22 fevereiro 2008

Se batina fosse bronze, que badaladas!

Quinta-feira, Fevereiro 21, 2008

Em minha juventude, fui católico. A Igreja foi buscar-me ainda no campo. Uma catequista uruguaia apanhava-me em um jipe na Linha Divisória entre Livramento e Dom Pedrito para jogar-me nas aulas de catecismo. Na cidade, fui estudar em colégio católico, dirigido por padres oblatos. A eles agradeço minha iniciação em latim, francês e inglês. E só. Para desgraça de meus catequistas, muito cedo comecei a ler a Bíblia. Como não há fé em Deus que resista a uma leitura atenta da Bíblia, minhas dúvidas começaram a inquietar os oblatos. Um sacerdote de Bagé, franzino e inquisitorial, veio às pressas para tentar trazer o herege em potencial de volta ao rebanho.

Discutimos um dia todo, com várias jarras de água e um almoço de permeio. A cada preceito de fé que eu contestava, o padre Fermino Dalcin me jogava no rosto a acusação: "Arrogância. Orgulho intelectual. Quem és tu para contestar, aqui em Dom Pedrito, o que autoridades decidiram em Roma?"

Era um argumento pesado para um piá de uns quinze anos. Eu só tinha como defesa descrer do que não conseguia entender. Mas resisti e consegui, ainda adolescente, libertar-me do deus judaico-cristão. Bem sabia a Igreja o que fazia, ao proibir a leitura do Livro a menores de trinta anos. Como cachorro que sacode o corpo para secar-se, sacudi minha alma e procurei, nos anos seguintes, livrar-me da craca ética que vinha grudada ao cadáver do deus cristão. Esta é, a meu ver, a grande função da leitura, libertar o homem de mitos e superstições.

Muitas foram as restrições que tive à fé católica. Mas o conflito inicial, sem dúvida alguma, tinha suas origens na questão sexual. Ao menor pecado contra a castidade, fossem atos solitários ou acompanhados, éramos ameaçados com o fogo do inferno. Em verdade, mesmo pensar em sexo era pecado. No confessionário, a primeira – e diria que única – pergunta era: “pecaste contra a carne, em atos ou pensamento?” Atos, com algum esforço, até que se podia evitar. Mas como evitar pensamentos?

Vivi noites e noites torturado pela idéia de uma condenação eterna. Pecava e sentia meu corpo e minha alma queimando nas labaredas que jamais se consomem. Fazia rapidamente um ato de contrição, contando que viveria até o sábado seguinte – dia de confissão – para poder redimir-me de meus pecados. Fazia o sublime propósito de não mais pecar. Ocorre que a carne não é fraca, como dizem as gentes. É forte. Tão forte que não conseguimos dominá-la. Pecava de novo e se repetia o ciclo: arrependimento, contrição, confissão, bons propósitos... e pecado de novo.

As noites de tempestade constituíam para mim um tormento. Cada raio que caía, eu sentia que era dirigido a este pecador que vos escreve. Megalomania? Até pode ser. Mas o fato é que eu, quando não estava em estado de graça, me encolhia ante a ira divina como cusco amedrontado. Tive um dia a idéia de consultar a Bíblia. Descobri que nela não existia nem mesmo a palavra castidade. Pelo contrário, havia muita orgia, prostituição e até mesmo incesto.

Foi quando abandonei minha fé. Como eu exercia alguma liderança entre meus colegas de ginásio, providenciaram a vinda do Torquemada de Bagé para trazer-me de volta ao rebanho. Autoritário e ao mesmo tempo melífluo, padre Fermino voltou de mãos abanando.

Foi quando sofri minha primeira expulsão da cidade. Expulsão discreta, nada oficial. O oblato padre Antonio Paul, diretor do ginásio, cortou-me a matrícula. Se quisesse continuar estudando, tinha de mudar de cidade. (Eu seria de novo expulso mais tarde, oficialmente, pela comunidade toda e por questões bem mais graves, mas isto é outro assunto). Como já tinha contatos com a JEC, consegui consegui matrícula no colégio Santa Maria, em Santa Maria, dirigido pelos maristas. Que pelo menos não se imiscuíam na vida sexual de ninguém.

Naqueles dias, um pouco antes de perder definitivamente a fé, militei na Juventude Estudantil Católica (JEC) e Juventude Universitária Católica (JUC). Os religiosos que nos orientavam eram homens abertos, mas o conflito sexual persistia. Em Santa Maria, eu apertava o padre Carlos Pretto contra a parede: "Se mulher é tão bom, por que é proibido?" Pretto armava uma longa história, de final curto e grosso. Que não devíamos ter relações com uma mulher por amor a ela. “Eu estudei em Roma – dizia Pretto – no meio daquelas gringas boazudas. Eu me perguntava porque não podia ir para a cama com elas. Examinei criticamente a Bíblia e concluí que não podia fazer isso pelo amor que devia a elas”.

Nada mais fácil para um crente do que inverter uma evidência. Eu também havia lido a Bíblia e, fora as neuroses de Paulo, não via nada demais no exercício da sexualidade. Mas o Paulo era o Paulo. Eu era o Cristaldo. De minha parte, era por amá-las que as queria na cama.

Mas Pretto não era de ferro. As militantes de JEC e JUC, secundaristas e universitárias cheias de charme e desejo, fizeram um excelente trabalho de sapa. Mais adiante Pretto já ousava heresias desde "mulher e religião não se discute, se abraça" a outras do tipo "se batina fosse bronze, que badaladas!" Os sacerdotes que desceram do púlpito para falar conosco – e foram vários – sempre condenando a sexualidade, acabaram largando a batina, casando e fazendo filhos. Foi nossa revanche a longo prazo.

Nós, jecistas, éramos quase virgens em matéria de sexo. Havia o desejo, mas não sabíamos muito bem como a coisa funcionava. Nos apalpávamos nos corredores, nos beijávamos meio sem jeito, sem nem sempre chegar às vias de fato. Certa vez, uma jucista das mais árdegas apertou-me contra uma parede e foi direto ao assunto. Exclamou surpresa: “é por isso que chamam de pau?” Fico imaginando as torturas que elas impunham aos padres naquela penumbra silenciosa dos confessionários.

Um sexualidade exigente e incontrolável foi, sem dúvida alguma, o que me libertou do obscurantismo. Houve também os questionamentos de ordem intelectual, mas estes foram secundários. E é o sexo que tem afastado milhares de sacerdotes da Igreja Católica.

Leio na Folha On Line que a CNP (Comissão Nacional dos Presbíteros) deve publicar daqui a duas semanas texto intitulado "Subsídios para reflexão", no qual pede a abertura de discussões em torno da obrigatoriedade do celibato de padres na Igreja Católica. Com o fim da obrigação, os religiosos casados ou ex-casados também poderiam ser ordenados padres. Segundo o padre Francisco Santos, presidente da CNP, "o que está se propondo é que se reflita sobre novas formas de ministério, que não seja apenas o celibatário".

É uma boa idéia. Terá como conseqüência a diminuição do número de padres pedófilos. Ocorre que a Igreja submete seus ministros a um impiedoso leito de Procusto. Para a Santa Madre, o casamento de seus ministros trará uma série de problemas ainda não pensados.

Casar implica a possibilidade de divorciar-se. O padre pode até considerar o casamento indissolúvel. Mas... e se a mulher pensa diferente? Sacerdote algum poderá impedir, em nome de sua fé, uma mulher de divorciar-se. Aí surge outro problema: pagamento de pensão à mulher e filhos. O homem de Deus terá de suar um pouco mais a camiseta em função desses gastos, que um celibatário não tem.

Casar, por outro lado, neste nosso mundinho contemporâneo, é expor-se à cornificação. A menos que a Igreja admita o freio dos crimes ditos de honra – que já não são mais absolvidos pela Justiça – sempre existe a possibilidade de a mulher pular a cerca. E tais ornamentos não ficam bem na cabeça de um ministro do Senhor.

Ou seja, não vai dar pé. Mas a solução é singela. Se você gosta de sexo, faça como eu fiz. Largue essa fé.

15 comentários:

André disse...

“A eles agradeço minha iniciação em latim, francês e inglês. E só.”

Eu, nem isso (aliás, a pessoa com quem aprendi francês tinha aversão ao catolicismo). O Marista era tão insosso, tudo ligado à religião era tão idiota, que as únicas lembranças boas são as dos amigos e só. Nada relacionado à religião prestava. O mais ridículo eram aqueles padres poloneses e italianos burros, mas ricos, naturalmente, com as mensalidades, e os alunos retardados que formavam aqueles grupos com paralisia cerebral, como o inominável “Segue-me”. Eram motivo de piada de qualquer um que tivesse cérebro, inteligência, naquele mundinho tosco que era a escola. Mas os irmãos maristas pelo menos não enchiam muito o saco. Ouvia dizer que os colégios de freiras eram bem piores, talvez por elas serem quase todas umas mal amadas.

Passei anos sem entrar numa igreja (a não ser por motivos estéticos/históricos, muito tempo depois, na Itália). Fiquei mais de quinze anos sem ir a uma missa. Há mais ou menos um ano tive uma namorada que era muito católica e, por causa dela, devo ter ido a umas nove ou dez missas ao longo de dois anos. Nas poucas vezes em que prestei alguma atenção, era deprimente. O resto do tempo, pensava em outras coisas e às vezes chegava a dormir um pouco. Os padres aqui em Brasília, com raras exceções, falam errado. O nível dos caras é muito baixo. Sem falar que a viadagem grassa, mas até aí, nada de excepcional. É um meio cheio de viados mesmo mas, de qualquer forma, nada contra a irmandade. Piores são os complexados, os fanáticos anti-aborto, anti-sexo (a maioria, claro, com algum tipo de tara, muitas vezes criminosa), os sexualmente frustrados, etc — boa parte dos quais é hetero.

Blogildo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Blogildo disse...

A sua vida daria um livro dos bons, Janer. Sugestão de título com tintas "nietzscheana": Crepúsculo do Deus cristão
ou Como filosofar com o pinto
.

E aí? O que acha?

Janer disse...

Quem está preocupado com o pinto são os padres. Os problemas com o meu pinto eu resolvi já na adolescência.

O+cioso disse...

kkkkkkk

O Bobildo tira o pinto pra filosofar?

Blogildo disse...

Tiro, sim! Só não digo onde o coloco pois ia ficar ofensivo demais, O+cioso.

Anônimo disse...

Boa, Blogildo, rsrs

Acaba com esses ateus de merda

Raphael disse...

Não tive problemas em estudar em escola de freiras. Talvez até tenha me ajudado. Ajudou a solidificar meu ateísmo. Mesmo assim, por mais que elas desconversassem ou se chocassem com o quão ímpio eu era, sempre me trataram bem. Seja por eu só dar problema – e, portanto, elas se acostumarem com o pentelho(eu) desde guri-, seja por bom número delas se consultarem com meu pai, eu podia furar a fila da cantina (entrando pela porta ao lado e revoltando todos os outros alunos enquanto tirava alguns suspiros de admiração e rebeldia das garotas), passava bastante tempo na direção sem nenhuma punição realmente efetiva, e sempre recebia aquela reprimenda maternal delas.

Ah, isso para não mencionar as garotas, o colégio era (é) misto. Por algum motivo, com aquele uniforme e tudo mais, elas eram especialmente tentadoras. Por isso não foi de todo ruim estudar lá. A capela ou a gruta que tínhamos, por exemplo, foi um bom refúgio... Tive meus desentendimentos, claro, mas em geral gostei delas. Hoje, quando cruzo com alguma das irmãs na rua, é difícil não ficar um pouco sentimental.

A propósito, o texto está genial, Janer. Um dos melhores desses últimos meses, coisa que por si só já é mais um elogio. Você diz que não corrompeu aquela freira que te emprestou o livrinho que “queimava-lhe as mãos” mas ainda tenho minhas dúvidas.

André Marcon disse...

.

Fala,Catellius, tudo certim?

Fico feliz que você tenha gostado de meu blog "Papéis Avulsos" e agradeço-lhe por sua visita, desejando, é claro, que você volte sempre!

Conferi o seu blog e devo dar-lhe os parabéns pelo excelente trabalho!

Sucesso e felicidade para você!

Um abraço do amigo,

André Marcon.

.

André disse...

Ah, Raphael, aquele uniforme, ainda mais nas garotas certas, é muito tentador. Fica bem até nas “garotinhas” mais velhas.

Janer disse...

Perdi a freirinha de vista. Bem que gostaria de reencontrá-la.

Raphael disse...

O uniforme era tão tentador, André, que não foram poucas as vezes que fui advertido ou suspenso por convencer ( ou quase convencer, afinal só estudei lá até o fim do fundamental, quando éramos muito jovens) minhas colegas a tirá-lo.

Fabio Tagliavini Neto disse...

Aos que não tem fé vai a minha mais profunda dó , vem da alma e rezarei para que um dia se deparem com ela e derramem lágrimas.
Todo ateu tem este "problema" , é um misto de complexo de intelecual com a revoltinha do não preciso de muletas.
A você Janer recomendo a leitura de Asimov's Guide to the Bible, claro , estou falando de Issac Asimov, diga-se de passagem este era só um "pouco"mais culto que você.
E pq não se lembrar de Eistein:"A ciência sem religião é aleijada, a religião sem ciência é cega. ..."e ainda usando mais uma citação desta "limitada" mente:Só duas coisas são infinitas, o universo e a estupidez humana , e sobre a primeira tenho dúvidas.

Abraço Cordial,

Fabio Tagliavini Neto

Catellius disse...

"rezarei para que um dia se deparem com ela e derramem lágrimas."

É disso que os religiosos gostam: de lágrimas.

"Todo ateu tem este 'problema'"

Se "problema" está entre aspas, quer dizer que não há problema algum.

"...estou falando de Issac Asimov, diga-se de passagem este era só um 'pouco' mais culto que você."

O parvo aprendeu a usar as aspas... E, como todo crente, acha que uma "autoridadi" vale mais do que um argumento.
O que mais disse Isaac Asimov? Vejamos algumas de suas frases:

"Os criacionistas fazem soar como se uma 'teoria' fosse algo que você sonhou após ter ficado bêbado a noite toda."

"Eu sou ateu, sou sim. Levei um longo tempo para dizer isso. Eu tenho sido um ateu por anos e anos, mas de algum modo eu senti que era intelectualmente inaceitável dizer que alguém é um ateu, porque isso assumia um conhecimento que ninguém tem. De algum modo era melhor dizer que alguém era um humanista ou agnóstico. Eu não tenho a evidência para provar que Deus não existe, mas eu suspeito tanto que ele não existe que eu não quero perder meu tempo."

"Eu não temo morrer e ir pro Inferno ou (o que seria consideravelmente pior) ir para a versão popularizada do Paraíso. Eu espero que a morte seja um nada e, por me remover todos os medos possíveis da morte, eu sou muito agradecido ao ateísmo."
Isaac Asimov, como citado na Corvallis Secular Society, 1997

--//--

Então, Fábio parvo, como Isaac Asimov é mais culto do que você e é uma "autoridadi", pare de acreditar em deuses e/ou unicórnios cor-de-rosa.

E não me venha falar de Einstein (e não Eistein). Se eu for citar algumas de suas frases, você ficará desapontado com ele.

Até mais, Olavete.

abio Tagliavini Neto disse...

Quanto rancor,quanta raiva.Dê um pulinho rápido numa Igreja e peça para Deus te iluminar.
Mesmo que não o faça , farei para ti.

Abraço cordial , fique com Deus.


Fabio Tagliavini Neto.

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