31 julho 2008

A Burocracia Contra-ataca

Outro dia assisti a uma palestra sobre Escritório de Projetos e descobri que a burocracia está de volta, agora em nova roupagem. Nunca jogue fora uma roupa que saiu de moda pois se você guardá-la tempo suficiente, e ainda continuar cabendo, você vai ter oportunidade usá-la. Infelizmente, na administração não é tão simples, as coisas voltam, mas com nomes diferentes e os incautos acabarão levando gato por lebre.

Não me entendam mal, nada tenho contra a burocracia no sentido weberiano, no qual se busca incentivar o mérito e se foca em procedimentos de forma a aumentar a previsibilidade dos resultados. Sou contra a burocracia como arma política, sou contra a burocracia para se criar dificuldade para se vender facilidades.

Uma boa burocracia é fundamental, vejamos o caso da usina Vladimir Lênin de Chernobyl, onde um oficial do partido decidiu fazer um teste não programado na madrugada de 25 de abril de 1986, sem seguir os procedimentos de segurança, causando o maior acidente nuclear da história e contribuindo para o final do socialismo real. A combinação de autoritarismo com alguns erros de projeto foi explosiva.

Em função exatamente destes tipos de acidentes que surgiu a disciplina de gerenciamento de projetos, que visa garantir que o produto entregue ao final de um empreendimento atenda às especificações do cliente. Além disso, o gerenciamento de projeto permite uma visão horizontal de gestão em organizações com funções verticais especializadas, permitindo uma melhor integração de recursos.

O engraçado desta palestra é que o mote do consultor era como vender o Escritório de Projetos para a organização, escondendo a sua natureza burocrática. Enganado o gestor com o belo neologismo, começaria a busca pelo poder. O escritório assumiria, então, funções operacionais, depois táticas e, finalmente, chegando às funções estratégicas, coroando o processo com um assento na diretoria para o chief project manager (CPO). A este processo ele chamava de maturidade do Escritório de Projetos.

Isto me faz lembrar dos meus debates com meu amigo marxista leninista que defende a Revolução como única forma de tomar dos ricos o seu dinheiro e extinguir o capitalismo que oprime os homens. Infelizmente, para nós, a sede de poder do homem sobreviverá ao fim do capitalismo e ao fim da história. E, tudo que for criado com as melhores intenções será usado para atender a sede de poder do homem.

A meu ver, o capitalismo e o mercado são positivos para o homem porque nos dá espaço para viver entre a opressão do capitalismo e a opressão dos políticos que usam o Estado para ampliar o seu poder. O estado não é mau, nem tampouco o mercado, mas sim os homens. Chavez, por exemplo, acha que a solução é criar um tipo de educação que enfraqueça laços familiares e fortaleça as relações de solidariedade entre os cidadãos, mas isto não é nenhuma novidade e esta baboseira já foi pensada por Platão.

Enfim, talvez o melhor seja aprendermos a viver entre duas forças perigosas e opressivas, mas que juntas anulam-se mutuamente e produzem um pouco de liberdade para os pobres mortais. Enfim, fico surpreso que não haja mais marxistas leninistas estudando Escritório de Projetos, afinal isto reflete bem o tipo de poder que eles gostariam de controlar.

30 julho 2008

MIDNATSOL

Janer Cristaldo

Por onde começar? Melhor pelo princípio, Oslo. Eu não visitava a cidade há oito anos e a encontrei bem mais viva. Fora alguns árabes e africanos no centro da cidade, só gente bonita. Não que árabes e africanos sejam intrinsecamente feios. Mas os que vi por lá eram feios e mal-encarados. Voltando ao hotel de madrugada, fui abordado por um afrodescendentão que consegui esquivar. Mas o bruto não vinha com boas intenções. É meio difícil de acreditar, mas hoje, em uma capital escandinava, caminhar pela noite não é lá muito tranqüilo. Já em Tromsø, ouvi na televisão que um norueguês havia sido apunhalado em pleno centro de Oslo. Ora, ser apunhalado em São Paulo ou Rio faz parte da vida. Ser apunhalado em pleno centro de Oslo gera comoção nacional. Quem anda armado de punhais nas ruas de Oslo? É claro que não são os noruegueses. Tarde da noite, no centro da cidade, me senti ameaçado como jamais me senti em nenhuma capital européia. Voltarei ainda aos punhais.

Pelo menos no Aker Brigge - http://www.panoramio.com/photo/5564401 - zona portuária, vi mais animação que nas ruas de Madri ou Paris. Aker Brigge é um grande espaço, rodeado de marinas, transatlânticos, lanchas e veleiros, onde os noruegueses e turistas celebram a bona-chira. O passeio que dá para o porto é totalmente tomado por restaurantes e a impressão que se tem é que ninguém trabalha naqueles nortes. Os restaurantes continuam cidade adentro, além do passeio, e todo mundo está comendo a toda hora. Apesar dos preços mais salgados do que charque. (Voltarei também ao assunto). Nórdicas belíssimas, de um louro que tende ao branco, muitos jovens e muitos idosos, gente que gosta da vida. Certamente com alto nível financeiro, pois ninguém freqüenta bares impunemente em Oslo. Todo mundo rindo e confraternizando, despreocupação total em relação ao futuro. Mais ou menos minha idéia de paraíso. O que me espantou foi ver Oslo tão ou mais animada que Paris ou Madri. Lá pelas tantas, a Primeira-Namorada leu em um guia que lhe passei, que “se você quiser escapar do estresse de Oslo, pode visitar regiões próximas à cidade”. Nossa! Aquele estresse terrível de gentes para quem o amanhã nem parecia existir, me chocou profundamente.

Cena para fotografar, mas que não fotografei. Fui pego de sangue frio. Duas mulheres, ébrias não sei de álcool ou de vida, dançavam ao caminhar pela Aker Brigge, cantando Guajira Guantanamera. Subitamente, tomada por alguma insólita hybris nórdica, uma delas levantou a saia até a cabeça e continuou sua marcha triunfal, rebolando e batendo firme com os tacos no chão. Guajira Guantanamera, Guajira Guantanamera, Guajira Guantanamera. Yo soy un hombre sincero e devo confessar que até hoje me perturba a memória aquela saia erguida, a calcinha exígua e aquele remelexo infernal.

Em suma, vi uma Oslo insólita, de uma alegria hispânica. Há, é claro, o fator verão. Para países onde o inverno e a escuridão reinam por oito meses, um mês ou dois de luminosidade é sempre festa. É claro que no invernão norueguês mulher alguma levantaria a saia até a cabeça e sairia cantando pelas ruas.

Há um senão, os preços. Pelo menos para nós, escória do Terceiro Mundo. Oslo é quarta cidade mais cara do planetinha. Mas primeiro falarei dos punhais. Nunca imaginei que um cidadão poderia ser apunhalado no centro daquela cidade. Mas, ao que tudo indica, a arma branca está se tornando corriqueira na Europa. In illo tempore – como diziam os evangelistas – li no El País uma inquietante reportagem sobre Londres. Uma onda de homicídios com punhais e navalhas está assolando a cidade. En lo que va del año – como dizem os espanhóis – 21 jovens foram assassinados por punhaladas. Por semestre, creio que nem em São Paulo temos tanta gente morta por punhal. Recentemente, a capital britânica viu quatro jovens morrerem apunhalados em apenas 24 horas. Os jornais nada dizem sobre os assassinos. O que só prova uma coisa: são africanos ou árabes. Quando um árabe ou africano mata ou estupra na Europa, a imprensa nada diz sobre os criminosos. Se o criminoso for um nacional, seu nome é entregue aos leitores. Volto a insistir: se você não conhece a Europa, visite-a antes que acabe. Aliás, aquela Europa que conheci há trinta e mais anos, não existe mais. Lembro que jamais senti alguma inquietação ao flanar pelas madrugadas nas noites de Estocolmo. Hoje, há ruas e bairros de risco.

Detalhe desagradável em Oslo. Dezenas de boates emitindo para a rua um som de bate-estacas. É como se o som fosse o anúncio da boate. Na penúltima viagem, não encontrei este bordel. Meu hotel ficava distante de qualquer dessas caixas de ruído, mas fico me perguntando como se sente quem mora perto.

O paraíso está começando a ficar bichado. Os países do sul do continente estão encetando uma reação – tardia, é verdade – à ameaça dos bárbaros da África e Oriente Médio. Mas os nórdicos, em sua santa ingenuidade, continuam a recebê-los aos magotes. A Suécia, por exemplo, que já foi invadida por árabes e turcos, está sendo agora invadido por hordas de afegãos, iraquianos e somalis.

De Oslo, peguei um trem até Bergen, a porta dos fjordes, antiga capital da Noruega e porto hanseático, http://pt.wikipedia.org/wiki/Bergen. Tem um espaço semelhante ao Aker Brigge, bordado por um casario de madeira muito colorido, mas sem a imponência do Aker Brigge, bem entendido. De Bergen, navegamos pela Hurtigruten http://www.hurtigruteninpictures.com até Tromsø, além do Círculo Polar Ártico. Não conheço o mundo todo, mas duvido que exista viagem mais fascinante. Os barcos vão entrando pelos fjordes e atracando no portos do litoral. Não é, em princípio, um cruzeiro. Hurtigruten quer dizer Expresso Costeiro. É a fórmula mais prática de viajar pela Noruega, uma tripa de país montanhoso. Mais ainda: viajando pela Hurtigruten, viajar é melhor que a viagem.

O primeiro fjord a ser percorrido é o Geiranger, http://en.wikipedia.org/wiki/Geiranger. Fascinante. Cachoeiras caem o tempo todo dos penhascos, de picos sempre cobertos por neves, mesmo no verão. Em determinado momento, sete cachoeiras se reúnem. São as Sete Noivas. Espetáculo de cortar a respiração. Mais adiante, os penhascos se afunilam e o fjord se reduz a uns trezentos metros. Foi precisamente neste momento em que a Força Aérea norueguesa deu sua contribuição ao show. Dois caças sobrevoaram o navio e mergulharam naquele estreito abismo. Não pode ser coincidência, pensei. Não era. Todos os dias, mais ou menos ao meio-dia, os caças voltavam para abrilhantar o espetáculo. Uma espécie de lembrete: a Noruega não tem apenas uma portentosa frota naval, mas também uma Força Aérea.

Mas se você perdeu a respiração nas Sete Noivas, guarde um restinho de fôlego para o que vem pela frente. Um pouco antes de chegar a Tromsø, na altura das ilhas Lofoten, o mais lindo dos fjordes o espera, o Trollfjorden, http://www.hurtigruteninpictures.com/trollfjorden-lofoten-norway.html . É pequeno, coisa de dois quilômetros. Mas a beleza é tanta que dá vontade de chorar. Vontade não, chorei mesmo. Já o havia visitado há oito anos, com minha Baixinha adorada. Estava lendo no Panorama Lounge do Vesterålen - http://arctic360.360vt.eu/vesteralen - quando ela desceu do convés, desesperada. “Sobe logo, nem imaginas o que está acontecendo lá fora”. Era meia-noite, uma daquelas meia-noites irreais de sol de meio-dia. Frio de lascar. Era uma espécie de cinema em 360 graus, onde era difícil saber para onde olhar. Confesso que nem no Sahara vi algo tão belo. Muito menos na Terra do Fogo. Nos foi servida uma sopa de mariscos, que aqueceu até a alma.

Nessa altura, já ultrapassamos o Círculo Polar Ártico. Já em Bodø – http://en.wikipedia.org/wiki/Bod%C3%B8 –, o sol da meia-noite começa a dar suas caras. Para quem não vive por aquelas bandas, não dá vontade alguma de dormir. Melhor chamar mais um vinho e contemplar madrugada afora aquele meio-dia fora de horas.

Aportamos em Tromsø – http://www.eveandersson.com/norway/tromso - no quinto dia de navegação. Em pleno verão. Lá pelas onze da noite – noite que não é noite - postei-me em um simpático boteco na Storgatan com a Primeira-Namorada. Pedimos um vinho. Bebemos até a meia-noite profunda, isto é, com sol de meio-dia. Gentes girando pela rua como se meio-dia fosse. Ela não acreditava: “mas isto ainda vai escurecer”. Não vai, disse. E vou te provar. Pedi mais um vinho. Lá pelas duas, creio que ela passou a acreditar no que via.

Fotos da Primeira-Namorada durante a viagem, da Noruega, Estocolmo e Paris, estão em http://www.flickr.com/photos/isapgm.

24 julho 2008

A geografia desmente a aliança sino-russa

Em China e Rússia criam uma anti-Otan, Gilberto Scofield Jr. (em junho de 2006) comentava a criação de um bloco de ajuda mútua econômica na Ásia, a Organização de Cooperação de Xangai (SCO, na sigla em inglês), cujos membros além de China e Rússia abarcariam vizinhos: Irã, Paquistão, Índia e ex-satélites soviéticos: Casaquistão, Quirguistão, Mongólia, Tadjiquistão e Uzbequistão, bem como possivelmente a Arábia Saudita.

Hu Jintao, presidente chinês, vaticinava diplomaticamente seus objetivos como assegurar a paz e a prosperidade econômica regional. O teor explicitamente antiocidental (antiamericano e antieuropeu) da organização ficou a cargo do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad definir:

“Podemos transformar a SCO numa instituição forte e de influência econômica e política tanto em nível regional quanto internacional. E desafiar a ameaça das potências dominantes de usar a força contra outros países ou interferir em seus assuntos.”

Deste blefador já se esperava isto... Vladimir Putin, então presidente russo, é quem tinha o argumento de peso:


“A SCO pode ser um forte jogador global. Temos 3 bilhões de pessoas e isso faz diferença - disse Putin, que pregou a união dos países contra ‘ameaças desconhecidas’” (Grifos meus).

Zhang Deguang, secretário-executivo, chinês que representa quem realmente manda na organização obviamente assumiu o tom conciliatório ao afirmar que a SCO “nunca procurou o confronto com nenhum bloco”. E nem precisa...

Mas, entre os sintomas imediatos como seus membros pedirem a retirada de tropas americanas de seus territórios e a China e a Rússia fazerem exercícios militares conjuntos, o que mais a organização pode oferecer em termos de eficácia e resolutividade?

Da retórica de um mundo multipolar, com a suspeita de uma aliança de potências crescentes a desafiar o império americano – China e Rússia, a primeira com suas taxas de crescimento cavalares e a segunda com seu papel assegurado no fornecimento de matérias-primas, a realidade beligerante entre os dois países continentais é muito diferente.

Em termos econômicos, não há muito sentido em se falar em união entre China e Rússia. O anecúmeno entre Moscou e Pequim requer uma infra-estrutura de bilhões que não existe para fomentar um comércio mútuo, cujos resultados já são atingidos com maior satisfação a partir dos acordos já existentes entre parceiros chineses – o extremo oriente e o ocidente – e russos – a Europa. Isto sem falar que entre as duas capitais, a distância é maior que entre Londres e Washington.

Tudo é uma questão de custo/benefício, como não poderia deixar de ser. Se o comércio siberiano fosse algo mais valioso que o convencional, o brutal investimento em infra-estrutura poderia se justificar. Mas, se há algo que distingue esta “nova era” de tempos pretéritos é que não há mais como manter subsídios sem retorno viável e factível. Se um dia as especiarias e a seda foram suficientes para justifica-los, hoje os objetivos militares têm que mostrar sua fatura.

Há também uma grande assimetria que joga contra a Rússia. A leste dos Urais, o país é relativamente desprotegido se considerarmos sua população, enquanto que a China tem uma gigantesca massa humana na Manchúria na proporção de 15 para 1 contra os russos no extremo oriente. Só o que falta para Pequim é vontade de ocupar a região, o que não ocorre porque o país permanece voltado para si mesmo, seu interior e suas próprias questões.

Se para a Rússia, a vulnerabilidade está na posição – ter que lutar entre duas frentes possivelmente aliadas, China e Otan – para a China, trata-se de uma questão quantitativa e tecnológica: em termos militares/nucleares, a Rússia está muito à frente.

Geograficamente, no entanto, é difícil para a Rússia aproveitar seus recursos com menores custos, como seria o transporte hidroviário. Seus rios, diferentemente da América do Norte não se interconectam e há extensas costas bloqueadas pelos gelos. Sua melhor alternativa reside num remoto Mar de Murmansk, inócuo para o caso de assegurar uma hegemonia siberiana. O leste dos Urais guarda certa similaridade com a realidade africana: demasiado rico em recursos minerais, mas vasto, incomunicável e pobre em infra-estrutura.

Se para os russos, o comércio marítimo é uma necessidade premente, para os chineses, ele é “natural”, com sua população concentrada num litoral de águas tépidas, livre de obstáculos naturais. Analogamente ao comércio e a economia, a Rússia também não tem a primazia militar no meio integrador dos oceanos. Cabe aos EUA o domínio sobre os oceanos com 11 porta-aviões prontos para qualquer ação na região. O poder russo não é naval, nunca foi, mas americano o que lhe confere enorme desvantagem. E se a China quiser manter seu PIB de US$ 14 trilhões em mesmo ritmo de crescimento deve se pautar pela orientação civil e neutra nestas questões. Pequim, simplesmente, não irá matar sua galinha dos ovos de ouro por uma tresloucada aventura geopolítica.

Mesmo o coringa na manga dos russos que consistia em amarrar o fornecimento de gás das repúblicas da Ásia Central para a Europa – que no período soviético serviam ao norte do país – já não é mais o mesmo: estão arriscados a perde-lo. O interesse das ex-repúblicas soviéticas na SCO está nesta intermediação, que o Kremlin usa para obter concessões políticas dos europeus.

A China, por sua vez, tem seus próprios problemas. Com o crescimento econômico, movimentos de descentralização política são fomentados por suas províncias periféricas. Contra eles, duas linhas de dissuasão são adotadas por Pequim: diluindo a diversidade étnica com programas de migração da etnia Han (majoritária) e com o aporte de infra-estrutura (especialmente, ferrovias) no Tibet e Sinkiang. Aí reside um dos poucos pontos em que Pequim pode amenizar sua vulnerabilidade energética frente ao domínio logístico americano, na proximidade das reservas de gás da Ásia Central. Para tanto, seu domínio sobre as regiões tem que continuar num crescendo com a instalação de estradas, trilhos e tubulações. Isto, inevitavelmente, traz problemas a Moscou, cujo monopólio na rede de infra-estrutura (e a vantagem que detém sobre o consumidor europeu) se vê agora ameaçado.

A aliança entre China e Rússia tem na disputa pelos recursos da Ásia Central um nó górdio. E quem está mais próximo de desata-lo é a China para fazer diferença entre séculos de esquecimento da região pela Mãe Rússia.


* Fonte: ZEIHAN, Peter. “China and Russia’s Geographic Divide.” In: http://www.stratfor.com/. July 22, 2008.

20 julho 2008

O que significa a prisão da Daniel Dantas?

Esta semana tive uma discussão com o meu contato na esquerda de classe média sobre o caso Daniel Dantas. Ele defendia a execução do banqueiro. Afirmava que o ministro Gilmar Mendes é um corrupto e que o projeto petista gramsciano de tomada de posições estava condenado ao fracasso. A salvação seria a retomada de uma perspectiva leninista, afinal vivemos em uma cultura muito atrasada.

A minha leitura do episódio é diferente. Acho que o Daniel Dantas está sendo investigado não por ser ou não corrupto, mas por ter entrado em disputa com um grupo da cúpula petista. Nem todos se lembram, mas Daniel Dantas controlava a Brasil Telecom com um fundo americano e o fundo de previdência do Banco do Brasil. Quando se iniciou uma disputa com a Telecom Itália pelo controle do grupo e o fundo americano abandonou o seu lado, ele ficou nas mãos da Previ: surgiu então o conflito com a cúpula petista.

Nesta disputa, o governo o acusou de contratar a Kroll para espionar a cúpula petista do Palácio do Planalsto, enquanto o próprio Daniel Dantas acusou o governo de tentar extorqui-lo em US$ 80 milhões de dólares para obter o apoio do fundo de previdência do Banco do Brasil. Quem se lembra do Mensalão e do forte envolvimento dos fundos de pensão percebe que esta não é uma hipótese remota.

Como entender então a prisão de Daniel Dantas? Os delegados da Polícia Federal não fazem o que querem. Se alguém tiver curiosidade no organograma da Polícia Federal (http://www.dpf.gov.br/web/organog_grand.htm) vai perceber que a decisão de designar quatro delegados para investigarem durante os últimos quatro anos o Daniel Dantas foi tomada no nível da diretoria geral. Não é novidade que o grupo petista que se sentiu prejudicado por Dantas tenha usado a estrutura do Estado para perseguir o seu desafeto, afinal foi assim que Fernando Henrique acabou com a candidatura da Rosinha Sarney.

No âmbito do Ministério Público Federal é surpreendente que ele seja representado neste caso por um promotor singular ainda impúbere. Onde estão os procuradores seniores que deveriam estar ansiosos pelos seus cinco minutos de fama? Quanto ao juiz, eles não poderiam ter escolhido outro melhor, afinal este Fausto tem um viés bastante conhecido de jogar para a arquibancada. Por fim, vem a decisão desastrosa de promover a prisão de Daniel Dantas no âmbito das ações da Polícia Federal para provar que o governo Lula não é tão corrupto quanto ficou demonstrado no Mensalão.

Com o Lula no Japão, foi efetuada a prisão com a qual se congratula o governo de forma apaixonada na pessoa do comissário petista Tarso Genro e do próprio presidente da República. Sob os protestos do comissário petista o banqueiro tem seu hábeas corpus concedido pelo presidente do Supremo, que ainda tem de tratar com um insubordinado de primeira instância, rapidamente defendido pela corporação.

E como ficamos? Ficamos com este PT hipócrita que assiste ao enriquecimento da sua cúpula, enquanto persegue os seus inimigos e tenta vender esta imagem falsa e mentirosa de uma nova ética, quando na verdade continua valendo a velha máxima: Para os amigos tudo, para os inimigos a lei.
Como já se disse muitas vezes, o melhor amigo de um jacobino é um corrupto. Sem um jacobino que proponha da noite para o dia que o limite alcóolico para se dirigir no Brasil seja igual ao mais rigoroso do mundo, o sueco, não seria possível aos policiais corruptos aumentaram de forma desmedida a propina para liberar os descumpridores da lei.
Para completar a palhaçada, o Lula repreende publicamente o delegado por afastar-se da investigação. Desde quando o presidente deveria se meter pessoalmente neste nível da Administração? Isto faz sentido somente em uma República Sindicalista populista onde o cumprimento da lei passa a ser vista como uma graça, distribuída e capitalizada pelo grande líder. Assim é a política, as coisas acontecem e os políticos tentam tirar proveito.
O problema desta palhaçada toda é que quando o Lula e o PT aparelham o Estado, também promovem a desmoralização das suas instituições, afinal, ou a lei serve para todos ou não serve para ninguém. Se a lei é usada para perseguir os inimigos do governo então a sociedade não a reconhecerá como uma lei legítima. Sem leis e instituições não temos democracia nem uma república. Sem legitimidade não há lei, mas apenas violência e arbitrariedade.
Diante desta realidade, deste autoritarismo, como as pessoas reagem? Na antiga União Soviética formavam-se máfias. No Brasil, o favorecimento alimenta a mentalidade do cada um por si e Deus por todos, da lei de Gerson. Assim, o governo petista nos leva exatamente ao lugar de onde partimos, ou seja, uma sociedade onde a lei não é vista como um bem de todos mas como uma arma dos poderosos contra os seus inimigos.

09 julho 2008

Globalismo, o que diabos é isto?

Dias atrás assistia a um seminário sobre o movimento internacional de ongs destinado a atacar de forma virulenta a soberania nacional, as bases econômicas liberais e nossa tradição cultural e religiosa. Era unânime entre os expositores a acusação de que a ONU é o principal organismo internacional com interesses escusos nesta empreitada de significado histórico. Ao final, no debate, um aluno colocou uma questão que, para mim, resumiu toda a fragilidade da tese globalista, do domínio e hegemonia mundial sob auspícios da ONU. Vou puxar de memória:

Meus professores de cursinho eram todos esquerdistas, principalmente os de geografia e história e, eles diziam a mesma coisa de vocês, só que ao invés de afirmar que havia uma conspiração mundial “de esquerda”, ela era “de direita”.
Quer dizer... Que ao invés de dominar o mundo com ações da ONU, a ONU era submissa aos interesses dos países ricos e suas corporações mundiais. No fundo era o mesmo argumento de vocês, só que com conclusões opostas. Em vez de trazer
o socialismo, elas estariam garantindo o capitalismo e monopólio mundial.
Agora, eu fiquei na dúvida, quem é que tem razão?

Estes são dos bons... Sempre gostei de alunos que me desafiavam. Para mim, um round se passara e a próxima aula seria uma demonstração de que eu estaria certo e, para tanto, tinha que me preparar. Mas, lá viria novamente o mesmo insistente e teimoso aluno com novas e novas considerações que me deixariam atônito. Boas aulas contêm dúvidas e motivação para o próximo capítulo. Mesmo quando eu tinha uma resposta ensaiada, sua inconsistência me atormentava durante anos e, lá me via, tempos depois concordando com o querelante.

Agora, eu vou bancar o aluno chato.

Por trás das ações coordenadas em nível mundial e sua declarada agenda de boas intenções, em uma conspiração a portas abertas (!) estaria a ONU e suas várias agências apoiando constelações hierarquicamente descendentes de ongs. Seu objetivo: reduzir a soberania nacional, especialmente dos EUA, na medida inversa em que finca os pilares de um “governo mundial” no coração de territórios outrora separados por nítidas e irretorquíveis fronteiras.

Em tese, isto estaria ocorrendo sem que percebêssemos o real perigo da situação, encantados que estamos pelo canto da sereia de uma sociedade justa e igualitária. Porém, se observarmos como as coisas realmente funcionam, a teoria do “globalismo” mais parece um boneco de palha. Como o globalismo é visto como um processo em pleno curso, outros exercícios de futurologia podem ser aventados para confrontar sua suposta eficácia. Permita-me utilizar do mesmo recurso de seus teóricos, a “arte do chute”...

Cenários possíveis

O Conselho de Segurança (CS) da ONU pode sofrer modificações nos próximos anos. A UE poderá substituir a França e o Reino Unido, caso sua constituição européia venha a ser consolidada. Um outro equilíbrio de forças se avizinha no horizonte histórico com os já garantidos assentos à China, EUA e Rússia. África do Sul, Brasil, Índia e Japão também são candidatos viáveis a membros permanentes do CS.

As alianças militares poderão ser ampliadas, como ocorre atualmente com a Otan rumo ao leste europeu. A Rússia, através de sua Comunidade dos Estados Independentes, CEI (não tão independentes assim) poderá reincorporar a Bielorrússia. Como contrapeso ao tacão russo, as ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central (do Cazaquistão ao Afeganistão) procurariam reforçar alguma aliança. Outra interessante aliança que funciona como filial americana neste rimland continental é a do Sudeste Asiático que vai do Paquistão à Oceania, sobretudo, Austrália e Nova Zelândia. Tradicionais aliados americanos para conter a expansão russa ao sul. Esta, na verdade, uma reedição do que já ocorrera na Guerra Fria. Outros problemas às forças ocidentais se formarão com a evolução da Liga Árabe (não “tão árabe”, caso venha abarcar o Irã), o que levaria a concentração dos maiores esforços ocidentais, sobretudo americanos, mais do que os da Otan. E só a manutenção da estabilidade do Iraque e acordos com o Irã já serão suficientes para manter o Pentágono ocupado, seja McCain ou Obama o novo presidente. Uma Otan, por sua vez, já estará suficientemente ocupada com as investidas do “urso russo” na Europa Oriental e suas ameaças de embargo de combustíveis à Europa Ocidental. Ameaças apenas, pois se a Rússia detém o precioso recurso, os ocidentais são clientes indispensáveis. O que, em outras palavras, pode significar um relativo isolamento de Washington. A Organização da Unidade Africana (OUA) continuará uma mera quimera, cujo continente tem sido o maior celeiro de guerras civis no globo. Falar em “globalismo”, no sentido de uma ordem global centralmente conduzida e bem sucedida, neste cenário é coisa para quem abusa da liberdade de imaginação... No continente americano teremos a união indelével entre Canadá e EUA, mas com o “acorde dissonante” do México oscilando entre a atração econômica do norte e seu atrasado sul (Chiapas, p.ex.). Bem como a reserva de mão de obra na fronteira norte, contígua ao sudoeste americano. E a América Central continuará sendo assediada por Washington. A “sala de treino” em stand-by permanece na América do Sul, com um Brasil periclitante nas relações externas, mas com a consciência de possíveis sanções americanas contra “estados-pária” da Argentina, Bolívia e Venezuela a sinalizar as políticas do Planalto Central. A China permaneceria, contida em si mesma, um universo à parte que ainda terá que se definir melhor neste cenário global do ponto de vista político.

É fácil imaginar uma teoria contrária e nada inverossímil. Se tais considerações parecem gratuitas, qual a base empírica das assertivas que afirmam o contrário de modo igualmente voluntarista?

Demandas globais

Se a ONU é um organismo tão ruim que visa prejudicar os povos diminuindo sua capacidade de autodeterminação, porque tantos governos a apóiam? Se a pedra de toque do “globalismo” não se sustenta sozinha, algo não faz sentido. Mas, ainda assim vejamos como esta organização tem asseverado seus “tentáculos hegemônicos” sobre o globo.

Seis países sul-americanos, três centro-americanos, dois norte-americanos, dez países asiáticos, a Rússia, a U.E. e outros europeus não-membros, 17 africanos apóiam a organização, financeira, logística e militarmente. Chega a ser hilário pensar que é de “cima para baixo” que ocorre a influência. É justamente o contrário que se dá. Talvez seja na própria miríade de estados que tentam alcançar uma coordenação e organicidade, a razão da maior inoperância da ONU. Muito chefe pra pouco índio...

Nos anos 90 tivemos 16 ações com tropas da ONU para intervir nos casos de desastres naturais. Como sabemos, não são “tropas independentes”, mas mantidas através de contribuições dos países que a sustentam. Onde está o “globalismo”? Trata-se de uma ação calculada que busca otimizar ações ao redor do mundo, inclusive por estados concorrentes em influência e hegemonia global.

No mesmo período, se contarmos as intervenções para conter atividades guerrilheiras e/ou terroristas foram 21, ou seja, superando com vantagem os danos causados por forças naturais. Isto, antes de 2001, o que significa que esta discrepância tende a aumentar, com maior número de esforços conjuntos para deter este estado de anarquia. Bem que podíamos ter um pouquinho de “globalismo”... Digo, ordem.

Também tivemos 14 operações das tropas no período no papel de “forças de paz” ou ocupação, termo muito mais direto e sincero, como é do meu gosto. Se pensarmos no conjunto, as ações militares contabilizam mais que o dobro às destinadas a amenizar os efeitos das forças naturais.

Não há logística mundial suficiente para sustentar estratégias que levem a um domínio coeso de um pequeno grupo sobre bilhões. Nem sinergia de “metacapitalistas” (capitalistas que devido ao seu poder e monopólio estariam criando um mundo sob o escrutínio de sua “engenharia social” por intermédio da ONU) contra os interesses de dezenas de países e centenas de elites oligárquicas e suas burocracias. Desconsiderar isto significa comprar o mesmo erro marxista de ignorar o estado e suas ramificações internas como dotadas de interesses e vontade próprias. Dentre os inúmeros erros dos marxistas, este contribuiu sobremaneira para sepultar seus intentos revolucionários de acordo com a teoria marxiana, mundo afora perante a perenidade (e necessidade) dos estamentos burocráticos. Analogamente, a suposição de um conluio ONU-metacapitalismo trabalha com um “marxismo de sinal invertido” ao tomar os sintomas de funcionamento de um mercado imperfeito, como objetivos expressos de uma política global e as políticas de contenção de conflitos como expressão de ganho e sustentação das corporações quando, justamente, as próprias mega-empresas é que são ameaçadas em cenários nacionais conturbados por guerrilhas e insurgências várias. O marxismo aí reside na visão de uma “necessidade” e porvir que se implantarão de um jeito ou de outro, uma fé no “destino histórico” desejado pelos marxistas, amaldiçoado pelos teóricos do globalismo, mas que não passa de uma mesma fé social-evolucionista. Uma fé otimista ou pessimista não deixa de ser uma fé que não se põe à prova.

A idéia de que um movimento globalista seja a “face do mal” da globalização se encontra amplamente disseminada, não só entre a dita esquerda, mas cada vez mais por uma auto-proclamada direita que, de liberal, não tem quase nada. Tais “direitistas” podem até defender o liberalismo, mas não usam métodos de análise desenvolvidos por liberais. Na medida em que temem o avanço do capitalismo mundial e, equivocadamente, concluem que este decorre de um arranjo previsto e pré-determinado, o caos e anarquia política são vendidos como uma contraproducente planificação.

Se para evitar os malefícios da ONU, dos quais não duvido que existam, tenhamos que acabar com a própria instituição e suas ações de contenção da barbárie, se para sanar imperfeições de mercado tenhamos que acabar com o próprio mercado, o imaginário super-estado global terá que ceder lugar a estados nacionais cada vez mais repressivos. A título de conter o avanço de forças destruidoras de nossas sociedades, não duvido que seu remédio possa ser mais amargo que a doença levando o enfermo a própria morte.


Fontes:

1. Ian Pearson, Atlas of the Future, New York: Macmillan, 1998.
2. International Institute for Strategic Studies (IISS), The Military Balance 1996-97, London: IISS, 1997.
3. Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), Yearbook, New York and Oxford: Oxford University Press, various dates.
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