13 maio 2008

Cuba, 49 anos de Revolução

Os EUA cometeram o grave erro de não ter tornado Cuba um estado membro da sua federação. Ao invés disso, trataram-na como uma prostituta. Fidel realizou a Revolução a menos de 100 km dos EUA, derrotou os americanos na baia dos Porcos e foi protagonista da crise dos Misseis que resultou no afastamento de Kruschev e na morte de Kennedy.

Diante deste exemplo, os EUA endureceram sua política em relação à América Latina apoiando abertamente qualquer regime de direita por entender que não podiam transigir com populistas em plena guerra fria e diante do exemplo cubano. Havia sempre a teoria do dominó a assombrá-los.

Com isto, os EUA apoiaram ostensivamente o golpe de 64 com a presença de agentes americanos em nosso território e uma frota em nossa costa. Eles acabaram enfraquecendo a direita progressista e tornaram Fidel e a Revolução Cubana em heróis para a nossa Geração 68.

Recentemente tive oportunidade de conversar com dois colegas que estiveram em Cuba. Eu os chamarei o Jovem e o Velho. O Jovem é um comunista leninista que coordena um grupo de estudos da UFRJ. O Velho é ex-comunista que parou de ler Marx quando teve de esconder os seus livros na época da ditadura.

O Velho voltou falando da sua decepção, das prostitutas nas esquinas, de um país que vivia um verdadeiro appartheid entre aqueles que vivem na economia do dólar e os que não. Segundo o Velho, na famosa sorveteria estatal Coppelia, os cubanos enfrentam uma longa fila enquanto que os pagantes em dólar entram direto e ficam à vontade. Para se conseguir a carta blanca e se viajar ao exterior é necessário dispor de US$ 150,00 quantia nada desprezível para uma população cujo salário médio é de US$ 30,00.

O Jovem voltou dizendo-se impressionado com Varadero e suas magníficas praias, com o hotel 5 estrelas que foi sede dos revolucionários no qual ele se hospedou, com o monumento à Che cuja sacralidade proíbe que se tirem fotos, e também com o fato de não ter visto nenhum mendigo nas ruas. Segundo ele, a economia cubana está crescendo a 20% ao ano e só não é um sucesso maior em decorrência do embargo dos EUA. Enquanto isto, cada família tem que se virar com uma ração que permite 3 litros de leite por semana.

A fé do Velho já estava abalada e a sua visita só serviu para pulverizá-la enquanto que a Fé do Jovem voltou bastante fortalecida, a ponto dele deixar de dizer que um gramsciano e se admitir um leninista. Como ele disse, em Cuba, se o sujeito quiser ir embora que seja com uma mão na frente e outra atrás e, se ameaçar a Revolução, tem que ir para a cadeia e tomar porrada. Ele me mostrou as fotos que ele tirou dos outdoors criticando os EUA, me falou da comemoração do 1 de maio quando o pessoal acorda às 5:00 da manhã para ir à praça assistir ao discurso do Raul, das caixas de charuto que ele comprou além de vários livros revolucionários incluindo exemplares do Capital editado em Cuba. Ele se gabou de uma sistema educacional que promove o mérito buscando identificar os talentos e tolera os ginetes, ou seja, os vagabundos que preferem viver da ração do estado e de tentar explorar os turistas.

Fiquei entre chocado e satisfeito com a sinceridade do jovem que dizia que valia a pena sacrificar a liberdade de 5% ou 10% da população no Brasil para que fosse dado à grande maioria condições dignas de vida. Na sua visão, a democracia burguesa deveria ser destruída e substituída pela democracia revolucionária, na qual cada bairro teria um comitê de defesa da revolução que cuidaria dos problemas locais e forneceria informações para o governo.

Segundo ele, o Partido Comunista Cubano é como uma maçonaria onde o ingresso requer a necessidade de convite por membros e a prévia investigação. Ainda segundo ele, o PCC é uma espécie de Conselho de Estado que elabora as políticas que são seguidas ou não por uma assembléia eleita a partir dos comitês revolucionários de bairro, de fábricas e das escolas.

Uma coisa em que ambos concordam é que a situação cubana depende da doação de 100.000 barris diários da Venezuela de Chavez. Sem isto, Cuba estaria em uma situação muito mais grave. De fato, para pagar pelo seu petróleo, os cubanos enviaram à Venezuela 50.000 médicos entre outros profissionais que prestam assistência à população e transferem o know-how revolucionário cubano. Eu apostaria que devem ter alguns milhares de conselheiros militares e pessoal de inteligência para ajudar a controlar as forças armadas venezuelas, afinal, Cuba não pode suportar a queda do regime chavista.

Por fim, cometi a imprudência de provocar o jovem com um artigo de um velho general francês que, entre os relatos de atrocidades cometidas em nome da democracia e da sociedade aberta, afirmou que Fidel passou a informação que resultou na morte de Che na Bolívia. Evidentemente, o Jovem leninista reagiu profundamente irado a uma afirmação como esta e aproveitou para amaldiçoar a Veja que detratou Che.

A meu ver, assim como existe Veja também existe Carta Capital e enquanto estivermos em uma democracia liberal, cada um lê o órgão de imprensa que desejar. Por outro lado, existem muitas teorias da conspiração sobre a morte de JFK e até do JK, por que não do Che? Por fim, em todos os movimentos revolucionários aqueles que chegam ao topo continuam matando-se uns aos outros até sobrar um só Highlander. A Revolução Francesa gerou um Napoleão. A Revolução Russa gerou um Stalin. A Revolução Chinesa, um Mao e a Cubana, um Fidel...

Um comentário:

Suzy disse...

Heitor, seu post está irretocável, mas volto para debatermos um pouco mais o assunto.
E antes que eu me esqueça, gostaria de contar com você e todos aí do Pugnacitas hoje, DIRETO DO ABISMO, entrevista com Rodrigo Constantino a partir das 16:00 hs.
Esperamos que você(s) traga(m) PILHA pra lanterna...não deixem nosso Abismo no breu total...hehehe

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