19 abril 2008

A Igreja e a conivência com a pedofilia

Janer Cristaldo

Durante sua viagem aos Estados Unidos, ainda no avião que o transportava, sua santidade Bento XVI disse estar “profundamente envergonhado” pelos casos de pederastia da Igreja Católica nos Estados Unidos. Estou usando a palavra pederastia porque colhi a notícia no jornal madrilenho El País. É como os espanhóis chamam a pedofilia. Esta palavra é evitada na Espanha, pois teria uma conotação completamente diferente e exótica.

Tarde piou o papa. Quando cardeal, foi notório o seu empenho no acobertamento dos padres pedófilos. Tampouco não temos notícia de qualquer punição de um tribunal eclesiástico. As punições, se assim podem ser chamadas, não passaram de transferir o padre devasso para uma outra paróquia. A mesma leniência não tiveram os tribunais americanos, que condenaram as dioceses ao pagamento de milhões de dólares.

No ano passado, a Corte Superior de Los Angeles ratificou o maior acordo já pago por uma diocese católica nos Estados Unidos a 508 pessoas que sofreram abusos sexuais por parte de sacerdotes: 660 milhões de dólares em indenizações. Para poder desembolsar tais cifras, a Igreja teve de vender várias propriedades. Vários padres foram condenados e cinco bispos e arcebispos declararam falência ante a impossibilidade de indenizar em dinheiro os danos.

O escândalo veio à tona em 2002, em Boston (Massachusetts), onde mais de 500 supostas vítimas de abusos apresentaram queixas. O caso acabou com a entrega de 85 milhões de dólares aos querelantes. Em dezembro do mesmo ano, a arquidiocese aceitou desembolsar 60 milhões de dólares para chegar a um acordo com 45 supostas vítimas de padres pedófilos. Em 2004, a diocese de Orange (Califórnia) pagou 100 milhões de dólares para encerrar 90 processos e, em 2005, a também californiana Oakland entregou 56 milhões a suas 56 vítimas. Em 2006, a diocese de Convington (Kentucky) pagou 84 milhões de dólares a 350 vítimas de abusos.

“Excluiremos absolutamente a pedofilia – ou pederastia, como preferem os espanhóis - do Ministério sagrado”, disse o Pontífice aos jornalistas que viajavam no interior do avião. “Estamos profundamente envergonhados e faremos todo o possível para que isto não ocorra no futuro”.

É um propósito prudente, ou o Vaticano arrisca ir à falência. Seja como for, o “faremos todo o possível” do papa soa como palavras vãs. Bento XVI é radicalmente contra a abolição do celibato clerical. E enquanto os sacerdotes se mantiverem célibes, vai sobrar para os coroinhas e crianças próximas.

Leio hoje no noticiário on line que a Igreja Católica está estudando introduzir mudanças nas leis canônicas aplicadas aos sacerdotes que cometem abusos sexuais contra crianças.O prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cardeal William Levada, mencionou essa possibilidade de reforma do código canônico durante um almoço em Nova York com os editores da revista Times.

Ora, o Código Canônico já prevê punições para este tipo de crime e se a Igreja não as aplicou é porque não houve determinação de aplicá-las. Verdade que não são sanções graves, privativas de liberdade, mas de qualquer forma prevêem a demissão do estado clerical. Diga-se de passagem, para a Igreja até mesmo o matrimônio constitui delito. No título V do livro VI do Código Canônico, que trata dos Delitos contra Deveres Especiais, lemos:

Cân. 1394 - § 1. Salva a prescrição do cân. 194 § 1 nº 3, o clérigo que tenta matrimônio, mesmo só civilmente, incorre em suspensão latae sententiae; e, se, admoestado, não se recuperare persistir em dar escândalo, pode ser gradativamente punido com privações ou até mesmo com a demissão do estado clerical.

§ 2. O religioso de votos perpétuos, não-clérigo, que tenta matrimônio, mesmo só civilmente, incorre em interdito latae sententiae, salva a prescrição do cân. 694.

Cân. 1395 - § 1. O clérigo concubinário, exceto o caso mencionado no cân. 1394, e o clérigo que persiste no escândalo em outro pecado externo contra o sexto mandamento do Decálogo sejam punidos com suspensão. Se persiste o delito depois de advertências, podem-se acrescentar gradativamente outras penas, até a demissão do estado clerical.

§ 2. O clérigo que de outro modo tenha cometido delito contra o sexto mandamento do Decálogo, se o delito foi praticado com violência, ou com ameaças, ou publicamente, ou com menor abaixo de dezesseis anos, seja punido com justas penas, não excluída, se for o caso, a demissão do estado clerical.


O Código Canônico prevê punições para os crimes sexuais dos sacerdotes, e particularmente para os casos de sexo com menores. Mas não temos notícias de que alguma autoridade eclesiástica tenha privado os milhares de padres pedófilos de seus estados clericais. O máximo que se vê são transferências de paróquia, o que permite inclusive ao padre relapso encontrar carne nova para satisfação de sua lascívia. Ou seja, a Igreja sempre foi conivente com a pedofilia, já que instrumentos para combatê-la não lhe faltam.

Ainda hoje, em Nova York, na homilia proferida na catedral de Saint Patrick, Bento XVI arengou para 30 mil jovens, aconselhando-os a afastar-se das armadilhas da droga e do materialismo e buscar a verdade sobre a vida. Melhor faria se os aconselhasse a afastar-se dos sacerdotes católicos.

6 comentários:

Ricardo Rayol disse...

Vade retro satanás, teria dito o Papa a respeito de pedófilos. Envergonhado também. Mas e os caras estão presos? são seviciados nas prisões americanas todos os dia pelos membros jactantes dos white power?

Angélica disse...

"Excluiremos absolutamente a pedofilia do Ministério sagrado"...

Vossa Santidade deveria se envergonhar por prometer algo que não pode cumprir, pois que históricamente, a cultura sexual eclesiástica, fortemente partenalista, sempre foi acobertada por uma pureza de "fachada". Quem duvida que desde os primórdios sempre foi assim, desconhece a essência humana, já que antes de ser um homem à serviço de Deus, um padre é um homem. Concordo com o Janer, quando diz que por não ter aplicado adequadamente seus códigos canônicos, a Igreja se tornou conivente e cúmplice de uma situação. Ps: Eu não sabia que a Igreja tinha o poder de demitir um padre. Ou seria excomungado ? Acho que dá na mesma.

Janer disse...

A excomunhão jamais se aplica a delitos referentes à sexualidade, mas geralmente por questões de fé.

Excomunhão latae sententiae: apostasia, heresia, cisma, profanação das espécies consagradas, violência física contra o Romano Pontífice, absolvição do cúmplice, consagração episcopal sem mandato pontifício, violação do sigilo sacramental e aborto: Cân. 1398 - Qui abortum procurat, effectu secuto, in excommnicationem latae sententiae incurrit.

Referendae sententiae: tentativa de celebração da Eucaristia ou de absolvição sacramental e violação do sigilo sacramental.

Angélica disse...

Oi Janer, mon chéri...

"A excomunhão jamais se aplica a delitos referentes à sexualidade..."

Por quê ? É a lei ?

E o que acontece quando um padre é excomungado ?

Janer disse...

Na prática, Angélica, não acontece nada. A excomunhão é uma censura pela qual se exclui a alguém da comunhão dos fiéis e não pode consistir mais que na privação dos bens de que dispõe a Igreja, isto é, os bens espirituais ou anexos aos espirituais, mediante os quais a Igreja ajuda os fiéis, em nome de Deus, a conseguir a salvação. Por isso, a exclusão da comunhão dos fiéis representa um significado eminentemente canônico, isto é, a privação de todos os meios de que dispõe a Igreja e a comunidade dos fiéis para a salvação. A excomunhão proíbe receber os sacramentos, exceto a penitência e a unção dos enfermos, e celebrar ou administrar os sacramentos e sacramentais.

Pedro Amaral Couto disse...

Janer,
o aborto é uma questão de fé mas a pedofilia não é? Explique-nos.

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