10 março 2008

Jamais voe pela TAM

Relato de André Caramante, enviado especial da Folha de São Paulo a Madri, para reportagem sobre migrantes brasileiros:

Foi assim com a reportagem: "Lugar da hospedagem em Madri para a emissão do seu bilhete, senhor?", questionou a funcionária Shayane, da TAM. "Não tenho lugar definido ainda, senhora." "Então, não vou poder emitir sua passagem", foi a volta dela, já balançando a cabeça. "Mas, quando comprei a passagem, não me disseram que não poderia viajar sem lugar definido para ficar. Já que é assim, põe qualquer coisa aí."

"Então não tem bilhete, senhor, pois, sem o endereço no destino declarado vai contra as nossas normas", disse Shayane. Ao ouvir o nome de uma rede qualquer de hotéis, Shayane resolveu emitir o bilhete.

Alerta aos navegantes: não viaje pela TAM. Uma empresa aérea não tem competência alguma para exigir de seus passageiros lugar de hospedagem. Mais ainda: a Espanha nunca exigiu lugar de hospedagem já determinado para nela entrar. Neste 2008, completo 37 anos de viajar e quase sempre entro ou saio pela Espanha. Ano passado, estive lá com duas amigas. Não perguntaram por nada. Nunca me fizeram tal exigência. Muito menos qualquer outro país da Europa. Nem nos países do Leste europeu, mesmo na época do comunismo. Só tive este problema quando fui à Rússia.

Sempre tive alguma curiosidade por Moscou e São Petersburgo. Em meus dias de Paris, havia viagens baratíssimas para Moscou, financiadas em parte pelo PC francês. O que não me estimulava a viajar era a burocracia dos bolches. Em primeiro lugar, eu teria de determinar data de chegada e de saída em cada cidade. Isso de gostar de uma cidade e nela prolongar a estada era inviável. Além disso, tinha de reservar – e pagar – antecipadamente os hotéis. Se quisesse viajar de carro – o que não era meu caso – teria de enfrentar meses de conversações com a Intourist. E não poderia desviar-me um milímetro do roteiro pré-estabelecido. Ora, naqueles anos eu tinha o hábito de chegar em uma cidade de mala na mão e sair a procurar hotel. Paulo Silveira, falecido diretor do Instituto Brasil-URSS, de Porto Alegre, me disse certa vez:

- Não pensa que Moscou é uma bagunça como Paris, onde podes chegar de mala em punho e procurar hotéis. Nada disso. Sem hotel pago, nada feito.

O velho bolche louvava como virtude o que era uma exigência estúpida dos russos. Ora, com tantas cidades a conhecer na Europa, onde eu podia entrar, sair ou ficar quanto tempo entendesse, declinei das facilidades do PC francês. Bom, no ano 2000, fiz um giro pela Noruega e decidi visitar uma amiga na Finlândia. Como de Helsinki a São Petersburgo são apenas sete horas de trem, disse para mim mesmo: é hoje ou nunca mais. Em São Paulo, procurei a Tchaika, agência especializada em viagens à Rússia.

Nove anos depois da queda do comunismo, em nada havia mudado a burocracia. Para entrar no país, só com hotel previamente pago. E com datas de entrada e saída previamente determinadas. Mesmo assim, fui. Paguei 112 dólares por um hotel que mais parecia colônia de férias de brigadianos. Para se ter uma idéia do absurdo destes preços: eu descera lentamente de Tromsø pela Suécia, que é um dos países mais caros da Escandinávia. Em Luleå e Skellefteå, me hospedei em hotéis agradabilíssimos, pagando algo entre 60 e 70 dólares. Mais ainda: ao chegar em São Petersburgo, meu passaporte foi retido pela polícia por 24 horas. Mas que tem a polícia russa a ver com minha visita ao país?

Outro detalhe abominável do sistema. Um russo, para visitar o Hermitage, paga 15 rublos. Estrangeiro, 250. Sim, sei que 250 rublos é uma fortuna para um russo. Mas essa discriminação é extremamente antipática. Em suma, Rússia nunca mais. Decidi também que Moscou já estava vista. Pelo jeito, precisarão de mais um século para libertar-se dos vícios do comunismo. E como então não estarei mais aqui...

Outro país onde quase me incomodei foi a Argélia. Em Estocolmo, tive como colega em meu curso de sueco uma adorável suissesse, a escritora Federica de Cesco, vide http://de.wikipedia.org/wiki/Federica_de_Cesco. Um filme sobre sua vida estreará este ano na Suíça). Entre os mais de quarenta livros que havia escrito na época, emprestou-me o que considerava sua obra mais importante, Tuaregs, os nômades do Sahara. Fascinei-me pelo Sahara argelino e decidi que um dia meus pés pisariam aquelas rochas.

Foi nos anos 70, já não lembro em qual deles. A Baixinha queria saber para onde viajaríamos. Botei o dedo no mapa, em El Hoggar. “Enlouqueceste? – disse a Baixinha. Que vamos fazer no deserto?”

Verás, respondi. Bom, compramos o pacote. Fomos então ao consulado da Argélia retirar o visto. Naqueles dias, o passaporte brasileiro tinha, em suas primeiras páginas, a profissão do portador. Pus, orgulhosamente: jornalista. Supunha que minha profissão me abriria portas no mundo todo. Ao ler a palavrinha, o funcionário perguntou:

- O senhor é jornalista?
- Sou, respondi.
- Ah, então é por aqui.

Retirou-me do guichê e me conduziu a uma outra porta. Maravilha ser jornalista, pensei. Tratamento privilegiado. Lá no outro aposento, ele abriu a gaveta de um arquivo, com centenas de pastas.

- São 400 pedidos de visto de jornalistas. Estão esperando aqui há mais de seis meses.

Gelei. Eu pagara caro pelo pacote. Senti meus dólares criando asinhas e voando. Tentei um último recurso. Expliquei que fora jornalista. Que há muito havia abandonado a profissão. Que agora era pesquisador e tradutor. Que fazia um doutorado na Sorbonne Nouvelle. Curiosamente, colou.

Há alguns anos, um amigo português que voltava da França, me jurou que a França estava exigindo um seguro-saúde equivalente a 50 mil euros para entrar no país. Não acredito, disse. Não pode ser. Não é viável, ó luso! Se, por razões de negócios, digamos, tenho de passar um ou dois dias em Paris, tenho de pagar seguro equivalente a 50 mil euros? Se estou em Bruxelas e quero almoçar com uma amiga em Paris, tenho de pagar tudo isso? Além disso, se entro no país de trem, quem vai controlar o seguro? Haverá agentes em cada gare interrogando os passageiros?

O luso sentiu-se ofendido e telefonou para o consulado. De fato, responderam, para entrar na França se exige um seguro-saúde de 50 mil euros. Continuei não acreditando. É medida inviável. Telefonei para minha agente de turismo. “Sim, de fato existe essa lei. Mas não é para ti. Jamais te perguntarão por esse seguro. Foi feita para barrar árabes”.

Ou seja, há muita bobagem nessa discussão sobre a expulsão de brasileiros da Espanha. Nunca voe pela TAM.

6 comentários:

Raphael disse...

“Mas não é para ti. Jamais te perguntarão por esse seguro. Foi feita para barrar árabes”.

Incomodo, mas eficaz. A discriminação me incomoda mas não vejo muitas outras alternativas.

No caso dos brasileiros barrados por lá, o pessoal está fazendo muito barulho por pouca coisa. Querem inclusive adotar princípio de reciprocidade? Ora, que adotem. Quem perde é o Brasil. Nós precisamos dos dólares e da engenhosidade dos europeus, eles não precisam dos nossos.

Raphael disse...

Falar nisso, o que achou da derrota do PP na Espanha, Janer?

Janer disse...

Nada.

Angélica disse...

Janer,

Desculpe a ousadia, mas por que você não acha nada ? Apesar do PP ter aumentado seu número de deputados na Câmara, eu acho lamentável...

Janer disse...

Quando os eleitores decidem, eu não lamento mais nada.

Ricardo Rayol disse...

e o gajo não perguntou à infeliz inde pe que estava escrito isso?

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...