01 maio 2008

Sobre Safo, Erasístrato, Antíoco, Estratonice e eu

Janer Cristaldo

Leio na BBC Brasil que três obtusos da ilha de Lesbos, na Grécia, entraram na Justiça na tentativa de proibir um grupo de defesa de direitos de homossexuais de usar o termo 'lésbica' em seu nome. O grupo defende que a palavra seja empregada para designar apenas a pessoa originária ou habitante da ilha no noroeste do Mar Egeu, já que em muitas línguas a grafia coincide. O alvo do processo, que será julgado em junho por um tribunal na capital grega, Atenas, é a organização Comunidade Homossexual e Lésbica Grega (OLKE), cujo nome o grupo quer modificar.

Estive em Lesbos nos anos 70. Fora uma cooperativa de mulheres agrícolas, nada mais vi de suspeito. Em Lesbos, no século VII a.C., nasceu a poetisa Safo, que teria relações com suas discípulas. Daí a palavra lesbianismo. Ou amor sáfico, como quisermos. O fato é que os historiadores situam, de um modo geral, nos poemas de Safo de Lesbos a primeira ocorrência na literatura da palavra amor. A poetisa descreveu, inclusive, uma série de sintomas físios que diagnosticariam o amor. Os médicos da época se apoiavam em Safo para definir a doença, pois de doença se trata. Assim narra Plutarco o caso de um jovem enfermo:

- Erasístrato percebeu que a presença de outras mulheres não produzia efeito algum nele. Mas quando Estratonice aparecia, só ou em companhia de Seleuco, para vê-lo, Erasístrato observava no jovem todos os sintomas famosos de Safo: sua voz mal se articulava. Seu rosto se ruborizava. Um suor súbito irrompia através de sua pele. Os batimentos do coração se faziam irregulares e violentos. Incapaz de tolerar o excesso de sua própria paixão, ele tombava em estado de desmaio, de prostração, de palidez.

Quando Antíoco – pois assim se chamava o enfermo – recebeu Estratonice como presente de Seleuco, seu pai, desapareceram os sintomas da doença. Que talvez tenha contagiado Seleuco, pois afinal era o marido de Estratonice. Mas isto já é outra história.

Eram bons observadores, os gregos. Mês passado, eu esperava uma amiga que não via há uns bons vinte anos. Fui à academia e meus batimentos cardíacos, antes de começar a bicicleta, estavam a 133 por minuto. Consultei o médico da academia, ele me recomendou o pronto socorro. Fui lá às onze da manhã. Fiz uma bateria de exames, esperava poder encontrá-la às 17h40 no aeroporto. Tive de repetir os exames, só saíria lá pelas sete. Entrei em pânico. Imaginava ela chegando, sem me encontrar, sem saber que fazer. Vinte anos de espera e um desastre total na hora do encontro. Falei aos médicos: não pode ser, não vejo essa mulher há vinte anos, não posso trazê-la para um quarto de hospital, vocês têm de me liberar. Ao final da tarde, um médico me anunciou: seu coração está perfeito, pode sair.

Resumindo a história: acabei por encontrá-la em um corredor de hospital. Quando a abracei, os sintomas de Antíoco já haviam sumido. 90 por minuto. Os médicos foram todos ver quem trazia a cura.

O amor, esta ficção tão bem sucedida no Ocidente, tem seu nascimento literário em Lesbos, graças a Safo. Que preferia mulheres, segundo a lenda. Lesbianismo é palavra que invadiu todas as línguas de cultura, com muito mais força, inclusive, do que safismo. Os lexicólogos sempre afirmaram que quem faz a língua é o povo. Por outro lado, uma estranha e relativamente recente mania está contaminando a cultura contemporânea, a mania de proibir palavras. Falar em negro, por exemplo, hoje já é considerado crime. (Eu não digo mais negrão. Para prevenir-me, prefiro afrodescendentão).

Só o que faltava três malucos pretenderem censurar os dicionários. O políticamente correto, pelo jeito, contaminou Lesbos. Segundo um dos autores da petição, o ativista e editor da revista Davlos, Dimitris Lambrou, pesquisas recentes mostraram que Safo tinha família e cometeu suicídio pelo amor de outro homem. Até pode ser. O uso da palavra 'lésbica' no seu significado mais corrente, segundo Lambrou, causaria problemas no dia-a-dia dos cerca de 250 mil habitantes da ilha.

Conversa para boi dormir. Mais um pouco, algum outro stalinista da língua pretenderá proibir a palavra safismo. Quando se fala em homossexualismo, costuma-se falar em amor grego. Só falta agora algum mentecapto grego pretender banir a expressão de todos os idiomas.

Um comentário:

Anônimo disse...

E a palavra 'safada' vem de Safo?

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