25 maio 2008

Cortando carne e essências

Já vi muitas demonstrações do mito do “bom selvagem”, mas esta do dia 20 passado parece que superou todas as demais.

Em Altamira/PA, um engenheiro que debatia sobre a construção de hidroelétricas no Rio Xingu minimizando o alarde ambientalista sobre seus impactos ambientais foi ferido com corte profundo de facão.

Havia cerca de 600 indivíduos presentes na platéia que, sob clima tenso, foram claramente insuflados por um integrante do Movimento por Atingidos por Barragens (MAB) que bradou “nós iremos à guerra para defender o Xingu se for preciso”.

E agora a Polícia Federal abre investigação para descobrir quem armou os índios, já que o golpe certeiro foi desferido por um deles, presente no local.

Que os integrantes do MAB são um bando de baderneiros, que muitos deles nunca habitaram as regiões de lagos formados por barragens (em plena selva amazônica), disto não tenho quaisquer dúvidas. Mas, isentar um indígena de responsabilidades cíveis e criminais, só mesmo sob o anacrônico escrutínio de um Estatuto do Índio que serve, entre outras coisas, para atrocidades deste naipe.

Facão é uma arma tão moderna, que precisa ser contrabandeada? Índios não portam facões, entre outras “armas brancas” desde muitos séculos? Dizer que alguém induziu o indivíduo à violência reside em sofisma atroz. Pouco importa o DNA do envolvido, mas sim seu ato.

Pega mal chamar um índio de bandido, então que se avente ter sido levado às vias de fato já que, desde Rosseau, eles são “bons selvagens”.

Quando em 1989, uma índia apontou um facão no peito do presidente da Eletronorte, que discutia na ocasião a construção da mesma usina, alguém teria insuflado a “ingênua”?

Lendo este tipo de estultice, fica difícil não concordar que a legislação brasileira exime de culpa (acabando por incentivar também), o assassinato desde que o crime seja cometido por silvícolas.

Lembrei-me de um gibi de Moebius, o fantástico quadrinhista com uma história intitulada “O homem é bom?”, na qual um terráqueo foge, desesperadamente, de hordas alienígenas. Na corrida, o sujeito consegue alcançar o topo de uma estrutura, na qual encurralado é capturado e levado ao líder das hostes insanas. Erguido, seu braço é arrancado pelas poderosas mandíbulas da besta. Entre seus urros de dor, o degustardor grunhe ao que é traduzido no pé da página: “o homem não é bom!”

Para mim, homens, caucasianos, negros, índios, azuis, amarelos, roxos, rosas etc. não são bons nem maus. Procurar uma essência neles não passa de mitificação. Mas, com certeza, alguns mitos podem ser comprovados na realidade: há indivíduos muito bons no talho do facão.

6 comentários:

André disse...

É isso aí, certíssimo.

E Moebius é muito bom.

Raphael disse...

É curiosa a ingenuidade desses “silvícolas”, quando os assistimos pela televisão. Índios em perfeita harmonia com os seus óculos de sol, celulares, roupas psicodélicas, caminhonetes e, claro, a natureza. Outros, ao bom estilo selvagem, com barrigas gigantescas sabe-se lá de quê...

Evidente que quando a situação se complica, correm para vestir o cocar e soltar alguns grunhidos. Depois ainda precisamos assistir alguns dos seus defensores dizerem que facão não é arma, mas instrumento de trabalho. Sem dúvida, vimos o bom trabalho feito com eles.

Heitor Abranches disse...

No Diretório dos Indios, o Marquês de Pombal proíbe a escravidão dos silvícolas e os eleva a condição de vassalos de sua Majestade. Com isto, deu-se um passo importante para se assegurar a posse portuguesa da Amazônia.

No século XIX, os indígenas são considerados pelos membros do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro como elementos que conferiam a recem criada nação brasileira um elemento de particularidade que a distinguia dos europeus.

Os antropologos do Museu Nacional do Rio de Janeiro, no século XX, resgataram as idéias de Rousseau e revalorizaram as comunidades neolíticas.

A esquerda enxerga no indigena o expropriado com o qual o Brasil tem mais uma dívida histórica e social e os ecologistas vêem neles uma estratégia para expansão de áreas de preservação.

Pessoalmente, defendo reservas indigenas razoáveis e sou a favor da criação de parques nacionais. A meu ver, não tem que se confundir parque nacional com terras tradicionais indigenas e considero que os antropólogos responsáveis por laudos fajutos deveriam ser responsabilizados criminalmente inclusive com a perda de cargo ou função pública.

Catellius disse...

Faaaaaaaaala Anselmo!

Abraços a todos. André, Raphael, Heitor. Desculpem a ausência. Estou muito envolvido em alguns projetos e minha cabeça foi esvaziada momentaneamente de qualquer coisa que não seja arquitetura. Tempo até que teria para escrever umas linhas. Mas estou vazio...

Quanto aos índios, acho que deveríamos criar uma reserva para a família real de Petrópolis, pelo menos para os membros que ainda não tiverem sofrido mistura e ainda vivam imersos mundo de faz-de-conta da monarquia.

Nessa reserva eles seriam reis, veríamos carruagens, castelos, súditos, eles seriam poderosos. Poderiam ter armas de fogo para protestarem contra a construção de hidrelétricas, claro. Se índios têm facões, radinhos de pilha e camisetas do framengo... Temos que preservar a cultura original européia. O que vemos hoje nas cidades não tem nada a ver com cultura européia tradicional. Onde estão os tamancos masculinos, as meias-calça, as perucas cheias de talco, os floretes e baionetas, as carruagens?

Esse povo formado por índios, negros e brancos, que come mandioca, batuca e fala um idioma europeu deturpado, é erroneamente chamado de "branco usurpador", os índios e antropólogos olham para ele como se tivesse chegado ao Brasil em caravelas, 500 anos atrás. Ora, aqueles portugueses estão em vias de extinção e precisam ser preservados em reservas, em castelos enfeitados de pavões, devem poder ter escravos, apesar de isso ser um crime contra os direitos do homem. Se índios podem matar, o descendente não miscigenado de português puro, que ainda viva no mundo da fantasia de sua cultura superada, que participa de jantares pró-monarquia no Hotel Glória, deve poder ter escravos que puxem arado e escravas que aliviem as suas tensões do dia-a-dia...

Esse português também é vítima do "homem branco", esse mestiço que come tapioca, usa cocares no carnaval, batuca e fala um idioma europeu totalmente deturpado.

a.h disse...

Perfeita ironia, Catellius.

André disse...

Olá, meu amigo.

Depois tenho que te entregar um dvd cheio de música clássica em mp que andei baixando esses meses. Tudo acima de 230 Kbps. Nada de mais, mas algumas coisas boas, muitas gravações antigas também, em mono.

Se o rócócó, Salieri e Mozart voltarem numa reserva, até eu viro monarquista.

E uns escravos até que não me viriam mal. Escravas também, mas só se forem aquelas das histórias do Robert E. Howard (Conan, o Cimério)

Acho que só não quero igrejas e padres jesuítas nas minhas terras.

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