17 fevereiro 2008

O Pecado Original da Propriedade Privada

Como já disse inúmeras vezes Paulo Francis, marxismo é religião. Vindo de um ex-trotskista, isto pode não ser grande coisa. Arnold Toynbee escreveu que o comunismo é uma heresia cristã. Seria uma doutrina adequada aos homens cientificistas e positivistas do século XIX. O fato é que temos alguns paralelos bastante interessantes nas duas doutrinas.

Um das principais questões teológicas é o pecado original, que explicaria porque o homem é um ser imperfeito, que não desfrutaria da comunhão com Deus, a partir da sua expulsão do paraíso. Rousseau, um dos pais do socialismo, acreditava que o pecado original se deu quando alguém disse que algo lhe pertencia.

Engels se baseia neste acontecimento de natureza econômica, o advento da propriedade privada, para explicar o nascimento do Estado moderno, que seria algo equivalente à expulsão do homem do paraíso. Para ele, o nascimento da propriedade privada enseja a divisão do trabalho, a formação das classes, o surgimento do Estado de polícia para proteger o status quo.

Marx, por sua vez, se propunha a ser um novo apóstolo João ao propor o Apocalipse do estado moderno e do capitalismo. Em seu Evangelho sobre o capitalismo ele explica que as contradições materiais do sistema levarão à sua queda.

Marx conseguiu transformar o sistema de produção capitalista em pecado por meio da invenção da mais-valia. Grosseiramente, o produto vale mais que os insumos necessários para a produção e o único insumo que pode ser remunerado com menos valor do que vale seria o insumo trabalho, porque o insumo equipamentos sofre depreciação. A partir deste raciocínio, ele considera que o capitalista é um ladrão e que os verdadeiros donos de tudo são os trabalhadores. Ele menospreza questões como risco, complexidade da produção, poder de mercado e se refugia na produção média em equilíbrio para sustentar este argumento.

Marx era um economista clássico como o pastor Adam Smith que definia as pessoas pelo trabalho e considerava que se estas tinham perdido parte do seu valor e não controlavam as condições nas quais elas produziam, então elas haviam perdido a graça. Para recuperar a graça perdida era preciso tomar consciência e escapar de um estado de alienação. Mais religião, as pessoas estavam cegas e perdidas na ilusão. A verdade era a consciência de classe.

Por fim, após a expiação dos pecados com o sacrifício dos inocentes que morreriam na Revolução, o homem retornaria ao seu Estado original, no qual a comunhão com os outros homens seria restabelecida com o fim do estado e com o desaparecimento da propriedade privada. Seria o fim da história e início do paraíso na terra, onde todos os homens seriam irmãos trabalhadores, teriam segundo as suas necessidades e produziriam segundo as suas possibilidades.

No comunismo real, como toda a religião, as punições para os descrentes foram terríveis, condenados pela Inquisição, tivemos: o banimento de milhões para os gulags da União Soviética, o envio de outros tantos para o campo na Revolução Cultural Chinesa, que buscava restabelecer a pureza dos camponeses na corrupta população urbana, e o assassinato de praticamente todas as pessoas alfabetizadas do Camboja pelo Khmer Vermelho. As pessoas morrem mas as utopias assassinas são eternas.

2 comentários:

André disse...

Toynbee acertou em cheio.

E positivismo, marxismo, kantismo, hegelianismo, estruturalismo e pós-modernismo são apenas bobagens.

Marx tinha uma profunda consciência da importância das religiôes nas sociedades e as respeitava. Essa história de que ele as teria descartado como uma simples droga para as massas é lida fora do contexto. Ele disse isso, mas não com intenção de menosprezo.

Ricardo Rayol disse...

Amém.

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