na tv a cabo, um filme que eu pensei ser mais vagabundo, Che, de 1969, com Omar Sharif no papel principal. Até que o filme não é ruim. Jack Palance, simpático, é o Fidel. Ignorante, preguiçoso e bebendo rum o tempo todo. Lembra um pouco Lula.

O filme mostra as divergências entre os dois, a simpatia de Che pelos chineses e a de Fidel pelos soviéticos, o alívio de Fidel quando Che se revolta e resolve “espalhar a Revolução”, ou seja, ir pra bem longe de Cuba.

Mas Omar Sharif ainda lamenta ter interpretado o Che, num filme que afirma ter sido "inteiramente manipulado pela CIA” e que agora vê como o maior erro de sua vida.

"Eu exigi fazer um filme que não tivesse um tom fascista", disse Sharif. "Em 1969, fazia apenas dois anos que Che havia sido morto nas serras bolivianas, e ainda era um herói incrível", disse Sharif.

O galã egípcio lembrou amargamente que seu papel teve certa dignidade porque ele assim exigiu em seu contrato, "mas o Fidel Castro interpretado por Jack Palance e o filme em geral resultaram em um produto fascista".

"A CIA estava por trás, queria fazer um filme que agradasse aos cubanos de Miami e eu só me dei conta disso no final", disse Sharif, contando que uma sala de cinema de Paris foi queimada por espectadores irados pela imagem negativa que o filme fazia de Che e da Revolução Cubana.

Sharif interpretou guerrilheiros, príncipes, ditadores e se diz resignado que agora só lhe oferecem "papéis de velhos", em suas palavras.

Nascido de pais católicos libaneses — seu nome de nascimento era Michel — Sharif se converteu ao Islã para se casar com a atriz Faten Hamama, de quem depois se divorciou. Agora, ele classifica a religião como "uma coisa absurda".

"Como podem nos fazer acreditar em algo tão ridículo como Adão e Eva?", diz.

Sharif começou sua carreira em 1954, com Siraa fi al-Wadi (Struggle in the Valley). Seu primeiro filme estrangeiro foi o francês La Châtelaine du Liban (The Lady of Lebanon), de 1959.

Mas foi só em 1962, com Lawrence da Arábia, que ele despontou.

Sharif é temperamental e sem papas na língua; não deixa de responder a nenhuma pergunta, mas às vezes se enche de raiva e levanta sua voz. “Eu vou aonde me chamarem para fazer um filme; posso passar temporadas no Japão, no México ou na Itália. Mas não sou de nenhum lugar nem tenho uma casa que seja minha”, afirmou.

“Quando não estou filmando, prefiro estar em Paris, mas sempre vivo em hotéis e como nos restaurantes. Quando se é um velho solitário como eu, dá medo viver em uma casa vazia. Pelo menos nos hotéis há um bar e é possível conversar com alguém”, reflete.

No Egito, dizem que Sharif se arruinou com o que foi sua grande paixão na vida - inclusive mais do que as mulheres -: o bridge, mas isso não parece totalmente certo visto o estilo de vida que possui.

O ator sempre se pronunciou contra o fanatismo que está ganhando peso no Egito e em todo o Oriente Médio; entretanto, para ele este “não é um problema religioso, mas de pobreza”.

“Se todo o dinheiro que George W. Bush gastou na Guerra do Iraque tivesse sido dado aos pobres desta região, não haveria terrorismo”, afirmou.

Ingênuo, mas continuo gostando muito dele.

Omar Sharif acha que o cinema atual “está cheio de violência, porque a própria vida está cheia de violência”. “Quando as pessoas não se matam pela religião, são mortas pelo clima, pelo tsunami ou por inundações. Este mundo é uma m…”, conclui o ator.

Também acho.
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