02 fevereiro 2008

A igualdade racial e o despilfarro da ministra

Em meus dias de universidade, certa vez distribui um colar de zeros a minhas aluninhas. Falo assim no feminino porque quase não havia varões na aula. Eram alunas de último ano de Letras. Lá pelas tantas, uma negrinha pulou em seus tamancos e, chorando, começou a gritar:

- Racismo, professor, racismo. Eu nunca tirei zero neste curso.
- Então nunca leram tuas provas. Porque no que dependesse de mim, tu nem entravas na universidade.

As meninas tinham um português deplorável, inadmissível em um acadêmico, e dali a alguns meses estariam lecionando na rede pública. Minha salvação foi que eu havia zerado mais treze alunas, e estas eram todas brancas. A acusação da moça não se sustentava. Se, por acaso, fosse só ela a merecer zero, certamente eu responderia processo por racismo.

Minha aluninha analfabetinha voltou-me à memória com a affaire da ex-ministra Matilde Ribeiro, titular da Secretaria Especial de Política da Promoção da Igualdade Racial (Seppir). Flagrada pelo uso indevido dos tais de cartões corporativos – um convite praticamente irresistível à corrupção - dona Matilde já foi exibindo a cor da pele. Em entrevista coletiva, questionada se via preconceito na cobertura da imprensa sobre o uso irregular de seu cartão, ela disse que "o histórico do Brasil não permitiu que fosse reconhecido o peso da escravidão e o peso da não inclusão de negros e negras. Isso vale para a sociedade como um todo".

O Supremo Apedeuta não deixou por menos. Disse que ela fez "um trabalho extraordinário" à frente da pasta e declarou conhecer as "imensas dificuldades, arraigadas por séculos de preconceito, que Vossa Excelência teve de enfrentar".

Matilde Ribeiro, se alguém não lembra, foi aquela senhora que declarou, no ano passado, considerar natural a discriminação dos negros contra os brancos. Em entrevista à BBC Brasil para lembrar os 200 anos da proibição do comércio de escravos pelo Império Britânico, ela disse que "não é racismo quando um negro se insurge contra um branco. A reação de um negro de não querer conviver com um branco, eu acho uma reação natural. Quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou", afirmou na ocasião.

A frase caiu pesada nos meios de comunicação. Como era proferida por uma negra, ficou por isso mesmo. Negro pode insultar branco à vontade, não é racismo. Mas se um branco dissesse o inverso, seria imediatamente enquadrado por crime de racismo. De minha parte, até que concordo com um trecho da afirmação da ex-ministra. Não vejo porque negros tenham de gostar de conviver com brancos. Mas também não vejo porque brancos tenham de gostar de conviver com negros. O gostar não pode ser obrigatório. Respeito, sim. Mais do que isso é dogma de papistas. Uma das frases mais abomináveis da História que conheço é o “amai-vos uns aos outros”. Eu amo quem acho amável, ora bolas. E a verdade é que o mundo está cheio de pessoas detestáveis.

Entre estas, a ex-ministra. Gastou à tripa forra em transporte e restaurantes de luxo. Só no ano passado, torrou R$ 171,5 mil em viagens, todas pagas com o cartão corporativo.
O que corresponde a R$ 14,3 mil mensais, valor superior ao seu salário, que é de R$ 10,7 mil. Dona Matilde encontrou uma fórmula confortabilíssima para mais que duplicar seu salário. O curioso em tudo isto é que deste despilfarro – como dizem os espanhóis – parece não ter causado espécie aos catões do Planalto. O que escandalizou foi uma continha de 461 merrecas em um free shop. Argent de poche.

São 42 os membros do alto escalão do governo a usarem os simpáticos cartões corporativos. Nos baixos escalões, são 11.510. Isto dá uma idéia da farra toda com o dinheiro do contribuinte. Pelo que noticiam os jornais, boa parte da gastança foi para restaurantes de luxo.

O que só confirma minha tese. São Paulo está sendo gradativamente tomada por restaurantes para pessoas jurídicas. Você é mera pessoa física e tem de pagar de seu bolso? Melhor evitá-los. Nesses restaurantes, uma mesa de cinco ou seis pessoas gasta às vezes 50 ou 60 mil reais e os comensais chegam a brigar para decidir quem paga. Afinal, quem paga é você.

Enfim, tudo muito coerente. A ministra ocupava a pasta da Igualdade Racial e sempre foi combativa agitprop dos ditos movimentos negros. Se as “elites brancas” – expressão de um mentecapto branco do governo bandeirante – se corrompem alegremente com os tais cartões, em nome da propalada Igualdade Racial, a ministra também se atribuiu o direito de corromper-se.

O caso mais caricato foi o do ministro dos Esportes, Orlando Silva. Tendo torrado 20.100 reais no ano passado – uma micharia comparado com os gastos da ministra da Igualdade Racial – está sendo estigmatizado, o coitado, por ter gasto 8,10 reais em uma tapiocaria em Brasília. O velho bolchevique pensou pequeno e se ferrou. Mas, homem probo, já declarou ter devolvido – integralmente - a quantia ao Erário.

Entre os gastos do velho bolchevique, constam 217 reais no Le Vin Bistrô, de São Paulo. Quem diria que eu e o ministro comunista freqüentamos o mesmo restaurante. Almoço lá pelo menos uma vez por semana. Com uma caipira introdutória, couvert, mais um prato e meia garrafa de bom vinho, pago de 60 a 80 reais. Se convido uma amiga, a conta sequer aos 200 reais. Com uma diferença. Pago de meu bolso, sem onerar o contribuinte.

7 comentários:

André disse...

Também não entendi essa da compra de valor até pequeno num free shop ter ficado em destaque.

Heitor Abranches disse...

Muito bom Janer...

O nosso blog ainda tem a vantagem de nao custar nada ao contribuinte nem ser sustentado com caixa 2.

Falando em caixa 2, esta semana vi a defesa da cambada do Mensalao que alega todo o dinheiro era do caixa 2 e nao era publico...

Defesa risivel considerando que o Caixa 2, muitas vezes, e produto da extorsao de empresarios por parte de empregados publicos a cargo de licitacoes publicas...

Alias, todo mundo sabe da amizade do Lula com o Odebretch mas as coisas sempre foram assim desde a epoca dos militares quando o Camargo Correa era muito ligado aos generais...

Se brigar com a cambada ou se recusar a pagar como alegou o empresario Daniel Dantas que disse que o PT queria US$ 50 mi para que ele pudesse continuar mandando na Brasil Telecom.

Esta semana, o cara da Vale esta na cola do Lula para ele liberar mais uma aquisicao da Vale. Sera que eles vao chegar a um entendimento...

Agora a assessoria do Ze Dirceu parece ter dado frutos para o mexicano que se expande firme no nosso setor de telefonia...

E os caras ainda vem com esta que caixa 2 nao e dinheiro publico, que os empresarios sao bonzinhos e dao dinheiro para os politicos...

Se nao derem vao ficar igual ao judeu boliviano da Petrobras que desde a epoca FHC entrou na lista negra da estatal e nao consegue fazer mais nenhum negocio.

E quem paga tudo isto, nao sao os petistas, sao os consumidores ou os contribuintes...

Raphael disse...

"Lá pelas tantas, uma negrinha pulou em seus tamancos e, chorando, começou a gritar:

- Racismo, professor, racismo. Eu nunca tirei zero neste curso."

É automatico.

Raphael Piaia disse...

Essa mensagem é principalmente para Anselmo e Janer. Outra off-topic

Aqui estou, entediado com o feriado de carnaval, então resolvo navegar um pouco pela internet (carnaval é data para se trancar em casa ou fugir para o sul). Indo aqui e ali, acabo descobrindo que Anselmo tem que ser elevado à categoria de pessoa mais paciente e altruísta que conheço. Apesar de não ter orkut, vez por outra uso a conta de uma amiga da minha namorada para dar uma passada pela comunidade do Janer ou algum outro lugar de lá. Pois bem, estou eu, tranqüilo em minha mesa, fazendo isso e acabo caindo numa delas. E aqui se explica por que Anselmo é o sujeito mais paciente que conheço. Passei, por baixo, meia hora lendo ele se digladiar com olavetes. Vejam bem, não falo de 1 x 1,1 x 2 ou 1 x 3. Falo de 1 x 10, 1 x 15, com todos os seus adversários se unindo por um único ideal comum: lutar contra o iconoclasta. E o que o sujeito faz? Continua tentando incutir alguma razão nos aprendizes de Walter Mercado.

Até ai tudo bem, nada de novo. Já conhecia a paciência do Heidrich desde o Expressionista. A questão é que acabei caindo, sei lá como, numa outra comunidade, onde tive o privilégio de ler o Big O em pessoa confraternizando com suas groupies. Em certo ponto, diz o astrólogo:

Olavo
Aviso 2
“O sr. Janer Cristaldo jamais foi censurado no Mídia Sem Máscara. Foi expulso, a pedido de leitores judeus, por ser mais anti-semita do que poderia justificar mediante a exibição de um mero atestado de insanidade mental. Quanto ao sr. Heydrich, nada fez de mau, embora empenhasse nisso o melhor das suas forças. Dizem que continua tentando, mas não creio que alcance sucesso. Embora seja homônimo de um famoso carrasco nazista, sua mais temível realização no campo da atrocidade, segundo consta, foi peidar sob o lençol. Dizem que isso deu nascimento ao sr. Janer Cristaldo, mas eu não acredito.”

Isso me lembrou de uma carta-prostesto que enviei ao MSM por ocasião da censura e - até onde eu acreditava - expulsão de Cristaldo. Janer inclusive postou em seu blog, reproduzo-a:

CARTA DE PIAIA


Enviada ao jornal católico Mídia Sem Máscara e obviamente não publicada.


"Caros Editores,

Sou o autor da carta "Imigração" que vocês tiveram a gentileza de responder. Como já dito, sou leitor do MSM há algum tempo e até agora tinha o site como uma das mais importantes fontes para a difusão de idéias e críticas contra a hipocrisia "politicamente correta" que vem crescendo nos últimos tempos. Também sou leitor do jornalista Janer Cristaldo - que escreve os artigos que considero estar entre os mais interessantes - tanto pelo blog do autor como por aqui.

Por esse e-mail, venho expressar minha decepção com o MSM. Chamá-lo de "canalha"? E pelo quê? Simplesmente por Janer exercer o papel que qualquer jornalista decente (coisa que não conhecemos muito nesse país) deveria cumprir.

Se tudo isso não for um grande equivoco, o MSM se torna mais um sitezinho cretino, arrogante e censor na mídia brasileira. No entanto, espero que essa não seja a realidade e que o que aconteceu não tenha partido dos verdadeiros Editores do MSN. Porém, se isso tiver realmente ocorrido, o MSM torna-se infelizmente apenas mais um endereço que será excluído de minha barra de favoritos. Acreditava que o MSM vinha exercendo um importante papel na sociedade brasileira e gostaria que continuasse assim.

Cordialmente,

Raphael L. Piaia"

- Enviado por Janer @ 7:02 PM

A resposta veio numa carta de pouco mais de uma página, com aquela elegância peculiar que só os asseclas do astrólogo sabem usar. Li, comentei com o Janer e deletei. Basicamente, ela dizia que Janer não foi expulso. Que houve desentendimentos e que o sr. Cristaldo acabou deixando o jornal por livre e espontânea vontade. Até indicaram, com tom de ironia, que os leitores do sr. Cristaldo poderiam continuar acompanhando suas crônicas pelo blog do autor. Ela vinha assinada pela Editoria Mídia Sem Máscara. Óbvio que tanto minha carta como a resposta do jornal católico não foram publicadas.

Não vou entrar na questão da expulsão. É claro que há pouca distância entre censurar um autor e expulsá-lo. É como dizer: “ Escuta, você não pode mais escrever aqui, mas não estamos te expulsando, ok?” Mas quem espera lógica de carolas, certo? A questão é outra. Além de delirante, o astrólogo mente obscenamente. Mostra que é mau-caráter, pois mentir dessa forma é puro mau-caratismo.

E esse, caros senhores, é o herói das olavetes...

Ricardo Rayol disse...

No final de 2006 recebi um email do então deputado federal mauro passos, do PT daqui de Santa catarina. Vinha com um link de um site que não vi mais onde eram detalhados os gastos públicos. Obviamente me chamou a atenção o tal cartão corporativo. Esmiuçando individualmente não vi um sequer que não sacasse dinheiro vivo com ele. Teve um, de quem não recordo o nome, que sacou 5.000 reais em 5 dias seguidos. Coisas absurdas desse tipo.

O valor de um gasto é irrelevante. Se 8, 500 ou 10 mil. O valor pequeno representa o grande descaso com o uso do dinheiro de nossos impostos.

São espertalhões, não espertos.

Raphael disse...

Mais um atestado do mau-caratismo de Walter, escritos em 06 de janeiro de 2006:

Louvando a franqueza e o vigor da minha resposta ao artigo anti-semita de Janer Cristaldo, nossos amigos do De Olho na Mídia protestam que ela não foi suficiente; que, não removido o artigo da página nem excluído o articulista do nosso quadro de colaboradores, "a nódoa ficou". Têm razão: ficou mesmo. Não tentei apagá-la; apenas admitir sua existência e chamá-la pelo nome. O Mídia Sem Máscara não é puro e inatacável como a Folha, o Globo e tantos outros monumentos de santidade jornalística. Enquanto essas publicações jamais pecam, jamais têm culpas morais, no máximo deslizes técnicos cometidos com intenções insuperavelmente éticas e elevadas, nós aqui assumimos a plena responsabilidade moral do que publicamos, e não nos sentimos isentos de culpa pelo que Janer Cristaldo escreveu.

Ao contrário, assumimos essa culpa - não por concordarmos com uma só palavra do que ele disse, mas porque, quando um homem não sente vergonha do mal que comete, não resta alternativa aos seus colegas e amigos senão senti-la em lugar dele. Por isso não procurei limpar a nódoa, mas mostrá-la aos olhos de todos. Achei que isso seria suficiente para alertar o colunista e demovê-lo da sua loucura. Não fiz isso para puni-lo, mas para avisá-lo de que entrou por um caminho errado e deve sair dele o mais que depressa.

Por isso mesmo não o excluí do quadro de nossos articulistas. Expulsá-lo seria carimbá-lo para sempre com um rótulo que, a meu ver, ele só merece a título provisório. Não posso exterminar a reputação de um colaborador quando espero ganhá-lo de volta para as boas causas. No fundo, não acredito na seriedade do anti-cristianismo nem do anti-judaísmo de Janer Cristaldo.

Heitor Abranches disse...

Segurança da filha de Lula gastou R$ 55 mil em cartão
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da Folha Online

Um segurança pessoal de Lurian Cordeiro Lula da Silva, filha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, gastou quase R$ 55 mil nos últimos nove meses usando um cartão de crédito corporativo do governo federal, informa reportagem assinada por Leila Suwwan e publicada nesta segunda-feira na Folha (íntegra disponível para assinantes do jornal e do UOL).

Segundo a reportagem, os gastos foram realizados em lojas de autopeças, materiais de construção e de ferragens, supermercados, livrarias, combustível e em uma casa de venda de munição. Os gastos foram feitos no cartão da Secretaria de Administração do Planalto cedido a "João Roberto F Jr" --identificado pelo CPF como João Roberto Fernandes Júnior.

O Gabinete de Segurança Institucional da Presidência promete explicar as compras após o Carnaval, mas o servidor disse não haver irregularidade. Já a Secretaria de Imprensa do Planalto informou que não irá se manifestar sobre "temas relacionados à segurança do presidente ou seus familiares".

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