09 fevereiro 2008

Questões teológicas

Contradizendo seu antecessor, o papa João Paulo II, que afirmou em 1999 que o inferno não é um lugar, mas “a situação de quem se afasta de Deus”, Sua Santidade Bento XVI afirmou hoje que “o inferno, do qual pouco se fala nestes tempos, existe e é eterno”. É o que nos informa o jornal italiano La Repubblica.

Cisão no Vaticano? Talvez sim, talvez não. Mas se João Paulo não via o inferno como um lugar, tinha robusta crença no demônio. O papa polaco alertou durante anos seu rebanho para a realidade da existência deste personagem fascinante, que contracena com Jeová na história da criação. Lúcifer, para começar, é o mais brilhante dos anjos e o mais amado por Deus. Literalmente, é o "portador da luz". Segundo certas seitas gnósticas, ditas luciferistas, Lúcifer seria o verdadeiro Deus da Luz, que pretende revelar aos homens a incompetência do Deus do Antigo Testamento. Isaías, porta-voz insuspeito, pergunta: "Como caíste do céu, ó estrela d'alva, filho da aurora? Como foste atirado à terra, vencedor das nações?" O gesto satânico - o "non serviam" - é a bandeira de todos os rebeldes. No evangelho de João, Satanás é o príncipe deste mundo. No Apocalipse, segundo boas fontes, no caso uma voz forte provinda do céu, é uma espécie de ombudsman, "acusador de nossos irmãos".

Mesmo depois da expulsão do céu, permaneceram cordiais as relações entre o Senhor e o Insurgente. No Livro de Jó, Satanás participa de um coletivo de anjos que marcou audiência com o Senhor. "De onde vens?", quer saber Jeová. "Venho de dar uma volta pela terra, andando a esmo", responde o príncipe deste mundo. Jeová dá carta branca a Satanás: que faça o que quiser com o santo homem Jó, desde que lhe poupe a vida.
O demônio, mais que real, é necessário, ou o Senhor não teria como testar a devoção de seu rebanho. Satanás é personagem fundamental na História da Criação, ao mesmo título que Jeová. Tentou Adão, Jó e Jesus. Cristo com ele conviveu quarenta dias e nada nos indica que tenha se entediado. Em Il Diavolo, Giovanni Papini faz três observações interessantes sobre este convívio: "Jesus não quis rechaçar o Diabo; Jesus tolerou e suportou as repetidas tentações do Inimigo; em sua solidão, Jesus aceitou uma única e só companhia, a do Diabo". Suportar durante quarenta dias a mesma companhia no deserto exige um escroto ecumênico. Deve ter sido interlocutor no mínimo interessante ou Jesus - que tinha poderes para tanto – o teria mandado de volta aos infernos.

Segundo o cardeal Jorge Arturo Medina Estevez, chefe da Congregação para o Rebanho Divino e Disciplina Sacramental, “o Diabo entende latim". O que nos revela uma qualidade insuspeita do Príncipe: tem mais erudição que muito acadêmico de nossos dias.

Satanás sempre gozou de um charme do qual jamais pode gabar-se Jeová. Se Deus manda, o Diabo sugere. Enquanto o Supremo se comporta como um autocrata arrogante, que impõe e dispõe do traçado de seu plano de obras, o Insurgente é o public-relations sedutor, que insinua modificações no rígido projeto divino: "quem sabe não poderia ser assim?" Desta forma, sempre foi caitituado por artistas e literatos. Em Valéry, o demônio só tinha uma queixa, a dificuldade em seduzir os curtos de espírito. Diz o Diabo: "Aquele homem não tinha inteligência suficiente para que eu desse conta dele. Não tinha bastante espírito. Que problema seduzir um imbecil! Não entendia patavina de minhas intenções".

Divago. Comecei falando na crença de Bento no inferno. É que adoro ler teologia e acabo me deixando levar pelo assunto. O inferno sempre me intrigou. Principalmente por sua eternidade. A primeira menção a inferno na Bíblia, como algo associado a fogo, está em Mateus 5:22:

“Eu, porém, vos digo que todo aquele que se encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo; e quem disser a seu irmão: Raca, será réu diante do sinédrio; e quem lhe disser: Tolo, será réu do fogo do inferno”.

E, logo adiante:

“29 Se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e lança-o de ti; pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que seja todo o teu corpo lançado no inferno.

30 E, se a tua mão direita te faz tropeçar, corta-a e lança-a de ti; pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que vá todo o teu corpo para o inferno".

Mais ainda. Mateus 10:28:

“E não temais os que matam o corpo, e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo”.

Ou Marcos 9:43:

“E se a tua mão te fizer tropeçar, corta-a; melhor é entrares na vida aleijado, do que, tendo duas mãos, ires para o inferno, para o fogo que nunca se apaga”.

Este fogo que nunca se apaga é o que me deixa perplexo. Significa que a matéria comburente jamais se extingue. Para que o fogo do inferno nunca se apague, precisaria de uma alimentação contínua e em grande profusão. Haja pecadores na terra para manter a eternamente acesas as chamas do inferno. Outro mistério é que o pecador queima pela eternidade toda sem virar cinzas.

Outro ponto que sempre me intrigou é a localização do inferno. Neste nosso planetinha não deve ser, ou os geólogos e exploradores já o teriam situado. Estará no fundo dos mares? Hipótese improvável, aí a combustão eterna se torna mais inviável. Nalgum outro planeta? Sabe-se lá. O problema é que, fora da Terra, os demais planetas são muito frios para abrigar um fogo eterno. Ou quentes demais para receber corpos dos mortais. Já na chegada, as pobres alminhas estariam incineradas.

A questão é complexa. Mas a Bíblia nos dá uma dica. Fica no mínimo perto do purgatório. Está em Lucas, 16:19:

“Ora, havia um homem rico que se vestia de púrpura e de linho finíssimo, e todos os dias se regalava esplendidamente. 20 Ao seu portão fora deitado um mendigo, chamado Lázaro, todo coberto de úlceras; 21 o qual desejava alimentar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico; e os próprios cães vinham lamber-lhe as úlceras. 22 Veio a morrer o mendigo, e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão; morreu também o rico, e foi sepultado. 23 No Hades, ergueu os olhos, estando em tormentos, e viu ao longe a Abraão, e a Lázaro no seu seio. 24 E, clamando, disse: Pai Abraão, tem misericórdia de mim, e envia-me Lázaro, para que molhe na água a ponta do dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama. 25 Disse, porém, Abraão: Filho, lembra-te de que em tua vida recebeste os teus bens, e Lázaro de igual modo os males; agora, porém, ele aqui é consolado, e tu atormentado. 26 E além disso, entre nós e vós está posto um grande abismo, de sorte que os que quisessem passar daqui para vós não poderiam, nem os de lá passar para nós”.

Por seio de Abraão, na Bíblia, entende-se o que depois veio a chamar-se de purgatório. O texto nos informa que no Hades há chamas mas não tem água. No purgatório, alguma água há. Já é um refrigério. Do Hades, o homem rico consegue ver Lázaro. Um não deve estar muito longe do outro. Já é um indício.

Mas o mistério persiste. Onde fica o purgatório?

6 comentários:

Raphael disse...

Janer, sobre seu comentário no antigo post “ Gentalha Abominável” não creio que seja por falta de informações. Elas abundam. A falta de responsabilidade é provavelmente a razão.

Sobre seu último artigo, Lúcifer sempre foi mesmo o mais sedutor dos personagens bíblicos. Quando era bem moleque, com uns 11, 12 anos, lembro que a idéia do “céu” ser um paraíso simplesmente não entrava na minha cabeça. Eu perguntava para os religiosos da minha família se no céu haveria sexo, bebidas – as coisas que na época eu mais ansiava por experimentar - e ficava devastado quando eles respondiam que não. Meu único pensamento, angustiado, era sobre as pessoas que morriam cedo demais e nunca teriam a chance de desfrutar essas coisas. A idéia que o inferno era exatamente o oposto do paraíso, ou seja, sexo, mulheres, bebidas, vídeo games de tiro, enfim, às vezes me fazia secretamente desejar ir para lá. Eu queria sim acabar no céu, mas não por causa das harpas e das nuvens. Queria o céu por imaginar que toda a minha família estaria lá, sem mencionar, é claro, o medo do fogo e do tridente...

Por falar nisso, há pouco tempo deixei algumas pessoas chocadas no trabalho. Não lembro o que eu tinha dito, mas um colega afirmou que eu deveria ter lugar reservado no inferno. Respondi que isso era bom, uma vez que poucos lugares devem ser tão maçantes como o céu. Protestei: Sem sexo, álcool e rock n’ roll? Cercado por um monte de santas com túnicas e padres aborrecidos? Meu amigos deram risada. Os que não me conheciam muito bem – provavelmente os mais crentes – me fulminaram com aquele olhar de choque e reprovação. Se fossem sinceros, teriam de concordar comigo também.

Raphael Piaia disse...

Se no inferno encontraremos os pecados e os pecadores, por que diabos alguém escolheria o céu?

Catellius disse...

Do Dom Casmurro, de Machado de Assis:

"Deus é o poeta. A música é de Satanás, jovem maestro de muito futuro, que aprendeu no conservatório do céu. Rival de Miguel, Rafael e Gabriel, não tolerava a precedência que eles tinham na distribuição dos prêmios. Pode ser também que a música em demasia doce e mística daqueles outros condiscípulos fosse aborrecível ao seu gênio essencialmente trágico. Tramou uma rebelião que foi descoberta a tempo, e ele expulso do conservatório. Tudo se teria passa do sem mais nada, se Deus não houvesse escrito um libreto de ópera do qual abrira mão, por entender que tal gênero de recreio era impróprio da sua eternidade. Satanás levou o manuscrito consigo para o inferno. Com o fim de mostrar que valia mais que os outros, e acaso para reconciliar-se com o céu, - compôs a partitura, e logo que a acabou foi levá-la ao Padre Eterno.

-Senhor, não desaprendi as lições recebidas, disse-lhe. Aqui tendes a partitura, escutai-a emendai-a, fazei-a executar, e se a achardes digna das alturas, admiti-me com ela a vossos pés...
-Não, retorquiu o Senhor, não quero ouvir nada.
-Mas, Senhor...
-Nada! nada!

Satanás suplicou ainda, sem melhor fortuna, até que Deus, cansado e cheio de misericórdia, consentiu em que a ópera fosse executada, mas fora do céu. Criou um teatro especial, este planeta, e inventou uma companhia inteira, com todas as partes, primárias e comprimárias, coros e bailarinos.

-Ouvi agora alguns ensaios!
-Não, não quero saber de ensaios. Basta-me haver composto o libreto; estou pronto a dividir contigo os direitos de autor.

Foi talvez um mal esta recusa; dela resultaram alguns desconcertos que a audiência prévia e a colaboração amiga teriam evitado com efeito, há lugares em que o verso vai para a direita e a música, para a esquerda. Não falta quem diga que nisso mesmo está a além da composição, fugindo à monotonia, e assim explicam o terceto do Éden, a ária de Abel, os coros da guilhotina e da escravidão. Não é raro que os mesmos lances se reproduzam, sem razão suficiente. Certos motivos cansam à força de repetição. Também há obscuridades; o maestro abusa das massas corais, encobrindo muita vez o sentido por um modo confuso. As partes orquestrais são aliás tratadas com grande perícia. Tal é a opinião dos imparciais." E continua...

Anônimo disse...

Olá!

Meu nome é Flávio. Bom, eu achei interessante o seu ponto de vista em relação a alguns pontos da Bíblia. Gosto de estudar sobre isso, e , se possível, gostaria de estar discutindo alguns assuntos com você.

Por favor, me entenda. Não sou religioso e não costumo discutir "religião". Mas, acho interessante discutir "fatos históricos" que venham a parecer duvidosos.

Tenho certeza de que não vai se arrepender de me contactar. Posso te passar um pouco dos meus conhecimentos e tenho certeza de que vou aprender muito com você e com as suas experiências.

Meu email é emaildoflavio@globo.com
Estou aguardando o seu contato!

Bocage disse...

O GÉNESIS
GUERRA JUNQUEIRO (1850/1923)

Jeová por alcunha - o Padre Eterno,

Deus muitíssimo padre e muito pouco eterno,

Teve uma ideia suja, uma ideia infeliz:

Pôs-se a esgravatar co’o dedo no nariz,

Tirou desse nariz o que o nariz encerra,

Deitou isso depois cá baixo, e fez-se a Terra.

Em seguida tirou da cabeça o chapéu.

Pô-lo em cima da Terra, e zás, formou o céu.

Mas o chapéu azul do Padre Omnipotente

Era um velho penante, um penante indecente,

Já muito carcomido e muito esburacado,

E eis aí porque o Céu ficou todo estrelado.

Depois o Criador (honra lhe seja feita!)

Achou a sua obra uma obra imperfeita,

Mundo sarrafaçal, globo de fancaria,

Que nem um aprendiz de Deus assinaria,

E furioso escarrou no mundo sublunar,

E a saliva ao cair na Terra fez o mar.

Depois, para que a igreja arranjasse entre os povos

Com bulas da cruzada, alguns cruzados novos,

E Tartufo pudesse inda dessa maneira

Jejuar, sem comer de carne à sexta-feira,

Jeová fez então para a crença devota

A enguia, o bacalhau e a pescada-marmota.

Em seguida meteu a mão pelo socavo,

Mais profundo e maior que a caverna de Caco,

E arrancando de lá parasitas estranhos,

De toda a qualidade e todos os tamanhos,

Lançou-os sobre a Terra, e deste modo insonte

Fez ele o megatério e fez o mastodonte.

Depois, para provar em suma quanto pode

Um Criador, tirou dois pêlos do bigode,

Cortou-os em milhões e milhões de bocados,

(Obra em que ele estragou quatrocentos machados)

Dispersou-os no globo, e foi desta maneira

Que nasceu o carvalho, o plátano e a palmeira.

......

Por fim com barro vil, assombro da olaria!,

O que é que imaginais que o Criador faria?

Um pote? não; um bicho, um bípede com rabo,

A que uns chamam Adão e outros Simão. Ao cabo

O pobre Criador sentindo-se já fraco,

(Coitado, tinha feito o universo e um macaco

Em seis dias!) pensou: Deixemo-nos de asneiras,

Trago já uma dor horrível nas cadeiras,

Fastio... Isto dá cabo até de uma pessoa...

Nada, toca a dormir uma sonata boa!-

Descalçou-se, tirou os óc’los e o chinó,

Pitadeou com delícia alguns trovões em pó,

Abriu, para cair num sono repentino,

O alfarrábio chamado o livro do Destino,

E enflanelando bem a carcaça caduca,

com o barrete azul-celeste até à nuca,

Fez ortodoxamente o seu sinal da cruz

Como qualquer de nós, tossiu, soprou à luz,

E de pança pró ar, num repoiso bendito,

Espojou-se, estirou-se ao longo do infinito

Num imenso enxergão de névoa e luz doirada.

E até hoje, que eu saiba, inda não fez mais nada.

Janer disse...

PARASITAS


No meio duma feira, uns poucos de palhaços

Andavam a mostrar, em cima dum jumento

Um aborto infeliz, sem mãos, sem pés, sem braços,

Aborto que lhes dava um grande rendimento.


Os magros histriões, hipócritas, devassos,

Exploravam assim a flor do sentimento,

E o monstro arregalava os grandes olhos baços,

Uns olhos sem calor e sem entendimento.


E toda a gente deu esmola aos tais ciganos:

Deram esmola até mendigos quase nus.

E eu, ao ver este quadro, apóstolos romanos,


Eu lembrei-me de vós, funâmbulos da Cruz,

Que andais pelo universo há mil e tantos anos,

Exibindo, explorando o corpo de Jesus.

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