20 abril 2008

A Utopia de Brasília

Quando o assunto é política e envolve o Congresso Nacional, Brasília é quase sempre mencionada depreciativamente. Ironicamente, neste momento em que a política brasileira é dominada por homens que carregam a bandeira da igualdade, Brasília deveria ser glorificada por ser talvez a maior realização do igualitarismo em terras brasileiras.

Recentemente, com a atuação dos aluninhos da UnB que resultou na queda do “Reitor das Quotas” em razão da decoração fabulosa do seu duplex funcional de cobertura, Brasília demonstrou que existe uma nova geração de brasilienses de quem se pode aspirar algo melhor do que foram os eleitores de Roriz, que usou as terras públicas de Brasília para se eleger. Culpa também da falta de capacidade da burocracia local em atender as demandas populares e da classe média por moradia.

Desde o Império havia o sonho de interiorizar a capital, e a arquitetura da cidade foi elaborada por um arquiteto comunista descendente de ilustres servidores do Império. O Rio de Janeiro foi a capital por 152 anos e é um local particularmente corrupto e desigual com uma grande população negra que ainda é cidadã de segunda classe apesar de ainda ter grande quantidade de servidores públicos. Possivelmente seja por isso que o Rio de Janeiro gere tantos comunistas. A combinação de servidores públicos, de intelectuais liberais e de desigualdade gera um espaço de experiência de algo insuportável associado a um horizonte de expectativa de busca de mais igualdade nas doutrinas socialistas.

Brasília, com a sua arquitetura comunista onde todos os prédios se parecem e que, segundo dizem, lembram a Europa Oriental, tem a maioria da população empregada no serviço público com faixas salariais com um piso alto e um teto não excessivamente elevado, enfim, um delírio de igualitarismo. Enquanto os monumentos de Washington têm muitos símbolos maçons, Brasília ostenta símbolos comunistas, muitos construídos sob as barbas dos militares.

Ninguém de bom senso nega a necessidade de políticas públicas que efetivamente ataquem as causas da desigualdade na sociedade brasileira; infelizmente, nem sempre quem carrega uma bandeira a serve, e muitas vezes apenas se serve dela. Quem sabe um dia possamos aspirar a que todo Brasil seja como Brasília.

10 comentários:

Ricardo Rayol disse...

Brasília foi construída em 60 então não é dificil deduzir a motivação do Niemeyer ehehehe.

Quanto ao alunato, duvido que dali saia algo que preste.

Angélica disse...

"O Rio de Janeiro foi a capital por 152 anos e é um local particularmente corrupto e desigual com uma grande população negra que ainda é cidadã de segunda classe apesar de ainda ter grande quantidade de servidores públicos. Possivelmente seja por isso que o Rio de Janeiro gere tantos comunistas."

Bem... Corrupção há em todo lugar, mas há de fato essa relação entre a maioria negra de "segunda classe" (?) como mola propulsora de uma ideologia de esquerda ?

Abranches, desculpe, mas não acho que seria interessante se aspirar a que todo Brasil seja como Brasília, com "a maioria da população empregada no serviço público com faixas salariais com um piso alto e um teto não excessivamente elevado". E se não fosse a concentração de poder, o que seria de Brasília ? Não vejo com bons olhos uma cidade que viva exclusivamente do funcionalismo público. Que incentivos há, por exemplo, ao setor industrial para que se aumentem as fontes de arrecadação ? Nenhum...

Heitor Abranches disse...

Angélica,

Um dia eu perguntei a um amigo marxiano carioca porque ele tinha estas simpatias pelo igualitarismo? Ele me disse que crescera na Tijuca e que fora muito marcado pela separação que houve entre ele, filho da classe média e seus amiguinhos de pelada que tiveram oportunidades totalmente diversas na vida. Este meu amigo marxiano é um bom sujeito, realmente de bom coração, meio intolerante mas no geral bom sujeito, talvez o melhor tipo de esquerdista possível. Acredito que muitos que vivenciaram situações de desigualdade como esta possam ter se tornado marxistas. Por outro lado, um brasiliense acostumado à igualdade mais que qualquer outro brasileiro teria menos propensão a se tornar um marxista....

André disse...

Brasília pra mim fica melhor vista do alto, de avião — e voando no sentido contrário, pra bem longe.

Se um dia o Brasil inteiro ficasse parecido ou igual a essa prisão ao ar livre, eu gostaria de já estar fora do país. Ficando aqui, bom, acho que prefiro uma boa morte. Já chega uma cidade feia, chata, morta e cheia de burocratas, onde quase todo mundo é ou quer ser um, onde concurso público quase sempre é a conversinha da vez e a “tarefa” obrigatória. Uns vivem nessa por gosto, por prazer. Outros, por falta de opção. Dá pra sobreviver, claro, a duras penas. Mas às vezes é algo bem próximo da morte (a intelectual e a outra) em vida.

Tem gente aqui de quem se pode esperar coisa melhor do que dos eleitores de Roriz e outros jecas, de quem não se pode esperar nada, naturalmente. E gente que também não é de esquerda. Até daquele ambiente acadêmico ridículo da UnB de vez em quando sai algo que presta.

O Rio tem muitos esquerdistas e Brasília também. Aos montes. Essa gente nunca falta.

Acho a arquitetura daqui sem graça, se bem que acho a cidade toda sem graça - tirando o verde, as árvores, enfim, a natureza. E não há nada pra se fazer aqui, tirando shopping, cinema e um ou outro lugar. Alguns pedaços parecem mesmo coisa de país da Europa Oriental sob o comunismo.

Acho que o Brasil não precisava de Brasília, mas não tem mais volta. A região central poderia ter se desenvolvido sem se trazer a capital pra cá. Só espero que arrumem mais a cidade e desfaçam alguns erros, resolvam alguns problemas, pra que não fique pior ainda, nem como outras cidades brasileiras. Muita coisa em Brasília ainda tem jeito, tem solução, sem precisar recorrer a uma bomba de hidrogênio.

a.h disse...

Heitor,

Eu também tive um amigo mais pobre como esse teu da Tijuca. Seus pais tiveram 12 filhos em Gravataí, na periferia de Porto Alegre. À época meio rural, meio urbana (anos 60-70). Meu camarada estudou em colégio agrícola na vizinha Cachoeirinha, onde morei por 9 longos anos. Quando me mudei para lá, com 15 anos, meus amigos me gozaram, pois morar naquela cidadezinha, que conseguia ser pior que Gravataí era um óbvio sinônimo de decadência.

Voltando ao sujeito, ele estudou neste colégio por um motivo muito simples: tinha verba estadual e dava quarto e comida pros alunos que lá ficavam em turno integral.

Ao se formar no ensino médio, quando todos ou quase todos nossos camaradas iam para a faculdade, o sujeito não teve outra alternativa senão encarar o batente como representante de venda de químicos para a agricultura, aquilo que vulgarmente se chama de “agrotóxicos”. Além, é claro de adubos e outros utensílios. Isto lá pelos idos dos anos 80.

Eu me formei, entrei na pós em São Paulo, a qual não conclui e me lancei no mercado de escolas particulares e cursinhos em São Paulo. Acabei perdendo seu contato por um tempo... Lá pelos 90, voltei a encontra-lo, o que era um pouco dificil quando eu passava rapidamente por Cachoeirinha e, seu horário era das 7 às 21, 22h. Ele e a mulher compraram aparelho de som, tv numa casinha de madeira caindo aos pedaços onde moravam. Daquelas, cuja porta deve ter servido de inspiração aos filmes de ação hollywoodianos (com um chute qualquer se abria). Tudo a prestação, claro, pois não tinham fundos para comprar nada a vista. Certa noite ao chegarem em casa, na sala só tinha sobrado com um sofá velho, cujas costuras se desfaziam. Foram assaltados.

Cachoeirinha tem uma ponte que atravessa o Rio Gravataí, tão poluído que a água que sai da torneira parece leite de tanto cloro que é adicionado. Quando eu tomava banho, meus olhos ardiam pelo excesso de cloro. Hoje, aqui em Florianópolis tenho água de qualidade, mas minha mãe que ainda mora lá, todos os dias ainda fica com os olhos vermelhos. Uma vez por ano, no entanto, os olhos do sujeito não ardiam porque da perna pra baixo ele toma banho com a água da inundação do Gravataí (muito muito antes de se falar em “aquecimento global”), pois ele morava na várzea junto ao rio.

Ele mudou de firma de representação, foi fazer cursos rápidos em São Paulo para conhecer o produto e conseguiu abrir uma lojinha, mas não deixou de visitar seus clientes num raio de 100 a 300km em torno de sua casinha.

Juntou uma grana e construiu um sobrado no fundo do terreno. Tão logo ficou pronto, nem aproveitou e já vendeu, se capitalizando.

Conversávamos muito e eu era um defensor da reforma agrária. O sujeito ria e ria de mim. Eu falava com autoridade “conheço o MST, já visitei a Fazenda Anoni, sei como eles vivem...” Ele disse “certo, vou te levar para conhecer uns assentamentos”.

Visitamos dois, um onde o pessoal realmente trabalhava, mas não tinham muito lucro, produtividade baixa e não dispunham de transporte para descartar os atravessadores; no outro, se esconderam quando nos viram chegando. Só vi porcos deitados na lama, nada mais.


- Como eles vivem aqui. Perguntei.
- Só esperam a grana do governo, me disse.
- Ué? Mas, já não ganharam terra?
- Ah ah ah, foi o que ouvi como resposta.

Meia década depois, lá estava o sujeito arrendando uma mega-propriedade para plantar arroz...

- Êi! Por que tu não compra alguma propriedade em vez de gastar com aluguel?
- Anselmo... Se eu comprar, pago mais todos os anos que se alugar.

Enquanto conversávamos, ele arrumava uma bomba d’água com uma tira de borracha improvisada...

Isto se deu em uma época que eu ainda “ensinava” para vários alunos (seguindo meu livro didático) que arrendatários não tem terra e são “explorados” pelos proprietários. Voltei para São Paulo naquele verão e minhas aulas mudaram de tom, substancialmente: já não dizia mais que arrendatários eram todos pobres.

- Cara, por que tem tanta pobreza entre os agricultores, então? Tu é uma exceção, comentei.
- Não, Anselmo. A dificuldade deles é porque pensam como agricultores.

Ele estava comprando dívidas de seus antigos clientes e cobrando-lhes com juros menores que qualquer banco.

Eu poderia parar aqui, mas a saga deste “miserável” ainda vai muito mais longe...

Quando a ecologia começou a entrar na moda, ele se interessou em saber como aplica-la. Técnicas como “plantio direto” dispensavam alguns produtos reduzindo custos. O que, normalmente, alguém faria, seria desdenhar disso, para continuar vendendo mais caro. Ao longo de dez anos, como um pastor materialista, ensinava agricultores como economizar.

Quando falávamos de qualquer outra futilidade, como “que carro tu prefere”, ele contemporizava com o ano do veículo, cuja relação custo-benefício seria melhor... “Zero quilômetro desvaloriza 20% ao sair da loja”. E não pagava por um, mas trocava por “sacas de arroz”.

Meia década depois, ele tinha duas grandes lojas de produtos agropecuários.

Ao fim do segundo mandato do FHC, ele votara no Lula por que estava descontente com a política econômica. Hoje, viu que fez besteira, mas que não era tão diferente do próprio governo FHC.

Com a alta do Real, ele se ferrou. Quebrou e o crédito sumiu. Uma grande empresa paulista estava prestes a decretar sua falência por falta de pagamento. Ele pagava se os clientes lhe pagavam, pois aí estava seu capital de giro. Mas, estavam quase todos quebrados. Do outro lado, seus vários fornecedores entendiam perfeitamente, mas esta grande empresa não poderia abrir exceções.

Como o telefone não ajudava, pegou sua pick-up com um advogado, um monte de papéis e veio para São Paulo. Chegou em casa na madrugada, pois se perdeu na Marginal e teve que pedir informações para algumas “mulheres estranhas” na Waldemar Ferreira ao lado da USP, o famoso “Putusp”. Eram travestis... Demorou também porque ficou batendo papo lá.

Conseguiu estender o prazo de pagamento e a dívida saltou de uns 300 mil para mais de um milhão.

Decretar falência seria muito mais fácil, mas isto implicava em chutar os empregados de suas duas empresas. Fazendo a limpa e cortando tudo que podia descobriu que seu cunhado o lesara em alguns milhares de reais.

Como era religioso, espírita, maçom, o diabo não quis matar o cara. Coisa que se fosse comigo, eu teria feito depois de torturar o infame. Sua opção acabou sendo decretar falência, mesmo.

Hoje, ele arrenda outra área em Guaíba, outra cidade da metrópole porto-alegrense. O que ele faz lá? Arroz, mas contrata agricultor de Santa Catarina e garante o lucro do proprietário.

Movimenta 300 mil reais por mês e tira pra si, no mínimo, 30 mil mensais.

Sua garantia: se quebrar, paga quantia fixa ao dono da terra sem ônus para o mesmo. Seu contrato, seu nome.

A desigualdade nunca o tornou marxista. A desigualdade o desafiou. Eu perdi a conta dos rounds que ele teve na sua vida, mas posso dizer que nunca foi nocauteado. Provavelmente, por que enquanto eu lia Os Grandes Escritos Anarquistas de George Woodcock, ele lia seus manuais de aplicação dos produtos químicos...

angelica disse...

Nossa...

Que história mais linda Anselmo...

Tão bem contada por você...

Cada vez mais eu relaciono o esquerdismo com a falta de caracter.

Meus parabéns...

Heitor Abranches disse...

Gostei do comentário Anselmo,

Acho que uma das coisas que as doutrinas de esquerda sabem se aproveitar é da culpa do ser humano. Todos nós temos culpa então quando um político desta linha ataca os nossos suados privilégios muitos de nós se intimidam.

Ninguém fica satisfeito de ver mendigos na rua ou seres humanos degradados especialmente crianças e de repente aparecem estes ex-lideres estudantis como campeões da verdade e da justiça.

O fato é que muitas vezes é mais fácil para o político atacar as consequências do que as causas como esta estória das quotas para ajudar os alunos da escolas públicas a entrar na universidade.

Como diriam os esquerdistas, o verdadeiro radicalismo seria melhorar a escola pública mas aí não se formariam clientelas agradecidas ao PT e o Lula não ganharia mais votinhos.

a.h disse...

Angélica e Heitor,
Mas o parabéns deve ser dado ao fulano. E... Talvez um pouco a mim, quem lhe concedia um prato de comida quando dava um tempo na madeireira lá perto de casa ao fazer trabalhos escolares com meu irmão.

Abraços

Thomas Korontai disse...

Prezados, indicado pelo Anselmo, que escreveu a magistral crônica sobre "desigualdade", me permitam comentar sobre Brasilia: ela é fruto de um devaneio cheio de justificativas que não fazem sentido, que produziu uma boa inflação no País. Mas,pior do que isso, reforçou o centralismo do modelo de Estado em que o Brasil é (des)organizado, blindando a todos que se locupletam do mesmo. Brasilia abriga assim, o cerne do problema brasileiro - o modelo - que concentra 75% de tudo que se arrecada nacionalmente, que dita regras que devem valer para todo um territóiro de 8,5milhões de km2, que concentra centenas de milhares de recursos no estranho modelo de Judiciário e que legisla e administra para todo os inúmeros brasis. Criou-se um cabeção, um amebão federal, que consome com todos os sonhos de quem trabalha e luta, que promove a igualdade das desgraças para todos, que promove a idiotia nacional que se afirma através dos discursos do "grande paizão". Brasilia, o cerne do Governo Central, que anula a Federação cada vez mais, transformando o Brasil em um pais unitário, kafkiano, burocráico, pesado, lento, barganhocrático, corrupto e sem instituições fundadas na democracia, e sim, na plutocracia, a forma moderna de dominação central financiada peloincesto com grandes grupos economicos, nacionais e estrangeiros.

Deixo a mensagem de otimismo, contudo, de que o Federalismo pleno das autonomias estaduais e municipais, proposta pelo Movimento Federalista (www.federalista.org.br) é o melhor caminho da transformação sistêmica que o País precisa conhecer e adotar. Existe luz no fim desse túnel, e não é um trem...

Saudações a todos,
Thomas

mariagabrielle disse...

brasilia,onde a beleza se ver nos centro da cidade,e os bastidores são podres.

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