23 fevereiro 2008

De como voltei a ser feliz

Entre meus prazeres diletos estão as óperas. Nem todas, é claro. Wagner me afasta do gênero. Der Ring des Nibelungen me assusta. Fora isto, curto Verdi, Puccini, Rossini, Donizetti, Bizet. E Mozart, obviamente. Há pelo menos três óperas que revejo umas três ou quatro vezes por ano. Don Giovanni, Die Zauberflöte e Carmen. Tenho várias interpretações de cada uma, pois cada encenação é uma outra ópera. As melhores destas três são:

- a de Don Giovanni, pela Wiener Philharmoniker, regida por Wilhelm Furtwängler, com Cesare Siepi no papel do personagem-título e Otto Edelman fazendo um magnífico Leporello.

- a de Die Zauberflöte, com coro e orquestra do Ludwigsburger Festspiele 1992, regida por Wolfgang Gönnenwein, com Deon Van deer Walt como Tamino e Ulrike Sonntag como Pamina. Papageno e Papagena são interpretrados por Thomas Mohr e Patrícia Rozario.

- quanto a Carmen, não é uma ópera encenada, mas filmada, com exteriores de Sevilha e Ronda. O filme é de Francesco Rosi, Plácido Domingo faz Don José e a Carmencita é interpretada por Julia Migenes. Entre as várias Carmens que tenho – uma inclusive cantada em italiano, e o efeito é ótimo – a de Rossi é a mais divina. O momento em que a gitana tenta seduzir Don José é de uma sensualidade – como direi? – espeluznante. De arrepiar.

Cheguei muito tarde à ópera. Culpa das encenações medíocres da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre. As intenções eram sublimes, mas o resultado, desastroso. Havia um maestro que mais parecia uma barata gorda de smoking, o húngaro Pablo Komlós. E uma soprano que era um breve contra óperas, Eni Camargo. Gordíssima, era um verdadeiro paradoxo ambulante ao interpretar uma tísica Violetta. Carmen, então, era um desastre. A cigana linda e sensual era uma pipa sem cintura. Quando caía sob as punhaladas de Don José, era um estrondo no palco. Eu achava o gênero ridículo e não entendia aquele público enorme das óperas encenadas na Reitoria.

Fui me entender com as óperas em Paris. Certa vez, vi na televisão, uma Carmen belíssima e extremamente sensual, e aí a história tomava sentido. Para interpretar se exige um physique du role, ou a ópera perde o sentido. Vou mais longe: as Carmens têm de ser latinas. Mais ainda: com cara de puta. Ou não é Carmen. Neste sentido, a Carmen feita pela Julia Migenes é a mais fascinante que já vi em minha vida.

Foi também em Paris que vi uma molecagem divina feita pela Tereza Berganza. Em Don Giovanni, quando Zerlina canta:

Giovinette che fate all'amore,
non lasciate che passi l'età;
se nel seno vi bulica il cor,
il rimedio vedetelo qua.
Ah! Che piacer, che piacer che sarà!



Il rimedio, no caso, é Masetto, seu noivo, que desce as escadas e Zerlina indica com as mãos. La Berganza resolveu inovar. Na hora do vedetelo qua, levou as mãos ao regaço. A platéia veio abaixo.

Há grandes momentos em todas as grandes óperas. Mas um outro que me fascina, por seu humor, é a famosa listina de Leporello, em Don Giovanni, quando o criado enumera, a uma apaixonada e perplexa Dona Elvira, as conquistas de seu amo:

Madamina, il catalogo è questo
Delle belle che che amo il padron mio
Un catalogo egli è che ho fatt' io;
Osservatte, leggete con me.
In Italia seicento e quaranta;
In Allemagna duecento e trentuna;
Cento in Francia; in Turchia novantuna;
Ma in Ispagna son gia mille e tre.
V'han fra queste contadine,
Cameriere, cittadine,
V'han contesse, baronesse,
Marchesane, principesse
E v'han donne d'ogni grado,
D'ogni forma, d'ogni eta.
Nella bionda egli ha l'usanza
Di lodar la gentilezza
Nella bruna la constanza
Nella bianca la dolcezza.
Vuol d'inverno la grassotta
Vuol d'estare la magrotta;
E la grande maestosa,
La piccina è cognor vezzosa
Delle vecchie fa conquista
Pel piacer di porle in lista
Sua passion predominante
E la giovin principiante.
Non si picca se sia ricca,
Se sia brutta se sia bella
Purchè porte la gonnella,
Voi sapete quel che fa.


Saindo de minhas três diletas, uma outra ária que me comove é o diálogo de Alfredo com Violetta, em La Traviata. E me comove porque me traz à mente a mulher linda e cheia de vida que um dia tive.

ALFREDO
Libiam ne' lieti calici
Che la bellezza infiora,
E la fuggevol ora
S'inebri a volutta'.
Libiam ne' dolci fremiti
Che suscita l'amore,
Poiche' quell'occhio al core
Onnipotente va.
Libiamo, amor fra i calici
Piu' caldi baci avra'.

TUTTI
Libiamo, amor fra i calici
Piu' caldi baci avra'.

VIOLETTA

Tra voi sapro' dividere
Il tempo mio giocondo;
Tutto e' follia nel mondo
Cio' che non e' piacer.
Godiam, fugace e rapido
E' il gaudio dell'amore;
E' un fior che nasce e muore,
Ne' piu' si puo' goder.
Godiam c'invita un fervido
Accento lusinghier.

TUTTI
Godiam la tazza e il cantico
La notte abbella e il riso;
In questo paradiso
Ne scopra il nuovo di'.


Em suma, foi em Paris que descobri o mundo da ópera. Dito isto, vivi ultimamente uns seis meses de infelicidade. Ocorre que encontrei aqui em São Paulo um restaurante dos mais charmosos, senti que ali havia espaço para música mais sofisticada, e levei a suas proprietárias dois DVDs, para que tirassem uma cópia. Um, o Don Giovanni da Wiener Philharmoniker. Outro, a Carmen, do Francesco Rosi. Confesso que levei os DVDs com certa apreensão. Eram obras muito valiosas para mim e tinha medo de perdê-las.

Não deu outra. A Carmen – a mais fascinante de minhas Carmens – foi extraviada. As moças se propuseram a encontrar uma outra. Inviável. O DVD está esgotado. Procurei tanto na Amazon como na Fnac de Paris. Nada feito. Indisponible. Vivi então estes últimos meses como se estivesse mutilado. Não seria feliz enquanto não tivesse minha Carmen de volta.

Dichosos dias estes de Internet – como diria Alonso Quijana. Em um grupo de discussões, Antonio Bemfica, um internético amigo do Canadá ouviu minhas lamúrias. Descobriu a ópera em uma biblioteca e fez uma cópia. Eu a recebi na semana passada e voltei a ser feliz.

12 comentários:

André disse...

Não gosto muito de óperas, mas adoro música clássica. Wagner também me afasta do gênero, me assusta e me dá sono. Acho tudo aquilo meio ridículo e pomposo, a chatice que é a mitologia germânica, que mais parece uma cópia barata da escandinava. E como as histórias são chatas e melodramáticas... Mas dá pra tirar alguma coisa, umas aberturas e coisas como aquele trecho da Valquíria, que ficou muito bem na seqüência de guerra em Apocalipse Now. Que bom que Hitler não venceu a II Guerra, senão é só o que a gente ouviria.

Mas Wagner tem seus méritos como orquestrador e gênio do leitmotiv. Tinha uma cabecinha tão estreita e tola, e cheia de esquisitices, quanto a de Hitler, mas é assim mesmo. Muitos músicos, por melhores que sejam, costumam ter a inteligência média de jogadores de tênis e de xadrez, aquela geinialidade meio estúpida, de nicho.

Mas tudo bem, nada contra quem gosta dele. E eu nem entendido no assunto sou. A música dele não me diz muita coisa, mas música pra mim é só uma questão de gosto. Conheço até bastante gente que adora Wagner e concorda com quase tudo isso aí que falei, enquanto outros nem falariam mais comigo se soubessem o que eu acho.

Verdi tem algumas legais (Rigoletto...), Puccini também, Rossini, etc, mas como Mozart não há, ele é demais. Don Giovanni, Die Zauberflöte, Così Fan Tutte, Idomeneo, Le Nozze Di Figaro, O Rapto do Serralho, todas são muito boas.

Meu negócio mesmo é orquestra, piano e violino (às vezes tudo isso junto, muitas vezes separadamente).

Furtwängler é ótimo. Carlos e Eric Kleiber também. A lista de regentes é muito longa, não vou nem começar.

Dizem que os melhores cantores/cantoras foram até mais ou menos os anos 70. Não que os atuais sejam ruins, mas até aparecer gente no nível daquele pessoal todo que cantava até os 70, alguns até o início dos 80, vai demorar.

A listinha do Leporello é mesmo engraçada.

Emprestar dvds, cds e livros, só empresto para pessoas que eu realmente conheço e nas quais confio, senão nunca devolvem ou devolvem tudo estragado, riscado, inutilizado.

Ainda mais música clássica, onde tudo acaba sumindo, se esgotando É muito difícil encontrar o mesmo cd de novo. Somente, é claro, se vc tiver alguns amigos que gostem disso tanto quanto vc, ou mais, e tiverem aquelas coleções enormes. Eu não tenho essa sorte.

Angélica disse...

Óperas. Apreciar ou não depende da maneira como elas foram introduzidas na vida de cada um. Mas em sua maioria, os admiradores dessa bela arte costumam ser pessoas românticas, apaixonadas, apreciadoras da música retratada e vivida pelos personagens mais diversos, em seu contexto psico-social em geral. Gosto de todas, sem exceção. Apaixonantes lampejos de amor e ódio. Jamais teremos novamente um templo tão fértil e propício para a criação operística orquestrada com tanta perfeição. Genialidade musical, pura e simples. Tempos em que a música era a própria alma. Quem, em tempos atuais, seria capaz de morrer de tristeza, após ser criticado tão duramente, por um possível fracasso ? Assim foi o fim de Bizet. Além da beleza estética da obra e dos caracteres psicológicos ( das personagens e do público ) que poderíamos analisar, não podemos deixar de frisar uma idéia de extrema importância: Carmen, dona de seu destino, uma mulher livre, representa uma bandeira de emancipação feminina. Isso quase um século antes da liberalização da mulher. Imaginem a solidez dos preconceitos que foram lançados sobre essa personagem. Carmen e Bizet morreram. Ela ( personagem ) no palco e ele ( autor ), na vida. Mas o que importa de fato, é que a obra permaneceu e sua originalidade acabou triunfando sobre os preconceitos e valores da época.

Janer, perdoe-me por não ter ouvido suas lamúrias. Minha mãe possui essa obra no original, com a tua adorada Julia Migenes, do Rosi. Poderíamos ter solucionado esse problema com rapidez e sem sofrimentos. Caso resolvido, final feliz. Que bom...

http://br.youtube.com/watch?v=7fL3HtDWO3g&feature=related

Raphael Piaia disse...

Basicamente, a mitologia nórdica é a mitologia germânica. Por isso parece “cópia”. Os dois povos são praticamente um, intimamente ligados em sua origem. As mudanças da versão mitológica germânica e escandinávia se resumem à variação de nomes. Como Sigurd, que na variação germânica é conhecido por Siegfried, e Odin (nome nórdico) que é Wotan para os alemães e ingleses.


Também não sou entendido do assunto óperas. Tanto que, até pouco tempo, achava que o “Fantasma da Ópera”, que assisti lá em São Paulo, é Ópera mesmo, quando na verdade é um musical.

Quando o Janer escreveu esse texto no blog dele, enviei-lhe o seguinte e-mail (ele não concordou com a parte do Rieu):

Bah, Janer. Anel dos Nibelungos inspirou o Tolkien, você deveria gostar! Tenho a impressão que você nunca é muito entusiasta quando se trata de coisas de origem germânica. Precisam ser mediterrâneas, latinas. Também nunca deu muita bola para Londres, mas gosta de Viena, o que já é alguma coisa.
(...)

Raphael

P.S A propósito, conheces André Rieu? Sua orquestra é principalmente de música clássica, mas ele às vezes também mescla com belas canções de mulheres donas de vozes deslumbrantes. Seu DVD em toscana, se não me engano, emociona a qualquer um.

Raphael disse...

Pior que não devolver um livro, André, é devolvê-lo riscado. Imagino o que passa na mente de um mentecapto desses que risca livro dos outros.

André disse...

Pois é, não gosto de Wagner, mas gosto de Tolkien.

André Rieu tem umas coisas legais, mas muita gente não gosta pq acha popularesco demais. Geralmente quem o detesta também detesta Os 3 Tenores, Ray Conniff e Richard Clayderman (lembram dele, o loirinho com cabelo capacete, tocando naquele piano branco? Ele foi o pai da música de churrascaria). Esses aí são os 3 Cavaleiros do Apocalipse para alguns gostos, mas o Rieu tem algumas coisas muito bonitas.

Já vi gente que devolve livros riscados e que DOBRA as páginas, em vez de usar um marcador. É muita falta de educação... e coisa de gente sem noção, lógico.

Janer disse...

Parece que o caso está resolvido, Angélica. Aconteceu que a Carmen que recebi veio sem som (ou talvez haja um problema com meu DVD, isto é algo a investigar). Bom, mas pedi de novo socorro numa comunidade de óperas no Orkut e um bom amigo internético me enviou o DVD, mais três CDs de soundtrack, mais uma Carmen Suite, de Shchedrin. Acabam de chegar e ainda não os li. Mas creio que voltei a ser feliz.

Catellius disse...

Janer,

Gosto de ópera desde criança, quando meu pai, que tocava na fraca orquestra de Caxias do Sul, colocava trechos de Il Trovatore, Aida, Otello e outras e explicava o que acontecia. Gostava, naquela época, de ouvir a cigana Azucena contando a Manrico como queimara o próprio filho por engano, de ouvir meu pai narrar a cena em que o corcunda Rigoletto abre o saco deixado por Sparafucile e vê, iluminada por um relâmpago, a face de sua filha Gilda, e depois de um dueto com a moribunda grita “Ah! La maledizione!!”, lembrando-se da maldição do Conde de Monterone, no primeiro ato. Eu ficava arrepiado com os trechos trágicos, com a Azucena gritando para o Conde de Luna “Egli era il tuo fratello” e o “Sei vendicata o Madre” enquanto ela ardia, como a mãe.

Mas os anos foram passando e eu evoluí, he he. Ainda gosto de todas essas óperas, incluindo as de Rossini (principalmente o Guglielmo Tell), Carmen, Les Pecheurs de Perles, Tosca, La Bohème, Turandot, Pagliacci, Cavalleria, La Gioconda, todas as de Verdi (tenho inclusive as primeiras, o Oberto e o Un Giorno di Regno), todas as de Boito incluindo o ótimo Nerone, Lucia, Ana Bolena e L'elisir d'amore de Donizetti, Norma e Il Puritani de Bellini, Sansão e Dalila de Saint-Saenz, etc. Mas, como disse, evoluí. Mozart continuou na lista dos preferidos, incluindo Haydn, Gluck, Monteverdi, Peri, as óperas de Purcell e Vivaldi, etc.) Berlioz, infinitamente melhor do que Bizet (Carne de Bezerro, ou Carmen de Bizet, he he, é uma boa ópera, claro), é indescritível. Les Troyen e La Damnation de Faust, este muito melhor do que o Faust de Gounod e o Mefistofele de Boito, são perfeitas. Sem falar na Sinfonia Fantástica, claro, e no L'enfance du Christ. O trecho em que Herodes manda seus guardas matar todos os recém nascidos é terrível, e a partitura é de uma inventividade de cair o queixo. A orquestração sempre magistral. O ritmo quebrado e feérico.

Mas nada como os alemães!!!! As óperas de Schubert (austríaco), principalmente Fierrabras, humilham todas as de Verdi e do resto da italianada – e olhe que sou neto de italianos. Weber e seu demoníaco Der Freischutz, Marschner e seus Der Vampyr e Hans Heiling, e Wagner! Wagner tem, realmente, trechos muito chatos, mas apenas nas óperas que compôs após Lohengrin. Rienzi, Die Feen (bem ao estilo de Marschner), Tannhäuser, Der Fliegende Holländer! O Navio Fantasma é espetacular. Do Der Ring des Nibelungen não há como não gostar do Ouro do Reno e da Valquíria. Siegfried é realmente muito chato e Gotterdammerung melhora no último ato. Parsifal é pedante... Pudera, foi na época em que deixou de ser ateu para virar católico, por conveniência, he he. E Tristão é só para iniciados, ha ha ha ha. Porra, ouvir aquele corne inglês no começo do terceiro ato é uma experiência mística. Não sei como vocês não gostam de Wagner! Vou jogar água benta em vocês (Janer e André), seus hereges, he he.

E depois de Wagner, Richard Strauss!!!!!!! Se espremermos a partitura de Elektra e Salomé o sangue escorre! São óperas poderosíssimas. Gosto muito também de Die Frau Ohne Shatten (A Mulher sem Sombra) e do Cavaleiro da Rosa (esta gosto um pouco menos).

A minha preferida de Mozart é Don Giovanni, claro. Mas a melhor versão, na minha opinião, é com Dietrich Fischer-Dieskau sob a batuta de Karl Böhm. Não pode haver uma Donna Anna melhor do que a perfeita sueca Birgit Nilsson. IMPOSSÍVEL!!!!! Bom, mas meus trechos preferidos são a primeira cena, a tentativa de Don Giovanni de violar Donna Anna, a chegada do pai, o duelo, o dueto da filha e do noivo (Che giuramento, o dei! Che barbaro momento!) a jurarem vingança. Gosto da cena do casamento também, do baile onde Don Giovanni tenta estuprar a Zerlina e os mascarados o desmascaram depois que vem arrastando o Leporello, colocando nele a culpa, he he (Ecco il birbo che t'ha offesa!). E, claro, a cena final com a estátua do Commendatore. Na verdade, a cena final é aquela da lição de moral, com a fuga barata “questo é il fin di chi fa mal”. Eu sempre paro de ouvir após o grito do teimoso Don Giovanni com a terra abrindo sob seus pés, com aquele fenomenal coro masculino de espíritos infernais.

Quanto à produção do Francesco Rosi, confesso que sou meio chato com esses filmes de óperas. Não suporto as violações na partitura (principalmente no Otello dirigido por Zefirelli, também com o Domingo), não suporto a porca dublagem (lip sync), principalmente nos closes; ainda que eles dublem a si próprios, não suporto vê-los abrindo meia boca durante um dó de peito fortíssimo, que era para deixar aparecer a glote, a alternância entre cenários não muito bem feitos e cenas externas – a iluminação muda, etc. -, sem falar na péssima atuação dos atores. Prefiro péssimos atores no palco. Não me importo com uma Lucia gorda sob um manto branco ensangüentado, na ária da loucura. Se ela cantar muuuuuuito bem é tudo o que importa. Mas claro que há muita coisa legal na produção do Rosi. A cena das Cigarières (Au secours! Au secours!), no primeiro ato, a chegada do Plácido Domingo para conter o pandemônio e a Julia Migenes sentada com as pernas abertas tendo entre elas o encosto da cadeira. Nesta hora irrompe o leitmotiv do amor louco de José, usado também na hora em que ele a mata, com os “olés” para Escamillo ao fundo. Enfim, digo que não gosto mas a música de Bizet é a música de Bizet, não há o que fazer a não ser apreciar. Gosto da ária da carola da Micaela. Sublime! E também acho que a Carmen pode ter cara de puta, he he. Mas acho que a Maria Callas fez uma boa Carmen e não era nem latina e nem tinha cara de rameira.

Catellius disse...

André,

“Wagner também me afasta do gênero, me assusta e me dá sono. Acho tudo aquilo meio ridículo e pomposo, a chatice que é a mitologia germânica, que mais parece uma cópia barata da escandinava.”

Bom, pelo que eu saiba, a mitologia escandinava, apesar de mais famosa, veio da Germânia Setentrional.

“E como as histórias são chatas e melodramáticas...”

De fato. Coisas do romantismo...

“Conheço até bastante gente que adora Wagner e concorda com quase tudo isso aí que falei, enquanto outros nem falariam mais comigo se soubessem o que eu acho.”

Não fale mais comigo, André.
Ha ha ha. Brincadeira.

“A listinha do Leporello é mesmo engraçada.”

É vero. É uma passagem deliciosa. No inverno quer as gordas, as magras no verão, as velhas apenas pelo prazer de colocá-las na lista, mas sua paixão predominante é a jovem principiante... Demais, he he.

“Pois é, não gosto de Wagner, mas gosto de Tolkien.”

E eu não gosto de Tolkien mas gosto de churrasco. He he he.

“Já vi gente que devolve livros riscados e que DOBRA as páginas, em vez de usar um marcador. É muita falta de educação... e coisa de gente sem noção, lógico.”

Meu pai emprestou um livro para meu tio, certa vez. Ele tinha um carinho especial por ele. Meu tio nunca o devolveu. Um dia meu pai o encontrou em sua casa todo recortado. As crianças haviam usado as gravuras em trabalhos escolares – isto na década de 70, antes da Internet e das impressoras.

Abração

Catellius disse...

Angélica,

“Carmen, dona de seu destino, uma mulher livre, representa uma bandeira de emancipação feminina. Isso quase um século antes da liberalização da mulher. Imaginem a solidez dos preconceitos que foram lançados sobre essa personagem.”

É isso aí!

--//--

Raphael Piaia,

“Bah, Janer. Anel dos Nibelungos inspirou o Tolkien, você deveria gostar! Tenho a impressão que você nunca é muito entusiasta quando se trata de coisas de origem germânica.”

Perto de Schubert, Beethoven, Brahms, Schumann, Marschner, Weber, Wagner, Richard Strauss (não confundir com os Strauss das valsas, os Johann), Bruckner (Ave glorioso Bruckner!!!!), Humperdinck, Bach, Spohr, etc., os latinos são lixo fedorento. Harmonia pobre, estilo umpá umpá, ficam no acompanhamentozinho e na melodia, nos temas curtos mal desenvolvidos, nas miniaturas... Ópera latina era a música pop da época, o hip hop, he he. Mas Berlioz era um caso à parte. Aquele lá era germânico e não sabia!

“A propósito, conheces André Rieu?”

Maldito seja aquele merda! Tomara que algum homem santo enfie o arco daquele violino no C dele, he he. Pior do que ele só o viado do Yanni...

Catellius disse...

Esqueci-me de Mendelssohn, quando falei dos compositores germânicos.
E gosto dos russos, principalmente de Korsakov. Excelente orquestrador.

“...uma outra ária que me comove é o diálogo de Alfredo com Violetta, em La Traviata. E me comove porque me traz à mente a mulher linda e cheia de vida que um dia tive.”

Concordo que se pode ter mais prazer, mesmo para uma pessoa de gosto musical refinado, com uma música dos Beatles do que com uma música de Beethoven, se a primeira evocar uma época de ventura, doces recordações. Fazer o quê?

Mas, musicalmente falando, não gosto quando Verdi desenvolve até que bem um melodramma, usa uma harmonia interessante e, de repente, interrompe-a na dominante, força para o tom e ritmo da ária que compôs muito tempo antes, e começa com a porcaria do umpá-pá umpá-pá umpá-pá. Aí vem o “di quella pira”, o “libiamo”, o “la donna è mobile”, etc. Claro que ele já não usava esse recurso barato rossiniano quando compôs Aida, Macbeth, Otello, Don Carlos e Simon Boccanegra. Parou justamente quando sofreu influência da música alemã. Muitos italianos criticaram o estilo um pouco wagneriano de Otello, minha ópera favorita de Verdi, mas a ópera foi um sucesso.

Na Traviata, acho que Verdi acertou bastante da cena XII em diante, no segundo ato. É quando Alfredo chega à festa e vai jogar baralho. A coisa vai em um crescendo até a hora em que ele joga dinheiro na cara de Violetta (Che qui pagata io l'ho). O coro furioso, semelhante ao de nobres indignados em Macbeth, após saberem que o rei Duncan havia sido assassinado, e o quarteto com coro na seqüência são também excelentes.

Confesso que já cansei da Violetta, da Mimi (La Bohème) e de outras tísicas meladas. Sou mais a tosca, que apunhala Scarpia enquanto lhe berra aos ouvidos: sufoca-te o sangue? Morre danado! Morre!!! He he he!

Raphael disse...

Sou estúpido demais no assunto ópera para poder discuti-lo, Catellius. Principalmente com você, que mostrou conhecer bem a arte. Beatles, talvez? Nesse caso eu tento.

Não gostar de Tolkien é quase um crime, Catellius. Você tem que gostar. É imprescindível para qualquer pessoa respeitável.

Quanto ao Rieu, o pessoal não gosta muito dele por tentar popularizar a música clássica e tudo o mais. Geralmente eu desprezo tudo que cai no gosto das massas, pois essas coisas acabam sempre sendo degeneradas. No entanto, nesse caso prefiro o povo ouvindo ao Rieu (e incluo a mim nesse “o povo”) do que hip hop ou qualquer outra coisa que venham chamar de música. Claro que me refiro ao europeu médio, já que mesmo o que é considerado vulgar na Europa nunca conseguiria espaço por aqui. Seria imediatamente taxado como erudito ou formal demais.

André disse...

Tannhäuser e Der Fliegende Holländer são legais.

Der Ring des Nibelungen tem vários trechos bons. Parsifal e várias outras não consegui avançar muito.

Tristão e Isolda é muito legal.

Meu Don Giovanni é com o Klemperer, Nicolai Ghiaurov, Franz Crass, Christa Ludwig. Così Fan Tutte é com o Böhm, Elisabeth Schwarzkopf, Christa Ludwig, Alfredo Kraus e Giusepee Tadei.

Maria Callas era demais.

“Meu pai emprestou um livro para meu tio, certa vez. Ele tinha um carinho especial por ele. Meu tio nunca o devolveu. Um dia meu pai o encontrou em sua casa todo recortado.”

Um cara que conheci, cirurgião, teve um livro médico (importado, muito caro e difícil de encontrar), roubado por uma aluna que passou rapidamente pela sua casa. Muitos anos depois ele descobriu em que cidade a mulher estava morando, foi até lá e pegou o livro de volta. Claro que deu briga, mas ele voltou com o livro, não quis nem saber.

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