10 fevereiro 2008

Eu sou a lenda

O filme, muito elogiado por críticos como Isabela Boscov, da Veja, e por jornalecos e blogs de cristãos - nestes casos pela semelhança com as histórias da Arca de Noé e do sacrifício de Jesus, e também por manter vivos nos crentes seus desejos escatológicos (éschatos) -, parte da interessante visão de uma Nova Iorque deserta aparentemente habitada por apenas um homem e uma cadela, para terminar como um filme B de zumbis-vampiros alucinados por carne e sangue humanos.

O filme começa em flashback. Dra. Krippin – nome que lembra Dr. Crippen, um monstro do início do séc. XX, o que não pareceu incomodar Emma Thompson – anuncia em um programa televisivo, sem muito entusiasmo, ter descoberto a cura para o câncer.

Will Smith disse recentemente, perante solidéus erguidos por cabelos arrepiados: "Até Hitler não acordava dizendo: 'deixe-me fazer a coisa mais malévola que é possível fazer hoje'. Eu acho que ele acordava de manhã e, usando uma lógica invertida, tentava fazer o que pensava ser o 'bem'".

Também com a melhor das intenções - a de livrar a humanidade do câncer -, Dra. Krippin cria sem querer um vírus que se alastra pelo ar e pelo contato, que ou mata, ou não faz nada, ou transforma os infectados – mesmo os cachorros - em zumbis-vampiros doidos por carne e sangue de humanos sadios, em bestas-feras dotadas de força extraordinária, capazes de escalar prédios com a rapidez do homem-aranha, mas sem muita inteligência e vulneráveis à luz do dia, porque os raios UV os matam em instantes (maldito vírus); sobe até fumacinha de seus corpos pelados, pálidos e translúcidos, se não tomarem cuidado (usem filtro solar, lhes diria o Pedro Bial). A perda de pêlos é um efeito colateral esperado em vários tratamentos de câncer; até aí nada de mais. Mas este é um vírus impressionante. Ao invés de debilitar o corpo ele o dota de poderes inimagináveis, apenas ao custo de redução de inteligência. No filme, os católicos deixam de ser os únicos canibais hematófagos do séc. XXI. Como sabemos, católicos literalmente comem carne humana aos domingos – pelo menos é no que acreditam.

A ciência, em sua sanha de desafiar Deus, é a grande responsável pelos males da humanidade. Não fossem os homens tão curiosos, não teriam mordido o fruto proibido e ainda viveriam no paraíso; não fossem tão audazes, não teriam construído a Torre de Babel e assim despertado a ira de Javé, que violou os seus cérebros ao neles implantar idiomas diferentes do hebraico, o único que existia até então, visando boicotar suas aspirações, dispersar aqueles que estavam unidos, confundir aqueles que se entendiam, aniquilar seu potencial.

Gênesis, 11: “Toda a terra tinha uma só língua, e servia-se das mesmas palavras. Alguns homens, partindo para o oriente, encontraram na terra de Senaar uma planície onde se estabeleceram. E disseram uns aos outros: ‘Vamos, façamos tijolos e cozamo-los no fogo.’ Serviram-se de tijolos em vez de pedras, e de betume em lugar de argamassa. Depois disseram: ‘Vamos, façamos para nós uma cidade e uma torre cujo cimo atinja os céus. Tornemos assim célebre o nosso nome, para que não sejamos dispersos pela face de toda a terra.’
Mas o senhor desceu para ver a cidade e a torre que construíram os filhos dos homens. ‘Eis que são um só povo, disse ele, e falam uma só língua: se começam assim, nada futuramente os impedirá de executarem todos os seus empreendimentos. Vamos: desçamos para lhes confundir a linguagem, de sorte que já não se compreendam um ao outro.
Foi dali que o Senhor os dispersou daquele lugar pela face de toda a terra, e cessaram a construção da cidade. Por isso deram-lhe o nome de Babel, porque ali o Senhor confundiu a linguagem de todos os habitantes da terra, e dali os dispersou sobre a face de toda a terra.”

Em sua famosa apologia da vadiagem, Jesus diz:

“Olhai as aves do céu: não semeiam nem ceifam, nem recolhem nos celeiros e vosso Pai celeste as alimenta. Não valeis vós muito mais que elas?
Qual de vós, por mais que se esforce, pode acrescentar um só côvado à duração de sua vida?
E por que vos inquietais com as vestes? Considerai como crescem os lírios do campo; não trabalham nem fiam. Entretanto, eu vos digo que o próprio Salomão no auge de sua glória não se vestiu como um deles. Se Deus veste assim a erva dos campos, que hoje cresce e amanhã será lançada ao fogo, quanto mais a vós, homens de pouca fé? Não vos aflijais, nem digais: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos?
São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso. Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo. Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia basta o seu cuidado.”

Dra. Krippin tenta adicionar alguns côvados além dos incontáveis já acrescentados à duração da vida humana pela torpe medicina, ciência de pagãos que ousam se preocupar com o amanhã. Cirurgias, antibióticos, vacinas? Torres de Babel que só causaram confusão, só prolongaram o sofrimento nesta falsa vida, só retardaram o grande encontro com o estilista dos lírios, na verdadeira vida. “Don't worry about the things”, ouve-se pela voz de Bob Marley a todo momento, no filme; esqueçamos da ciência e confiemos na providência, caso contrário perderemos nossas almas e viraremos seres das trevas, zumbis-vampiros malditos.

9 comentários:

Raphael disse...

Não assisti ao filme ainda, mas li o romance há muito tempo (não sei se pode ser chamado assim. É curto demais para um romance e muito longo para um conto). Pelo que você descreveu, as coisas são bastante diferentes. A começar pela cadela, Neville não a recebe da filha. A beira da loucura, depois de tempos já vivendo sozinho e se enclausurando em sua casa-forte durante a noite, encontra um cachorro que parece não estar infectado. Ele passa dias conquistando a confiança do cão, páginas e mais páginas de tentativas frustradas até que finalmente Neville consegue acariciar o animal.

Mas você levantou o ponto sobre a religião no filme, Catellius, que me fez lembrar de outra parte do livro. Em certa altura, Neville faz uma descoberta interessante. Ele consegue aprisionar dois “zumbies-vampiros”, um judeu e um cristão. Acho que a garota já está com ele, vivendo na casa, nessa parte da história. Até então eles acreditavam que os vampiros só respondiam à cruzes e bíblias. Neville mostra uma bíblia para o vampiro cristão e obtém a reação desesperada e amedrontada de sempre. Então ele a mostra para esse vampiro judeu – que era seu vizinho, se não me engano. A reação do zumbie é rir e debochar do livro, deboche que se transforma em pânico assim que Neville saca uma... estrela de Davi. Ou seja, não havia nada de sobrenatural ali. Era pura psicologia. A religião conseguiu manter-se arraigada até na mente dos mortos-vivos.

Anônimo disse...

Sobre a citação do Gênesis, tem gente que ou não sabe distinguir linguagem simbólica de linguagem literal ou é extremamente desonesta.

André disse...

Quanto às analogias com religiões cristãs, os cristãos ou não-cristãos podem enxergar ou não esse tipo de coisa em mil filmes, não só nesse. Conheço gente religiosa que vê elementos de suas crenças em qualquer filme ou livro. Algumas vezes esse simbolismo até faz algum sentido, já que era o efeito desejado por quem fez a obra, mas quase sempre é algo forçado pelas pessoas em geral, que querem muito enxergar sentidos ocultos, sem falar em forças ocultas, em tudo.

Cristãos e outros viram um monte de coisas ocultas na trilogia Matrix. A própria Bíblia para mim é só isso, simbolismo (e mitologia), e deveria ficar só nisso. Levá-la para o sentido literal é que é absurdo. Infelizmente, como a maioria dos crentes não se satisfaz com simbolismos, acaba levando muita coisa, senão quase tudo, ao pé da letra, e logo começam os problemas...

Sobre infecções virais, prefiro a série Extermínio (28 Days Later e 28 Weeks Later).

Essa semana:

Elizabeth 2- The Golden Age

3:10 to Yuma (Christian Bale, Russell Crowe, um Western)

Breve:

Iron Man

Não tão breve assim:

The Dark Knight

C. Mouro disse...

Esse é o Catellius... ...hehehe!

Mas que que é isso?

"Mas o senhor desceu para ver a cidade e a torre que construíram os filhos dos homens."

Porra! ...mas o senhor "deus todo poderoso senhor dos exércitos" não é onisciente/onipotente?
...Para quê o distinto deus verdadeiro e onipotente precisava descer para ver? ...hehehe!

Muito bem lembrada também o louvor à vagabundagem. É ela também uma passagem bíblica deveras interessante. Coloco-a no mesmo patamar daquela que fala em filho contra pai e etc., que quem não se empombar com os demais por JC não o merece e coisa e tal (não tenho mais saco para ir na fonte, vai de cabeça mesmo, e mal).

Bom mesmo é "comer pipoca" (tomo emprestado do Bocage). ...hehehe!

Ficarei no camarote. Estou convencido que a liberdade e a justiça fundadamentada na lógica são impossíveis - Sun Tzu é eterno.
É causa perdida. Quando não se anseia por vantagens/muletas mentais não se perde a chance de afagar plateias na tentativa de ficar bem na fita a qualquer custo. ...dá asco, certas coisas.

Enfim, apreciarei os ótimos textos do polêmico Catellius e demais, "comendo pipoca" ...hehehe!
...dessa vez vai! ...hehehe!

Abração
C. Mouro

Ricardo Rayol disse...

devo ser uma besta quadrada, quando vejo filmes eu apenas relaxo e gozo.

Bocage disse...

Excelente texto, Catellius. Não assisti ao filme e não gostei, rsrs. Espero ansioso os próximos Atos, rsrs.

"E disseram uns aos outros: ‘Vamos, façamos tijolos e cozamo-los no fogo.’ Serviram-se de tijolos em vez de pedras, e de betume em lugar de argamassa."

Eis a tecnologia - o uso de tijolos e betume - a afrontar o troglodita não tão onipresente (“o senhor desceu para ver a cidade e a torre”), rsrs, que exigia que continuássemos a partir pedras. Fazê-las do barro, como Deus fez o homem, é presunção que ele não pôde perdoar.

Catellius disse...

Raphael,

Não li o livro, mas parece que os zumbis de lá tinham uma certa organização e, para eles, Neville é o agressor; é capturado e condenado à morte pelos seus crimes. O cientista percebe, no final, que ele era o monstro da história. Algo assim, não? Fiquei com vontade de lê-lo, pelas críticas favoráveis.

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André,

"Quanto às analogias com religiões cristãs, os cristãos ou não-cristãos podem enxergar ou não esse tipo de coisa em mil filmes, não só nesse."

Concordo, he he. A questão é que o próprio Will Smith, em entrevistas após o lançamento do filme, comparou Neville a Jesus Cristo e criticou as boas intenções da ciência, dizendo aqueles disparates sobre Hitler.

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Mouro,

"Porra! ...mas o senhor 'deus todo poderoso senhor dos exércitos' não é onisciente/onipotente?
...Para quê o distinto deus verdadeiro e onipotente precisava descer para ver? ...hehehe!"

De fato, he he.

"Ficarei no camarote."

Tudo bem, desde que de vez em quando atire uns tomates, he he.

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Ricardo,

"devo ser uma besta quadrada, quando vejo filmes eu apenas relaxo e gozo."

Ha ha ha! Bestas somos nós, he he. Eu costumo relaxar e gozar com filmes bons. A questão é a seguinte: às vezes tenho que ir ao cinema com a esposa. Os ingressos estão cada vez mais caros, em parte por causa da farra das carteiras de estudante. Eu pago inteira e ajudo a sustentar os safados que compram carteiras por aí. E os filmes têm ficado cada vez piores. Ora, se pago para "gozar", tento extrair alguma diversão de filmes ruins. E ela consiste em meter o pau com vontade, he he. Quando saio com ex-colegas de faculdade, prefiro até assistir a filmes ruins, porque o boteco após o cinema fica bem mais animado.

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Bocage,

"Eis a tecnologia - o uso de tijolos e betume - a afrontar o troglodita não tão onipresente (“o senhor desceu para ver a cidade e a torre”), rsrs, que exigia que continuássemos a partir pedras. Fazê-las do barro, como Deus fez o homem, é presunção que ele não pôde perdoar."

Afinal, quando fomos expulsos do paraíso, Javé condenou os homens a sofrer com o trabalho e as mulheres a sofrer com o parto. Moldar tijolos ao invés de partir pedras e cesariana quando o bebê é um cabeçudo enrolado no cordão umbilical são afrontas à pena imposta pelo bondoso deus. Quem somos nós para retornarmos ao paraíso por conta própria?

Abraços a todos!

P.M. disse...

Eh, Ricardo,
Vc foi sutil. Tem q estar louco para ver todas essas coisas em um blockbuster besta como esse. Ainda virao dois posts sobre o tema, tsc tsc tsc.

Catelhos, faca uma resenha sobre a Paixao de Cristo tb, kkkkkk, com alguns anos de atraso.

Catellius disse...

Fiquei de escrever o resto, mas fiquei sem tempo e saco.

O post agora é "Eu sou a Lenda" e sem o parágrafo final:

"Pois bem, a ilha de Manhattan deve ser evacuada. Lá permanecerão, de quarentena, todos os infectados pelo vírus da Dra. Krippin. Todos acessos por terra – as pontes, obviamente – são destruídos por aviões de guerra. A família do coronel e cientista Neville (Will Smith) entra em um helicóptero que logo após a decolagem explode, aparentemente. Durante o emocionante adeus, minutos antes, pai, filha e esposa rezam ao Todo Poderoso, e a última invoca proteção para aquele que fica em nome do dever. A filha (a atriz mirim é filha de Will Smith) confia ao pai a cadela Sam e vê uma borboleta através da janela do helicóptero. Mais tarde entenderemos ser aquilo um sinal. Neville vê uma borboleta tatuada no pescoço de uma outra sobrevivente (Alice Braga) que está a procura da Arca de Noé, onde os homens de Deus fundarão uma nova humanidade, e, devido a esta sincronicidade junguiana, entende o que Deus quer lhe dizer."

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