04 maio 2008

Existe Direita no Brasil?

Em 1964, havia a Tradição, Família e Propriedade ligada à Igreja Católica, havia um movimento estudantil de direita, havia alguns caciques de uma direita progressista como Carlos Lacerda. Com a violência da chegada dos militares ao poder, o movimento estudantil de direita desapareceu, até que em 1968 todo o movimento estudantil já era de esquerda. Em 1968, tivemos a Passeata dos 100 mil e o surgimento do mito da geração 68.

Os militares do golpe de 64 se aproximaram da direita coronelista retrógrada como um José Sarney e um Antonio Carlos Magalhães e outros assemelhados. Não houve grandes choques entre os militares e os burocratas que desde Getúlio já cultivavam uma tradição autoritária. Acontece que houve o aborto de uma direita progressista. O ambiente criado pelos militares foi um desafio para o surgimento de organizações sociais de esquerda e a Igreja Católica que era um dos pilares da direita passou a estruturar a esquerda por meio da Teologia da Libertação.

Tivemos a decadência da TFP e a ascensão da Pastoral da Terra que foi a base da formação do Movimento dos Sem Terra, o surgimento das Comunidades Eclesiais de Base que mais tarde, junto com os metalúrgicos de São José dos Campos fundariam o PT, do Conselho Indigenista Missionário que foi responsável pela demarcação de milhões de hectares de terra para alguns indígenas, incluindo a reserva de 1,7 milhão de hectares de Raposa Serra do Sol.

Acredito que seja legítima a existência de movimentos sociais de direita cuja ênfase esteja na defesa dos direitos individuais do cidadão, ou seja, a sua liberdade em face do poderio representado pelo Estado. Por outro lado, a esquerda no Brasil, tem um discurso ancorado na idéia da injustiça social e da necessidade de se reparar uma espécie de pecado original. Para os marxistas, o pecado original está na instituição da propriedade privada e acredito que para os católicos da Teologia da Libertação também seja este o caso.

Enfim, mais um demérito deve ser dado aos militares de 64. Eles falharam também na formação de uma direita progressista. Afinal, eles próprios eram autoritários. O melhor que eles fazem é ficar bem afastados da política. De fato, o pensamento de segurança nacional é pessimamente estruturado. Aquele discurso de paranóia e poder nacional está completamente superado.

O melhor que os militares podem fazer hoje é executar a política de segurança pública elaborada pelos representantes legítimos do povo. Afinal, eles precisam entender que o seu discurso é ultrapassado e carente de legitimidade. Sendo assim, se eles ficarem calados surgirão naturalmente no seio da sociedade intelectuais e pessoas preparadas para elaborar um discurso de segurança nacional em termos que sejam adequados a uma sociedade plural. Quem sabe não surjam organizações sociais de direita que ajudem a preservar as liberdades individuais em face do totalitarismo característico de um estado socialista cujo foco está na promoção do igualitarismo.

10 comentários:

André disse...

A TFP era e continua sendo uma piada. Aliás, qualquer organização que mistura pensamento político de jumento com fanatismo religioso dá nisso.

Sobre Lacerda, já disse tudo o que queria dizer sobre ele nos comentários a um post anterior.

“Acontece que houve o aborto de uma direita progressista... e a Igreja Católica, que era um dos pilares da direita, passou a estruturar a esquerda por meio da Teologia da Libertação.” Pois é.

O CIMI é outra porcaria, claro.

Militar nem sabe o que é marxismo. Nem comunismo, nem nada dessas coisas. Pensa que sabe. Militar não é educado em política, tem uma mente muito estreita. Coisa que já disse para — e ouvi de — um general-de-exército, outro de divisão, meia dúzia de coronéis do Exército e equivalentes nas outras armas. Aliás, não é só isso que militar não sabe. Com raras exceções, que só confirmam a regra, eles não sabem mil coisas...

Pedro Mundim disse...

Não é exato referir-se ao regime militar de 64 como tendo sido "de direita", ao menos que direita, aqui, seja sinônimo de tudo o que se opõe à esquerda. Os regimes militares sul-americanos, em geral, não possuiam ideologia alguma, eram apenas uma espécie de estado-de-sítio prolongado. Genuínos regimes de direita foram, por exemplo, a Espanha franquista e o Portugal salazarista. Na América Latina, a coisa mais parecida que tivemos com esses regimes foi o peronismo argentino dos anos 40. E a coisa mais parecida com o peronismo argentino que temos na época atual é, veja que ironia, o chavismo na Venezuela! O que bem mostra como as definições de "direita" e "esquerda" ficaram desgastadas, tanto que foram usadas para todos os fins.

Por motivos análogos, não é correto referir-se a tipos como Sarney e ACM como direitistas - eles são anti-esquerdistas, mas de resto não professam nenhuma ideologia tangível ou projeto político que não seja o de manterem-se no domínio de seus currais o máximo de tempo possível. Na realidade, praticamente não há pensamento de direita no Brasil por que lhe falta uma base social que endosse tais idéias. A base social da direita é a classe média conservadora, com freqüência setores pouco aquinhoados e caricatos, como o "redneck" norte-americano, aquele caipirão apegado a seu ranchozinho e que não gosta de novidades. Outros países têm esterótipos semelhantes. Mas aqui no Brasil, não só a classe média é rala como acha bonito professar ideais de esquerda, daí ter surgido esta idéia, amplamente disseminada, de que os direitistas seriam os ricos. Mas conforme é sabido, os ricos, em caso de necessidade, transferem seu capital e a si próprios para outro lugar, e a proletarização que se segue à implantação dos regimes comunistas atinge principalmente a classe média que vive de salários e pequenos negócios. No Brasil não há direita porque a classe média não tem consciência de classe.

Outro exemplo de como os conceitos de direita e esquerda foram enxovalhados é a crença, também amplamente disseminada, de que o antônimo do comunismo seria o nazi-fascismo. Isso é totalmente falso. O verdadeiro antônimo do comunismo é o liberalismo (ou neoliberalismo, como queiram). Nazi-fascismo e comunismo, na realidade, são primos, já que derivam do mesmo tronco. O nome original do partido nazista era Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães. Mussolini foi socialista em sua juventude, assim como vários outros conhecidos diretistas brasileiros, como Carlos Lacerda, Reinaldo Azevedo e Olavo de Carvalho - isto não é coincidência, mas uma questão de afinidade entre ideologias. De resto, quem conhece a história da Alemanha dos anos 20 sabe que a base social dos nazistas era a mesma dos comunistas - trabalhadores desempregados, militares desmobilizados, desajustados de todo tipo - enquanto a classe média conservadora aderia ao Partido Social-Democrata. No início dos anos 30, o eleitorado comunista mudou-se em massa para o partido nazista, os social-democratas ficaram em minoria, e o resto da história todos conhecem.

Raphael disse...

Acredito que não exista clima hoje, no Brasil, para um movimento de direita. Simplesmente não o consigo imaginar. O discurso da esquerda fala mais diretamente e de modo mais simples aos corações das massas. Claro, vez por outra surge um desses “Cansei”, que logo são pejorativamente apelidados de movimentos de direita onde a apática classe média tenta se mobilizar. Não acho que essa denominação seja adequada. Em todo caso, eles não tem expressão nenhuma, sendo, geralmente, natimortos.

Quanto aos militares, não sei se concordo. Como disse, não consigo imaginar um movimento de direita surgindo no Brasil sem algum apoio forte. Também acredito que militar deve ficar calado quanto a maioria das questões, mas há exceções. O caso do general Heleno foi uma delas. Vários jornalistas e intelectuais vinham alertando para a implicação das reservas na soberania nacional há tempos sem que ninguém os ouvisse, inclusive o Janer. O Heleno, um militar, conseguiu fazer o assunto finalmente ganhar espaço e entrar em pauta.

André disse...

“No Brasil não há direita porque a classe média não tem consciência de classe.”

Certíssimo. E todo o resto também.

By the way, o general Heleno é ótimo.

Heitor Abranches disse...

Concordo que o general Heleno foi feliz em denunciar o esquema da Raposa Serra do Sol montado pela antropóloga Guiomar e pela curriola do CIMI. É absurdo que o Exército e outros órgãos do estado brasileiro tenham de pedir licença à FUNAI para entrar em reservas. Isto precisa ser mudado urgentemente.

Tbm concordo com vc Pedro. O totalitarismo é uma doutrina igualitarista advinda da negação da diversidade que é uma característica dos indivíduos e de uma sociedade plural.

Raphael, acho que precisamos de uma direita e acho que existe espaço para uma direita que seja eficiente na gestão do patrimônio público como o governador de Brasília, o Arruda.

André, este negócio de consciência de classe é coisa de marxista. Um liberal tem de falar em consciência individual, afinal, um indivíduo tem múltiplas indentidades que operam em diferentes níveis e não é simplesmente membro de uma classe definida de acordo com a sua relação com a produção.

Raphael disse...

Concordo com o Heitor. A idéia de “direita”, ou formação desta, deveria estar ligada a crenças, ideologias pessoais. Ligá-la ou embasá-la em classe é destruir a empreitada logo em seu início.

Não conheço a gestão do Arruda. Mas infelizmente ainda tenho a impressão de que o máximo que uma “direita” pode conseguir no Brasil, em matéria de mobilização, é o que o pessoal do MSM consegue.

André disse...

Também vejo o Arruda com simpatia.

Consciência de classe é coisa de marxista mesmo. Consciência coletiva acho que fica melhor, sem a “classe”. E a individual, claro, muito mais relevante.

Roça & Suzy disse...

+Heitor, eu entendo direita só como direita e não gosto de chamá-la de "nova" ou "progressista"...e sou assumidamente e com muito orgulho de direita.
Quanto aos militares, eu não considero que tenham golpeado a democracia como esta corja de terroristas que tomou sim o poder por meios gramscistas e nuitas outras safadagens.
Os militares erraram sim, Heitor, ao se juntarem aos sarnosos da vida e de certa forma contribuiram para a m**** que nos assola por aqui.
Mas eu queria convidá-los para visitar o blog marginal que o Roça e eu criamos...direto do abismo.

Roça & Suzy disse...

Esqueci de deixar o link:
http://darkabysses.blogspot.com

Alexandre disse...

É claro que os militares não sabiam de tudo, quem é que sabe? Não me digam que é essa esquerda comunista nojenta... mas até que para quem não estava preparado, foram relativamente bem durante os 20 anos em que cuidaram das coisas por aqui. Pergunte para quem era trabalhador no período. Agora, quem não percebe mesmo a natureza das coisas é o comunista. Vive de uma utopia impraticável, uma bobagem sem tamanho que para alguém que tem uma capacidade lógica mediana, se torna óbvia a incoerência. A história do mundo inteiro nos mostra que o comunismo é na prática, bem diferente da teoria de Marx. O Vermelho das bandeiras comunistas é para disfarçar o sangue do povo. Se o capitalismo não é o ideal, o comunismo é muitíssimo pior. E dá medo os rumos que o Brasil está tomando, com a esquerda "de todos os lados".

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