08 fevereiro 2008

Judeus, os Escolhidos de Moisés

Como diria Freud, os judeus foram o povo escolhido de Moisés, a quem eles assassinaram no deserto. Em seu livro “Moisés e o Monoteísmo” (leia o post Moisés de Freud), ele afirma acreditar que o monoteísmo havia sido uma doutrina egípcia que servia para aumentar o poder do faraó, sumo-sacerdote do Deus único.

Os sacerdotes, em oposição a esta tentativa, derrotaram o faraó em uma Guerra Civil. Um irmão do faraó, Tut Moses, general-governador do norte, escolheu os escravos semitas como o povo sobre o qual restauraria a glória de sua dinastia, apoiado no monoteísmo. Aparentemente, a carga de Moses fora excessiva e os escravos se livraram dele no deserto, mas o séquito egípcio e monoteísta de Moisés sobreviveu e se tornou a tribo dos levitas.

Para Freud, não existiam judeus antes do Egito; aliás, o hábito da circuncisão é egípcio. De fato, ele afirma que o patriarca Abraão seria apenas uma invenção, ou uma revalorização do imaginário semita que permitiria a eles restaurar um pouco do orgulho de terem sido salvos pelos seus senhores. Mais que isto; todo o esforço para tentar transformar Moisés em judeu, por meio do mito do bebê no cesto descendo o Nilo, contraria todos os mitos de Reis da Antiguidade, incluindo o mito arturiano. Enquanto todos se esforçavam para nobilitar os seus salvadores, os judeus se esforçavam para dizer que apesar de príncipe egípcio criado no Palácio, Moisés não era nobre nem egípcio.

Ainda segundo Freud, a fundação do cristianismo por João está ligada à insuportável culpa judaica de ter assassinado dois messias, Moisés e o próprio Jesus. Com João, a seita judaico-cristã se separa do judaísmo ao afirmar a divindade de Cristo. Aliás, os bispos da linhagem de João do “patriarcado” do Egito acabaram impondo a versão final da Bíblia, selecionando os três Evangelhos Sinóticos interpretados a partir de João e condenando os demais Evangelhos, especialmente o de Tiago. Isto só foi possível graças à sua aliança com o Imperador Constantino, que reconheceu o poder do monoteísmo como força política, e que viria a contribuir para manter a unidade do Império, decadente por mais dois séculos.

Israel se mostrou ingovernável e os romanos o destruíram, espalhando os judeus pelo mundo. Enquanto isto, após a queda do Império Romano do Ocidente, a Igreja Romana espalha o cristianismo por toda a Europa, cristianizando os conquistadores bárbaros. De certa forma, a idéia de Europa foi forjada a partir do cristianismo, na medida em que não havia uma unidade política.

Quando Paulo decidiu levar a heresia judaico-cristã aos não-judeus, ele deu origem à inflexão histórica que tornaria a crença minoritária de Cristo na religião dominante na Europa. A antiga maioria judaica se viu exilada nas terras de sua antiga heresia: e a história revela mais uma de suas ironias. Os conflitos seriam inevitáveis.

A fórmula do Deus único também funcionou para a unificação da Arábia sob a liderança de Maomé. A fórmula do poder divino servia bem aos Reis cristãos até recentemente, como podemos ver neste trecho de Bossuet:

“Deus encarna em Cristo; o Cristo, na Igreja; a Igreja, no Papa.”

Ou na sua releitura marxista-leninista:

“as massas se encarnam no proletariado; o proletariado, em “seu” partido; o partido, em seu secretário-geral”

Com a hegemonia cristã na Europa, a presença judaica se tornou algo incômodo, o que resultou na conversão forçada dos judeus em Portugal, por ocasião do casamento de D. Manoel com a princesa espanhola. Aliás, os espanhóis queriam a expulsão dos judeus e os portugueses deram o seu jeitinho convertendo-os à força. Os judeus só tiveram a opção de sair do território português após populares lisboetas, liderados por dominicanos, promoverem três dias de fogueira de judeus.

Como já disse alguém, os judeus eram o estrangeiro próximo; de fato, em um texto de Hannah Arendt, ela menciona impressionada ter conhecido um judeu alemão em Israel que em sua vida na Alemanha não se lembrava de ter dirigido a palavra a um não-judeu. Proudhon, o socialista utópico, expressou a intolerância européia com a presença judaica:

“O judeu é o inimigo do gênero humano. É preciso fazer com que essa raça volte para a Ásia ou teremos de exterminá-la.”

De fato, os judeus são considerados como agentes do capitalismo por Edouart Drumont que afirma:

“O semita é negociante por instinto, tem vocação para o tráfico, a genialidade para tudo o que for troca, para tudo o que for oportunidade de enganar o semelhante.”

De fato, alguns ressentimentos são inevitáveis. Conversando com alguns conhecidos, eles me garantem que as FARC não seqüestram judeus porque parte do contrabando de armas é feito por ex-militares israelenses. Talvez, com Chávez isto tenha mudado.

Um conhecido descendente de judeus alemães me contou uma vez que seus antepassados escaparam da Alemanha em um navio que um grupo de famílias conseguiu comprar e, ainda segundo ele, na crise vivida pela Alemanha, os laços de solidariedade judeus não se estenderam ao restante do povo alemão que era demitido primeiro das fábricas. Havia preços diferentes para membros da comunidade judaica e para alemães. Isto tudo alimentou ressentimentos....E Hitler teria escolhido os judeus para Cristo.

6 comentários:

Anonymous disse...

Como Freud sabia dessas coisas, era arqueologo, investigou?

Foi puro achometro, 'intuicao' de psicanalista intuitivo.

André disse...

Freud era um arqueólogo da mente, he, he. É uma coisa meio "ame-o ou deixe-o". Freud é assim.

Um livro complexo mas muito bom esse. O Mal-Estar na Civilização é outro legal.

Outros antes dele já escreveram sobre isso, Freud partiu de Ranke e companhia.

Na lenda clássica/original, normalmente o herói é um aristocrata ou filho de um rei, há uma profecia (via sonho ou oráculo) que alerta sobre seu nascimento, que seria, digamos, uma ameaça ao pai. Por isso, ela é condenada à morte ou ao abandono. Vai para o cestinho, que vai para o rio, é salva por gente simples, cresce, redescobre seus pais aristocráticos, volta, vinga-se do pai, é reconhecido e alcança grandeza e fama. Cool... revenge!

Esse tipo de lenda vai do fundador da Babilônia, Sargão de Agade, a Ciro e Rômulo. E há variações disso, com fragmentos da história original ou na íntegra, em Édipo, Páris, Perseu, Héracles, Gilgamesh, entre outros.

Com Moisés a lenda é diferente.

Em seu caso, a primeira família, em outros casos a aristocrática, era modesta. Ele era filho de judeus levitas. E o lugar da família humilde foi tomado pela casa real egípcia. A princesa o criou como se fosse seu próprio filho.

Esse afastamento do modelo é intrigante. Foi presumido que, originalmente, a lenda era diferente. Teria seguido o modelo original, clássico, do abandono pela família aristocrática, tendo sido alterada mais tarde, por “motivos nacionalistas”, segundo Rank. Mas isso não fazia sentido para Freud. Uma lenda original como essa, que não se desviasse das demais, não poderia ter existido, pois seria de origem egípcia ou judaica.

Mas os egípcios não teriam motivo para glorificar Moisés, visto este não ser um herói para eles. E os judeus não teriam motivo para transformar seu grande homem num estrangeiro.

A lenda de Moisés, sob a forma que hoje a conhecemos, deixa de alcançar sua intenção secreta. Se seu nascimento não era Real, a lenda não poderia cunhá-lo como herói; se o deixava como uma criança judia, nada teria feito para elevar sua posição social. De qualquer maneira, apenas um fragmento de todo o mito permanece eficaz: a criança sobreviveu perante poderosas forças externas.

Essa característica reaparece na história de Jesus, na qual Herodes assume o papel do faraó.

Assim, na verdade, é presumível que algum posterior e canhestro adaptador do material da lenda tenha tido a oportunidade de introduzir na história de seu herói, Moisés, elementos da lenda clássica de abandono, mas que, devido às circunstâncias especiais do caso, não eram aplicáveis a Moisés.

Há, contudo, outra linha de abordagem, mais profunda. No mito, uma família é humilde e a outra, aristocrática.

Onde, porém, a figura a quem o mito é ligado é histórica, há outro nível: o da realidade.

Uma das famílias é a real, na qual o homem nasceu (e talvez até nela cresceu) realmente; a outra é a fabricada pelo mito. Via de regra, a família humilde é a concreta, e a aristocrática, a fabricada.

A situação, no caso de Moisés é um tanto diferente.

E aqui a nova linha de abordagem talvez esclareça algo. Em todos os casos em que foi possível verificar isso, a primeira família, a que abandona a criança, é a inventada, e a segunda, que a recebe e na qual ela cresce, é a verdadeira.

Aplicando isso à lenda de Moisés, vemos que ele era um egípcio, provavelmente um aristocrata, sobre quem a lenda foi inventada para transformá-lo num judeu. E esta seria a conclusão. O abandono às águas estava em seu lugar correto na história, mas, a fim de ajustar-se à nova intenção, seu objetivo teve de ser deformado. O que antes seria uma maneira de sacrificar a criança transformou-se em meio de salvá-la (enviando-a dos judeus para a família real egípcia, que a criaria).

Enquanto normalmente um herói, no decorrer de sua vida, se eleva acima de seu começo humilde, a vida heróica de Moisés começou com ele descendo de sua posição elevada e baixando ao nível dos Filhos de Israel.

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“Imperador Constantino, que reconheceu o poder do monoteísmo como força política que contribuiu para manter a unidade do Império decadente por mais dois séculos.”

Esse manter a unidade é relativo, mas essa divisão imperial é uma história confusa.

Manteve de 324 (Constantinus, Imperador único no Ocidente) a 395 (morte de Theodosius), segundo uns. Para outros, a unidade teria se mantido até 476 (cai Romulus Augustulus, acaba o Império Romano do Ocidente).

O Império Romano do Ocidente constituiu a metade Ocidental do Império Romano após sua divisão por Dioclecianus em 286. Existiria intermitentemente em diversos períodos entre os séculos III e V, após a Tetrarquia de Dioclecianus e as reunificações associadas a Constantino e seus sucessores. Teria terminado com a abdicação de Romulus Augustulus, em 476, forçada pelo chefe germânico Odoacro. Sua contraparte oriental, Bizâncio, sobreviveria por mais 1.000 anos.

A vitória de Constantinus em 312 sobre Maxentius resultou na sua ascensão ao título de Augusto Ocidental, ou soberano da totalidade da metade ocidental do império. Ele consolidou suas posições do esfarelamento da Tetrarquia até 324, quando derrotou Licinius, o imperador oriental, e tornou-se imperador único.

Fast-forward... até Theodosius I, que governou tanto o Oriente quanto o Ocidente por um ano, morrendo em 395. Essa foi a ultima vez em que um único governante controlou ambas as partes do Império Romano.

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Não ex-militares israelenses, talvez pelo próprio governo ou pelo Mossad. Israel vende armas até para o Irã, há muitos anos. Isso é normal, são apenas negócios. O mercado de armas é muito flexível, há de tudo, relações aparentemente impossíveis se processam normalmente. Depende do que é vendido, também.

Como as FARC traficam drogas, dinheiro não falta, logo, canais variados também não faltam. Eles compram armas da Rússia, um canal seguro e tradicional, através de traficantes de armas russos (i.e., independentes, não a serviço de Moscou) e do próprio governo russo às vezes. A Venezuela dá um apoio limitado, não muito grande, pois tem que se preocupar em armar suas milícias. Mas pode servir como ponto de trânsito das cargas, obviamente.

Como em muitas das vendas há intermediários, que podem ser outros traficantes ou países, pode haver um monte deles envolvidos num único carregamento (geralmente nos maiores ou mais complexos, diversificados).

Por isso, ainda que as armas quase sempre partam da Rússia ou da Ucrânia, a viagem nunca é direta, seja o vendedor o próprio governo, um traficante local ou mesmo um estrangeiro. Sem falar que é mais seguro fazer dessa maneira. Essas cargas transitam por aí, mudando de mãos (podendo ser inclusive vendidas e revendidas, se a compra não se deu direto na fonte), levando um tempo razoável até chegarem ao vendedor final, isto é, aquele que faz o negócio com o comprador final, no caso as FARC. Se bem que muitas vezes o último na seqüência nem pode ser chamado de vendedor, mas apenas de entregador, já que a transação foi realizada com outro ou na fonte/país de origem das armas.

Um mundo interessante esse, do tráfico de armas. Mas dá cadeia ou morte por concorrência. Isso e os pacotinhos de felicidade que as FARC vendem. Na verdade, traficar os pacotinhos da felicidade é mais perigoso do que traficar armas.

Hitler se alimentou por muito tempo naquele caldo de subcultura germânica, cheio de anti-semitismo e bobagens mil, muito popular no meio quase-proletário em que vivia, vagabundo que era.

O nosso desocupado, Virgulino Ferreira, o Lampião, bandoleiro das terras nordestinas, felizmente ficou só no forró e no "mé", imortalizado por Mussum, o Kid Mumu da Mangueira.

Mas o anti-semitismo era forte nas classes altas também, sem dúvida.

Bem, os judeus sempre foram detestados porque, a meu ver, eram muito bons em tudo o que faziam. Nesse episódio, se preservaram e atravessaram mais ou menos bem a crise econômica dos anos 20 na Alemanha, o que realmente provocou enorme ressentimento nos outros alemães, que se ferraram. Eles tem sua cota de injustiças, como todo povo. Nacionalismo é isso: sempre vai levar um povo (um “nacionalismo”) a fazer mal a outros povos (outros “nacionalismos”). Estiveram por cima em algumas épocas, por baixo em muitas outras, e de uns tempos pra cá vem se saindo bem. Outros tiveram mais sucesso, com histórias menos tormentosas. Tudo bem pensado, tudo bem considerado, são um povo cabra da peste. Estão on the record por sua capacidade de resistência.

Bom final de semana pra todos

Ricardo Rayol disse...

Vale lembrar que a aptidão negocial dos judeus advém da necessidade de sobrevivência entre tantos povos. Gostei do artigo (ok minha opinião não é lá grande coisa), muito instrutivo.

Catellius disse...

Anonymous, acho que Freud levantou uma hipótese. Não afirmou ser aquela a verdade absoluta.

E venhamos e convenhamos. Dizer que Moisés era egípcio não é nenhum achômetro. Absurdo é os egípcios saírem matando primogênitos dos hebreus porque eles estavam ficando muito populosos. Qualquer idiota deixaria os varões vivos, para o batente pesado, e mataria as meninas, para conter o crescimento populacional. Sem falar na historinha do menino no cesto sobre o Nilo... Carochinha braba!

Catellius disse...

Êxodo, 1:

7. os israelitas foram fecundos e multiplicaram-se; tornaram-se tão numerosos e tão fortes, que a terra ficou cheia deles.
8. Entretanto, subiu ao trono do Egito um novo rei, que não tinha conhecido José.
9. Ele disse ao seu povo: Vede: os israelitas tornaram-se numerosos e fortes demais para nós.
10. Vamos! É preciso tomar precaução contra eles e impedir que se multipliquem, para não acontecer que, sobrevindo uma guerra, se unam com os nossos inimigos e combatam contra nós, e se retirem do país.

16. e disse-lhes: Quando assistirdes às mulheres dos hebreus, e as virdes sobre o leito, se for um filho, matá-lo-eis; mas se for uma filha, deixá-la-eis viver.
17. Mas as parteiras temiam a Deus, e não executaram as ordens do rei do Egito, deixando viver os meninos.
18. O rei mandou-as chamar então e disse-lhes: Por que agistes assim, e deixastes viver os meninos?
19. Porque, responderam elas ao faraó, as mulheres dos hebreus não são como as dos egípcios: elas são vigorosas, e já dão à luz antes que chegue a parteira.
20. Deus beneficiou as parteiras: o povo continuou a multiplicar-se e a espalhar-se.
21. Porque elas haviam temido a Deus, ele fez prosperar suas famílias.
22. Então o faraó deu esta ordem a todo o seu povo: Todo menino que nascer, atirá-lo-eis ao Nilo. Deixareis, porém, viver todas as meninas.


--//--

Ho ho ho
Por que os egípcios, logo os sábios egípcios, seriam tão burros? Queriam conter o aumento da população hebréia e matavam os homens, quando um homem é capaz de engravidar várias mulheres, e a poligamia era permitida naquela época?

O que fariam: raptariam todas as meninas que completassem 12 anos, antes que engravidassem, e as deixariam em uma espécie de gueto, afastadas dos homens, dedicadas a outros afazeres. Ou as venderiam por aí, como escravas sexuais. Poderiam castrar os homens logo que nascessem. E pronto. Em três gerações não haveria mais um hebreu para contar a história.

Mas não. Mais de uma vez o faraó diz para matar os meninos e poupar as meninas... Estranho! É óbvio que isto é uma invenção estúpida para poder criar a cena de Moisés em um cesto, no Nilo, para tentar explicar a razão pela qual o chefe dos hebreus era um príncipe egípcio.

Isto, o fato de realmente ter havido um monoteísmo pouco tempo antes em solo egípcio e ele ter sido ferozmente combatido, e outras coisas mais, já são material suficiente para Freud (e quem mais desejar) fazer suas especulações.

Anônimo disse...

CATTELLIUS, vc achou um absurdo e disse ser uma estupidez o fato dos egípios matarem os homens e não as mulheres, porque as mulheres poderiam engravidar e os homens ainda seriam úteis no trabalho pesado.
Mas pense o seguinte, os egípicios não queriam exterminar os judeus e sim controlar o seu número porque temiam uma evolta.
Eles precisavam de escravos para os trabalhos e muitos dos trabalhos poderiam ser exercidos por mulheres.
No caso do acontecimento de uma revolta quem você acha que lutaria? Os homens ou as mulheres?
Num tempo em que as mulheres eram totalmente submissas...
Claro que os homens eram melhores para os trabalhos pesados, mas também exerceriam maior força no caso de uma revolta.

Podemos ainda dizer de um modo simplista, que em questão de tempo, a capacidade reprodutora da mulher é menor que a do homem, uma vez que um homem pode gerar filhos por muito tempo, já as mulheres tem a menopausa.

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