23 abril 2008

O juiz potiguar e a tentação da originalidade

Janer Cristaldo

Nunca falta, na história do Judiciário, juízes tentados a prolatar sentenças originais. Leio que no Rio Grande do Norte, Mário Jambo, juiz federal, condenou hackers a ler, a cada três meses, dois clássicos da literatura. Os acusados Paulo Henrique da Cunha Vieira, 22, Ruan Tales Silva de Oliveira, 23, e Raul Bezerra de Arruda Júnior, 30, foram liberados no dia 17, após nove meses presos por envolvimento na Operação Colossus, da Polícia Federal. A operação, deflagrada em agosto de 2007, investigava uma suposta quadrilha que roubava senhas bancárias pela internet. Os jovens terão de apresentar resumo das leituras à Justiça. Segundo o juiz, a Justiça precisa sair da "mesmice".

Até aí, uma sentença interessante. O problema é que o Meritíssimo está exigindo a leitura de clássicos das letras tupiniquins. Em vez de pedir a leitura de um clássico do século passado, libelo contundente contra todas as tiranias do mundo, como 1984, de Orwell, o juiz quer que os meninos leiam Vidas Secas, do stalinista Graciliano Ramos. Em vez de uma denúncia imortal da estupidez humana, como As Viagens de Gulliver, de Swift, exige a leitura de um autor abstruso como Guimarães Rosa. Pelo menos impôs a leitura de apenas um conto, “A hora e a vez de Augusto Matraga”. Menos mal.

Se a moda pega, não é de duvidar que os índices de criminalidade eletrônica diminuam no país. Imagine hackers tendo de ler Machado de Assis ou Clarice Lispector, Mário ou Oswald de Andrade, Lya Luft ou Lígia Fagundes Telles. Certamente pensarão duas vezes antes de tentar invadir um computador alheio.

A idéia de Mário Jambo não é de todo má. Em vez de uma punição que não levaria a nada, o juiz condena os jovens a educar-se. O problema reside, a meu ver, nesse eterno afonsocelsismo que permeia as mentes de Pindorama, de louvar o que é nosso só porque é nosso. Ora, se o Meritíssimo tivesse um olhar mais abrangente, buscaria os clássicos da literatura universal, como Platão, Cervantes, Dostoievski, Swift, Pessoa. Um pouco de cultura histórica também não faria mal: Arnold Toynbee, Ernest Renan, Jean Delumeau, Le Goff, Charles Lea. E mesmo a Bíblia, por que não? Na Bíblia, estão os mitos básicos do Ocidente. A Bíblia é certamente o livro que mais tenho relido nos últimos anos. E quem me acompanha não ignora que sou ateu.

Pela experiência que tenho dos cursos de Letras, obrigar jovens a ler autores nacionais é afastá-los definitivamente da literatura. Eu cometi esse crime, quando professor de Letras. Estava cingido a uma ementa e, como não queria fingir que ensinava enquanto meus pupilos fingiam que aprendiam, cobrei a leitura até mesmo de Clarice Lispector. Certa vez, em uma palestra na PUC de Porto Alegre, eu comentava a inutilidade de ler Lispector. Ao final da palestra, uma professora abordou-me, timidamente.

- Professor, o senhor me conforta.
- Comovido, professora. Posso saber por quê?
- É que sou obrigada a lecionar Clarice. Eu detesto a Clarice, meus alunos detestam a Clarice, mas o currículo exige a leitura de sua obra.

Fui tomado de uma extraordinária satisfação interior naquele instante. Eu enfiara o dedo em um dos tabus universitários e fizera uma professora feliz. Há um paradoxo na cultura do país. Quando se trata de vinhos, preferimos os estrangeiros. Uísque, idem. Carros, ibidem. Por que então só a literatura tem de ser nacional?

Mas o juiz potiguar vai mais longe. Quer os meninos afastados das lan houses. O que é uma bobagem, pois se alguém quer hackear não precisa ir a uma lan house. Mas o insólito mesmo reside em uma terceira determinação: proibiu-os de freqüentar casas de prostituição. A proibição, além de não ter relação alguma com o crime cometido pelos jovens, é flagrantemente inconstitucional. Bem ou mal, neste país, ainda vige o direito de ir e vir.

Sem falar que prostituição não é crime.

Um comentário:

Ricardo Rayol disse...

Vai ajudar muito na escolha de apelidos.. por exemplo teremos muitas capitus por aí.

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