15 fevereiro 2008

A nova e última religião

Há uns bons dez anos, escrevi que quem viu muito bem o vazio de fé que assolaria o Ocidente foi o cineasta italiano Nanni Moretti, em Palombella Rossa. O filme é de 89, significativamente o ano em que caiu o Muro de Berlim. A história tem como personagem principal um deputado comunista que, do dia para a noite, perdeu a memória.

A cena final é emblemática: em uma auto-estrada, centenas de jovens correm para saudar o sol. Está inaugurada a nova religião, o culto da natureza. Não por acaso, o interlocutor privilegiado do Dalai-lama – palavra que modestamente significa Oceano de Sabedoria - no Brasil é Fernando Gabeira, ex-guerrilheiro marxista que trocou sua fé na História pela militância ecológica. Gyatso intuiu rapidamente esta virada ocidental e sempre insiste, do alto de seus parangolés, na defesa do meio ambiente.

Leio no El País de ontem: “O câmbio climático mobilizou cientistas que o estudam, engenheiros que buscam soluções tecnológicas e economistas que as medem. E começa também a tomar uma dimensão espiritual que o está convertendo, na opinião de alguns, na nova religião do século XXI. Uma nova espiritualidade ecológica. A linguagem messiânica e os instrumentos quase religiosos que se utilizam rompem os esquemas discursivos e calam em uma opinião pública mais cética ante causas do passado”.

Que o digam os ornitólogos que me bicam. Seu zelo é religioso. Ante a hipótese de extinção do macuquinho do banhado, brandem o apocalipse. Sem pretender analisar o tal de aquecimento global – já que não tenho instrumentos para tanto – desconfio do dito. Pois é pregado com a mesma ira sagrada de João de Patmos. Apostar no apocalipse é aposta confortável. Pois apocalipse não é pra já. É sempre mais adiante. Assim, enquanto não ocorre, seus profetas não são desmentidos.

Em fins do anos passado – conta o jornal – Al Gore desembarcou em Sevilha para falar de seu movimento contra o câmbio climático. Em seu afã de chegar aos interlocutores, Gore, que é profundamente religioso, usa frases como: “A Noé foi dito que salvasse as espécies vivas e isto hoje continua sendo nossa obrigação. Antes de pregar aos embaixadores ou discípulos que fazem parte de seu movimento, 1.700 em todo o planeta, lhes pede uma “conexão espiritual”.

Para o biólogo Miguel Delibes de Castro, “a estrutura que Gore organizou é quase religiosa, com discípulos que transmitem a boa nova, como Jesus Cristo”. Para Miguel Ferrer, biólogo, “as correntes ecologistas integristas têm muitas características comuns com escolas baseadas em crenças religiosas. Cada vez se ouve mais o discurso de que o homem é o ser malvado que provoca destruição e deve ser expulso dos últimos paraísos”.

Um dos 200 embaixadores de Al Gore na Espanha é Juan Negrillo. Interrogado sobre a conexão entre seu discurso e o sentir religioso, disse: “Todas as religiões têm suas raízes na fé, e nesse sentido se pode confundir a mensagem ecologista e a defesa do clima como uma mensagem religiosa, porque como não podemos tocar, cheirar, pesar ou ver o CO2, é quase uma questão de fé na comunidade científica”.

Quem não ouviu falar da hipótese Gaia, de Lovelock, que considerava a Terra como um ser vivo? Aqui no Brasil, tivemos um maluco que ganhou fama como ecologista, o José Lutzenberger, que acreditava profundamente nessa teoria mística.

“Mas o que vamos fazer primeiro: desvendar esta Maravilha, ou vamos continuar como um câncer no organismo de Gaia, devastando, fazendo extinções em massa, toxificando até que não haja volta?” – escreveu Lutzenberger – . E continuou:

“Quando daquela ameaça mortal que foi a crise da poluição do oxigênio, que quase extinguiu as formas de vida então existentes, Gaia, em vez de sucumbir, soube tirar proveito. Transformou um inimigo feroz em poderoso aliado, fator de mais vida, de vida mais complexa, mais perfeita, mais diversificada, mais harmônica - uma estonteante transcendência!”

Claro que não podia faltar a ameaça do apocalipse, com uma esperança de redenção para o ser humano: “Entretanto, a continuar a cacofonia atual, o desastre será total. Para nós! Talvez nem tanto para Gaia. Gaia tem muitos recursos, tem muito tempo. Com novas formas de vida encontrará saída. Sobram-lhe ainda uns cinco bilhões de anos até que o Sol, em sua penúltima fase evolutiva, ao tornar-se "gigante vermelho", venha expandir-se até aqui, antes de apagar-se lentamente. GAIA será recirculada nos gases incandescentes do Sol, assim como cada um de nós seremos recirculados no solo”.

A maluquice dos ecologistas chegou a tal ponto que houve quem visse na Internet – talvez o próprio Lutzenberger, agora não lembro – a consecução da existência de Gaia. A Web seria Gaia estabelecendo sua rede de neurônios.

Volto à reportagem do El País. Para o escritor José Antonio Marina, “a segunda metade do século XX contemplou o auge de múltiplos movimentos religiosos, espirituais e espiritistas, caracterizados por uma mistura de elementos diversos. Um deles prolongou o fervor ecológico dos últimos decênios. Nasceu possivelmente do movimento hippy, de sua volta à natureza, uniu-se com um certo panteísmo, que se voltava para a Terra como um ser vivo, com o qual se estabelecia uma relação mística. Admirou-se a relação com a natureza das antigas culturas, a Pacha Mama, o respeito das tribos americanas. Teorias como a Deep Ecology exaltaram o valor do mundo vegetal, a ponto de comparar o corte de um bosque com o assassinato de judeus em um campo de concentração”.

Decididamente, o ser humano não tem cura. Deus morto, Deus posto. Se um deus está em declínio, criam-se outros. Explorando sempre aqueles elementos constitutivos de toda religião, o medo da morte e a esperança de salvação. Para amedrontar os novos crentes, brande-se o apocalipse.

Nada de novo sob o sol.

4 comentários:

Paulo C. Barreto disse...

Lamentável. Até meu amigo e colega de trabalho Fernando Villela, competentíssimo jornalista de informática, caiu no conto de Gaia e na Web-Gaia em especial. Em conferências públicas ou em conversas particulares, falava do assunto como alta filosofia. De minha parte, fingia que não ouvia, mas nunca deixei de tê-lo em grande estima. Fernando foi morto em 2004; não sei se até lá ele já tinha desconfiado da Web-Gaia como "californianice" espiritual.

Janer disse...

Mais ainda: quem financiava o Lutz era a Gaia Foundation, dirigida pelo príncipe Charles.

Raphael disse...

Ideologia é o combustível da humanidade. Impede o homem de pensar sobre o... homem. Quero dizer, eles nunca podem parar. A corrida continua. Se pararem, correm o risco forçosamente encararem a realidade.

André disse...

Vai ser o Inferno, e em carne e osso, nada de matéria etérea, projeções astrais ou espírituais, he, he:

(tirado da Veja)

As religiões neopentecostais, com seus exorcismos e cultos performáticos, são hoje as que mais fazem alarde do céu, do inferno e do demônio. Entre os fiéis das igrejas tradicionais, as retribuições da vida eterna se tornaram um tanto abstratas, um recurso didático para incutir princípios morais nas crianças. É como se as igrejas mais antigas houvessem se secularizado, relegando idéias que antes inspiravam temor (o inferno) e esperança (o céu) para o plano das figuras de linguagem. É em resposta a esse enfraquecimento de princípios que alguns líderes religiosos vêm reafirmando a verdade física do céu e do inferno. No ano passado, o papa Bento XVI reiterou, em um sermão para fiéis de Roma, que o inferno não é uma imagem literária – trata-se realmente de um lugar onde as pessoas queimam por toda a eternidade. E uma das maiores autoridades teológicas da igreja anglicana, o bispo N.T. Wright, de Durham, na Inglaterra, acaba de lançar um livro que pretende esclarecer a natureza do céu – que é, defende o autor, bem menos etérea do que se imagina.
A pregação direta e assustadora de Bento XVI não diverge da linha dura que ele vem imprimindo a seu papado. O papa anterior, João Paulo II, amainou um tanto a noção de inferno, definindo-o como um lugar em que Deus está ausente. Cioso dos fundamentos do catolicismo, Bento XVI não faz mais do que relembrar o que está nos textos sagrados. O capítulo 25 do Evangelho de São Mateus, para ficar em um exemplo, é inequívoco: os colocados à esquerda de Deus, que não deram de beber a quem teve sede nem alimentaram quem teve fome, serão banidos "para o fogo eterno destinado ao demônio e seus anjos". A definição do bispo Wright para céu vai um pouco mais longe: ele não apenas reafirma os textos sagrados, mas também tenta desmontar uma interpretação supostamente equivocada do Novo Testamento. Em seu livro Surprised by Hope (Surpreendido pela Esperança), o teólogo anglicano contesta a visão do céu como um lugar elevado, um paraíso espiritual no meio das nuvens. Os fiéis não vão ascender aos céus, diz Wright – é Jesus que descerá à Terra, unificando-a com o plano divino. E não se viverá apenas em espírito: no Juízo Final, haverá a ressurreição da carne. Os fiéis se levantarão para tomar seu lugar junto a Jesus.
O bispo ampara-se em passagens das epístolas de São Paulo para sustentar essa visão. Ainda que seu cenário apocalíptico tenha base bíblica, ele se choca com a iconografia cristã – basta pensar nas inúmeras pinturas renascentistas em que o céu é representado nas alturas, como um oposto exato do inferno subterrâneo. Wright diz que a visão dos mestres renascentistas provém de uma deturpação das concepções judaicas originais. "Ainda que escrito em grego, o Novo Testamento é profundamente judaico, e os judeus intuíam que a ressurreição final seria física, não só espiritual", disse o bispo em entrevista à revista Time. A influência da filosofia grega de Platão sobre o cristianismo primitivo teria pervertido essa noção, fixando a idéia de um céu espiritual e idealizado.
A continuidade da vida após a morte tem sido um princípio fundamental de muitas religiões. Na mitologia grega, os mortos destinavam-se ao mundo sombrio do deus Hades, guardado por monstros como Cérbero, o cão de muitas cabeças – não é de estranhar que Hades seja freqüentemente traduzido como "inferno". As religiões monoteístas – e em particular o cristianismo – fixaram a idéia de um mundo pós-morte dividido em zonas antípodas, o céu e o inferno (com uma zona intermédia no purgatório). No século XIV, a Divina Comédia, monumental poema do italiano Dante Alighieri, deu a configuração literária definitiva a essa cosmologia. O curioso é que o Inferno de Dante, com suas descrições detalhadas e sensoriais de todo tipo de tormento e tortura, é muito mais concreto do que o Paraíso, um lugar luminoso mas pouco palpável. "Dante foi acusado de pintar um frio retrato de Deus no Paraíso, mas a abstração nos lembra que em última análise nada conhecemos dele", diz a historiadora da religião Karen Armstrong em Uma História de Deus. O mesmo se verifica agora, quando líderes religiosos tentam restabelecer a realidade física ao além: o inferno do papa parece mais real do que o estranho céu do bispo anglicano.

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