29 março 2008

A grande prostituta

(Está sendo relançada no Brasil a obra do mais vil e prostituído dos escritores brasileiros. Me sinto obrigado a republicar artigo que escrevi há dez anos)

A palavra bordel, para quem não sabe, nasce em Paris. Na época em que as "maisons closes" ficavam às margens do Sena, quando alguém ia em busca de mulheres, dizia eufemisticamente: "j'vais au bord'elle". Sena, em francês, é palavra feminina, la Seine. Portanto, quando alguém dizia "au bord'elle", queria dizer "au bord de la Seine". Daí, bordel. Não é de espantar que a capital que deu ao mundo esta palavra queira homenagear, nos dias 20 e 25 de março próximos, no 18º Salão do Livro de Paris, a prostituta maior das letras contemporâneas.

O Brasil será o país homenageado do Salão e terá como convidado de honra e representante de nossas Letras, Jorge Amado, o mais vendido escritor nacional, que começou sua carreira como estafeta do nazismo, continuou como agente do stalinismo e hoje é roteirista oficioso de Roberto Marinho. Amado ainda receberá, na ocasião, o título de Dr. Honoris Causa por uma universidade parisiense. Nada de espantar: os parisienses, de longa tradição colaboracionista e stalinista, não perderiam esta oportunidade de homenagear, neste século que finda, o colega que desde a juventude militou nas mesmas hostes.

Do nazismo ao stalinismo - Autor brasileiro mais divulgado no exterior, com traduções em mais de 40 idiomas, colaborador de publicações nazistas, ex-militante do Partido Comunista, deputado constituinte em 46, Oba Otum Arolu do candomblé Axé Opô Afonjá na Bahia, membro da Academia Brasileira de Letras, Amado nasceu em uma fazenda de cacau, em 10 de agosto de 1912, no então recém-criado município de Itabuna, na Bahia, filho de pai sergipano e mãe baiana de ascendência indígena.

Em 1936, é preso no Rio, em conseqüência da Intentona de 35, tentativa de tomada do poder ordenada pelo Kremlin e liderada no Brasil por Luís Carlos Prestes. Em 1940, durante a vigência do pacto de não-agressão germano-soviético, assinado por Stalin e Von Ribbentrop, assume a edição da página de cultura do jornal pró-nazista Meio-Dia. Em uma reunião do Partido Comunista, é denunciado por Oswald de Andrade como "espião barato do nazismo" e instado pelo escritor paulista a retirar-se de São Paulo. Quando interrogado sobre o trabalho sujo deste período, Amado diz simploriamente: “Não me lembro”. Mas Oswald de Andrade lembra. Em antiga entrevista, republicada mais recentemente, em Os Dentes do Dragão, escrevia Oswald:

"Diante de tantos erros e mistificações, retirei a minha inscrição do partido. Numa reunião da comissão de escritores, diante de quinze pessoas do PC, apelei para que o sr. Jorge Amado se retirasse de São Paulo e denunciei-o como espião barato do nazismo, antigo redator qualificado do Meio-Dia. Contei então, sem que Jorge ousasse defender-se, pois tudo é rigorosamente verdadeiro, que em 1940 Jorge convidou-me no Rio para almoçar na Brahma com um alemão altamente situado na embaixada e na agência Transocean, para que esse alemão me oferecesse escrever um livro em defesa da Alemanha. Jorge, depois me informou que esse livro iria render-me 30 contos. Recusei, e Jorge ficou surpreendido, pois aceitara várias encomendas do mesmo alemão".

Em 45, Amado é eleito deputado federal pelo Partido Comunista e publica Vida de Luís Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperança, uma apologia ao líder comunista gaúcho e membro do Komintern. O panfleto, encomendado pelo Kremlin, foi traduzido e publicado nas democracias ocidentais e nas ditaduras comunistas, como parte de uma campanha para libertar Prestes da prisão, após sua sangrenta tentativa, em 1935, de impor ao Brasil uma tirania no melhor estilo de seu guru, Joseph Vissarionovitch Djugatchivili, mais conhecido como Stalin. Para Amado, Prestes, é o “herói, aquele que nunca se vendeu, que nunca se dobrou, sobre quem a lama, a sujeira, a podridão, a baba nojenta da calúnia nunca deixaram rastro".

Prestes preso, segundo o escritor baiano, é o próprio povo brasileiro oprimido:

“Como ele o povo está preso e perseguido, ultrajado e ferido. Mas como ele o povo se levantará, uma, duas, mil vezes, e um dia as cadeias serão quebradas, a liberdade sairá mais forte de entre as grades. ‘Todas as noites têm uma aurora’, disse o Poeta do povo, amiga, em todas as noites, por mais sombrias, brilha uma estrela anunciadora da aurora, guiando os homens até o amanhecer. Assim também, negra, essa noite do Brasil tem sua estrela iluminando os homens, Luís Carlos Prestes. Um dia o veremos na manhã de liberdade e quando chegar o momento de construir no dia livre e belo, veremos que ele era a estrela que é o sol: luz na noite, esperança; calor no dia, certeza”.

Em 46, como constituinte, Amado assina a quarta Constituição Brasileira. Dois anos depois, seu mandato é cassado em virtude do cancelamento do registro do PC. Neste mesmo ano, 1948, fixa residência em Paris, onde convive, entre outros, com Sartre, Aragon e Picasso. Em 1950, passa a residir no Castelo da União dos Escritores, em Dobris, na ex-Tchecoslováquia, onde escreve O Mundo da Paz, uma ode a Lênin, Stalin e ao ditador albanês Envers Hodja. No ano seguinte, quando o livro é publicado, recebe em Moscou o Prêmio Stalin Internacional da Paz, atribuído ao conjunto de sua obra, condecoração geralmente omitida em suas biografias.

Esta década é marcada por longas viagens, entre outras, à China continental, Mongólia, Europa ocidental e central, à ex-União Soviética e ao Extremo Oriente.

“Vós sabeis, amigos, o ódio que eles têm - os homens de dinheiro, os donos da vida, os opressores dos povos, os exploradores do trabalho humano - a Stalin. Esse nome os faz tremer, esse nome os inquieta, enche de fantasmas suas noites, impede-lhes o sono e transforma seus sonhos em pesadelos. Sobre esse nome as mais vis calúnias, as infâmias maiores, as mais sórdidas mentiras. ‘O Tzar Vermelho’, leio na manchete de um jornal. E sorrio porque penso que, no Kremlin, ele trabalha incansavelmente para seu povo soviético e para todos nós, paras toda a humanidade, pela felicidade de todos os povos. Mestre, guia e pai, o maior cientista do mundo de hoje, o maior estadista, o maior general, aquilo que de melhor a humanidade produziu. Sim, eles caluniam, insultam e rangem os dentes. Mas até Stalin se eleva o amor de milhões, de dezenas e centenas de milhões de seres humanos. Não há muito ele completou 70 anos. Foi uma festa mundial, seu nome foi saudado na China e no Líbano, na Romênia e no Equador, em Nicarágua e na África do Sul. Para o rumo do leste se voltaram nesse dia de dezembro os olhos e as esperanças de centenas de milhões de homens. E os operários brasileiros escreveram sobre a montanha o seu nome luminoso”.

Em função de sua militância no PC, no início de sua trajetória foi traduzido na China, Coréia, Vietnã e ex-União Soviética. Só depois então é puxado para os países ocidentais, pelas mãos de seu tradutor para o alemão. Em Munique, em 1978, entrevistei Curt Meyer-Clason, o responsável pela introdução de Amado na Europa ocidental.

O baiano invade com sua literatura o mundo livre, que tanto caluniou, através da finada República Democrática Alemã. “Devido à proteção do PC, a RDA incumbiu-se da publicação de todos os seus livros, já nos anos 50” - disse-me Meyer-Clason -. “Depois, por meu intermédio, passou diretamente à República Federal da Alemanha”. Não por acaso, Meyer-Clason acaba de ser denunciado, pela revista alemã Der Spiegel, como espião do Terceiro Reich no Brasil.

Da mesma forma que nega seu passado nazista, Amado não comenta seu passado stalinista. Em seu último livro, Navegação de Cabotagem, declara:

"Durante minha trajetória de escritor e cidadão tive conhecimento de fatos, causas e conseqüências, sobre os quais prometi guardar segredo, manter reserva. Deles soube devido à circunstância de militar em partido político que se propunha mudar a face da sociedade, agia na clandestinidade, desenvolvendo inclusive ações subversivas. Tantos anos depois de ter deixado de ser militante do Partido Comunista, ainda hoje quando a ideologia marxista-leninista que determinava a atividade do Partido se esvazia e fenece, quando o universo do socialismo real chega a seu triste fim, ainda hoje não me sinto desligado do compromisso assumido de não revelar informações a que tive acesso por ser militante comunista. Mesmo que a inconfidência não mais possua qualquer importância e não traga conseqüência alguma, mesmo assim não me sinto no direito de alardear o que me foi revelado em confiança. Se por vezes as recordo, sobre tais lembranças não fiz anotações, morrem comigo".

Realismo Socialista - Em 1954, julgando talvez insuficiente a defesa do stalinismo feita em O Cavaleiro da Esperança e O Mundo da Paz, Amado publica os três tomos de Subterrâneos da Liberdade, onde pretende narrar a saga do Partido Comunista no Brasil. Só em 58, com Gabriela, Cravo e Canela, deixará de lado sua militância comunista e passará a fazer uma literatura eivada de tipos folclóricos baianos, que mais tarde será transposta em filmes nacionais e novelas da Rede Globo. O romancista baiano foi o introdutor nas letras brasileiras do realismo socialista, também conhecido como zdanovismo, fórmula de confecção literária para a pregação do ideário comunista, concebida pelos escritores russos Maxim Gorki, Anatoli Lunacharski, Alexander Fadéev, e sistematizada pelo coronel-general Andrei Zdanov.

Nos países em que foi traduzido, Amado é visto como um escritor que faz literatura brasileira. Em verdade, obedecia a uma fórmula tosca, mais panfletária que estética, produzida por teóricos em Moscou. Wilson Martins, em A História da Inteligência Brasileira, traduz em bom português as características do novo gênero:

“... de um lado, os bons, ou seja, os que se incluem na “chave” mística do “trabalhador”, do “operário”; de outro lado, os maus, isto é, todos os outros mas, em particular, o “proprietário” e a “polícia”, as duas entidades arimânicas deste singular universo. Os primeiros são honestos, generosos, desinteressados, amigos da instrução e do progresso, patriotas, bons pais de família, sóbrios, artesãos delicados, técnicos conscienciosos, empregados eficientes (embora revoltados),imaginativos e incansáveis, focos de poderoso magnetismo pessoal, cheios de inata vocação de comando e, ao mesmo tempo, do espírito de disciplina mais irrepreensível, corajosos, sentimentais, poetas instintivos, sede de paixões violências (oh! no bom sentido!), modelos de solidariedade grupal, argumentadores invencíveis, repletos, em suma, de uma nobreza que em torno deles resplandece como um halo. O “trabalhador” é o herói característico desses romances de cavalaria: sem medo e sem mácula, ele tem tantas relações com a realidade quanto o próprio Amadis de Gaula. Já o “proprietário” é um ser asqueroso e nojento, chafurdado em todos os vícios, grosseiro, bárbaro, corrupto, implacável na cobrança dos seus juros, lascivo na presença das viúvas jovens e perseguidor feroz das idosas, barrigudo, fumando enormes charutos, arrotando sem pudor, repleto de amantes e provavelmente de doenças inconfessáveis, membro da sociedade secreta chamada “capitalismo”,onde, como todos sabem, é invulnerável a solidariedade existente entre seus membros; indivíduo que favorece todos os deboches, inclusive dos seus próprios filhos; covarde, desonesto, egoísta, ignorante, vendido ao dólar americano, lúbrico, marido brutal e pai perverso, irritante e antipático, rotineiro, frio como uma enguia, incapaz de sinceridade, sem melhores argumentos que a força bruta, verdadeira encarnação contemporânea dos demônios chifrudos com que a Idade Média se assustava a si mesma".

Wilson Martins continua enumerando detalhadamente os demais estereótipos utilizados neste tipo de romance, entre eles a polícia, o tabelião, o posseiro, o governador, o latifundiário, o camponês. Seria por demais monótono continuar a descrição deste universo maniqueísta, como tampouco teria sentidoa companhar a repetição - ad nauseam - de uma fórmula primária de fabricar livros. Vamos então enfiar logo as mãos no lixo. Os Subterrâneos também foi escrito em Dobris, no mesmo castelo da União de Escritores Tchecoeslovacos onde Amado produzira O Mundo da Paz, de março de 1952 a novembro de 1953, ou seja, no período imediatamente posterior à obtenção do Prêmio Stalin. Como pano de fundo histórico temos, como não poderia deixar de ser, a Revolução de 1917. Outras datas e fatos posteriores determinarão poderosamente a construção dos personagens.

Em 1935, ocorre no Brasil a Intentona Comunista. Em 36, Prestes é preso, e sua mulher Olga Benario, judia alemã que é oficial do Exército Vermelho, é deportada para a Alemanha de Hitler. Getúlio Vargas consegue persuadir o Congresso e criar um Tribunal de Segurança Nacional para punir os insurgentes. Ainda neste ano de 36, eclode na Espanha a Guerra Civil, confronto que envolveu todas as nações européias e constituiu uma espécie de ensaio geral para a Segunda Guerra, detonada em 1939, circunstância amplamente explorada por Amado. Em 1937, os integralistas lançam Plínio Salgado como candidato às eleições presidenciais de janeiro do ano seguinte, abortadas a 10 de novembro pelo golpe com que Getúlio consolida o Estado Novo. Para desenvolver sua história, Amado fixará um dos mais turbulentos períodos deste século, que até hoje continua gerando rios de bibliografia.

A ação de Os Subterrâneos situa-se precisamente entre outubro de 37 (às vésperas do Estado Novo e em meio à Guerra Civil Espanhola) e finda aos 7 de novembro de 39, 23º aniversário da proclamação do regime soviético na Rússia. Amado, escritor e militante, tem por incumbência várias missões. A primeira consiste na defesa dos ideais de 17, encarnado em Lênin e Stalin, potestades várias vezes invocadas ao longo dos três volumes. Segunda, fazer a defesa do Messias que salvará o Brasil, Luís Carlos Prestes, e não por acaso a trilogia encerra-se com seu julgamento. Missões secundárias, mas não menos vitais: denunciar o imperialismo ianque, condenar a dissidência trotskista, pintar Franco com as cores do demônio e fustigar Getúlio por ter esmagado a atividade comunista a partir de 35. Seus personagens são títeres inverossímeis e sem vontade própria,embebidos em álcool se são burgueses, ou imbuídos de certezas absolutas, mais água mineral, se são operários ou militantes, estes sempre obedientes aos ucasses emitidos às margens do Volga.

A obra, composta por três volumes - Os Ásperos Tempos, Agonia da Noite e A Luz no Túnel - constituiria apenas a primeira parte de uma trilogia mais vasta, com pretensões a ser o Guerra e Paz brasileiro. Os três tomos são publicados em maio de 1954, um ano após a morte de Stalin e dois antes do XX Congresso dos PCURSS, o que obriga o autor a interromper seu projeto. Pela segunda vez, na trajetória literária de Amado, sua ficção será determinada não por uma análise da realidade brasileira, mas por decisões tomadas em Moscou.

A onipresença do novo Deus - O personagem por excelência do romance é o Partido Comunista, onipresente como o antigo deus cristão e feito carne na figura de Stalin. A luta do PC é a luta - na ótica do autor - do povo brasileiro contra a tirania, no caso, Getúlio Vargas. Externamente, os inimigos são os Estados Unidos da América, a Alemanha, Franco e Salazar. Sem falar, é claro, na IV Internacional e nos trotskistas. O PC está infiltrado na classe dominante, disperso na classe média e fervilha nos meios operários. Invade as cidades e o campo, a pampa e a floresta, os salões burgueses, as fábricas e os portos, corações e mentes.

“Quantos outros, do Amazonas ao Rio Grande do Sul”, - reflete o militante Gonçalo -“não se encontravam nesse momento na mesma situação que ele, ante problemas complicados e difíceis, devendo resolvê-los, sem poder discutir com as direções, sem poder consultar os camaradas? Gonçalo sabe que os quadros do Partido não são muitos, alguns mil homens apenas na extensão imensa do país, alguns poucos milhares de militantes para atender à multidão incomensurável deproblemas, para manter acesa a luta nos quatro cantos da pátria, separados por distâncias colossais, vencendo obstáculos infinitos, perseguidos e caçados como feras pelas polícias especializadas, torturados, presos, assassinados. Um punhado de homens, o seu Partido Comunista, mas este punhado de homens era o próprio coração da pátria, sua fonte de força vital, seu cérebro poderoso, seu potente braço".

Esta onipresença extrapola o país, manifesta-se onde quer que andem os personagens, no Uruguai, França, Espanha, no planeta todo. Inevitáveis as referências à foice e ao martelo. E a Stalin, naturalmente, guia, mestre e pai. A litania dirigida ao grande assassino tem por vezes características de humor negro:

“- Quantos mais formos” - diz a militante Mariana - “mais trabalho terão os dirigentes. Pense em Stalin. Quem trabalha no mundo mais que ele? Ele é responsável pela vida de dezenas de milhões de homens. Outro dia li um poema sobre ele: o poeta dizia que quando todos já dormem, tarde da noite, uma janela continua iluminada no Kremlin, é a de Stalin. Os destinos de sua pátria e de seu povo não lhe dão repouso. Era mais ou menos isto que dizia o poeta, em palavras mais bonitas, é claro...”O poeta em questão é Pablo Neruda, já citado em O Mundo da Paz: “Tarde se apaga a luz de seu gabinete. O mundo e sua pátria não lhe dão repouso.”


Consta de uma ode a Stalin, subtraída às Obras Completas do poeta chileno, onde, por enquanto, ainda se pode encontrar uma “Oda a Lenin”. Hoje, temos uma idéia precisa do que planejava Stalin nas madrugadas tardias de seu gabinete. Quando Apolinário Rodrigues, por exemplo, (personagem calcado em Apolônio de Carvalho, oficial brasileiro exilado que participara da Intentona de 35) chega a Madri, sente-se em casa pois, para onde quer que se vire, lá está o Partido. A única cor local da capital espanhola parece ser a luta pela libertação de Prestes:

“Quando chegara à Espanha, vindo de Montevidéu, vivera dias de intensa emoção, ao encontrar por toda a parte, no país em guerra, nas ruas bombardeadas das cidades e aldeias, nos muros da irredutível Madri, as inscrições pedindo aliberdade de Prestes. Cercava-o o calor da intensa solidariedade desenvolvida pelos trabalhadores e combatentes espanhóis para com os antifascistas brasileiros presos e, em particular, para com Prestes. (...) Era uma única luta em todo o mundo, pensava Apolinário, ante essas inscrições, o povo espanhol o sabia, e em meio às suas pesadas tarefas e múltiplos sofrimentos, estendia a mão solidária ao povo brasileiro".

A coincidência da instituição do Estado Novo com a explosão da Guerra Civil Espanhola é uma oportunidade única para Amado de inserir seus personagens no conflito internacional que redundaria na II Guerra, expondo ao mesmo tempo a linha do Partido. Tão única é esta oportunidade e tanto o autor quer aproveitá-la, que chega a deslocar para 1938 uma greve dos portuários de Santos, efetivamente ocorrida em 1946, o que aliás provocou um certo debate. Estaria Amado realmente sendo fiel ao método que “exige do artista uma representação veridicamente concreta da realidade no seu desenvolvimento revolucionário”, conforme proclamavam os estatutos da União de Escritores Soviéticos? Ao autor isto pouco importa. Deslocando a greve para 38, pode criar um navio alemão que vem buscar, no Brasil, café para a Espanha. De uma só tacada, Amado fustiga Hitler, Getúlio e Franco:

“Em algumas palavras (o velho Gregório) historiou o motivo por que adireção do sindicato havia convocado essa sessão: o governo oferecera ao general Franco, comandante dos rebeldes espanhóis (“um traidor”, gritou uma voz na sala), uma grande partida de café. Agora se encontrava no porto um navio alemão(“nazista”, gritou uma voz na sala) para levar o café".

Na Guerra Civil Espanhola, segundo Amado, há apenas “nazistas alemães e fascistas italianos”. Tão pródigo em elogios à Stalin e à União Soviética, em sua trilogia o autor silencia sobre a presença russa na Espanha, constituída por pilotos de guerra, técnicos militares, marinheiros, intérpretes e policiais. A primeira presença estrangeira em terras de Espanha foi a soviética, com o envio de material bélico e pessoal militar altamente qualificado, em troca das três quartas partes (7800 caixas, de 65 quilos cada uma) das reservas de ouro disponíveis pelo Banco de España. Pagos adiantadamente. Silêncio de Amado: a representação veridicamente concreta da realidade no seu desenvolvimento revolucionário pode esperar mais um pouco.

A presença do Partido permeará a trilogia das primeiras páginas de Os Ásperos Tempos às últimas de A Luz no Túnel. Nestas, a militante Mariana, antes de presa, assiste ao julgamento de Prestes. A voz do líder comunista é “a voz vitoriosa do Partido sobre a reação e o terror”:

“Eu quero aproveitar a ocasião que me oferecem de falar ao povo brasileiro para render homenagem hoje a uma das maiores datas de toda a história, ao vigésimo terceiro aniversário da grande Revolução Russa que libertou um povo da tirania...”

Seria monótono e redundante perseguir esta onipresença do Partido na trilogia de Amado. Neste universo imperam o bem e o mal absolutos. O bem, evidentemente, é representado pelo novo Deus, o proletariado. O mal, pela burguesia detentora do capital. Entre um universo e outro transitam eventualmente seres camaleônicos, “traidores de classe” ou traidores do Partido. Dividir o universo em duas metades, uma boa e outra má, nada tem de novo e original. Tal princípio vem do século III, através da doutrina do persa Mani. O espantoso é que continue a viger em pleno século XX, e mais: impondo gostos, comportamentos e até mesmo filiação partidária aos personagens de um romance. Os representantes do Bem amam. Os representantes do Mal têm amantes. Os bons bebem café ou água mineral. Os maus bebem cachaça ou uísque. Os bons são magros e idealistas. Os maus são gordos e mesquinhos. Os bons têm gargalhar sadio, os maus têm dentes podres. Os bons não têm posses. Os maus são proprietários. Os bons são pobres, os maus ricos. Os bons pertencem ao Partido ou com ele colaboram. Os demais são maus. Os bons, diga-se de passagem, estão aprisionados em tal camisa-de-força ideológica que sequer podem se dar ao luxo de gostar de pintura surrealista ou naïve.

Até 1954, Amado traduzirá em sua literatura as determinações do Partido Comunista russo. Em entrevista para Isto é (18/11/81), Amado reconhece seu stalinismo:

- Não sei se o termo “realismo socialista” se aplica a todos os meus livros daquela época. Estariam em face do realismo socialista, mas o fato é que Jubiabá (1935), Mar Morto (1936) e Capitães de Areia (1937), do período ao qual você se refere, só puderam ser publicados em russo depois da morte de Stalin. Acredito que a classificação seja justa para Terras do Sem Fim (1943), Seara Vermelha (1946) e Subterrâneos da Liberdade (1954). Se existe um livro meu totalmente influenciado pelo stalinismo, é Subterrâneos da Liberdade, que reflete uma posição totalmente maniqueísta.

Denunciados os crimes do stalinismo por Kruschov, em 1954, dois anos depois Amado molha o dedinho na língua e o ergue ao ar, para sentir de onde sopram os ventos: o sentido da História é agora uma literatura popularesca, ao estilo da rede Globo. Passa então a produzir uma literatura de evasão em torno de motivos baianos. Não sem antes fazer um tímido e discreto mea culpa, publicado em 10 de outubro de 1956 pela Imprensa Popular:

“Aproximamo-nos, meu caro, dos nove meses de distância do XX Congresso do PCUS, o tempo de uma gestação. Demasiado larga essa gravidez de silêncio e todos perguntam o que ela pode encobrir, se por acaso a montanha não vai parir um rato. Creio que devemos discutir, profunda e livremente, tudo o que comove e agita o movimento democrático e comunista internacional, mas que devemos,sobretudo, discutir os tremendos reflexos do culto à personalidade entre nós,nossos erros enormes, os absurdos de todos os tamanhos, a desumanização que, como a mais daninha e venenosa das árvores, floresceu no estrume do culto aqui levado às formas mais baixas e grosseiras, e está asfixiando nosso pensamento e ação. (...) Sinto a lama e o sangue em torno de mim, mas por cima deles enxergo a luz do novo humanismo que desejamos acesa e quase foi submergida pela onda dos crimes e dos erros".

Como se o simples fato de sentir “a lama e o sangue” em torno a si o redimisse das cumplicidades passadas. Mas as denúncias dos crimes do stalinismo não geraram nenhum tribunal de Nuremberg e Jorge Amado sente-se como um ingênuo, enganado pelos ventos do século. No entanto, não mais permite a reedição de O Mundo da Paz. Quanto à sua obra ficcional, embasada no realismo socialista, esta continua sendo reeditada e traduzida.

Mas o agitprop baiano se vê obrigado a mudar de rumos e publica, em 1958, Gabriela, Cravo e Canela. Em 61, lança Os Velhos Marinheiros, considerado um dos melhores momentos de sua literatura. Neste mesmo ano, é eleito membro da Academia Brasileira de Letras, instituição que havia apedrejado e insultado em sua juventude. No discurso de posse, com a inocência de um moleque que relembra travessuras passadas, reitera sua oposição à Casa que o recebe:

"Chego à vossa ilustre companhia com a tranqüila satisfação de ter sido intransigente adversário desta instituição naquela fase da vida em que devemos ser necessária e obrigatoriamente contra o assentado e o definitivo. Ai daquele jovem, ai daquele moço aprendiz de escritor que no início de seu caminho, não venha, quixotesco e sincero, arremeter contra as paredes e a glória desta Casa. Quanto a mim, felizmente, muita pedra atirei contra vossas vidraças, muito adjetivo grosso gastei contra vossa indiferença, muitas vaias gritei contra vossa compostura, muito combate travei contra vossa força".

Em resposta aos que o condenam, diz o escritor: "Mas tudo na vida obedece a formalidades e se eu sou socialista não quer dizer que ignoro o mundo formal que me rodeia". De Moscou, recebe o apoio de Ilya Ehremburg: "Amamos Jorge Amado e temos confiança nele. Eu só o vi numa fotografia levemente mais gordo, em fardão de acadêmico. Olhei e sorri. Aos acadêmicos brasileiros dão um luxuoso fardão. Além disso usam espadas como seus colegas franceses. Não há nada de mal em que o homem simples de ontem apareça uma vez por ano na roupagem de imortal".


De amores com o imperialismo ianque - Com a transposição de seus romances para as novelas televisivas, o revolucionário aposentado torna-se uma espécie de roteirista da Rede Globo. Gaba-se até hoje de seu passado esquerdista. Mas foi o primeiro escritor brasileiro a felicitar pessoalmente Fernando Collor de Mello por sua vitória. Claro que não foi apoiá-lo durante o impeachment. Com a nova guinada, seus livros começam a ser publicados nos Estados Unidos. Em depoimento autobiográfico, concedido em 1985 à tradutora francesa Alice Raillard, em sua mansão na Bahia, de inimigo incondicional do capitalismo, Amado vira sócio:

"Sim, esta casa... Esta casa, eu digo sempre que foi o imperialismo americano que me permitiu construí-la! Era um velho sonho meu ter uma casa na Bahia. (...) Construir uma casa na Bahia? Eu tinha vontade, mas não o dinheiro. Foi então que vendi os direitos para o cinema de Gabriela à Metro Goldwin Mayer".

Em uma entrevista concedida à Folha de São Paulo, em dezembro de 94, expõe ao repórter a mansão comprada graças aos dólares da Metro Goldwin Mayer:

"Esse é o quarto do casal. Passei a vida a xingar os americanos, mas tudo o que temos é graças ao dinheiro dos imperialistas ianques. Compramos essa casa em 63 com a venda dos direitos de Gabriela para a MGM, rodado 21 anos depois. Cobrei barato, só US$ 100 mil”. A parceria com o inimigo capitalista se revela lucrativa e permite a Amado a realização de outro sonho, morar na Paris que tanto insultou quando marxista: “Em 86, os americanos me pagaram um adiantamento alto pelos direitos de tradução de Tocaia Grande: US$ 250 mil. Juntamos com os guardados de Zélia e compramos nossa mansarda no Marais, em Paris”.

Pois este senhor, que empunhou com entusiasmo as piores e mais assassinas bandeiras do século, que no final da vida confessa sem nenhum pudor seu venalismo, é quem hoje representa o Brasil no Salão do Livro em Paris. Em verdade, tal fato não é espantar: Amado vende à Europa uma imagem que a Europa aceita como sendo a do Brasil. Ainda segundo Wilson Martins:

“A verdade é que a nossa literatura é sempre encarada como algo de exótico, de tropical. É por isso que Jorge Amado é extremamente popular nos outros países, ele oferece esse estereótipo da violência, da conquista da terra, da luta de classes e da opressão racial. Essa idéia exótica, uma espécie de ilha dos mares do sul, todos de tanga pelas ruas, armados de arco e flecha, e caçando onças na Avenida Rio Branco. Quando aparece um brasileiro branco e com grande cultura internacional, ele causa um espanto extraordinário. Nós alimentamos esse preconceito com todas as forças. Fazemos questão de mostrar que somos tropicalistas, que isto aqui é um país tropical, que somos mestiços, que branco aqui não tem vez. Quem defende tudo isso são esses grupos dos baianos e dos novos baianos, dos trios elétricos. É até um preconceito contra a cultura, no sentido ecumênico da palavra”.

Interrogado recentemente sobre como gostaria de ser lembrado em uma enciclopédia daqui a 50 anos, a grande cortesã responde com a candura dos inocentes: "Um baiano romântico e sensual. Eu me pareço com meus personagens - às vezes também com as mulheres". E talvez seja um de seus personagens femininos o que melhor representa a ambivalência do “baiano romântico e sensual”: Dona Flor, a que administrava tranqüilamente dois maridos. Ao homenagear Amado, em verdade Paris está condecorando um escritor venal, que prestou os piores desserviços ao Brasil ao lutar para transformá-lo em mais uma republiqueta soviética, em nome de uma rápida ascensão literária e fortuna pessoal.

27 março 2008

O Manifesto da Geração Coca-Cola

Uma das minhas músicas preferidas é Geração Coca-cola do Legião Urbana. Além de ser uma música divertida para festas também é retrato da Geração posterior à famosa Geração 68. Talvez a Geração Coca-cola no Brasil tenha sido a primeira geração a se afastar da cultura européia e trocar as aulinhas de francês por inglês.

“Quando nascemos fomos programados
A receber o que vocês
Nos empurraram com os enlatados
Dos U.S.A., de nove as seis.”

A Geração 68 é a que está no poder hoje no Brasil. Como já disse anteriormente, os heróis desta geração no Brasil foram Fidel Castro e os seus inimigos foram os militares. Antes que eu me esqueça, o critério que eu estou escolhendo na definição de geração são os fatos que marcaram a transição de adolescentes para a fase adulta. Um expoente da Geração 68 é o famigerado José Dirceu(1946-?).

“Desde pequenos nós comemos lixo
Comercial e industrial
Mas agora chegou nossa vez
Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês”

A Geração Coca-Cola ainda era criança quando os militares chegaram ao poder. Renato Russo (1960-1996) foi membro desta geração. Diferente da engajada Geração 68, que sonhava com o mundo dos ‘camaradas’, a geração coca-cola, identificada com o movimento punk, apregoava uma nova revolução dos costumes.


Se o Aécio Neves (1960-?) for eleito nosso próximo presidente, teremos uma troca de poder e de geração. Por outro lado, se a Dilma Roussef (1947-?) for nossa próxima mandatária, então a Geração 68 conseguirá reter o poder. Nos Estados Unidos, mais precisamente no Partido Democrata assistimos a uma luta entre a Hillary (1947-?) portanto, da geração 68 versus o Obama (1961-?).

“Somos os filhos da revolução
Somos burgueses sem religião
Somos o futuro da nação
Geração Coca-Cola”

Embora esta música esteja dialogando com a geração que deu o golpe de 64 e não a que lutou contra ele, podemos reinterpretá-la a partir da nossa atual experiência. Assim, a Geração Coca-Cola está preparada depois de assistir a Geração 68 mostrar “todas as manhas do jogo sujo”, depois de ter sacrificado todos os ideais juvenis no altar da obsessão do poder total. Quando vejo o Lula abraçado ao Chavez e tratá-lo por ‘pacificador’, não consigo conter o meu nojo. É o encontro de dois populistas carismáticos, um militarista e outro da Bolsa Família. Graças a Deus, o Brasil é maior que a Venezuela...

“Depois de 20 anos na escola
Não é difícil aprender
Todas as manhas do seu jogo sujo
Não é assim que tem que ser”

Depois da Geração Coca-Cola, tivemos a Geração que assistiu a queda do Muro de Berlim e ao desaparecimento do mundo bipolar. Esta geração viveu com grande ceticismo a retomada da democracia, a primeira eleição direta, o governo Collor, além de ter pego os militares em uma fase mais light.

“Vamos fazer nosso dever de casa
E aí então vocês vão ver
Suas crianças derrubando reis
Fazer comédia no cinema com as suas leis”

Por fim, tivemos a Geração FHC que assistiu ao nosso grande intelectual marxista tentar extirpar o corporativismo e o patrimonialismo do estado brasileiro, promovendo a amputação de algumas partes. Para estes jovens, o diagnóstico do velho professor marxista convertido ao liberalismo de que o maior inimigo do Brasil não eram os EUA, mas o estado corporativista no estilo Vargas, era por demais complicado para que eles pudessem digerir e muitos deles foram presas de um bando de professores preguiçosos e ressentidos tipicamente de esquerda. As gerações vão e vem e não há progresso. Também não devemos de ter vergonha por não querer carregar os valores da geração anterior. Pessoalmente, acho que o Brasil precisa ficar livre da Geração 68, pois esta já deu o que tinha que dar e já roubou o que tinha que roubar. Bye bye Geração 68.

25 março 2008

Dá pra voltar

Leio nos jornais que, em 2006, 11,3 mil brasileiros foram mandados de volta do Reino Unido, uma média de 31 brasileiros por dia. Desse total, 4,9 mil foram barrados nas fronteiras e 6,3 mil, deportados. No mesmo ano, a Espanha impediu a entrada de cerca de 7,7 mil brasileiros. O cálculo foi feito segundo estimativa da polícia espanhola que indica que 40% dos 19,2 mil barrados no aeroporto de Barajas, a principal porta de entrada na Espanha, vêm do Brasil. A soma das estatísticas disponíveis em três dos principais destinos de brasileiros indica que pelo menos 21,9 mil foram expulsos do Reino Unido, da Espanha e dos Estados Unidos em 2006. A soma inclui barrados nas fronteiras e deportados após um período de ilegalidade.

Assim sendo, não é fácil entender a santa indignação que tomou conta das autoridades brasileiras, quando alguns gatos pingados brasileiros foram barrados no aeroporto de Barajas. Dona Marta Teresa Smith de Vasconcelos Suplicy Favre praticamente afirmou que todo brasileiro que vai à Espanha em busca de trabalho clandestino tem de ter respeitado seu direito – adquirido? – ao trabalho clandestino. Também afirmou – pelo que se pôde deduzir de suas sandices - que a Espanha não tem o direito de barrar os estrangeiros que não quer em seu território.

Eu também migrei um dia. Foi no início dos anos 70. Percorri toda a Europa e escolhi um país para ficar, a Suécia. Minha pretensão era não mais voltar. Eu não fugia exatamente da ditadura. Fugia, isto sim, do país do carnaval e do futebol. Havia um outro problema. No diário Associado em que trabalhava, como redator, ganhava apenas oito cruzeiros a mais que o contínuo. Certamente seria mais valorizado lá fora. Ocorre que meu instrumento de trabalho era a língua. Lá vivi um ano, aprendi a língua do país, mas não a ponto de usá-la com perfeição. Olhei, vi... e voltei. Voltei quando chegou a hora de lavar pratos. Nunca lavei pratos em minha casa, não iria lavá-los para suecos. Ganharia três ou quatro vezes mais que um jornalista no Brasil. Mas considerei que não havia nascido para lavar pratos.

Internationella diskare, era como eu os chamava em sueco: lavadores internacionais de pratos. Conforme a temporada, lavavam pratos ora na Escandinávia, ora na Alemanha, ora na França. Tinham contatos na Europa toda e conseguiam levantar uma boa grana no decorrer do ano. Conheci gaúchos de famílias ricas do Sul – um deles era Eberle – que trabalhavam 16 horas por dia em diskas (lavagem de pratos) no verão sueco, e com o ganho viviam o resto do ano nas Islas Baleares ou Canárias, na Espanha. É uma opção. Mas não era a minha.

Conheço de muito perto uma moça que por cinco meses trabalhou em Wisconsin como camareira. Ganhava bem e com o que ganhou atravessou os Estados Unidos de leste a oeste. Mas teve o bom senso de voltar. Hoje trabalha na revista mais importante do Brasil. Ganha menos do que quando arrumava camas nos States. Mas logo entendeu que arrumar camas ou lavar pratos não leva a nada. Essa moça é minha filha e creio que fez a boa opção. Arrumando camas ou lavando pratos, você pode até ganhar bem. Mas acabará convivendo apenas com pessoas que arrumam camas ou lavam pratos. Não é o melhor ambiente intelectual para quem quer entender o mundo e a vida. George Orwell viveu esta experiência e a relatou em Down and Out in Paris and London, quando trabalhou como plongeur. Se se contentasse com seus ganhos em trabalho servil, não teríamos 1984.

Ainda nos anos 70, hospedei-me certa vez no Grand Hotel Saint-Michel, na rue Cujas, em Paris, que de Grand só tinha o nome. Hotel de uma estrela, precário e desconfortável, era muito procurado por brasileiros. Era gerido por madame Salvage, que tive a suprema honra de conhecer. Segundo a lenda, teria sido a querida de Diego Rivera, Pablo Neruda e Jorge Amado. Entre outros. Certa noite, ao voltar, o porteiro noturno dormia num catre, na portaria do hotel. Acordou, ergueu-se aos poucos e me pareceu reconhecer aquela calva que se erguia na semi-escuridão. Era uma calva familiar, a de Gerd Bornheim, meu professor de filosofia durante quatro anos na Ufrgs, Porto Alegre.

Fiquei perplexo. Gerd havia sido compulsoriamente aposentado pela ditadura, em 1969. Mas não estava proibido de lecionar no Brasil. Muito menos estava ameaçado de prisão. Até hoje não consegui entender como um intelectual de seu porte – sem entrar no mérito do que pensava ou não pensava – conseguia submeter-se a ser porteiro noturno de um hotel mixuruca em Paris. Enfim, Gerd acabou voltando e passou a lecionar na Uferj.

Esta pobre gente, que foge do próprio país em busca de salário decente, eu os vi em Estocolmo, Berlim, Paris, Londres, Roma, Madri. Vivem de modo geral como clandestinos, sempre assustados ao sair à rua, temendo ser deportados a qualquer momento. Ora, isto não é vida. Há quem não possa voltar. Em Londres, tive notícias de uma nordestina analfabeta, tanto em inglês como em português, mas que ganhava muito bem como faxineira. Jamais conseguiria ganhar no Brasil o que ganha na Inglaterra. É pessoa escrava de sua insciência.

Nunca tive grandes ganhos como jornalista. Meus dias de melhor salário foram os de professor universitário. Mas estes não foram meus melhores dias. Quando ganhava menos, me divertia mais. Esta brava gente brasileira que migra para lavar pratos e ofícios similares no estrangeiro não é constituída por brutos que só serviriam de mão-de-obra na construção civil. São pessoas com certo nível de instrução, muitos com curso universitário. O migrante é sempre um homem diferenciado. Quer melhor futuro para si e para os seus.

Mas não me parecem muito inteligentes. O Brasil, apesar dos pesares, apesar de todas minhas restrições, é país onde se pode viver. Penso que um emigrado de Rwanda, Congo ou Sudão, se consegue chegar a país decente, não tem razão mais alguma para voltar. Para o Brasil, dá para voltar. Os exilados de 64, que juravam só voltar ao país de metralhadora em punho e para tomar posse do poder, voltaram sem metralhadora alguma, e muitos chorando.

Imigrante não se engana. Mesmo este país precário em que vivemos ainda atrai migrantes de todos os quadrantes. Eu, que não consigo ver futuro viável para o Brasil, tenho de considerar que o país tem suas virtudes. Ainda há ilhas onde se consegue viver bem. Assim sendo, não consigo entender muito bem esta opção dos lavadores internacionais de pratos, que imploram à Europa ou Estados Unidos o direito a um trabalho servil.

23 março 2008

Lula e os Menores Infratores

Recentemente, um amigo teve a sua casa assaltada em São Paulo. Ele faltou vários dias ao trabalho para resolver questões como o registro de ocorrência, seguros e outros. Quando ele nos contou como a coisa se deu não fiquei surpreso da quadrilha contar com um menor. Segundo ele, uma mulher tocou a campainha e pediu para falar com um dos moradores pelo nome, o que fez a empregada abrir a porta. Em seguida, dois adultos e um adolescente invadiram a casa.

Felizmente, era uma quadrilha profissional que apenas roubou tudo o que havia de valor e amarrou os moradores no banheiro enquanto levava o carro com tudo o que podia levar. O chefe da quadrilha era um meliante na casa dos quarenta anos e nenhum deles estava chapado. Brinquei com ele que ele tivera sorte que os caras eram profissionais, que tinham ate mesmo um menor para segurar a bronca caso algo mais violento se sucedesse.

Não é uma brincadeira de bom gosto, mas é uma realidade inegável. Hoje e sempre, o Estatuto da Criança e da Adolescência serve para garantir o ingresso das crianças e adolescentes no crime. Esta quadrilha tinha uma vaga garantida para um menor exatamente para ele assumir a responsabilidade por qualquer violência que fosse cometida.

Lembrei-me dos meus tempos de Vara da Infância, quando cuidava dos processos dos menores infratores. Naquele época, a prisão temporária era de 45 dias e o processo tinha que correr rapidamente para impedir que o adolescente fosse liberado. O mais impressionante dos monstrinhos tinha mais de dez assassinatos, incluindo o massacre de um casal de namorados que havia sido surpreendido em uma carro. Quando anunciaram que o jovem iria vir para uma audiência foi um alvoroço, eu mesmo estava curioso em conhecer o autor de tantos crimes cujos detalhes eu conhecia de ler os processos.

Confesso que foi um pouco decepcionante, pois ele parecia um adolescente absolutamente normal. A origem socioeconômica dele era a classe media e nada em sua aparência sugeria o perigo que ele representava. A gente brincava que um menor podia entrar em um restaurante, metralhar todo mundo, se sentar e esperar a polícia. porque ele seria liberado quando completasse 21 anos, e com a ficha limpa.

Entretanto, o processo mais aterrorizante que eu já tive acesso foi o de uma dupla de garotos que estuprara uma conhecida em um terreno baldio apos se encontrarem com ela em uma lanchonete. Depois de a matarem, arrancaram o seu útero pela vagina. As fotos estavam lá no processo, que corria em segredo de justiça.

Nestas horas, eu me lembro do Mercadante, que se opôs à redução da maioridade penal e do Lula, na ocasião da morte do João Hélio, arrastado durante o roubo do carro da sua mãe, que afirmou que estes jovens não podiam ser punidos pois eram vitimas de problemas sociais. De fato, graças à imunidade garantida pelo Estatuto da Criança e Adolescência, se está garantindo o primeiro emprego de muitos jovens em boas quadrilhas. O Lula devia estar feliz pois o seu programa do primeiro emprego pelo menos está tendo algum efeito, além de engordar a sua base eleitoral.

22 março 2008

Psicoterapeutas vêem doença onde há saúde

Janer Cristaldo

Essa, agora! Leio entrevista com três psicoterapeutas que definem pessoas com uma sexualidade mais exigente como tarados, pervertidos, ninfomaníacos ou depravados. Ser entusiasta do bom esporte passa a constituir algum tipo de patologia do sexo. “Mais conhecida como compulsão sexual, esse transtorno atinge homens e mulheres, sem distinção de idade”. Segundo a sexóloga Maria Cláudia Lordello, o desejo sexual hiperativo acaba resultando em uma inquietude da pessoa. "Isso a impede de fazer outras coisas importantes da vida. Tarefas cotidianas como trabalho, estudo e vida familiar acabam ficando comprometidas, pois ela deixa de realizá-las para fantasiar ou mesmo para vivenciar esses desejos".

É curioso observar como comportamentos que admiramos no mundo da ficção ou em pessoas famosas viram vício quando cultivados pelo comum dos mortais. Don Giovanni, por exemplo. Até hoje, a famosa listina de Leporello fascina multidões em todos os salões de ópera do mundo.

Madamina!

Il catalogo e questo,
Delle belle, che ano il padron mio!
Un catalogo egli e ch'ho fatto io:
Osservate, leggete con me!

In Italia seicento e quaranta,
In Allemagna duecento trentuna;
Cento in Francia, in Turchia novantuna,
Ma, ma in Ispagna, son gia mille e tre!


Verdade que Mozart, para satisfazer uma Áustria puritana, acabou jogando Don Giovanni nos infernos. Mas o personagem que nos fascina é o galantuomo ante o qual cedem todas as mulheres e não aquele que o Commendatore manda para os abismos.

V'han fra queste contadine.
Cameriere cittadine;
V'han Contesse, Baronesse,
Marchesane, Principesse,
Ev'han donne d'ogni grado,
D'ogni forma d'ogni eta.

Nella bionda, egli ha l'usanza
Di lodar la gentilezza,-
Nella bruna la costanza,
Nella bianca la dolcezza!
Vuol d'inverno la grassotta
Vuol d'estate la magrotta;
E la grande, maestosa;
La piccina, ognor vezzosa.


Certo, Don Giovanni é um ente de imaginação. Mas se como ente de imaginação nos fascina é porque seus feitos nos fascinam. Così ne consolò mile e ottocento, diz Leporello.

Delle vecchie fa conquista
Per piacer di porle in lista:
Sua passion predominante
E la giovin principiante
Non si picca, se sia ricca,
Se sia brutta, se sia bella!
Purche porti la gonnella,
Voi sapete quel che fa!


Se você, pobre mortal de carne e osso, tenta consolar não digo mil e oitocentas, mas pelo menos algumas centenas, você deve ser um tarado, pervertido, ninfomaníaco ou depravado. Enfim, deixemos de lado o mundo da ficção. Não terão sido poucos os homens que terão tido mais de mil mulheres. Afinal, se nossos jantares e vinhos memoráveis se contam em quatro dígitos, porque o mesmo não ocorreria com as mulheres? Comentarei dois casos dos mais notórios.

CASANOVA - Para começar, Giacomo Casanova di Seingalt (1725 - 1798). Que, aliás, teve um encontro com Lorenzo da Ponte, o libretista da ópera de Mozart. Cidadão da Sereníssima República de Veneza, lista em suas Memórias algo em torno de duas mil mulheres, que perseguiu a cavalo e em diligência, de Madri e Londres a Moscou, na segunda metade do século XVIII. Quem for procurar o verbete na Internet, vai encontrar referência a 122 ou 123 mulheres. Isso é bobagem, cifra de qualquer moleque contemporâneo.

Aos sessenta anos, Giacomo Casanova aceita o convite do conde Emanuel de Waldstein para organizar a sua biblioteca e escrever as suas memórias. Os dias do veneziano acabam no palácio de Dux, na Boêmia, ao norte do território checo, onde encontrou teto, alimento e tempo para escrever. “Agora que não posso mais viver, sento e escrevo sobre o que vivi”. Sem jamais ter pretendido fazer literatura, Casanova entra na História da Literatura, em função de sua vida aventureira. Freqüentou cortes e bordéis, prisão e caserna, clero e políticos, conventos e salões literários. Quem quiser se debruçar sobre o século XVIII - seja historiador, seja sociólogo, seja mero curioso - terá em Casanova um excelente guia. Na edição brasileira (Rio, Livraria José Olympio Editora, 1957), suas Memórias abrangem dez volumes. “Sei que existi, porque senti; e, dando-me o sentimento este conhecimento, sei igualmente que deixarei de existir quando cessar de sentir. Se me acontecer sentir depois de morto, não duvidarei de mais nada; mas darei um desmentido a todos aqueles que me virão dizer que estou morto”.

Apesar de busca frenética de mulheres – que o caracterizaria como tarado, segundo as nossas sexólogas – teve vida intelectual intensa. Diz Agrippino Grieco no prefácio às Memórias:

“Se procurassem em Casanova o intelectual, o erudito, encontrariam o matemático preocupado com a duplicação do hexaedro e a quem Charles Henry consagrou longo estudo que põe insones os amadores de raridades bibliográficas; o crítico, o filólogo, o escoliaste que esmiuçou as idéias de Homero e traduziu a Ilíada em oitavas à maneira de Boiardo e Tasso; o escritor clássico capaz de efigiar mentalmente um d’Alembert e de fornecer pitorescos detalhes sobre a intimidade do trágico Crébillon e seus gatos; o humanista à altura de discutir com Voltaire e forçá-lo a recuar em mais de um conceito sobre as letras transalpinas. (...) Jogador, sonetista satírico, duelista, marinheiro, antiquário, jurista, naturalista, dando-se à magia para engodar os tolos, foi também agente secreto dos Inquisidores e correu as estradas da Europa quando estas se achavam cheias de mascates da arte, titereiros, mímicos, músicos, dançarinos, de negociantes de perfumes, de jesuítas que haviam largado o hábito, de militares alugados, de inúmeros cavalheiros de indústria e não cavaleiros da Távola Redonda”.

Paradoxalmente, escreveu um tratado do pudor e começou a redigir um dicionário de queijos. Escreveu também uma novela utópica, Icosameron.

“Cultivar o prazer dos sentidos foi sempre minha principal preocupação; nunca encontrei outra coisa mais importante. Sentindo-me nascido para o belo sexo, sempre o amei e por ele me fiz amar quanto pude. Apreciei também os bons manjares com transporte, e sempre me apaixonaram todos os objetos capazes de me excitar a curiosidade”.

Se Don Juan pertence ao território do mito, Casanova faz parte da história. Lenda ou realidade, ambos passaram a ser considerados gênios do amor. Com uma diferença: enquanto Don Juan conquista e vence as mulheres, deixando atrás de si um rastro de ódio e despeito, Casanova não quer humilhar ninguém. É uma festa para suas parceiras, que não hesitam em convidar filhas e irmãs para o bom folguedo. Em seus dias em Dux, confessa:

“Não me quererão mal quando me virem esvaziar a bolsa de meus amigos para atender aos meus caprichos, pois esses amigos tinham projetos quiméricos, e, fazendo-os esperar o êxito, esperava eu mesmo curá-los desenganando-os. Enganava-os para torná-los prudentes, e não me considerava culpado, pois nunca agia movido por espírito de avareza. Para custear meus prazeres, empregava somas destinadas à obtenção de posses que a natureza não possibilita. Se hoje estivesse rico, sentir-me-ia culpado; mas nada possuo, tudo esbanjei, e isto me consola e me justifica. Era um dinheiro destinado a loucuras: pondo-o a serviço das minhas, não desviei absolutamente seu emprego”.

Ó tempora, ó mores! Três séculos depois de Casanova, Inquisição já enterrada no passado, depois da pílula e da revolução sexual do século passado, ainda há pretensos cientistas que considerariam um pervertido esse magnífico personagem do século XVIII.

SIMENON - Vamos então a um espécime mais contemporâneo, o escritor belga Georges Simenon. Nos anos 80, creio, li uma entrevista concedida pelo escritor ao cineasta Federico Fellini, na revista Nouvel Observateur, onde ele admitia ter tido cerca de dez mil mulheres. Não tinha porque falsear dados. Tarefa mais difícil seria escrever os 431 títulos que lhe são atribuídos, entre livros publicados com o próprio nome e com pseudônimos. Isso sem falar em suas viagens por todos os quadrantes do planetinha. Consta que, em sua melhor forma, Simenon podia trabalhar onze horas corridas em sua máquina de escrever, produzindo 80 páginas por dia.

Cultor de putas alegres, de criadas gorduchinhas e de “rapidinhas” nos hotéis – segundo seus biógrafos – ele foi um Don Juan impudico, mal dissimulando sua bigamia, quando dividia sua vida entre sua cozinheira e sua segunda mulher, Denyse Ouimet. “Nós fazíamos amor todos os dias, antes do café, depois da siesta e antes de dormir”, diz Denyse. “Ele era prolixo em tudo: em sua maneira de falar, de escrever, de publicar, de fazer amor”. E, pelo jeito, tinha ainda de atender a cozinheira.

Não me parece que este apetite sexual desmesurado tenha atrapalhado a vida profissional de Simenon. Como diria – e disse – Casanova: “Devo dizer que achei o excesso para menos bem mais perigoso que o excesso para mais; porque se este último ocasiona uma indigestão, o outro acarreta a morte”.

Para Simenon, em nenhum momento as tarefas cotidianas como trabalho, estudo e vida familiar ficaram comprometidas por sua sexualidade voraz, como pretende a sexóloga. O que vemos, na declaração da moça, é um moralismo tolo – típico de terapeutas – que vê doença onde existe pujança de vida.

21 março 2008

Jesus Salva...e Marx também

Hoje é sexta-feira santa e, talvez por ser um dia religioso, observei vários carros com inscrições como Jesus Salva ou Ele é o Caminho, ou coisas do tipo. Vi um grupo de moças bem vestidas que, ao passarmos por elas, nos entregaram um folheto dizendo que todo o sofrimento cessaria se fossemos para a igreja delas. Na hora, confesso que me lembrei de Buda e as Nobres Verdades.

Ontem, um 'quase doutorando' em Economia, bastante erudito, com quem eu conversava me disse que quando os trabalhadores tomarem o poder e impuserem a ditadura dos trabalhadores, cessará todo o conflito de classes e a verdadeira história da humanidade comecará ... Não pude deixar de retrucar que esta era um idéia messiânica, ou mesmo escatológica.

A realizacão da profecia marxista depende da vitória dos 'trabalhadores' na guerra de classes. Gramsci propôs então a atualização de Maquiavel, substituindo o príncipe pelo partido, ou seja, a estratégia seria fortalecer o partido, englobando a sociedade civil e substituindo as instituições pela hegemonia do partido.

O futuro construído pelos companheiros trabalhadores seria marcado pela substituição da propriedade privada e da livre iniciativa pela submissão a instâncias burocráticas de coordenação política da produção. Curiosamente, o Partido Comunista Chinês, o partido mais poderoso do mundo, age justamente na direcão contrária: monopoliza o poder e libera a livre iniciativa, além de caminhar na direção da propriedade privada. E que Império terrível é o chinês: a colônia tibetana que o diga.

Curiosamente, o marxismo se alimenta da burguesia como o próprio Marx, que passou a vida sendo sustentado por um milionário. A idéia de uma sociedade de iguais criada com a queda do Antigo Regime e o consequente fim dos privilégios da fidalguia é uma concepção burguesa e liberal. Uma das mais remotas fontes desta idéia é o próprio cristianismo com seu ideal da formação da comunidade dos irmãos em Cristo. As doutrinas religiosas monoteístas fizeram muito pela unificação política dos estados. O cristianismo, para muitos, teria criado a Europa a partir da idéia de cristandade. No marxismo, os irmãos em Cristo se tornam os companheiros trabalhadores e, certamente, quando os companheiros trabalhadores dominarem o mundo, cessará todo o sofrimento . Quem conhece minimamente um sindicato não alimenta tantas esperanças.

A propriedade privada é uma instituição recente, com uns duzentos anos ou menos na maioria dos países. Assim, quando d. Joao VI expropria casas no Rio para o corte, estava em seu direito. No feudalismo, se podia até comprar uma propriedade, mas não se podia retirar os servos que estavam ligados à terra e não necessariamente aos senhores dela. Somente com a Revolução Industrial, e mais intensamente no século XIX, foi possível expulsar os servos das propriedades.

Assim, o marxismo depende da idéia burguesa e cristã da igualdade, da ética burguesa e protestante do trabalho, sobre a qual ele baseia toda a sua teoria do valor-trabalho que afinal vem de Adam Smith. Disto Marx deduziu que a existencia da propriedade privada é fruto da exploracao de classe por meio da extracao da mais-valia. Como disse Lenin, Marx se apoiou na economia politica inglesa, na filosofia alemã "invertida" e na teoria política francesa.

Não podemos nos esquecer que no século XIX emergia o Estado como uma instituição de controle de toda a sociedade. Anteriormente, o mais poderoso Rei 'absolutista' jamais sonharia com o poder que o Estado teria a partir do século XIX. Antes, um Rei distribuia justiça e fazia a guerra, enquanto que o Estado de polícia iniciado nos finais do antigo regime ampliou-se progressivamente, atuando na disciplinarização dos corpos para a promoção do bem-comum.

O que o futuro nos reserva? Será que o PT e aliados conseguirão se fortalecer em detrimento das demais instituições até passarem a exercer a hegemonia? Será que as novas igrejas que pregam o sucesso e a felicidade substituirão a velha Igreja Católica? Será que as pessoas entregarão a responsabilidade pela sua felicidade e bem-estar ao Estado? Aguardem na próxima semana, na mesma BatHora, no mesmo BatCanal!

17 março 2008

Nada de novo sob o sol

Confesso que o escândalo em torno ao fato de o governador de Nova York, Eliot Spitzer, freqüentar prostitutas, me deixa perplexo. Parece que ninguém lembra mais de Bill Clinton, que usava uma estagiária para felações rápidas, sem sequer pagá-la do próprio bolso. De John Kennedy, que usufruía dos serviços de uma prostitutinha de Hollywood, Marilyn Monroe. Sem falar das dezenas, talvez centenas, de outras mulheres que teve. Leio nos jornais que, antes de enfrentar Richard Nixon, em seu primeiro debate na televisão, Kennedy contratou uma garota para transar. Saiu-se tão bem na TV que nunca mais dissociou os dois atos. Em todos os debates que se seguiram, a tática política foi a mesma: uma call girl antes e, no lugar do cigarro, Richard Nixon. Consta ainda que, ao receber um dignitário estrangeiro, Kennedy ordenou a seu staff que o entretivesse, enquanto se entregava ao bom folguedo com sua mulher.

Mais ainda: parece que ninguém lembra mais do santo homem Martin Luther King, que além de plagiador de textos alheios, usava o dinheiro de suas campanhas em favor da igualdade racial para orgias com profissionais do sexo. Enquanto Spitzer é demonizado, Luther King permanece envolto em uma aura de santidade.

Spitzer usou dinheiro de campanha para pagar sexo? Bom, se assim for, nisto reside a indecência de sua atitude. Se as pagasse com dinheiro do próprio bolso, ninguém nada teria a ver com isso. Mas tanto Kennedy quanto Clinton se valiam de seus cargos, pagos com dinheiro público. E as orgias de Luther King também foram pagas com dinheiro público. Se assim foi, não vejo porque pegar no pé de Spitzer. Sua mulher, ao que tudo indica, aceita os pulos de cerca do marido. Como Hillary aceitou tranquilamente os de Clinton. Se o casal está de acordo, tudo bem.

Estou perplexo, dizia. Mas mais perplexo fiquei com a crônica de um articulista da Folha de São Paulo, João Pereira Coutinho, intitulada “Em defesa do homem infiel”. Em seu pé biográfico, diz ter 31 anos. Deve então padecer de senilidade precoce. Sua visão da mulher indica um homem de pelo menos 90 anos, nascido naqueles dias em que o macho se julgava amo e senhor de suas teúdas e manteúdas. Em sua crônica, Coutinho vê o homem infiel como uma vítima.

A infidelidade masculina é das situações mais angustiantes e desgastantes para qualquer macho. Começa por ser um desgaste físico evidente, sobretudo quando a idade avança. No espaço de poucas horas, é necessário fazer duas maratonas, ou três, ou quatro, sem que haja a mais leve suspeita de que o equipamento de corrida foi usado horas antes. É possível alegar cansaço nos primeiros tempos. Não é possível alegar cansaço todo o tempo.

Evidente bobagem, ainda mais nestes dias de Cialis e Viagra. Além do mais, a infidelidade tende a diminuir, senão a deixar de existir, com o avanço da idade. Infidelidade é para jovens, para homens de meia-idade. Nenhum ancião está obrigado a maratonas desgastantes. Se não dá no couro, que acalme seus ímpetos.

Sem falar de desgaste financeiro. Um homem infiel é, por definição, um homem de dois orçamentos. Um homem infiel nunca paga um jantar. Paga dois. Uma jóia não é uma jóia. São dois anéis, dois colares. E se vocês acham que umas férias nas Caraíbas são o supremo sonho, desenganem-se: pagar duas passagens e dois hotéis arruina qualquer carteira. Agora multipliquem pelo número de amantes. É sempre a subir: três jantares, três anéis, três passagens, três hotéis. O mesmo homem. O mesmo desgraçado.

Outra grande bobagem. Jantares não levam ninguém à falência. Quanto a jóias, isto há muito caiu de moda. É coisa de filme antigo de Hollywood. (Claro que ainda há quem se paute pelos filmes antigos de Hollywood). No que diz respeito a viagens, se o tal de infiel escolheu bem suas parceiras, elas podem arcar com os próprios gastos. Ou seja, as viagens se tornam inclusive mais baratas. Já viajei com minha mulher e uma antiga namorada pelas ilhas gregas e cada um pagou sua parte.

E depois contamina as grandes coisas: a necessidade de elaborar planos para que as mulheres nunca se encontrem. Um homem infiel nunca vive na paz dos inocentes. Na paz da mulher enganada. Um homem infiel é uma agenda ambulante. Para ele, um dia não é um dia: é uma estratégia de batalha, com horários fixos e medos infantis de que a porta do elevador possa abrir na altura errada. O stress e a ansiedade são simplesmente intoleráveis.

Simples. Basta não mentir. Coutinho está partindo do pressuposto de que mentir é lícito. Sempre me encontrei com minhas namoradas nos mesmos bares. Todas sabiam de todas. Nunca escondi uma da outra. O que me valeu um comentário irônico do atual ministro da Justiça. Freqüentávamos os mesmos bares e certa vez Genro comentou: “O Janer deve ser uma pessoa cheia de problemas, todos os dias está com uma mulher diferente”. Ora, eu tinha muitas soluções. Problemas teria ele, que tinha uma só.

E se vocês acreditam que Borges ou Kafka eram dotados de criatividade, lamento informar-vos: não existe romancista que se compare à fértil imaginação do homem infiel. Porque ele produz e reproduz mentiras oralmente. Não as registra. Não as escreve. Ele funciona como os antigos rapsodos da Grécia, que sabiam Homero de cor e salteado. Isso exige um esforço de memória torturante para não arruinar a narrativa oficial com caprichos, ou esquecimentos, momentâneos. Um homem infiel tem de ser coerente até à insanidade.

Como dizia, o cronista considera a mentira como um recurso perfeitamente normal. Se há algo que não entendo nas relações humanas, é o fato de um cônjuge mentir para o outro. Como mentir para a pessoa com quem vivemos sob o mesmo teto, com quem compartilhamos o mesmo leito? Quem mente para esta pessoa, mente para todo mundo.

Minha vida, graças ao bom deus dos ateus, foi farta em mulheres. Nunca precisei mentir. As namoradas que mais prezei se tornaram grandes amigas de minha Baixinha e todas choraram sua morte. Mesmo as que nutriam algum ciuminho choraram. Suponho que eu não tenha sido o único de minha geração a levar tal forma de vida. Comecei minha vida afetiva lá pelos anos 60. Aliás, comecei com duas mulheres, tanto que não posso falar de uma primeira namorada. Tenho de usar o plural, as primeiras. Na época, em alguns países da Europa, particularmente na França, praticava-se o échangisme. Homem e mulher saíam juntos em busca de outros parceiros sexuais. Depois, a peste estragou a festa. De qualquer forma, nas grandes cidades ainda restam clubes de swingers. Na Internet há sites específicos para combinar encontros. Os swingers, de modo geral, constituem parcerias sólidas. Não há mentira.

Este comportamento anula o conceito de infidelidade. Não vejo infidelidade nenhuma se alguém, de comum acordo com seu parceiro ou sua parceira, se relaciona com terceiros. Se não há mentira, o conceito de infidelidade cai no vazio. É óbvio que Silda Spitzer deveria estar ciente dos casos de seu marido. Como Hillary Clinton certamente não era uma casta esposa inocentinha que ignorasse as escapadelas de Bill. O rosto contrito destas senhoras, na hora de perdoar os respectivos, é jogo de cena para a platéia. Ou melhor, para a baixa classe média. Não há pecado abaixo da linha do Equador, diziam os lusos. Não há pecado da classe média para cima, digo eu.

Se há algo a deplorar na affaire, é a hipocrisia do governador de New York. Combatia com rigor a prostituição, ao mesmo tempo em que degustava o filé do ofício. Quanto ao mais, nada de novo sob o sol. Os mais árdegos moralistas em geral são grandes devassos.

Há a hipótese de que Coutinho tenha pretendido fazer humor. Se pretendeu, foi infeliz.

O que são os EUA?

Em DST's, sexo, moraleiros&negócios, o autor diz:

"A América é outra terra. Cada vez que me sento à mesa com americanos, fala-se de Bíblia e "valores cristãos", ou fala-se de dinheiro. Não me espanta que os EUA, com tão entranhada inclinação para moralizar, tenham 30% das raparigas com menos de 25 anos com uma DST e que para se alcançar a cúspide de um dos centos de igrejas-empresa se coloque como requisito possuir conta bancária e património milionários. O negócio está-lhes entranhado no sangue. Sem aristocracia e tradições aristocráticas, os EUA produziram uma ética de desembaraço que tudo desculpa e isenta no plano da reprodução do dinheiro, mas exige uma ética sexual que dir-se-ia mosaica. Contudo, nada ali é mosaico. Aquela sociedade acostumou-se de tal maneira às públicas virtudes e pecadilhos privados que não sabemos onde começa uma e a outra acaba. É o preço de 400 anos de calvinismo e duzentos de negócios. Se há na cultura americana coisas que verdadeiramente me seduzem - cuidado com a palavra - tais como a bela filmografia e a excelente literatura, outras levam-me a questionar se estamos perante uma derivação do Ocidente, ou de uma civilização absolutamente distinta feita de sobras e refugo do pior que a Europa mercantilista produziu; aquela Europa dos mercadores e da caça às bruxas do século XVII que persiste sobreviver para além do razoável. Talvez seja tempo para os republicanos irem dar uma volta !"

O post é interessante. Mas, me pergunto qual sociedade não apresenta a dualidade moral/sexo? Só que representada de modo diverso, bem diverso como podemos ver no caso brasileiro dentre tantos outros. Li numa National (Geographic), matéria em que o fotógrafo americano fora indagado sobre sua origem pelo taxista moçambicano que asseverou como admirava seu país. Ao lhe perguntar se gostaria de se mudar para lá, o motorista respondeu que sim, mas que morava com seus pais e estes não suportariam viver daquele jeito, pois "eram muito cristãos". O narrador levou um choque, pois se apercebera do abismo existente entre o que achamos que somos e como os outros nos vêem.
Eu em minhas viagens sempre tive que me explicar muito sobre como é o Brasil para quem tinha uma vaga idéia, na melhor das hipóteses e estereótipos, na pior. Assim me pergunto, se o que vemos dos EUA quando os julgamos não corresponde mais a algo que supomos existir do que o que realmente são.
Sim, os EUA são diferentes porque são o país do excesso. Tudo lá é "mais", o que é reflexo de sua economia. Ou sua economia é que é reflexo de seu ethos? Não sei... Veja, quando se fala em liberdade, muitos utilizam esta palavra em termos muito abstratos para o meu gosto. Há, na verdade, "liberdades". Da mesma forma como é muito comum vermos nos EUA, um pastor empunhar sua Bíblia justificando a Pena Capital, o que é fruto de sua liberdade de expressão, temos o jogo e a prostituição. Mas, também, de forma aparentemente paradoxal, temos a liberdade de legislar contra o que pode se entender como perversão. Aí entram as aparentes contradições que, com rapidez no julgamento, chamamos de "hipocrisia".
Um antigo aluno me falava, indignado, que fora barrado na porta de um cassino em Las Vegas... "Como aqui pode ser chamado de 'país da liberdade' se não me deixam andar na rua?" Detalhe: ele estava parado quando foi abordado. Menores de idade não podem ficar no cassino, apenas passar por eles. Contradição? Penso que não. Trata-se, sim, de algo diferente. Ruim, bom, errado, certo? Isto é relativo. Quando dei aula num curso em Santos fiquei impressionado como as meninas se vestiam, extremamente à vontade. No entanto, a cidade tinha uma igreja em cada esquina. Já, subindo a serra cerca de 100km, em São Paulo, elas usavam calças, mas eram muito mais liberais. Em Os Confins da Terra, o excelente Robert Kaplan fala do Irã que, em sua visita ao país era comum os convidados serem agraciados por uma dança do ventre executada pela esposa do anfitrião. Observou também o contraste entre as cidades mais religiosas e aquelas, como Teerã, onde as mulheres namoravam em parques públicos com suas unhas delicadamente pintadas. Exceto pelo uso do véu (não tão ostensivo quanto na Arábia Saudita), é muito parecido com nosso país. Afinal não temos "cidades carolas" como São João del Rey, MG e outras mais libertinas. Em que pese toda a repressão sexual no mundo islâmico, sírios e sauditas são conhecidos por seus excessos em casas de prostituição, especialmente quando saem do país. É como se fora daquele ambiente cultural, deus fizesse vistas grossas.
Outro amigo que esteve em Miami falava-me da venda livre de cachimbinhos metálicos para crack nas lojas. Ao que protestei: "Como? A droga não é proibida?" Sim, mas não a venda de cachimbos, me replicou. Custei para aceitar e custei mais ainda para entender: uma lei não pode contradizer outra. Não me perguntem quais leis, estou "inferindo", chutando em bom português, mas acho que é isso mesmo. Da mesma forma que o policiamento ostensivo não pode ir contra a 2ª Emenda, a garantia constitucional de portar armas. E há quem defenda que a 1ª Emenda só existe devido a existência da 2ª...
Por outro lado, o que importa são os atos. Isto é interessante e muito diferente do que temos aqui. Um nazista pode divulgar suas idéias, pode fazer seu proselitismo de ódio tranqüilamente. Só que se pisar fora da linha é preso. Pensemos... Nazistas existem, o ódio sempre existirá. O que é melhor, então? Proibir o uso da suástica ou permiti-la, vigiando quem faz apologia nazista? No Canadá e na Alemanha, a saudação nazista é proibida, mas isto garante que suas hostes não se formem ou estão certos os americanos que os permitem, mas os prendem tal como já desbarataram a KKK no passado?
A Ku Klux Klan continua ativa, embora bem mais fraca e desacreditada. No entanto, ela se forma novamente... De um ponto de vista sociológico a la Durkheim, os americanos e seu sistema jurídico estão certos, pois uma certa dose de crime aprimora os mecanismos de repressão. E me perdoem pelo "raciocínio organicista" que lançarei mão, mas sem pegar nenhuma gripe, o dia que nos depararmos com um viruzinho qualquer padeceremos tal qual um ianômami.
Para aqueles que não gostam de drogas, sexo, prostituição há o dry county onde é proibida a venda de bebidas alcoólicas. Ou seja, há a "liberdade de proibir", o que parece um brutal contra-senso. Não é, se levarmos em conta que os EUA não são apenas um país liberal, conservador, mas também democrático. País no qual vigora esta "ditadura da maioria", como os liberais (no sentido europeu do termo) gostam de se referir à democracia, tratando-a como engodo.
Isto é de suma importância, pois a democracia, em meu conceito, não serve apenas para estabelecer consensos, mas também (o que é o outro lado da moeda) para regular dissensos, regular conflitos. Eu endosso isto, desde que, é claro, haja lugares onde eu possa migrar e me ver livre daqueles com quem não partilho princípios comuns.
Mobilidade me parece um conceito chave para entendermos aquele país, tanto no sentido literal, físico - ride to live, live to ride diz o lema da Harley Davidson -, como no sentido de ascensão social (ou sua queda...). Assim, tenho facilidade para migrar ao procurar emprego (o que a UE também almeja, mas muito mais "burocratizadamente" porque, afinal, são vários países) ou para me encontrar em um estado, condado, cidade, bairro que tenha mais a ver com meu estilo pessoal de vida.
O entendimento deste conceito, a democracia tem como pré-condição o afastamento dos dogmatismos socialista e liberal. Trata-se de procurar entender uma espécie de "engenharia social" típica daquele país que aceitou o federalismo, ou seja a União sacrificando a total autonomia que outras colônias poderiam ter e substituindo-a por outra que portasse a liberdade dentro de um imenso território sem fronteiras. Caso não existisse este princípio de agrupamento com manutenção de certas peculiaridades, talvez tivéssemos mais países comuns aos modelos já conhecidos e experimentados.
Em suma (baita pretensão...), os EUA são isto, um mix de equilíbrio entre tradições religiosas, seculares, liberais, conservadoras, democráticas e realistas. Esta última característica, se levarmos em conta seu intervencionismo externo.
Para entendermos aquela particular formação social cabe admitirmos que não é um "equilíbrio perfeito", harmônico, no qual não existem tensões. Mas, no final das contas, "o troço" acaba funcionando. Mal ou bem está aí, em forma.
____________

PS: Quanto aos "30% das raparigas com menos de 25 anos com uma DST", nada encontrei, por enquanto... Exceto, se ele estiver pensando em fungos como Candidíase (muito comuns). Ou seja, uma coceirinha daquelas que qualquer um já teve...

10 março 2008

Jamais voe pela TAM

Relato de André Caramante, enviado especial da Folha de São Paulo a Madri, para reportagem sobre migrantes brasileiros:

Foi assim com a reportagem: "Lugar da hospedagem em Madri para a emissão do seu bilhete, senhor?", questionou a funcionária Shayane, da TAM. "Não tenho lugar definido ainda, senhora." "Então, não vou poder emitir sua passagem", foi a volta dela, já balançando a cabeça. "Mas, quando comprei a passagem, não me disseram que não poderia viajar sem lugar definido para ficar. Já que é assim, põe qualquer coisa aí."

"Então não tem bilhete, senhor, pois, sem o endereço no destino declarado vai contra as nossas normas", disse Shayane. Ao ouvir o nome de uma rede qualquer de hotéis, Shayane resolveu emitir o bilhete.

Alerta aos navegantes: não viaje pela TAM. Uma empresa aérea não tem competência alguma para exigir de seus passageiros lugar de hospedagem. Mais ainda: a Espanha nunca exigiu lugar de hospedagem já determinado para nela entrar. Neste 2008, completo 37 anos de viajar e quase sempre entro ou saio pela Espanha. Ano passado, estive lá com duas amigas. Não perguntaram por nada. Nunca me fizeram tal exigência. Muito menos qualquer outro país da Europa. Nem nos países do Leste europeu, mesmo na época do comunismo. Só tive este problema quando fui à Rússia.

Sempre tive alguma curiosidade por Moscou e São Petersburgo. Em meus dias de Paris, havia viagens baratíssimas para Moscou, financiadas em parte pelo PC francês. O que não me estimulava a viajar era a burocracia dos bolches. Em primeiro lugar, eu teria de determinar data de chegada e de saída em cada cidade. Isso de gostar de uma cidade e nela prolongar a estada era inviável. Além disso, tinha de reservar – e pagar – antecipadamente os hotéis. Se quisesse viajar de carro – o que não era meu caso – teria de enfrentar meses de conversações com a Intourist. E não poderia desviar-me um milímetro do roteiro pré-estabelecido. Ora, naqueles anos eu tinha o hábito de chegar em uma cidade de mala na mão e sair a procurar hotel. Paulo Silveira, falecido diretor do Instituto Brasil-URSS, de Porto Alegre, me disse certa vez:

- Não pensa que Moscou é uma bagunça como Paris, onde podes chegar de mala em punho e procurar hotéis. Nada disso. Sem hotel pago, nada feito.

O velho bolche louvava como virtude o que era uma exigência estúpida dos russos. Ora, com tantas cidades a conhecer na Europa, onde eu podia entrar, sair ou ficar quanto tempo entendesse, declinei das facilidades do PC francês. Bom, no ano 2000, fiz um giro pela Noruega e decidi visitar uma amiga na Finlândia. Como de Helsinki a São Petersburgo são apenas sete horas de trem, disse para mim mesmo: é hoje ou nunca mais. Em São Paulo, procurei a Tchaika, agência especializada em viagens à Rússia.

Nove anos depois da queda do comunismo, em nada havia mudado a burocracia. Para entrar no país, só com hotel previamente pago. E com datas de entrada e saída previamente determinadas. Mesmo assim, fui. Paguei 112 dólares por um hotel que mais parecia colônia de férias de brigadianos. Para se ter uma idéia do absurdo destes preços: eu descera lentamente de Tromsø pela Suécia, que é um dos países mais caros da Escandinávia. Em Luleå e Skellefteå, me hospedei em hotéis agradabilíssimos, pagando algo entre 60 e 70 dólares. Mais ainda: ao chegar em São Petersburgo, meu passaporte foi retido pela polícia por 24 horas. Mas que tem a polícia russa a ver com minha visita ao país?

Outro detalhe abominável do sistema. Um russo, para visitar o Hermitage, paga 15 rublos. Estrangeiro, 250. Sim, sei que 250 rublos é uma fortuna para um russo. Mas essa discriminação é extremamente antipática. Em suma, Rússia nunca mais. Decidi também que Moscou já estava vista. Pelo jeito, precisarão de mais um século para libertar-se dos vícios do comunismo. E como então não estarei mais aqui...

Outro país onde quase me incomodei foi a Argélia. Em Estocolmo, tive como colega em meu curso de sueco uma adorável suissesse, a escritora Federica de Cesco, vide http://de.wikipedia.org/wiki/Federica_de_Cesco. Um filme sobre sua vida estreará este ano na Suíça). Entre os mais de quarenta livros que havia escrito na época, emprestou-me o que considerava sua obra mais importante, Tuaregs, os nômades do Sahara. Fascinei-me pelo Sahara argelino e decidi que um dia meus pés pisariam aquelas rochas.

Foi nos anos 70, já não lembro em qual deles. A Baixinha queria saber para onde viajaríamos. Botei o dedo no mapa, em El Hoggar. “Enlouqueceste? – disse a Baixinha. Que vamos fazer no deserto?”

Verás, respondi. Bom, compramos o pacote. Fomos então ao consulado da Argélia retirar o visto. Naqueles dias, o passaporte brasileiro tinha, em suas primeiras páginas, a profissão do portador. Pus, orgulhosamente: jornalista. Supunha que minha profissão me abriria portas no mundo todo. Ao ler a palavrinha, o funcionário perguntou:

- O senhor é jornalista?
- Sou, respondi.
- Ah, então é por aqui.

Retirou-me do guichê e me conduziu a uma outra porta. Maravilha ser jornalista, pensei. Tratamento privilegiado. Lá no outro aposento, ele abriu a gaveta de um arquivo, com centenas de pastas.

- São 400 pedidos de visto de jornalistas. Estão esperando aqui há mais de seis meses.

Gelei. Eu pagara caro pelo pacote. Senti meus dólares criando asinhas e voando. Tentei um último recurso. Expliquei que fora jornalista. Que há muito havia abandonado a profissão. Que agora era pesquisador e tradutor. Que fazia um doutorado na Sorbonne Nouvelle. Curiosamente, colou.

Há alguns anos, um amigo português que voltava da França, me jurou que a França estava exigindo um seguro-saúde equivalente a 50 mil euros para entrar no país. Não acredito, disse. Não pode ser. Não é viável, ó luso! Se, por razões de negócios, digamos, tenho de passar um ou dois dias em Paris, tenho de pagar seguro equivalente a 50 mil euros? Se estou em Bruxelas e quero almoçar com uma amiga em Paris, tenho de pagar tudo isso? Além disso, se entro no país de trem, quem vai controlar o seguro? Haverá agentes em cada gare interrogando os passageiros?

O luso sentiu-se ofendido e telefonou para o consulado. De fato, responderam, para entrar na França se exige um seguro-saúde de 50 mil euros. Continuei não acreditando. É medida inviável. Telefonei para minha agente de turismo. “Sim, de fato existe essa lei. Mas não é para ti. Jamais te perguntarão por esse seguro. Foi feita para barrar árabes”.

Ou seja, há muita bobagem nessa discussão sobre a expulsão de brasileiros da Espanha. Nunca voe pela TAM.

07 março 2008

Contribuinte paga salário do terror

Enquanto a imprensa e a opinião pública se indignam com o escândalo do mensalão e dos cartões corporativos, a companheira de Carlos Marighella, fundador da ALN (Ação Libertadora Nacional), será indenizada com a prestação mensal permanente continuada, ou seja, vitalícia, de R$ 2.520,00, além de indenização retroativa de R$ 165 mil. Não ouço protestos em jornal algum.

Se as novas gerações já não lembram, Marighella foi mais um entre tantos bolcheviques que tentaram transformar o Brasil em uma republiqueta soviética através da luta armada. É de sua autoria o Manual do Guerrilheiro Urbano, escrito em 1969, para servir de orientação aos movimentos armados.

Vejamos algumas pérolas deste manual:

Mas a característica fundamental e decisiva do guerrilheiro urbano é que é um homem que luta com armas; dada esta condição, há poucas probabilidades de que possa seguir sua profissão normal por muito tempo ou o referencial da luta de classes, já que é inevitável e esperado necessariamente, o conflito armado do guerrilheiro urbano contra os objetivos essenciais:

a. A exterminação física dos chefes e assistentes das forças armadas e da polícia.

b. A expropriação dos recursos do governo e daqueles que pertencem aos grandes capitalistas, latifundiários, e imperialistas, com pequenas expropriações usadas para o mantimento do guerrilheiro urbano individual e grandes expropriações para o sustento da mesma revolução.

É claro que o conflito armado do guerrilheiro urbano também tem outro objetivo. Mas aqui nos referimos aos objetivos básicos, sobre tudo às expropriações. É necessário que todo guerrilheiro urbano tenha em mente que somente poderá sobreviver se está disposto a matar os policiais e todos aqueles dedicados à repressão, e se está verdadeiramente dedicado a expropriar a riqueza dos grandes capitalistas, dos latifundiários, e dos imperialistas.

Uma das características fundamentais da revolução brasileira é que desde o começo se desenvolveu ao redor de expropriações da riqueza da burguesia maior, imperialista, e dos interesses latifundiários, sem a exclusão dos elementos mais ricos e dos elementos comerciais mais poderosos envolvidos com a importação e exportação de negócios.

E mediante a expropriação da riqueza dos principais inimigos do povo, a revolução brasileira foi capaz de golpeá-los em seus centros vitais, com ataques preferenciais e sistemáticos na rede bancária, isto é, os golpes mas contundentes foram contra o sistema nervoso capitalista.

Os roubos a bancos realizados pelos guerrilheiros urbanos brasileiros machucaram os grandes capitalistas tais como Moreira Salles e outros, as empresas estrangeiras que asseguram e reasseguram o capital bancário, as companhias imperialistas e os governos estatais e federais, todos eles sistematicamente expropriados desde agora.

Os frutos destas expropriações tem sido dedicados ao trabalho de aprender e aperfeiçoar as técnicas de guerrilha urbana, à compra, à produção, e ao transporte de armas e munições das áreas rurais, ao aparelho de segurança dos revolucionários, ao mantimento diário dos soldados, àqueles que foram libertados da prisão por forças armadas e àqueles que foram feridos ou perseguidos pela polícia, ou a qualquer tipo de problema que envolva camaradas que foram libertados da cadeia, ou assassinados pelos policiais e pela ditadura militar.

No Brasil, o número de ações violentas realizadas pelos guerrilheiros urbanos, incluindo mortes, explosões, capturas de armas, munições, e explosivos, assaltos a bancos e prisões, etc., é o suficientemente significativo como para não deixar dúvida em relação as verdadeiras intenções dos revolucionários. A execução do espião da CIA Charles Chandler, um membro do Exército dos EUA que venho da guerra do Vietnã para se infiltrar no movimento estudantil brasileiro, os lacaios dos militares mortos em encontros sangrentos com os guerrilheiros urbanos, todos são testemunhas do fato que estamos em uma guerra revolucionária completa e que a guerra somente pode ser livrada por meios violentos.

Esta é a razão pela qual o guerrilheiro urbano utiliza a luta e pela qual continua concentrando sua atividade no extermínio físico dos agentes da repressão, e a dedicar 24 horas do dia à expropriação dos exploradores da população.
(...)

A razão para a existência do guerrilheiro urbano, a condição básica para qual atua e sobrevive, é o de atirar. O guerrilheiro urbano tem que saber disparar bem porque é requerido por este tipo de combate.

Na guerra convencional, o combate é geralmente a distância com armas de longo alcance. Na guerra não-convencional, na qual a guerra guerrilheira urbana está incluída, o combate é a curta distância, muito curta. Para evitar sua própria extinção, o guerrilheiro urbano tem que atirar primeiro e não pode errar em seu disparo. Não pode desperdiçar suas munições porque não tem grandes quantidades, por isso tem que economizar. Tampouco pode recarregar suas munições rapidamente, porque é parte de um grupo pequeno na qual cada guerrilheiro tem que se cuidar sozinho. O guerrilheiro urbano não pode perder tempo e deve poder atirar de uma só vez.

Um fato fundamental, que queremos enfatizar completamente e cuja importância fundamental não pode ser subestimada, é que o guerrilheiro urbano não deve de disparar continuamente, utilizando todas suas munições. Pode ser que o inimigo não esteja disparando precisamente, e esteja esperando que as munições do guerrilheiro hajam gastado. Em tal momento, sem ter tempo para recarregar suas munições, o guerrilheiro urbano enfrentará uma chuva de fogo inimigo e pode ser aprisionado ou morto.

A pesar do valor do fator surpresa que muitas vezes faz com que seja desnecessário o uso de suas armas, não pode ser permitido o luxo de entrar em combate sem saber atirar. Cara a cara com o inimigo, tem que estar em movimento constante de uma, posição a outra, porque o ficar em uma só posição o converte num alvo fixo e, como tal, muito vulnerável.

A vida do guerrilheiro urbano depende de atirar, na sua habilidade de manejar bem as armas de pequeno calibre como também em evitar ser alvo. Quando falamos de atirar, falamos de pontaria também. A pontaria deve de ser treinada até que se converta num reflexo por parte do guerrilheiro urbano.

Para aprender a atirar e ter boa pontaria, o guerrilheiro urbano tem que treinar sistematicamente, utilizando todos métodos de aprendizado, atirando em alvos, até em parques de diversão e em casa.

Tiro e pontaria são água e ar de um guerrilheiro urbano. Sua perfeição na arte de atirar o fazem um tipo especial de guerrilheiro urbano – ou seja, um franco-atirador, uma categoria de combatente solitário indispensável em ações isoladas. O franco-atirador sabe como atirar, a pouca distância ou a longa distância e suas armas são apropriadas para qualquer tipo de disparo.
(...)

Antes de qualquer ação, o guerrilheiro urbano tem que pensar nos métodos e no pessoal disponível para realizar a ação. As operações e ações que demanda a preparação técnica do guerrilheiro urbano não podem ser executadas por alguém que carece de destrezas técnicas. Com estas precauções, os modelos de ação que o guerrilheiro urbano pode realizar são os seguintes:

a. assaltos

b. invasões

c. ocupações

d. emboscadas

e. táticas de rua

f. greves e interrupções de trabalho

g. deserções, desvios, tomas, expropriações de armas, munições e explosivos

h. libertação de prisioneiros

i. execuções

j. seqüestros

l. sabotagem

m. terrorismo

n. propaganda armada

o. guerra de nervos



Tais habilidades são exigidas para quê? Para transformar um país em uma ditadura comunista. A mulher deste celerado foi recompensada com uma pensão mensal vitalícia de 2.520 reais. Você, contribuinte, está pagando o salário do terror. Você está tão anestesiado que já nem chia.

06 março 2008

Os Últimos Dias de Bush

Bush ganhou uma eleição roubada por um juiz da Suprema Corte indicado por seu pai que mandou suspender a recontagem dos votos a pedido de uma procuradora indicada por seu irmão. Na verdade, ele somente conseguiu ser governador do Texas e o indicado do Partido Republicano para a presidência porque seu pai foi um homem extraordinário. O velho Bush foi piloto de mais de uma centena de missões na Segunda Guerra Mundial, tornou-se milionário no Texas, senador, diretor da CIA, embaixador na China, presidente do Comitê das Forças Armadas no Senado, vice-presidente e presidente dos EUA e ainda é o nome do aeroporto do Texas. Por fim, deu porrada no velho Saddam quando ele tentou conquistar o Kwait.

No 11 de setembro, os EUA são atacados por sauditas que haviam sido outrora treinados para lutar contra os soviéticos no Afeganistão. Bush atacou o Afeganistão e devastou os Talibãs, seus antigos aliados em busca de Bin Laden, mas falha completamente ao enviar poucas tropas e ao assistir o ressurgimento das guerrilhas. Novamente, os gringos falharam e não terminaram o serviço, afinal, quando os soviéticos foram derrotados com o apoio americano, o Afeganistão estava devastado e foi entregue a uma população composta em sua maioria por menores de 18 anos e as armas estavam em poder de fanáticos religiosos muito úteis na luta contra os soviéticos mas absolutamente incapazes de entender um mundo não tribal.

O ataque ao Iraque foi no sentido de completar o serviço iniciado por seu pai, que quando derrota Saddam abandona os oposicionistas do regime, que são massacrados pelo ditador quando as tropas americanas decidem não invadir o Iraque. Isto e conquistar muito petróleo. O problema é que hoje os EUA não podem sair do Iraque sem que ele caia sob a influência do Irã. Por outro lado, os democratas querem deixar o serviço feito pela metade. Os republicanos compreendem que, ou se estabiliza o Iraque ou os EUA sofrerão uma derrota de proporções imprevisíveis que junto com a crise econômica e o festival de massacres nas universidades poderiam lançar os EUA em uma profunda depressão.

Bush é um cara simpático, na High School americana devia ser aquele sujeito boa praça que levava os amigos para brincar na mansão do pai e ainda deve ter sido o Rei do Baile de Formatura. Mais tarde se tornou um alcoólatra, falido e salvo por Deus e seu pai do vício e da pobreza. Acho que desde a Revolução Francesa não houve um “Imperador” tão desmoralizado como o Bush. Na TV, ele já tem duas séries de humor dedicadas a ridicularizá-lo e tem fornecido material para os comediantes há anos. A desmoralização do Rei é sempre perigosa, como pode ser atestado pela Revolução Francesa. Fidel Castro mesmo é extremamente intolerante contra a crítica ou o ridículo do governante porque como um revolucionário prático ele conhece o seu poder. Para ele, lugar de comediante é apodrecendo na prisão.

Enfim, já que o Bush fracassou completamente em termos geopolíticos e mais recentemente econômicos com o avanço da China, ressurgimento da Rússia, desvalorização do dólar, recessão, fracasso no apoio ao golpe contra Chávez, e ainda temos o ressurgimento do socialismo na América Latina, então ele talvez pudesse nos fazer um favor e jogar uma bomba no Palácio Presidencial de Chávez. Com isto, ficaríamos livre de uma corrida armamentista e uma possível guerra. Quanto aos efeitos colaterais, seriam mínimos pois tenho certeza que Chávez não conseguiria se tornar um mártir, afinal, Che fica bem melhor em uma camiseta.

05 março 2008

STF decide hoje entre Galileu e a Inquisição

Em crônicas passadas, eu me perguntava se um católico poderia ser médico. Minha conclusão era pela negativa. De repente, em nome de uma fé obsoleta, o profissional se recusa a pôr fim aos sofrimentos de um doente terminal que quer morrer. Se recusa a prescrever anticoncepcionais a mulheres que não querem privar-se dos prazeres sexuais e ao mesmo tempo não querem ter filhos. Se recusa a praticar o aborto em uma paciente que sabe que terá um filho anencéfalo. E daí pela frente.

Me perguntava também se um católico poderia ser jornalista. E minha conclusão continuava sendo pela negativa. O católico está preso aos dogmas, afirmações sem pé nem cabeça feitas pela Igreja, das quais católico algum pode discordar. Um jornalista católico tem de acreditar piamente que Cristo nasceu de uma virgem, que ressuscitou três dias após sua morte, que subiu aos céus, que Deus é três em um (o Pai, o Filho e o Paráclito), sendo que ao mesmo tempo cada um é Deus. Tem também de acreditar, embora isto ande um pouco esquecido, que ao ingerir a hóstia consagrada está ingerindo não pão sem fermento, mas a verdadeira carne de Cristo. E que, ao beber o vinho consagrado, bebe não vinho, mas o verdadeiro sangue de Cristo. Claro que tais crenças não recomendam ninguém ao exercício do jornalismo.

A pergunta hoje é outra. Pode um católico ser juiz? Pode ser ministro do Supremo Tribunal Federal? Continuo achando que não.

Os 11 ministros do STF decidirão hoje quando começa a vida e determinarão, conseqüentemente, se as células-tronco embrionárias podem ser usadas em pesquisas científicas, como determinou a Lei de Biossegurança, de 2005, ou se devem ser protegidas pela Constituição como todo ser humano. A história já começa de modo estranho: especialistas em Direito tomarão uma decisão sobre questões científicas. Os senhores ministros podem até decidir se o uso de células-tronco embrionárias é ou não é crime. Isto está dentro de suas alçadas. O que não podem é fixar por lei quando começa vida. Uma ação de inconstitucionalidade, foi apresentada pelo ex-procurador-geral da República Claudio Fonteles, que faz lobby para a Igreja Católica. Pode um procurador ser católico? Diria que não.

Para começar, a questão de quando começa a vida não pode ser coisa que se submeta à votação. Não é o voto que estabelece a veracidade de um fato. E sim a ciência. Verdade não depende de estatística. Em segundo lugar, fés – quaisquer que sejam – não podem impor leis em sociedades laicas. Apesar do desejo de Roma, o Brasil não é uma teocracia. Se esses misóginos vulturinos querem legislar dentro daquele arremedo de Estado que se chama Vaticano, sintam-se à vontade. Mas que não pretendam legislar em Estado alheio.

Sabe-se que as pesquisas com células-tronco retiradas de embriões destruídos são cruciais para estudos que buscam a cura para males que vão de diabetes a lesões neurológicas. Seu potencial terapêutico vem do fato de elas serem células "genéricas", capazes de compor qualquer tecido humano. A Igreja, que um dia ameaçou com a fogueira o homem que disse que o sol não girava em torno à terra, quer agora impedir a pesquisa sobre a cura de doenças muitas vezes cruéis que assolam os seres humanos. A Igreja diz falar em nome da vida. Em nome da vida, está ameaçando de morte toda a humanidade.

Segundo o Estado de São Paulo, a decisão do STF poderá contrariar um dogma da Igreja Católica, de que a vida começa na concepção, ou colocar um fim numa importante linha de pesquisa científica que procura a cura ou novos tratamentos para doenças degenerativas. A questão colocada é a mesma do aborto, determinar o momento do início da vida. Ora, o redator demonstra desconhecer a história da Igreja. Jamais foi proclamado dogma sobre o início da vida. As atuais considerações sobre o início da vida pertencem ao magistério da Igreja, não ao campo dos dogmas. Está faltando, no Estadão, redator que saiba o que é dogma.

Escrevi ainda há pouco que nossos purpurados parecem esquecer que a Igreja, durante séculos, admitiu o aborto. Que dois de seus campeões, são Tomás e santo Agostinho, eram favoráveis ao aborto. Segundo o aquinata, só haveria aborto pecaminoso quando o feto tivesse alma humana o que só aconteceria depois de o feto ter uma forma humana reconhecível. Para o Doutor Angélico, como o chamam os católicos, a chegada da alma ao corpo só ocorre no 40º dia de gravidez. A posição de Aquino sobre o assunto foi aceita pela igreja no Concílio de Viena, em 1312. Foi em pleno século XIX, em 1869 mais precisamente, que o Papa Pio IX declarou que o aborto constitui um pecado em qualquer situação e em qualquer momento que se realize. O que me espanta neste debate é que não vemos, na grande imprensa, um mísero jornalista que contraponha a este episcopado analfabeto a doutrina clara dos santos da Igreja. Se os católicos se pretendem contra o aborto, deveriam começar destituindo seus santos da condição de sapiência e santidade.

Hoje – provavelmente – se decidirá se o Brasil opta pelo obscurantismo e pela condenação a Galileu, ou pela postura independente de um país liberto do jugo medieval do Vaticano. Escrevi provavelmente, porque sempre pode existir um ministro pusilânime que peça vistas do processo e atrase indefinidamente a decisão.

Consta que nove dos onze ministros do STF são católicos. O risco de o Brasil alinhar-se à escória da humanidade é grande. Já aventei a hipótese de os católicos – e apenas eles – serem submetidos a sanções quando praticarem atos que as nações civilizadas não consideram crimes, e eles católicos consideram. Por uma questão de coerência, todo católico gravemente enfermo deveria recusar-se a receber qualquer benefício decorrente das pesquisas em torno às células-tronco.
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