05 março 2008

STF decide hoje entre Galileu e a Inquisição

Em crônicas passadas, eu me perguntava se um católico poderia ser médico. Minha conclusão era pela negativa. De repente, em nome de uma fé obsoleta, o profissional se recusa a pôr fim aos sofrimentos de um doente terminal que quer morrer. Se recusa a prescrever anticoncepcionais a mulheres que não querem privar-se dos prazeres sexuais e ao mesmo tempo não querem ter filhos. Se recusa a praticar o aborto em uma paciente que sabe que terá um filho anencéfalo. E daí pela frente.

Me perguntava também se um católico poderia ser jornalista. E minha conclusão continuava sendo pela negativa. O católico está preso aos dogmas, afirmações sem pé nem cabeça feitas pela Igreja, das quais católico algum pode discordar. Um jornalista católico tem de acreditar piamente que Cristo nasceu de uma virgem, que ressuscitou três dias após sua morte, que subiu aos céus, que Deus é três em um (o Pai, o Filho e o Paráclito), sendo que ao mesmo tempo cada um é Deus. Tem também de acreditar, embora isto ande um pouco esquecido, que ao ingerir a hóstia consagrada está ingerindo não pão sem fermento, mas a verdadeira carne de Cristo. E que, ao beber o vinho consagrado, bebe não vinho, mas o verdadeiro sangue de Cristo. Claro que tais crenças não recomendam ninguém ao exercício do jornalismo.

A pergunta hoje é outra. Pode um católico ser juiz? Pode ser ministro do Supremo Tribunal Federal? Continuo achando que não.

Os 11 ministros do STF decidirão hoje quando começa a vida e determinarão, conseqüentemente, se as células-tronco embrionárias podem ser usadas em pesquisas científicas, como determinou a Lei de Biossegurança, de 2005, ou se devem ser protegidas pela Constituição como todo ser humano. A história já começa de modo estranho: especialistas em Direito tomarão uma decisão sobre questões científicas. Os senhores ministros podem até decidir se o uso de células-tronco embrionárias é ou não é crime. Isto está dentro de suas alçadas. O que não podem é fixar por lei quando começa vida. Uma ação de inconstitucionalidade, foi apresentada pelo ex-procurador-geral da República Claudio Fonteles, que faz lobby para a Igreja Católica. Pode um procurador ser católico? Diria que não.

Para começar, a questão de quando começa a vida não pode ser coisa que se submeta à votação. Não é o voto que estabelece a veracidade de um fato. E sim a ciência. Verdade não depende de estatística. Em segundo lugar, fés – quaisquer que sejam – não podem impor leis em sociedades laicas. Apesar do desejo de Roma, o Brasil não é uma teocracia. Se esses misóginos vulturinos querem legislar dentro daquele arremedo de Estado que se chama Vaticano, sintam-se à vontade. Mas que não pretendam legislar em Estado alheio.

Sabe-se que as pesquisas com células-tronco retiradas de embriões destruídos são cruciais para estudos que buscam a cura para males que vão de diabetes a lesões neurológicas. Seu potencial terapêutico vem do fato de elas serem células "genéricas", capazes de compor qualquer tecido humano. A Igreja, que um dia ameaçou com a fogueira o homem que disse que o sol não girava em torno à terra, quer agora impedir a pesquisa sobre a cura de doenças muitas vezes cruéis que assolam os seres humanos. A Igreja diz falar em nome da vida. Em nome da vida, está ameaçando de morte toda a humanidade.

Segundo o Estado de São Paulo, a decisão do STF poderá contrariar um dogma da Igreja Católica, de que a vida começa na concepção, ou colocar um fim numa importante linha de pesquisa científica que procura a cura ou novos tratamentos para doenças degenerativas. A questão colocada é a mesma do aborto, determinar o momento do início da vida. Ora, o redator demonstra desconhecer a história da Igreja. Jamais foi proclamado dogma sobre o início da vida. As atuais considerações sobre o início da vida pertencem ao magistério da Igreja, não ao campo dos dogmas. Está faltando, no Estadão, redator que saiba o que é dogma.

Escrevi ainda há pouco que nossos purpurados parecem esquecer que a Igreja, durante séculos, admitiu o aborto. Que dois de seus campeões, são Tomás e santo Agostinho, eram favoráveis ao aborto. Segundo o aquinata, só haveria aborto pecaminoso quando o feto tivesse alma humana o que só aconteceria depois de o feto ter uma forma humana reconhecível. Para o Doutor Angélico, como o chamam os católicos, a chegada da alma ao corpo só ocorre no 40º dia de gravidez. A posição de Aquino sobre o assunto foi aceita pela igreja no Concílio de Viena, em 1312. Foi em pleno século XIX, em 1869 mais precisamente, que o Papa Pio IX declarou que o aborto constitui um pecado em qualquer situação e em qualquer momento que se realize. O que me espanta neste debate é que não vemos, na grande imprensa, um mísero jornalista que contraponha a este episcopado analfabeto a doutrina clara dos santos da Igreja. Se os católicos se pretendem contra o aborto, deveriam começar destituindo seus santos da condição de sapiência e santidade.

Hoje – provavelmente – se decidirá se o Brasil opta pelo obscurantismo e pela condenação a Galileu, ou pela postura independente de um país liberto do jugo medieval do Vaticano. Escrevi provavelmente, porque sempre pode existir um ministro pusilânime que peça vistas do processo e atrase indefinidamente a decisão.

Consta que nove dos onze ministros do STF são católicos. O risco de o Brasil alinhar-se à escória da humanidade é grande. Já aventei a hipótese de os católicos – e apenas eles – serem submetidos a sanções quando praticarem atos que as nações civilizadas não consideram crimes, e eles católicos consideram. Por uma questão de coerência, todo católico gravemente enfermo deveria recusar-se a receber qualquer benefício decorrente das pesquisas em torno às células-tronco.

17 comentários:

Catellius disse...

Repito o que escrevi no blog do Zappi:

Os embriões utilizados em pesquisas seriam descartados de qualquer maneira. Seria loucura implantá-los em um útero depois de três anos congelados.

Embriões são descartados ou congelados quando um casal parte para a fertilização artificial. Se fosse feita a "vontade de Deus", o mesmo casal jamais teria filhos. Entre NADA e filhos gerados a partir de inseminação artificial, a Igreja fica com a primeira opção. E após o procedimento ser realizado, passa a defender insanamente os embriões que seriam descartados de qualquer maneira, mesmo que as pesquisas contra as quais se posiciona possam salvar a vida de milhões de pessoas no futuro. Quem é a favor da vida?

Catellius disse...

Sobre crenças absurdas de católicos:

É ridículo um deus criar o homem para o adorar, afogar todos para acabar com o mal na Terra e depois o mal retornar como era antes, deus purgar os pecados dos homens tendo para isso que descer à Terra e ser esfolado vivo (pelo menos pelo evangelho segundo Mel Gibson), anjos (que não são mais críveis que fadas) mensageiros de um deus onipotente, onisciente e onipresente, etc. O papa canonizou o curandeiro Frei Galvão (um 'santo' que possuía escravos, he he). Ele assinou embaixo das crendices que envolvem a ingestão daqueles papeizinhos ridículos. Enfim, temos as aparições da Vixi Maria, milagres de todo tipo (os milagres foram decaindo com o tempo; antigamente eram oceanos se abrindo, sol parando e mortos ressuscitando; hoje são uma gonorréia curada, um câncer revertido, he he), etc.

Catellius disse...

Raphael e André, desculpem por eu não ter respondido os seus comentários no post "De como voltei a ser feliz".

Vou passar lá agora. Estive meio ocupado. Neste sábado viajo para Dubai. Espero que o calor não esteja insuportável. Na metade do ano a sensação é semelhante a se trancar em um carro preto com os vidros fechados sob sol de meio-dia do Rio de Janeiro (sem ar-condicionado) e com um secador de cabelos apontado para a cara. Ah, sem falar na umidade que chega a desagradáveis 100%! Um amigo que esteve lá nessa época me fez essa descrição, he he. Agora deve estar mais fresquinho, uns 30º talvez...

Catellius disse...

"Entre NADA e filhos gerados a partir de inseminação artificial, a Igreja fica com a primeira opção."

Embora haja a opção por filhos adotivos.

Angélica disse...

"Consta que nove dos onze ministros do STF são católicos."

Caso perdido...

André disse...

Ninguém vai fixar por lei quando começa a vida. Quem tentou desviar o assunto para isso aí de “começo da vida” foi o lobby religioso, na audiência pública no STF em 2007, só que não deu muito certo. Eles se enrolaram demais.

E, como vários cientistas estão dizendo, o pessoal religioso inventou outro deslocamento de assunto: faz questão de informar mal o público, dando a entender que isso que está sendo feito com as células-tronco é a mesma coisa que aborto. Eles sempre metem aborto no meio.

Quanto a isso de profissionais que se deixam influenciar pelas suas crenças, bom, o mundo não é perfeito. E o direito não serve para fazer justiça. Só de vez em quando. O direito serve para se aplicar o direito. E muitas vezes é injusto. Mas a maior parte dos católicos é favorável a esse tipo de pesquisa. Nem ficam contra. E quando ficam (aborto...), muitas vezes fazem o inverso do que dizem, quando a “coisa” acontece.

Essa bobagem não deve passar. O cretino do Fonteles, católico carola, de fala empolada e que carrega as culpas do mundo nas costas, e que me deu algumas poucas aulas na faculdade, conseguiu o que queria: aparecer. Fez o showzinho dele. Mas isso não passa.

“O que me espanta neste debate é que não vemos, na grande imprensa, um mísero jornalista que contraponha a este episcopado analfabeto a doutrina clara dos santos da Igreja.”

A mim também. História, infelizmente, é a matéria que menos interessa aos jovens.

“Consta que nove dos onze ministros do STF são católicos. O risco de o Brasil alinhar-se à escória da humanidade é grande.”

Waaal, vai ser o fim dos tempos mesmo... Essa “escória” deve ser mesmo imensa — mas eu não devo dar muita atenção, já que vivo cercada por toda essas criaturinhas malvadas. Devem ser piores do que os orcs de Sauron, Senhor de Mordor, e só eu que não percebo...

A escória está em todos os lugares, em todos os cantos, não se restringe a uma religião ou movimento qualquer. A escória não tem fronteiras.

E, de qualquer maneira, seria meio difícil, ainda mais no Brasil, ter 11 ministros ateus ou agnósticos ou hindus ou sikhs ou sufis ou muçulmanos...

Um ministro pode pedir vista do processo, o que parece já ter acontecido e que atrasa mesmo o andamento, mas não pode revisar seu voto indefinidamente. Nem pode revisar o mérito da decisão, como quem quer voltar atrás. Uma vez dado o voto, a revisão é de notas taquigráficas e outras besteirinhas burocráticas, e isso é rápido, além de ser procedimento normal.

***********

Boa viagem, Catelli!

Janer disse...

Catelli,

se te hospedares no Burj al Arab, queremos relatório detalhado na volta.

André disse...

Só mais uma coisa: revisões de voto que envolvam o assunto principal (o chamado "mérito" da causa), são raras, pois exigem um bom motivo para tanto. Ou vários bons motivos.

Mas um simples pedido de vista do processo já é mais do q suficiente para atrasar um julgamento, claro.

Raphael disse...

Nesse caso, não só os católicos então. Todo membro de qualquer religião (ou ao menos da maioria delas) não poderia ser médico, jornalista etc...

É ridículo que os ministros do Supremo pretendam ter autoridade para decidir onde começa a vida. São médicos? São cientistas? O ego de alguns magistrados simplesmente não cabe num único tribunal.

"Já aventei a hipótese de os católicos – e apenas eles – serem submetidos a sanções quando praticarem atos que as nações civilizadas não consideram crimes, e eles católicos consideram. Por uma questão de coerência, todo católico gravemente enfermo deveria recusar-se a receber qualquer benefício decorrente das pesquisas em torno às células-tronco." Pois é.

Raphael disse...

Boa viagem, Cattelius. Se bem que... não sei se uma viagem assim pode ser boa. Dubai fica nos Emirados Árabes, não? É...

Catellius disse...

Valeu galera, pelos votos.

Janer, infelizmente não ficarei no Burj al Arab; é muito caro. Mas devo comer no seu restaurante, a uns trezentos metros de altura, debruçado sobre o Golfo Pérsico .

Devo visitar as obras do Burj Dubai, que será com folga, além do maior prédio, a mais alta estrutura do mundo. E há muitas outras atrações por lá.

--//--

Raphael,

É, fica nos Emirados. Mas apesar de tudo, do imenso canteiro de obras, da profusão de indianos e paquistaneses semi-escravizados (os empregadores retêm os passaportes e descontam de seus salários os custos de moradia e alimentação; ultrajante), acho que será uma viagem divertida. Poderei praticar um pouco do árabe que aprendi durante o ano e meio que morei no Oriente Médio, além de curtir as inúmeras atrações daquela Las Vegas do oriente.

Vou responder por aqui mesmo sobre aquela questão. Veja bem, Raphael, eu disse que não gosto do Tolkien. Na verdade, não curto esse tipo de literatura. Mas reconheço o seu valor.

Na minha adolescência, li muito Alexandre Dumas, Walter Scott, Victor Hugo, Ponson Du Terrail (Aventuras de Rocambole), Agatha Christie, Conan Doyle, Maurice Leblanc, Manzoni, Mil e Uma Noites, Contos de Grimm, Poe, Andersen, Pushkin, muita literatura fácil, além de Edmond Rostand, Shakespeare, Racine, Goethe, Ésquilo, Eurípedes, Sófocles, Aristófanes, Homero, Virgílio, Dante, Bocaccio, etc. Li muito, uma época, os chamados "romances do cristianismo", como Os Últimos dias de Pompéia, Quo Vadis, etc.

Aí caí matando em Sartre e Proust, nos russos, em Knut Hamsun, Hemingway e muitos outros. E depois em Nietzsche, claro, e outros filósofos. E sempre li a Bíblia. Antigamente com reverência, hoje sentado na privada morrendo de rir, he he...

Sinto saudades de ler aquelas coisas. Levei para minhas últimas férias Morte na Mesopotâmia de Agatha Christie e achei ótimo relê-lo, he he.

Mas confesso que não consigo ler sobre aquilo que o Tolkien escreve. Aqueles monstrinhos soltando fogo, orcs e duendes, ents e sei lá mais o quê... Deve ser limitação minha...

Abração

Raphael disse...

Catellius, eu estava brincando contigo sobre aquilo, claro. Você leu muito mais coisas que eu, sua bagagem é indiscutivelmente maior. É que sou um daqueles fãs do Tolkien (e desse gênero) apegados, mas não do tipo que briga por causa disso. Só não entendo como vocês (o Janer também diz não ter lido ultimamente muita ficção) que gostam tanto de viajar podem não gostar desses mundo fantásticos, gigantescos e maravilhosos que pessoas como Tolkien criaram. Tanto a explorar, sem precisar do homem real que tira o encanto de quase tudo.

Do que você gostava de ler (sua adolescência) é o que li na minha ou ainda leio, sendo neófito como sou. Gosto do Dumas, bastante do Goethe, alguns poemas e contos do Poe, e, para não sairmos do romântico/ultra-romantico, Álvares de Azevedo. Não sei o porquê, mas simplesmente não consigo gostar de literatura nacional. Álvares é uma das poucas exceções.

Sobre seu último parágrafo, pelo amor do bom deus dos ateus! Não reduza o mundo de Tolkien à “monstrinhos soltando fogo, orcs e duendes, ents e sei lá mais o quê” é mais que isso! Tudo bem que é um apanhado mais romântico, mas mesmo assim.

Meu escritor preferido é Bernard Cornwell, ainda no gênero dos épicos. Ele é um British storyteller, escreve romances históricos ambientados na Idade das trevas ou Média, geralmente. A diferença é que ele é realista, incomparável. As vezes você pode sentir o cheiro de estrume das ruas, se é que isso é bom. Uma vez inclusive comentei com o Janer num e-mail, não entendo como alguns europeus puderam ser convencidos a trocar um Valhalla de sexo, lutas e hidromel por um paraíso casto e de harpas.

Abraço e boa viagem

P.S Cuide da sua carteira.

Saramar disse...

à parte a questão de que o embrião é meu e faço dele o que eu quiser (perdão pela grosseira expressão), não sei porque a Igreja, que sempre se pautou pelo mais absoluto atraso, tem que interferir neste assunto.

Se não fosse a ciência, não haveria alma para esses pastores (?!) conduzir. Todo mundo teria morrido rezando.

beijos

Catellius disse...

Raphael,

"Só não entendo como vocês (o Janer também diz não ter lido ultimamente muita ficção) que gostam tanto de viajar podem não gostar desses mundo fantásticos, gigantescos e maravilhosos que pessoas como Tolkien criaram."

Eu li duas vezes As Mil e Uma Noites em seis volumes que meu pai tinha, muitas vezes ao som de Sheherazade de Korsakov, he he. E li também a obra pouco conhecida As Cento e Uma Noites, acho que originária do Marrocos. Não tenho certeza. Em ambas há gênios, cavalos alados, bruxas, feiticeiras, adivinhos, profecias, ilhas magnéticas, bandidos, etc. Um dia eu tentarei ler o Tolkien. Minha esposa comprou O Senhor dos Anéis em um único volumão, com o Gandalf na capa. Mas ainda tenho algumas coisas na fila...

"Do que você gostava de ler (sua adolescência) é o que li na minha ou ainda leio, sendo neófito como sou. Gosto do Dumas, bastante do Goethe, alguns poemas e contos do Poe, e, para não sairmos do romântico/ultra-romantico, Álvares de Azevedo. Não sei o porquê, mas simplesmente não consigo gostar de literatura nacional. Álvares é uma das poucas exceções."

Meu pai reunia a filharada para ler O Talismã (Ricardo Coração de Leão), O Mosteiro e Ivanhoé de W. Scott, O Castelo de Epstein de Dumas, sem falar n'O Conde de Montecristo, n'Os Três Mosqueteiros, Vinte Anos Depois, a continuação, e O Visconde de Bragelonne, a continuação da continuação, e outras coisas. O que não entendíamos ele explicava. Na pré-adolescência tentava ler o que meus irmãos mais velhos já haviam lido, por competição (he he), e depois me ative ao que mais gostava. Ainda gosto de tudo o que li naquela época. Apenas não tenho mais tempo e paciência. Gosto de Machado de Assis, de Aluízio e Álvares de Azevedo, e gostei do pouco que li de Nelson Rodrigues.

Mas não leio tanto quanto antes. Trabalho, leio coisas da minha área - arquitetura -, leio muita coisa pela Internet, tenho filha e esposa, encontros familiares no fim de semana, encontros com ex-colegas de faculdade, com colegas de trabalho, etc.

"Sobre seu último parágrafo, pelo amor do bom deus dos ateus! Não reduza o mundo de Tolkien à 'monstrinhos soltando fogo, orcs e duendes, ents e sei lá mais o quê' é mais que isso!"

Ok, ok! Mea culpa! Prometo que darei ao Tolkien um crédito de 100 páginas. Faço aqui minha promessa. Caberá a ele me fazer ler o resto daquele por enquanto desanimador tijolo de papel... Nossa, quando me aventurei a ler Guerra e Paz me dei mal. Já havia lido contos de Tolstoi como Ivan o Imbecil. Falando em tijolos, li e gostei de os Miseráveis, de Hugo. O problema é aquele maldito capítulo "Waterloo"; uma encheção de lingüiça dos diabos. Hugo aproveitava suas novelas, cujos capítulos eram publicados em semanários, acho, para acabar com os clímax enfiando entre suas páginas escritos pedantíssimos sobre guerra, política e etc. O capítulo Paris Vista do Alto, do Corcunda de Notre-Dame, também é muuuuuito chato.

"Meu escritor preferido é Bernard Cornwell"

Nunca li nada dele.

"As vezes você pode sentir o cheiro de estrume das ruas, se é que isso é bom."

Senti algo parecido quando li Patrick Süskind. Gostei de O Perfume. Meio nojento mas muito bom.

"...sexo, lutas e hidromel..."

Assistiu à animação Beowulf? Quando vi que era animação e não filme, como sugeria o cartaz, quase fui embora do cinema. Mas acabei ficando; não é que gostei do que vi?

Abração!

Catellius disse...

Boa, Saramar!

"Se não fosse a ciência, não haveria alma para esses pastores (?!) conduzir. Todo mundo teria morrido rezando."

André disse...

Livros, livros, livros

Um dia ainda vou ser expulso de casa por papel

Nelson Rodrigues é ótimo. Meu cafajeste predileto, he, he. Mas inteligentíssimo, apesar das manias e esquisitices.

Gosto de Tolkien pq o texto dele tem qualidade. E pq ele tinha uma imaginação incrível. Me distrai bastante.

Além do Lord of the Rings, gosto muito de O Silmarillion e Contos Inacabados (esse último, só pra quem gosta muito, pq são fragmentos, dá algum trabalho). Há outro, acho que esse só tem em inglês, de contos da Terra-Média, no estilo desse Contos Inacabados, meio complexo, algo confuso, mas eu adorei.

O Hobbit, Roverandon e um outro de que não me lembro o nome (que saiu há pouco tempo) estão mais pra literatura infanto-juvenil, são mais levinhos, mas muito bons mesmo assim.

E tem o grande Robert E. Howard, criador de Conan, o Cimério. Diferente, mas legal. As histórias fluem. Pena que morreu novo, se matou aos 30 anos. Poderia ter produzido muito, muito mais. É revoltante, claro, como o que aconteceu com Mozart.

Esse Cornwell é muito bom. Li alguma coisa.

Eu pensei q Beowulf fosse filme normal. Quando vi q era essa técnica de animação na qual o Robert Zemeckis ficou viciado, perdi o interesse. Um dia vejo na tv a cabo.

Mas o grosso mesmo do que leio é geopolítica e assuntos militares, na verdade sempre foi assim (passei a infância com a cara enfiada em livros de II Guerra e aviação militar em geral, depois fui me estendendo pelo restante). E hoje leio muito disso na internet, claro.

Raphael disse...

Catellius, você não vai se arrepender. Se me permite, dê um crédito ainda mais importante, quando puder, ao Cornwell. Será uma visão mais realista para fazer oposição ao Tolkien que você já terá lido.

Sobre os Miseráveis, estou ansioso para lê-lo... daqui a 50 anos. Não só Os Miseráveis. Também Don Quixote, Guerra e Paz e As Viagens de Gulliver. Sou um tanto insano, esquizofrênico, admito. Mas do modo como vejo, tenho de deixar o melhor para o final. Como poderia ser minha vida depois que eu lesse esses grandes clássicos (falo daqueles dos níveis mais altos) e depois saber que nunca mais encontrarei nada à altura? O pessoal se assusta um pouco com isso, diz que eu posso reler e etc, mas mesmo assim. Vou deixá-los para o final e espero viver o suficiente.

André,

Contos Inacabados eu tenho. Se não me engano, foi o filho dele que organizou esses textos e inclui mais alguma coisa. O Hobbit também, mas é um pouco mais leve mesmo. Você percebe que o Tolkien não sabia bem ainda a grandeza do anel naquela época...

Se você gosta do Cornwell, tens excelente gosto. Mal consigo esperar o prazo de entrega dos livros até SP quando são publicados lá na Inglaterra (ou nos EUA, não lembro quem publica primeiro) Qualquer um dos romances dele, seja sobre as guerras napoleônicas (viva Sharp!) seja sobre a época das singulares paredes de escudo, é incomparável. Pura viagem no tempo.


Abraço.

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