20 julho 2008

O que significa a prisão da Daniel Dantas?

Esta semana tive uma discussão com o meu contato na esquerda de classe média sobre o caso Daniel Dantas. Ele defendia a execução do banqueiro. Afirmava que o ministro Gilmar Mendes é um corrupto e que o projeto petista gramsciano de tomada de posições estava condenado ao fracasso. A salvação seria a retomada de uma perspectiva leninista, afinal vivemos em uma cultura muito atrasada.

A minha leitura do episódio é diferente. Acho que o Daniel Dantas está sendo investigado não por ser ou não corrupto, mas por ter entrado em disputa com um grupo da cúpula petista. Nem todos se lembram, mas Daniel Dantas controlava a Brasil Telecom com um fundo americano e o fundo de previdência do Banco do Brasil. Quando se iniciou uma disputa com a Telecom Itália pelo controle do grupo e o fundo americano abandonou o seu lado, ele ficou nas mãos da Previ: surgiu então o conflito com a cúpula petista.

Nesta disputa, o governo o acusou de contratar a Kroll para espionar a cúpula petista do Palácio do Planalsto, enquanto o próprio Daniel Dantas acusou o governo de tentar extorqui-lo em US$ 80 milhões de dólares para obter o apoio do fundo de previdência do Banco do Brasil. Quem se lembra do Mensalão e do forte envolvimento dos fundos de pensão percebe que esta não é uma hipótese remota.

Como entender então a prisão de Daniel Dantas? Os delegados da Polícia Federal não fazem o que querem. Se alguém tiver curiosidade no organograma da Polícia Federal (http://www.dpf.gov.br/web/organog_grand.htm) vai perceber que a decisão de designar quatro delegados para investigarem durante os últimos quatro anos o Daniel Dantas foi tomada no nível da diretoria geral. Não é novidade que o grupo petista que se sentiu prejudicado por Dantas tenha usado a estrutura do Estado para perseguir o seu desafeto, afinal foi assim que Fernando Henrique acabou com a candidatura da Rosinha Sarney.

No âmbito do Ministério Público Federal é surpreendente que ele seja representado neste caso por um promotor singular ainda impúbere. Onde estão os procuradores seniores que deveriam estar ansiosos pelos seus cinco minutos de fama? Quanto ao juiz, eles não poderiam ter escolhido outro melhor, afinal este Fausto tem um viés bastante conhecido de jogar para a arquibancada. Por fim, vem a decisão desastrosa de promover a prisão de Daniel Dantas no âmbito das ações da Polícia Federal para provar que o governo Lula não é tão corrupto quanto ficou demonstrado no Mensalão.

Com o Lula no Japão, foi efetuada a prisão com a qual se congratula o governo de forma apaixonada na pessoa do comissário petista Tarso Genro e do próprio presidente da República. Sob os protestos do comissário petista o banqueiro tem seu hábeas corpus concedido pelo presidente do Supremo, que ainda tem de tratar com um insubordinado de primeira instância, rapidamente defendido pela corporação.

E como ficamos? Ficamos com este PT hipócrita que assiste ao enriquecimento da sua cúpula, enquanto persegue os seus inimigos e tenta vender esta imagem falsa e mentirosa de uma nova ética, quando na verdade continua valendo a velha máxima: Para os amigos tudo, para os inimigos a lei.
Como já se disse muitas vezes, o melhor amigo de um jacobino é um corrupto. Sem um jacobino que proponha da noite para o dia que o limite alcóolico para se dirigir no Brasil seja igual ao mais rigoroso do mundo, o sueco, não seria possível aos policiais corruptos aumentaram de forma desmedida a propina para liberar os descumpridores da lei.
Para completar a palhaçada, o Lula repreende publicamente o delegado por afastar-se da investigação. Desde quando o presidente deveria se meter pessoalmente neste nível da Administração? Isto faz sentido somente em uma República Sindicalista populista onde o cumprimento da lei passa a ser vista como uma graça, distribuída e capitalizada pelo grande líder. Assim é a política, as coisas acontecem e os políticos tentam tirar proveito.
O problema desta palhaçada toda é que quando o Lula e o PT aparelham o Estado, também promovem a desmoralização das suas instituições, afinal, ou a lei serve para todos ou não serve para ninguém. Se a lei é usada para perseguir os inimigos do governo então a sociedade não a reconhecerá como uma lei legítima. Sem leis e instituições não temos democracia nem uma república. Sem legitimidade não há lei, mas apenas violência e arbitrariedade.
Diante desta realidade, deste autoritarismo, como as pessoas reagem? Na antiga União Soviética formavam-se máfias. No Brasil, o favorecimento alimenta a mentalidade do cada um por si e Deus por todos, da lei de Gerson. Assim, o governo petista nos leva exatamente ao lugar de onde partimos, ou seja, uma sociedade onde a lei não é vista como um bem de todos mas como uma arma dos poderosos contra os seus inimigos.

3 comentários:

André disse...

“A execução de Daniel Dantas, a renúncia de Gilmar Mendes”... que gente mais ignorante. Nem sabem o que é um HC, como funciona... Quanto ao Daniel Dantas, ele é meu canalha genial predileto. Mas é um canalha, sem dúvida.

Isso de briga de juiz de 1ª instância com juiz do STF, de procuradores odiarem esse ou aquele Ministro do STF ou de outros tribunais superiores, ou o prórpio PGR, enfim, essas briguinhas todas, isso é normal. Sempre foi e sempre será assim. Apesar dos títulos e das posições dessa gente, tudo isso não passa, em última análise, de picuinha de repartição pública. Muitas vaidades envolvidas, muita inveja também... e todo mundo quer tirar uma casquinha desses eventos muito noticiados, lógico.

Se existe algum projeto petista, ele não é gramsciano. É só roubalheira mesmo.

O PT tentou tirar o Dantas do mundo dos fundos de pensão e das teles, toda aquela complexa história em torno do controle acionário das teles, etc e tal, até que conseguiu, mas nunca 100%. E agora fez isso. O PT sempre quer ficar com todo o dinheiro e se dá mal por causa disso.

E tem mais: Dantas vai (ou iria, não sei) levar um bom dinheiro com essa fusão irregular da Oi com a Brasil Telecom, essa em que o Lula passou por cima da lei e resolveu autorizar de qualquer jeito, pq é do interesse dele e dos amigos dele. Como sempre, num país mais sério esse tipo de coisa dá cadeia. Aqui pode tudo.

E, como sempre, o PT se atrapalha (e o analfabeto do Tarso Genro tem a coragem de dizer que não consegue pronunciar Satiagraha, que é “muito difícil”, é um jeca) e no final o Presidente da República tem q forçar a saída de um delegado pq ficou com medo.

Engraçado, pq agora ele resolveu virar homem. No Mensalão o Lula ficou apavorado, sumiu por uns 2 ou 3 meses. E já é um cara q normalmente não consegue enfrentar um jornalista preparado ou uma coletiva de imprensa séria --- não essas coisas armadas pelo PT. Ele se sente mal e tem medo. Mas nem mesmo aquelas entrevistas domesticadas ele preferiu dar em 2005. Simplesmente evaporou.

E ainda pegaram esse juiz primário que adora aparecer, esse Fausto De Sanctis, aí pronto.

Os caras são muito burros. Inventaram uma operação da PF pra se vingar do inimigo deles. Não convenceram ninguém. E talvez nem exista mesmo a tal organização imensa de lavagem de dinheiro dos acusados. Ou talvez não seja tão grande assim.

E tudo isso ainda desrespeita e desmoraliza quem é sério dentro da PF e da Abin.

“Seja como for, Lula foi julgado pelo povo nas urnas, e os nordestinos, especialmente os que recebem o Bolsa Família julgaram que o presidente era inocente ou que isto simplesmente não era importante e lhe deram um segundo mandato.”

Os pobres do país inteiro. E é isso aí mesmo q vc disse.

E Napoleão ao menos tinha gênio.

Raphael disse...

Ótimo artigo.

Ricardo Rayol disse...

cada um por si, o diabo por todos e seja o que deus quiser

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