29 agosto 2008

Sobre traduções

Janer Cristaldo

Entre os livros que comprei na última viagem está o excelente Aux Origines du Dieu unique, de Jean Soler, ensaísta que foi conselheiro cultural da embaixada da França em Israel. São três volumes que estou devorando com avidez: L’Invention du monotheísme, La Loi de Moïse e Sacrifices et interdits alimentaires dans la Bible. Estou concluindo o segundo volume e já lamentando que só resta um para ler. Soler conhece a fundo tanto o Livro como o judaísmo, e os disseca com a precisão de um cirurgião.

Dito isto, citei em crônica passada um trecho do Gênesis: “Sucedeu que, quando os homens começaram a multiplicar-se sobre a terra, e lhes nasceram filhas, viram os filhos dos deuses que as filhas dos homens eram formosas; e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram”.

Um leitor atento implicou com os deuses, assim no plural. Que em sua Bíblia está “os filhos de Deus”. De fato, nas traduções ao português que tenho em minha biblioteca, assim consta. Tanto na Bíblia de Jerusalém, quanto na edição pastoral publicada pelas Edições Paulinas. Também na editada pelo Centro Bíblico de São Paulo, a partir da versão francesa dos Monges Beneditinos de Maredsons, Bélgica. O mesmo consta de minha bíblia eletrônica, a reputada tradução de João Ferreira de Almeida.

É que usei a tradução proposta por Jean Soler, “les fils des dieux”. Como os judeus têm mais rigor quando se trata da palavra divina, fui consultar a Torá. Lá está: “os filhos dos senhores”. Melhorou um pouco mas não muito. O plural é mantido. Mas que senhores são esses que se opõem aos homens? Mistério profundo. Fui buscar então em minha tradução francesa da Bíblia, editada pela Alliance Biblique Universelle. Lá está: “les habitants du ciel”, também no plural. Mas quem são esses habitantes do céu cujos filhos acharam belas as filhas dos homens? O mistério persiste.

Como não entendo hebreu, prefiro ficar com a tradução proposta por Soler, que conhece hebreu: “les fils des dieux”. Pois os deuses são muitos na época do Pentateuco. Jeová é apenas um entre eles, o deus de uma tribo, a de Israel. Escreve Soler: “Ora, nem Moisés nem seu povo durante cerca de um milênio depois dele – os autores da Torá incluídos – não acreditavam em Deus, o Único. Nem no Diabo”.

A idéia de um deus único só vai surgir mais adiante, no dito Segundo Isaías. Reiteradas vezes escreve o profeta:

44:6 Assim diz o Senhor, Rei de Israel, seu Redentor, o Senhor dos exércitos: Eu sou o primeiro, e eu sou o último, e fora de mim não há Deus.

Num acesso de egocentrismo, Jeová se proclama o único:

7 Quem há como eu? Que o proclame e o exponha perante mim! Quem tem anunciado desde os tempos antigos as coisas vindouras? Que nos anuncie as que ainda hão de vir. 8 Não vos assombreis, nem temais; porventura não vo-lo declarei há muito tempo, e não vo-lo anunciei? Vós sois as minhas testemunhas! Acaso há outro Deus além de mim?

Ou ainda:

45:5 Eu sou o Senhor, e não há outro; fora de mim não há Deus; eu te cinjo, ainda que tu não me conheças. (...) 21 Porventura não sou eu, o Senhor? Pois não há outro Deus senão eu; Deus justo e Salvador não há além de mim.

Só aí, e tardiamente, surge na Bíblia a idéia de um só Deus. Durante muito tempo, acreditei que a idéia do deus único havia sido contrabandeada do Egito, a partir de Akhenaton. Equívoco meu. Não havia monoteísmo nos dias de Moisés. O que me consola é saber que até Freud incorreu neste equívoco.

Mesmo assim, persistem no mesmo livro de Isaías registros dos deuses de então:

36:18 Guardai-vos, para que não vos engane Ezequias, dizendo: O Senhor nos livrará. Porventura os deuses das nações livraram cada um a sua terra das mãos do rei da Assíria? 19 Onde estão os deuses de Hamate e de Arpade? onde estão os deuses de Sefarvaim? porventura livraram eles a Samária da minha mão? 20 Quais dentre todos os deuses destes países livraram a sua terra das minhas mãos, para que o Senhor possa livrar a Jerusalém das minhas mãos?

Em suma, o deus de uma única tribo, de repente, se proclama o deus único. Soler nota uma safadeza nas traduções contemporâneas da Bíblia: Jeová está sumindo. Fala-se em Deus ou Senhor, em Eterno ou Altíssimo. Como Jeová é apenas o deus de Israel, melhor esquecer o deus tribal. Ao que tudo indica, alguns tradutores fazem um esforço para transformar um livro politeísta em monoteísta. Substituiu-se a monolatria - culto de um só deus nacional - pelo monoteísmo, culto de um deus único.

Um comentário:

Raphael disse...

Ninguém mais posta ou comenta no blog (pugnacitas). O que aconteceu? Será uma pena se ele continuar assim.

Quanto às traduções da bíblia, como é de se esperar, é uma área incerta considerando o longo período de existência, traduções e modificações dela. Acho que foi Dawkins que levantou outro ponto quanto a isso. Se não me engano, ele disse que a idéia de Maria como “virgem” foi um erro de tradução para o grego. De acordo com ele, o verdadeiro significado é “mulher nova” ou algo assim. Não me recordo bem, posso estar enganado.

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