29 fevereiro 2008

Reencontros

Nos anos de minha adolescência, havia em Dom Pedrito um maluco que se postava à frente da igreja nos dias de casamento. Maluco mas não muito. Ficava o tempo todo dizendo: “é hoje. É hoje”. Só saía da porta da igreja se lhe pagassem algo.

Uma das boas coisas da vida são os reencontros inesperados em insuspeitadas geografias. Tive muitos desses reencontros e deles lembro com ternura. Começo pelo primeiro. Deles deduzi uma lei, que chamaria de Lei de Cristaldo: todos os encontros são possíveis, desde que as pessoas se desloquem.

Nos dias de universidade, anos 60, quando já namorava minha Baixinha, encontrei na colônia de férias da URGS uma menina adorável. Ela teria doze ou treze anos e nos apaixonamos. De manhã, eu ia para a praia com minha Baixinha. À tarde, com ela. À noite, íamos juntos para os bares. Vai daí que o pai da pivetinha descobriu a história e não gostou daquele estranho trio. Prendeu a menina em casa e cortou todo contato comigo. Fiquei sem telefone nem endereço.

Corto para 71, Estocolmo. Freqüento aulas de sueco numa rua lateral ao Kungsträdgården, uma belíssima praça que, em língua de gente, quer dizer Jardim do Rei. É pleno inverno. Estou saindo da aula e a vejo no café da praça. Junto com um varão. Fui me aproximando lentamente, ela me assestou uma máquina fotográfica, parei, ela me fotografou, continuei, me aproximei dela e sem dizer palavra a beijei. O macho ao lado ficou inquieto. Normal, era seu marido. Disse então o que jamais me imaginei dizendo: “que bom encontrar brasileiros no Exterior, precisamos manter contato, me dá teu telefone”.

Ela deu, para desconforto do bruto. Dia seguinte, telefonei. Não foi fácil, ela estava com o marido ao lado. Propus: nos encontramos amanhã, às dez horas, no mesmo local. Diz apenas sim ou não. Ela disse sim. Dia seguinte, lá estava eu. Cheguei às dez. Ela já me esperava há meia hora, enregelada em um banco coberto de neve. Nos abraçamos com um carinho há vários anos contido. Fui caminhando como quem não quer nada até meu apartamento. Quando ela percebeu onde estava chegando, exclamou: “vais fazer isso comigo?”

Vou. Hoje, nem Deus te salva, respondi. Não salvou. Deus pode até ser onipotente. Mas às vezes falha. Cobrei - y con creces, como dizem os espanhóis - o que me era devido.

Anos 70, Porto Alegre. Uma de minhas namoradas me pede um favor. Uma amiga está chegando do Rio, para os Jogos Universitários, e não tem onde parar. Poderia ficar em teu apartamento? Claro que pode. A carioca ficou cinco dias lá em casa. Tinha uma preocupação, comprar botas. Para que queres botas no Rio? Não é para o Rio, quero ir à Europa. Já tens passaporte, passagem? Nada disso, primeiro eu quero as botas. Ok! Sem acreditar muito na viagem da moça, indiquei as lojas onde havia botas.

Corto para 70 e pico largo, como dizem os gaúchos. Em Amsterdã, fui a uma agência da Varig para marcar passagem. Na entrada, uma mulher divina, com casaco de peles, botas longas até o joelho e um chapéu de astracã, me abre os braços e me beija. Nossa – pensei – os serviços da Varig estão cada vez melhores. Nada disso. Era a menina que um dia recebi em Porto Alegre. Depois disso, marcamos encontro em Genebra. Claro que não deu certo. Encontro marcado é mais difícil.

Em Florianópolis, tomava um dia um cafezinho na Felipe Schmidt, no Senadinho. Frente a mim havia um personagem insólito. Perfil cervantino, boina basca e uma saharienne azul índigo. Ah! Não poderia deixar de abordar aquela figura exótica. Era um uruguaio, professor de História na Universidade Federal de Santa Catarina. Nos tornamos grandes amigos.

Corto para Madri, 87. Estou saindo do Gijón, com minha Baixinha. Sei lá porque, estava atravessando a Recoletos. Já falei do Gijón. Foi o café que sempre me impediu de pesquisar na Biblioteca Nacional da Espanha. Quando eu ia rumo à biblioteca, estava o Gijón a meio caminho. Não conseguia resistir. Ficava no Gijón e não conseguia atravessar a Recoletos. Bom, nesse dia, sei lá por que estranhas razões quis atravessar o Paseo de Recoletos. Mal boto o pé na faixa zebrada, Aníbal Abadie encosta em mim. Em nosso último encontro em Florianópolis, havíamos começado uma discussão que não chegara ao fim.

Lembrei de Fray Luís de Leon, professor da Universidade de Salamanca, condenado pela Inquisição a cinco anos de cárcere, por ter traduzido a Bíblia ao espanhol. Ao voltar à universidade, em sua primeira aula, disse o frei: “Como decíamos ayer...” Foi o que disse a meu amigo uruguaio. E continuamos, como se tivéssemos nos despedidos ontem, aquela nossa charla de anos atrás. Minha Baixinha, que olhava para o lado quando ele me abordou, ao voltar o olhar não entendeu o que estava acontecendo. Como eu voltaria a Madri alguns dias depois, marcamos encontro. Claro que não deu certo. Encontro marcado é mais difícil.

Lisboa, 1977. Embarquei no Eugenio C para cumprir uma bolsa em Paris. O navio atracou por seis horas no porto, o que me deixava algum tempo para revisitar a cidade. Ao sair do porto, vejo um casal do outro lado da rua. Olhei aleatoriamente para a mulher. O luso deu um berro – filho-da-puta! – e veio para cima de mim. Confesso que fiquei apreensivo. Não era luso coisa nenhuma. Era um antigo colega de jornal em Porto Alegre, o Clóvis Camargo Ott, que se exilara em Lisboa. Ao reconhecê-lo, pendurei-me no pescoço dele. Confraternizamos, mas não muito. O Eugenio continuava viagem.

Voltei a reencontrá-lo em Lisboa, anos mais tarde. Tomamos grandes porres, e um muito especial na Tasca do Chico, em Sintra. Chico não é o proprietário. E sim um garnizé. Que pulava em meu joelho, depois em minha cabeça e depois para sua gaiola. Falar nisso, vinte anos depois voltei à Tasca do Chico. Claro que o Chico não mais estava lá. Sentei sob sua gaiola e me pareceu ouvir uma espécie de crocitar. Ruídos fantasmas, pensei. Deveria ser minha memória que me fazia voltar no tempo. Mas os ruídos se repetiram. E o Chico saiu debaixo da mesa, pulou em minha perna, pulou na cabeça e entrou na gaiola. Seria certamente um neto do Chico original. Mas conservava nos gens os hábitos do Chico.

Corto para anos 80, Florianópolis. Eu caminhava pela praia da Barra da Lagoa, com um amigo gaúcho, e comentava exatamente este episódio de Lisboa. Foi quando recebi um forte chute no traseiro. Era o Clóvis. Todos os encontros são possíveis, desde que as pessoas se desloquem. Clóvis, eterna criança, morreu no ano passado.

Aconteceu há pouco. Ou há muito. Há uns bons vinte anos, namorei uma menina que muito quis, a mulher deste meu amigo. Circunstâncias da vida nos afastaram. Viajei, mudei de cidades, ela ficou em sua geografia. Há uns sete ou oito anos, reencontrei-a de maneira trágica. Eu estava no bar da casa Mário Quintana, em Porto Alegre. Estive ao lado dela, ela conversava com alguém, estava linda e igual àquela que um dia conheci, seu rosto sempre luminoso. Eu estava à sua frente, ela não me reconhecia. Pior ainda: tive uma pane mental e não lembrava de seu nome. Sabia perfeitamente quem era, mas naquele instante me faltava o nome. Como posso me aproximar dela - me perguntei - e ter de admitir que esqueci como se chamava?

Nestes dias, minha mente foi assaltada por canções mexicanas:

Mira como ando mujer,
por tu querer,
borracho y apasionado,
no más por tu amor.
Mira como ando mi bien
Muy dado a la borrachera
Y a la perdición.


Passei por sua mesa, fui até a sacadinha do bar, voltei e permaneci parado por alguns segundos. Quem sabe ela me reconhece e me diz "oi'. Chegou a me olhar, mas não me viu. Minhas barbas já estavam brancas. Os cabelos, que os tive hirsutos, já rareavam. Sobrava apenas uma resistência organizada no alto da testa. Um pouco antes, eu havia tropeçado com um antigo colega de jornal. Ele esbarrou em mim, me pediu desculpas e não me reconheceu. Virei fantasma, pensei. Me senti irremediavelmente velho naquele dia.

De domingo a domingo,
te vengo a ver.
Cuándo será domingo,
Cielito lindo,
para volver?


Instantes de bobeira. Me arrependi amargamente de não a ter abordado. Mas o momento havia passado e passado não volta. Pensei tê-la perdido para sempre. Eis senão quando ela me encontra pela Internet. Já no primeiro mail, fui tomado por gigabytes de ternura. De repente voltou – e voltou com força – uma antiga paixão não muito bem consumada. Eu, que considerava que aos 60 não há mais espaço para esses transportes, estou perplexo. Virei guri novo. Nestas últimas semanas, tenho contado angustiadamente os dias que me faltavam para abraçá-la. Já nem consigo ler. A lembrança de seu sorriso embaralha minhas leituras. “Gostavas de me beijar no pescoço”. Sim, ela tinha um pescoço que pedia imperiosamente beijos. Lembro Agostinho: "meu coração está inquieto enquanto não repousa em Vós, ó Senhor(a)".

Tres días sin verte mujer
tres días llorando tu amor
tres días que miro el amanecer.
No más tres días te amé
y en tu mirar me perdí
y hace tres días que no sé de ti.


Virei perdidamente mariachi.
Ela está chegando.
E é hoje.

11 comentários:

Blogildo disse...

Bela história, Janer. Digna de um À la recherche du temps perdú.

Raphael disse...

O Janer é um sacana. Espero que o encontro tenha sido bom. Essa ansiedade não tem preço.

André disse...

Bom, Janer, bote aí um bolero no som, uma bela música tradicional cubana, como um Buena Vista Social Club ou um Ibrahim Ferrer, e mande ver, he, he.

Boa sorte...

Janer disse...

O encontro está sendo divino. Virei menino novo. Quando à música de fundo, estou pensando em Miguel Aceves Mejía, Jorge Negrette, Chavela Vargas.

André disse...

Miguel Aceves Mejía é ótimo, Janer.

Gosto muito do pessoal todo (infelizmente já faleceram) do Buena Vista cubano. Aqueles velhinhos eram bons.

Bocage disse...

Boa sorte, Janer. És moço, ao contrário de muitos por aí que antes dos quarenta já estão velhos demais para essas coisas.

Anônimo disse...

Tempos atrás lamentei seu azedume. Enfim, hoje, vi que tens mesmo um pouco de ternura, embora sejas muiiiito sacana com a tua baixinha.

Angélica disse...

Eu sabia que um dia alguém ia tocar nesse assunto de maneira crítica ou politicamente correta ( Sobre o comentário do anônimo acima ). Os relacionamentos chamados abertos, se é esse o caso, sempre me intrigaram pela liberdade incomum e pela cumplicidade intrínseca dos seus pares e participantes. Sou conservadora nesse aspecto, porém, não hipócrita a ponto de julgar moralmente comportamentos alheios. O amor a tudo suporta. E isso não é para qualquer um. Não cabe a mim e nem a ninguém julgá-los. O que acontece entre quatro paredes é responsabilidade de cada um. É o que penso. O que importa é que estou feliz por ver esse menino feliz da vida a sorrir com ternura novamente. Um brinde ao amor e aos momentos bons que passamos juntos com quem amamos. É o que se leva da vida...

Raphael disse...

Um Brinde!

Janer disse...

Brindiamo, Angélica! Brindiamo, Raphael! Há vida depois dos 60. Voltei aos 20. A Lei de Cristaldo vige. E como vige.

Abraço a todos que vibram comigo. Vos desejo o mesmo em anos futuros. Nada melhor para rejuvenescer.

André disse...

Vc é um bom sujeito, um cara legal. Espero que o seu romance dure.

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