28 dezembro 2007

Socialismo é Inveja

Outro dia assisti a um ótimo filme intitulado “A Vida dos Outros”. Ele fala da vida na República Democrática Alemã, a terra do socialismo real. É uma tragédia socialista em três atos. De fato, o único ato subversivo contra o estado socialista é a publicação de um artigo de capa na revista Spiegel que fala que na República Socialista Alemã existe um controle estatístico dos mínimos detalhes da vida do cidadão, mas que o Estado proibe, a partir de 1977, a contabilização dos suicídios para que não se perceba que a feliz república socialista tem a maior taxa de suicídios per capita da Europa.

O primeiro ato é basicamente o seguinte: um dirigente nacional do Partido controla a área cultural e é apaixonado por uma estrela de sucesso. Ela, apesar do nojo que ele lhe desperta, deixa-se ser explorada sexualmente para evitar que o tal chefão do Partido a ponha na lista negra. Ele, não satisfeito, decide usar a Stasi para espionar o namorado da estrela, que é escritor, a fim de encontrar alguma coisa que pudesse ser usada contra ele.

Assistindo ao filme você é levado a refletir sobre o fato de que algumas pessoas simplesmente brilham mais que outras. É um fato da natureza humana desejarmos o que os outros têm e nós não. Como lidar com isto? É difícil. Algumas crianças, por exemplo, costumam quebrar os brinquedos das outras antes mesmo de saber o significado da palavra inveja. Fico imaginando que em uma educação socialista se teria que enfraquecer o ego, uma maneira de se fazer isto talvez fosse não deixar que nenhuma criança desenvolvesse uma relação de pertencimento com nenhum brinquedo para evitar o perigoso pronome possessivo: “meu”.

De fato, o modelo socialista estatista, que é uma religião ainda professada por muitos petistas, se baseia na idéia de que a propriedade dos meios de produção por uma elite capitalista gera exploração. A solução para eles seria a expropriação pelo Estado destes fatores de produção. A partir daí, o Estado organizaria a produção. Já imaginaram como seria a economia planificada brasileira? A Direção Nacional do Partido procuraria acomodar os interesses regionais, das categorias, das panelinhas, dos setores dentro de uma grande roupagem do bem maior da pátria socialista brasileira.

Como diriam os meus amigos, estudiosos de Foucault, onde existe poder existe exploração e não será o desaparecimento do capitalismo que irá resolver isto. Como diriam ainda os weberianos, o estado e sua burocracia buscam os seus próprios interesses e dispõem de poder para isto, afinal, o Estado é poder. Além disso, a psicologia nos coloca mais um problema; um grande número de pessoas com características psicopáticas busca o poder, a ponto de que se você quiser achar um psicopata, busque alguém que exerça um cargo de poder que terá grandes chances de encontrá-lo.

Na complexa economia psíquica, o psicopata seria um sujeito cujos desejos não seriam reprimidos pelo superego, daí este indivíduo não teria culpa em mentir ou agir de forma a obter os seus desejos. A falta de compaixão e um relacionamento com os outros, e talvez consigo mesmo, com gozo associado ao poder, completaria o quadro perverso. Muitos destes perfis são muito carismáticos e quando se identificam com algum ideal, como o socialismo, conseguem anular completamente o superego e podem se entregar sem culpa ao narcisismo revolucionário.

Isto me faz lembrar daquelas estorinhas de criança nas quais temos um príncipe que antes de se tornar rei é obrigado a passar por inúmeras provas de caráter, e a ocupação da liderança é feita dentro de um espírito de serviço que deve ser cumprido. Infelizmente, os políticos que conhecemos querem o poder pelo poder, pelo gozo, afinal poder é melhor que Viagra. As mulheres inseguras, por exemplo, costumam ser péssimas chefes devido ao detalhismo que comumente se traduz em autoritarismo e obsessão pelo controle.

Para piorar, os psicopatas são invejosos, assim, o dirigente do Partido Comunista Alemão do filme precisa se satisfazer explorando sexualmente a estrela de teatro. Quando ele se vê privado momentaneamente de sua companhia, entra em uma depressão que a satisfação de ocupar o seu cargo não é capaz de preencher. É o socialismo da inveja.

26 dezembro 2007

Tio Arruda e os Petralhas

Recentemente, teve fim em Brasília um período de 16 anos de poder do pai Roriz, como é conhecido por alguns membros da comunidade de Samambaia. O PT lutou desesperadamente para sucedê-lo com a indicação de Arlete Sampaio, que apostava em uma divisão de votos entre Arruda e a candidata do Roriz, a que alguns se referem como "Maria Vadia". Arlete, com seu jeito truculento de fazer política, fracassou enquanto pessoas respeitadas pela esquerda ficaram isoladas em seu próprio campo, como Cristóvam Buarque e Augusto Carvalho. Aliás, o Luiz Estevão foi eleito pela insistência desta mulher em querer ser senadora, o que acabou por reduzir os votos de Augusto Carvalho e favorecer o verdadeiro rival. Mas o Senado não perdeu nada; ela seria mais uma Ideli Salvatti.

Roriz foi um grande populista que se elegeu doando lotes para a população de baixa renda enquanto fazia vista grossa para a grilagem de classe media, além de construir um monte de viadutos e gerar muitos negócios como o absurdamente caro e não terminado metrô de Brasília. Como eu dizia a uma amiga de Samambaia, a diferença entre o pai Roriz e o tio Arruda é que o primeiro é um coronelzão do século XIX que transformou a administração em cabide de emprego para seus cabos eleitorais e podia fazer reunião de família reunindo os seus secretários. O Arruda, por outro lado, inaugurou uma gestão que se propôs a sanear a maquina administrativa e a organizar o caos urbano do Distrito Federal.

É portanto com surpresa que lemos no site do PT um artigo da deputada distrital Érika Kokay se vangloriando da suposta baixa popularidade de Arruda. Aliás, esta deputada do PT responde a acusação do ex-empregado do seu gabinete, Geraldo Batista da Rocha Junior, de tê-lo usado como laranja do caixa 2 da campanha. Em suas palavras, a Erika diz:

“Os cortes no custeio da máquina pública, a demissão de servidores e a derrubada de barracos, longe de expressar austeridade fiscal ou rigor na aplicação da lei, desnudou a política privatista neoliberal do governo do Distrito Federal que minimiza o papel do Estado na condução das políticas públicas e valoriza, sobretudo, o papel do mercado na solução dos problemas econômicos e sociais. A confiança inicial do governador vem sendo substituída por preocupação ao ponto de assinar decreto "demitindo" o gerúndio dos atos oficiais, motivo de piada nacional, segundo a Folha de São Paulo.”

Esta Erika mostra seus preconceitos ideológicos decorrentes do pertencimento ao ramo estatista da esquerda. Esquece de dizer que a demissão de servidores não concursados, muitos dos quais cabos eleitorais ou decorrentes de clientelismo, foi uma medida necessária e benéfica para a população, que a derrubada de barracos também é necessária pois existem pessoas na fila para receber os lotes de acordo com critérios estabelecidos, e as áreas verdes da cidade não podem ser privatizadas por qualquer um. E quanto à privatização do BRB, é uma excelente idéia, considerando que recentemente o pai Roriz perdeu o mandato de senador por uma pequena maracutaia descoberta nas dependências deste banco. Como sindicalista da CEF deve ser impossível a ela defender esta posição.

Quem gosta de máquina administrativa inchada para colocar os companheiros do partido é o pai Roriz, ou então o PT, que precisa encostar os seus companheiros. É mesmo lamentável entrar no site da Erika e encontrar como mote a frase: “uma mulher de coragem”. Cá entre nós, a foto desta psicóloga dirigente nacional do PT lembra mesmo é a Rita Cadillac. Se bem que a Rita tem mais dignidade.

Foto: O Globo, melhorada pelo Pugnacitas. Aqui a imagem original.

19 dezembro 2007

A Visão Autoritária Petista

Não é novidade para ninguém a vocação totalitária dos petralhas. Em seus sonhos, gostariam de fazer do Brasil uma Venezuela. Com este propósito, já seguindo a receitinha prescrita pelo Chávez, já estão com a sua campanha para a realização de uma Constituinte. O que ficou claro com as constituintes convocadas pela esquerda, como a boliviana, é que as regras mudam durante o processo e questões que não estavam no escopo acabam entrando e votos qualificados viram voto simples ao sabor dos seus interesses. Portanto, uma Constituinte com eles no poder seria uma temeridade para a democracia.

A visão autoritária deles contamina tudo. Arlindo Chinaglia, por exemplo, o presidente da Câmara do PT que fez carreira como presidente dos Sindicato dos Médicos, propôs a proibição de novos cursos de medicina para preservar os salários dos médicos buscando a redução da oferta. Aliás, projetos infames são com ele mesmo, que no início do ano negociou no Colégio de Líderes a votação de um projeto que previa a efetivação de servidores emprestados nos órgãos onde eles estivessem, ou seja, nunca na história deste país alguém teve o descaramento de propor um projeto tão favorável a todas aquelas figuras que estão ocupando cargos de confiança emprestados de uma prefeiturazinha qualquer e que poderiam passar a integrar o quadro da Câmara ou do Senado.

Uma das características do totalitarismo é a falta de separação entre o partido e o governo. Com eles, o governo do Brasil, que deveria pertencer a todos, se tornou a República dos Sindicalistas. Nunca se viu tantos sindicalistas encostados em cargos de confiança em gabinetes por aí. Outro dia, o ilustre senador Mercadante defendia a não prestação de contas do cartão de crédito corporativo da Presidência da República, alegando tratar-se de assunto de segurança nacional. Desde quando juntar os companheiros e pagar a conta em restaurantes de luxo é questão de segurança nacional?

É como foi comentado no blog: há que se fazer uma separação entre o discurso e a prática. O Niemeyer, por exemplo, (um hipotético acréscimo ao projeto do arquiteto centenário para o CN ilustra este post) é um comunista no discurso mas um capitalista na prática. Usufrui de todos os bens oferecidos pela sociedade consumista, participa dos esquemas e ainda se sai como um bom moço comunista que quer a igualdade. Na minha opinião, a unidade entre a prática e o discurso são essenciais. Outro dia, encontrei o Babá, aquele deputado do PSOL com cara de maluco, pegando ônibus e fiquei assustado. Afinal, podia estar diante de alguém que realmente era um socialista, assim como a Heloísa Helena, cuja declaração de renda é ridícula. O problema destas figuras é que elas têm um ar desvairado. Talvez seja melhor ficarmos com os hipócritas, que em sua mentira há alguma racionalidade, do que com sinceros como uma Heloísa Helena da vida.

Os hipócritas enganam, no máximo, alunos de universidade que acreditam nas suas baboseiras. Isto me faz lembrar de anos atrás em como fiquei impressionado com o José Genoíno falando em comícios; o cara tinha uma boa figura. Esta semana, vendo-o impávido defender a sua ignorância do Mensalão apesar de ser presidente do PT, foi algo perturbador.

Em 2010, se Deus quiser, ficaremos livres do Lula; já será um começo! E depois que venha a Dilma ou o Ciro Gomes e mostrem claramente aquilo que o Lula teima em disfarçar. Em um futuro distante, um bom critério para a escolha de um governante talvez fosse pegar alguém que não quisesse ocupar aquele cargo, alguém que fosse um bom filho, um bom pai, um bom patrão, um bom colega e que estivesse perfeitamente feliz em sua vida e não desejasse nada mais. Esta pessoa daria um bom governante. Por enquanto, devemos nos submeter aos ambiciosos.

15 dezembro 2007

De Volta a Bizâncio (ou: Idéias de Jerico)

Acho que o pessoal religioso, sabem, aquele, que vivia querendo nos salvar quando éramos adultos lá na Idade Média, nos purificando numa fogueirinha santa, cansou um pouco de nós e, de uns cento e poucos anos pra cá, se voltou para a salvação das almas, digamos, menores. Hoje falam muito em fetos e, claro, em aborto. Lá pelas tantas, se cansaram disso também e parecem estar dando um tempo, ou não se saíram muito bem, não sei, mas o fato é que agora querem “proteger” os embriões, os óvulos, os espermatozóides. Parece que quanto menor, melhor. Daqui a pouco vamos chegar à proteção do estágio de blástula.

E um carola Procurador-Geral da República, que deveria ter mais o que fazer, redigiu uma ação direta de inconstitucionalidade equivocada, para usar uma palavra caridosa. Aconteceu. Ah, Brasil, Brasil, minha pátria amada, idolatrada, salve, salve… o que não acontece por aqui?

Em 2005, o papalvo Cláudio Fonteles fez isso. Uma ADIn que atravancou as pesquisas com células-tronco embrionárias no país. Francamente, o cara tem que ter mingau na cabeça pra se sair com uma presepada dessas.

Raspada a conversa fiada, o trólóló, o “embasamento jurídico” e o burocratês, essa foi uma idéia de jerico, naturalmente. Por mais que ele esconda os pruridos religiosos por trás do que fez, travestidos com aquele papo de que está estritamente preso ao que a Constituição diz, que a proteção da vida, que o Direito, blá, blá, blá...

Certo, ele nunca vai admitir: “fiz isso por que a minha fé, minha crença…”. O que é tolo, mas algo revelador (no que deixa entrever um raciocínio moralista rastaqüera). E honesto, ao menos. Pode-se até dizer que, por “acaso”, a crença dele casou direitinho com a questão, com o “caso em tela”.

Se essa lontra não fosse tão irrefletida, tão inconsciente de si mesma, talvez tivesse parado por um minuto, se dando conta de duas coisas singelas:

1) ninguém pode parar o progresso tecnológico

2) no longo prazo, as células-tronco embrionárias (e não as adultas, nas quais os religiosos estão se agarrando por conveniência, sem nem mesmo uma idéia clara das diferenças entre elas e as embrionárias) e derivados vão curar ou reduzir drasticamente o estrago de várias doenças degenerativas, sem falar na possibilidade de se fabricar órgãos.

E isso só pra ficar na superfície.

Mas não adianta. O sujeito é incapaz de raciocinar, de pensar por um instante além de seu mundinho besta e vidinha idem. Sua cabeça não vai além da Palavra Revelada na Sagrada Escritura, edição autorizada pela Santa Madre Igreja. Um cara limitado, enfim, por mais respeitado, cheio de títulos e o que mais seja ou tenha. Um cara que segura na mão do padre, enquanto com a outra redige uma excrescência.

Pela mão do pároco, o cara joga para a platéia, faz o seu acting, o seu show, mas é claro — e mais uma vez — sempre podendo argumentar que não é nada disso, antes muito pelo contrário, que só está cumprindo seu dever profissional, de procurador, cidadão consciente, sei lá. O bom cristão. O pior idiota sempre é o mais consciente.

Não é à toa que o mesmo pessoal se dedique com tanto afinco para impedir a legalização do aborto de anencéfalos. Deve ser a Mãe Natureza, o instinto de autopreservação lhes dizendo: “preservem os seus”…

E olha que estamos num Estado laico… mas nem falemos nisso, já que nosso laicismo ainda é cotó demais. Vai levar mais umas décadas (séculos?) para a mentalidade de sacristia desinfetar de nosso “inconsciente coletivo”. Se desinfetar. Imagino que ele realmente acredita no que diz, que seja mesmo um crente pio. Gente assim é importante para a Igreja, para toda religião. É útil. A força do bom-mocismo desses inocentes úteis não pode ser menosprezada. E dá ibope viver se indignando com as injustiças do mundo, sempre bestificado com o que acontece — e, não vamos nos esquecer, sempre por uma “boa” causa, com aquele ar grave, sério, a cara de compungido.

Em última análise, porém, no grande esquema das coisas, ele não passa disso, de uma ovelhinha prestativa. Bonitinha, mas ordinária. Os bestificados, depois de um tempo, só servem para isso: se bestificar. Sua pose, o teatrinho vulgar que nem sabem que estão fazendo, já que acreditam no que dizem, é a regra.

Tudo isso é muito cansativo. O bom é a gente saber das coisas, o que entre outras coisas nos torna impermeáveis a surpresas, decepções e até algumas desilusões maiores. Essa prostração bovina, essa ausência do pensar por conta própria, de pensamento, ponto — que afinal é o que nos torna seres humanos completos, gente, no sentido mais amplo da palavra (eu sei, eu sei, a maioria da humanidade nunca chega nesse estágio, fica lá no de blástula, por falar nisso, mas estou falando dos 2% que sabem das coisas, que salvam, que “redimem” um pouquinho a espécie) — esse rastejamento todo é deprimente.

Sem falar na sensação de vácuo, de falta de receptividade, quando escrevo sobre essas coisas. Sobre qualquer coisa, aliás. Quantas vezes, dizendo o que me parece o óbvio, não fui tomado por uma vontade irresistível de silenciar, de cair fora, porque consciente da futilidade do que escrevo, pelo fato de que quem concorda comigo já sabe do que estou falando, enquanto quem discorda nunca vai me entender - muitos nem saberão, porque vivem na indiferença primitiva, minimalista, da sociedade brasileira, ou estão de tal forma esmagados pelo trabalho braçal, que enfrentam sem preparo físico, que nem sequer sonham que uma vida melhor é possível.

Mas as coisas mudam, felizmente. Talvez nesse caso mude rápido, acho bem provável que o Supremo derrube a ADIn.

O engraçado é que, depois da presepada, talvez vendo o tamanho dela, o lobby clerical catou uns cientistas não sei de onde e veio com um catálogo de conversa mole. Cada dia é uma. A última, a reboque da própria Ciência (a séria), foi a de que andaram fazendo progresso por aí com células adultas. Ok, nada contra, mas estas nunca terão o potencial das embrionárias, por uma penca de motivos.

Depois — e o mais divertido — ainda acharam que podiam pegar emprestado da filosofia uma questão jamais resolvida, e quem sabe até dar um jeito nela: o início da vida. Para mim, outra idéia de jerico, cortesia, “geração espontânea”, da idéia de jerico inicial. Às vezes se tem a impressão de que voltamos a Bizâncio: logo vamos discutir o sexo dos anjos, a essência da Santíssima Trindade e excentricidades metafísicas mil.

A vida começa… bem, vocês escolhem. Podem dizer que ela começa no zigoto, no rabinho do espermatozóide, no átomo da mitocôndria… A convenção católica, por exemplo, diz que ela começa na concepção. Ninguém sabe quando ou onde ela começa. A meu ver, os religiosos se deram mal na audiência pública (acho que eu e outros cinco assistiram a ela quase toda na TV Justiça) feita pelo STF sobre o assunto. Insistiram nessa estaca zero, tinham que fincá-la de alguma maneira, dizendo “a vida começa aqui, ó”. Terminaram dando voltas e se perdendo.

Mas tudo bem. O homem não cria problemas que não possa resolver. Não acho que o mundo vá regredir para alguma forma de bestialismo medieval um dia, apesar dos tropeços. Nem que tudo vá acabar em besteira generalizada ou em pseudointelectualismo, como achava um Ortega Y Gasset. Há saídas, estreitas, mas seguras e claras, dessa porcaria toda.

Se já armaram essa briga toda por causa das CTEs, imagino o que não vão armar quando começarem a clonar gente no futuro distante. Quem sabe, quando estivermos clonando gente como pãezinhos na padaria e torcendo o DNA à vontade, os incompreendidos e malvados caras de jaleco branco não aproveitam pra dar uma melhoradinha na espécie. Se alguém reclamar, podem dizer, como o Millôr, que eugenia é só uma forma científica de se ter filhos mais bonitos.

13 dezembro 2007

O Bom Corrupto

Em minhas conversas com o meu amigo marxista gramsciano que foi aluno da Conceição, do Lessa e dos caras da Unicamp aprendi muito. Segundo ele, o José Dirceu é o Robin Hood de Marx e Gramsci. Ele roubava para o partido conforme as denúncias do Mensalão que se encontram no Supremo Tribunal Federal. É algo completamente diferente do que roubar para o enriquecimento pessoal, roubar por uma causa.

Segundo uma leitura de Gramsci, o partido deve substituir o príncipe em Maquiavel e a razão de estado deve ser substituída pela razão do partido, ou seja, tudo deve ser feito para se fortalecer o partido. Neste prisma, o Mensalão, a censura da imprensa, a ocupação do governo pelo Partido e reformas políticas que visem enfraquecer o Congresso e seus representantes são as táticas desta estratégia.

Talvez o meu amigo marxista gramsciano não esteja completamente enganado, talvez os corruptos não sejam assim tão ruins, afinal, não existe nada mais decepcionante do que um falso íntegro. Vejamos o caso do Mercadante, principal interessado, beneficiário e a pessoa com poder no caso da compra do Dossiê que um grupo da Polícia Federal após afastar o delegado do caso rapidamente inocentou. Apesar deste episódio do qual saiu limpo, pois a bomba foi estourar no colo do Berzoini, continua ainda posando com aquela cara de menino íntegro, filho de general e irmão de coronel. Para cada mentira que ele conta um fio de cabelo cai, está quase careca. Uma hora é contra a redução da maioridade penal, outra hora defende o sigilo do cartão de crédito da Presidência da República por razões de segurança nacional, outra hora diz que as pessoas vão morrer se for aprovada a CPMF.

Esta vocação totalitária do PT que pretende dominar o estado, o governo e a sociedade é algo que deve ser combatido. Eles defendem que o partido é o melhor veículo para que os sindicatos, os movimentos sociais e outros aliados consigam o poder. É uma relação curiosa onde se defende o fortalecimento do partido em nome de uma base social que em última instância tem que se submeter às razões do partido conforme forem arbitradas pela Executiva Nacional.

Corrupto por corrupto, fico com o Roberto Jefferson que despertou o país da cantilena do Fome Zero inventada pelo vendedor de sabão em pó, Duda Mendonça. Aliás, ele vai muito bem com seus milhões depositados pelo PT em suas contas no exterior e as suas rinhas de galo. O Lula se elegeu com o Fome Zero e se reelegeu com o Bolsa Família mas eu continuo a ver meninos fora da escola na rua e mendigos caídos pelos cantos.

Muitos ainda dizem que o Delcídio é corrupto mas foi o homem que de forma competente e profissional presidiu a CPI dos Correios e contra todas as pressões do Partido apresentou um relatório onde se apontam responsáveis. Sua conduta foi exemplar enquanto outros santos de pau oco tinham suas espinhas quebradas diante da pressão que sofriam do partido. O Jorge Bittar berrando diante do Delcídio para desesperadamente tentar impedir que a Comissão emitisse um relatório de seus trabalho teve a sua espinha esmigalhada, isto é, se algum dia teve alguma.

Por fim, a corrupção é natural e ela começa nas panelinhas que formamos para sobreviver diante das ameaças representadas pelo outro. Para os nossos tudo, para os outros, os rigores da lei. Por isto que eu prefiro o ‘papo reto’, como diria, o Baiano de Tropa de Elite. Prefiro o faço porque posso do que o faço pelo partido, pelo chefe ou seja lá porque for. O faço porque posso respeita o outro porque além de roubá-lo não tenta enganá-lo. Mesmo que isto seja feito com desprezo ainda ficamos mais próximos da verdade do que perdidos em algum idealismo ou racionalismo qualquer.

08 dezembro 2007

Papai Noel Lula e a CPMF

Toda semana quando se abre o jornal encontramos o Lula prometendo o dinheiro dos contribuintes, dos acionistas de alguma estatal ou de alguém devedor de algum favor do governo para alguma coisa. Hoje, o Lula prometeu dar R$ 12 milhões da Petrobras, da Braskem e da Unipar para as escolas de samba do Rio de Janeiro. Nestas horas, a relação cidadão governo tem um quê de prostituta/cafetão.

Recentemente, a Petrobras esteve envolvida na aquisição do grupo Ipiranga, negócio no qual abriu mão dos melhores ativos que eram petroquímicos pertencentes a esta empresa comprada em prol do seu sócio na aquisição, a Braskem. Curiosamente, a Petrobras não possui ativos petroquímicos significativos e poderia ter feito a aquisição isoladamente. Desta forma, além de ter dado carona para o grupo Braskem e o grupo Ultra, ainda ficou com o osso do negócio, ou seja, alguns postos de gasolina e uma refinaria a mais.

Portanto, já estava mais que na hora da Braskem mostrar boa vontade com o presidente. Afinal, uma decisão deste porte não seria aprovada sem a Dilma, presidente do Conselho da Administração da Petrobras. E seria de se esperar que ela comentasse com o Lula. A menos que ele também não soubesse de nada referente a este negócio.

Para completar houve também a aquisição da Suzano Petroquímica pela Petrobras, que pagou um prêmio estimado de R$ 1 bilhão de reais pelo mercado pela honra de ter as ações da Suzano. A Unipar solicitou imediatamente a fusão com a nova empresa comprada, preservando os generosos critérios de avaliação usados. Portanto, nada mais justo que agora estas empresas tão enriquecidas se dispusessem a fazer uma mercê pelo Rei.

Hoje, são alguns milhões para uma escola de samba, amanhã deverão ser algumas dezenas de milhões aos candidatos do governo. É aí que entra a CPMF, o que seria do nosso Rei se não houvesse dinheiro sobrando no orçamento para ser dado em troca de uma boa nota no jornal, de uma cerimônia com muitos repórteres, ou em troca de favores? Dinheiro é poder e o Lula não pode abrir mão da CPMF para não perdê-lo.

Para obter os R$ 120 bilhões de reais da CPMF, pode-se gastar algum com alguns governadores, aumentar a destinação de recursos aqui e ali, da mesma forma que amanhã se pode reduzi-la, porque mesmo que se gaste 90% do dinheiro no esforço de aprovação, isto ainda representará R$ 12 bilhões para o governo distribuir para dezenas de ONGs alinhadas com políticas do governo e curiosamente tripuladas com pessoas muito bem relacionadas com o mesmo governo, quando não diretamente do grupo político no poder.

Para o Lula, a CPMF vale a absolvição do Renan Calheiros, mas certamente o governo não fez nada para absolvê-lo, nem a sua líder no Senado, a senadora Ideli Salvati, não contou nada para o Lula. Nunca na história da República um presidente soube tão pouco sobre o que acontece a sua volta. Mesmo que a sua ignorância seja criminosa, afinal ele tem responsabilidade sobre o que fazem as pessoas que ele nomeia. E falando em nomeações, como estará o saco do Papai Noel Lula neste final de ano? Tudo dependerá da CPMF. Se ela não for aprovada, “a Creusa” pode ficar nervosa, e o espírito de Chavez pode baixar nela, mas se for aprovada, então Papai Noel vai dar presente para os políticos que foram bonzinhos com o governo este ano.

06 dezembro 2007

África, Negócios e Ditadura

Hoje assisti a uma palestra interessante sobre negócios na África. Uma das boas estórias foi sobre o final da guerra civil de Angola. Segundo o palestrante, após o assassinato de Jonas Sawinb, líder da UNITA, o governo - da MPLA - mandou um SOS para o mundo pedindo todo tipo de ajuda para reconstruição do país. As respostas foram um retrato das políticas externas de algumas potências: a Europa decidiu estudar a formatação de novos programas de apoio à África. Os EUA disseram que estavam abertos a financiar os projetos de reconstrução, via FMI, desde que a Angola se submetesse às tradicionais condicionalidades desta instituição. Os chineses disponibilizaram US$ 5 bilhões de dólares, na expectativa de negócios e fornecimento de petróleo.

Este é apenas um exemplo do pragmatismo da política externa chinesa, muito próximo da antiga política externa do Império Britânico, que não se importava muito com questões políticas desde que o comércio fluísse. De fato, os chineses e os africanos têm como afinidade o fato de ambas serem sociedades autoritárias.

Em Angola, por exemplo, o José Eduardo, um engenheiro formado na URSS e de um partido de origem marxista, está no poder desde 1979 e é considerado a 14ª fortuna do mundo. Naquele país, qualquer negócio de um porte maior precisa ter como sócio alguém que pertença à família do presidente. Na Nigéria, outro partido de origem marxista chegou ao poder a algumas décadas e deu origem a uma oligarquia de famílias de generais, às quais pertencem as principais fortunas do país. Este é um ponto favorável para a nossa própria ditadura, cujos generais não formaram grandes fortunas.

O Brasil é o segundo país negro do mundo, atrás apenas da Nigéria que tem 140 milhões de habitantes. Apesar das naturais afinidades culturais com os africanos, hoje, o ambiente político brasileiro é democrático e as formas de fazer negócio combinam práticas americanas, como a Lei Sarbannes-Oxley, com burocracia tupiniquim, como a lei 8.666. O resultado disso são empresários preocupados com uma série de procedimentos que não têm a ver com o negócio, com incapacidade para tomar decisões rápidas e oportunidades perdidas.

Enquanto os africanos e os chineses mostram um enorme pragmatismo nos seus investimentos, temos o exótico Chavez que tem um projeto de poder mais ao estilo da Rússia ou do Irã. Os chineses não se importam se o Chavez é bolivariano ou escravagista e estão fechando acordos com a Venezuela para investimentos da ordem de US$ 20 bilhões, em troca de exportações de petróleo da ordem de um milhão de barris por dia. O Brasil do PT reconheceu a China como economia de mercado, em troca de algum reconhecimento do PCC, mas não obteve nada exceto uma balança mais desfavorável. Como muitos já disseram, eles nos vêem como um potencial fornecedor de materiais primas, a despeito das afinidades ideológicas entre PT e PCC.

Em conclusão, sociedades autoritárias cujo poder está centralizado em um partido, em um oligarquia, ou indivíduo têm como vantagem uma capacidade de tomar decisões rápidas, enquanto isto, as inúmeras obrigações de prestação de contas a grupos de interessados torna o processo de tomada de decisões em sociedades abertas e democráticas muito complexo. Apesar disto, as sociedades abertas apresentam como vantagem a sua grande capacidade de adaptação, fruto da livre iniciativa, e hoje, por exemplo, muitas empresas abertas cansadas da Sarbannes Oxley estão se rendendo facilmente a captura por private equities que fecha o seu capital e eliminam uma série de obrigações entre as quais a de apresentar resultados trimestrais positivos o que dificulta projetos de longa maturação. O fato é que não se trata da qualidade das idéias dos sistemas políticos mas da capacidade de atuação consciente dos seres humanos, caso contrário, qualquer sistema pode se degenerar e entrar em decadência.

01 dezembro 2007

Gee Brain, what do you want to do tonight?

Outro dia, cumprindo o meu dever de cidadão e membro da minoria que faz oposição ao governo, entrei no site do PT para ver como andavam os planos do Pinky e do Cérebro. Verifiquei que neste domingo, dia 2 de dezembro de 2007, será lançada uma campanha em favor de uma Constituinte com o seguinte texto: “O projeto propõe a convocação do plebiscito para o dia 31 de janeiro de 2009, quando os brasileiros deverão responder à seguinte questão: 'O sr(a) aprova a convocação de uma assembléia constituinte soberana e específica para promover uma reforma constitucional no Título IV da Constituição Federal que redefina o sistema político-eleitoral?'".

Então, fui examinar a Constituição para ver do que se tratava. Pelo que pude ver, a Constituição de 1988 está organizada em 9 títulos:

I) Dos Princípios Fundamentais;
II) Dos Direitos e Garantias Fundamentais;
III) Da Organização do Estado;
IV) Da Organização dos Poderes;
V) Da Defesa do Estado e das Instituições Democráticas;
VI) Da Tributação e do Orçamento;
VII) Da Ordem Econômica e Financeira;
VIII) Da Ordem Social;
IX) Das Disposições Constituicionais Gerais.

A princípio, a livre iniciativa e o pluralismo político estão a salvo, pois estão no título I. A livre manifestação de pensamento, a inviolabilidade da casa, a livre locomoção, a liberdade de reunião, o direito à propriedade, o direito adquirido estão a salvo no título II. Lendo a Constituição, é curioso como numa linha afirma uma coisa para na linha seguinte abrir as portas para o contrário. Isto sem falar em linhas absolutamente ignoradas como as que garantem dignidade aos presidiários. O título III fala basicamente das competências das esferas de poder.

Então chegamos ao título IV, que os petistas querem mudar. A seção 1 do capítulo I fala da composição do Congresso Nacional e da existência do Senado. É amplamente sabido o desejo deles de extinguir o Senado. A seção 2 fala das atribuições do Congresso Nacional, entre elas algumas pelas quais o PT tem profundo interesse, como o poder sobre a renovação de concessões de rádio e TV, para autorizar referendo e convocar plebiscito, instaurar processo contra o presidente da República, a imunidade parlamentar e, finalmente, as formas de fazer emendas ao restante da Constituição, ou seja, se alguém alterar esta parte pode atingir o restante da Constituição mais facilmente. Nesta seção ainda temos os poderes do presidente da República e a estrutura do Poder Judiciário. Em resumo, se o PT conseguir convocar um plebiscito para uma Constituinte que reveja este título, estará mudando a forma de se governar este país.

Para sermos justos, o direito à reeleição está nos direitos políticos do título II, então a princípio esta proposta não representaria um movimento na direção de dar a Lula o direito de concorrer a um terceiro mandato. Se bem que já ouvi comentários de que se estuda a possibilidade da Dilma ficar de 2010 a 2014 e depois o Lula voltar por mais dois mandatos, até 2022. Na Revolução Russa também foi assim, primeiro o "moderado" camarada Lênin para depois entrar Stalin. Pode ser que venhamos a ter um de saias.

Infelizmente, para todos que prezam a democracia, o que se vê hoje nos regimes de esquerda da Venezuela, Bolívia e Equador são sociedades marcharem em direção ao totalitarismo dentro de uma estratégia gramsciana em que líderes carismáticos são usados e fazem uso de uma estrutura partidária com vocações totalitárias explorando os espaços oferecidos pela sociedade democrática para implantar os seus regimes totalitários e messiânicos.

Acho que todo ser humano quer mudar o mundo, mas também tem alguma capacidade de se conformar com ele como é. Felizmente, eu diria, até 2022 faltam 15 anos e o partido ainda pode permanecer por dezenas de anos no poder cobrindo o período das nossas existencias. Mas sejamos francos, todo grupo que chega ao poder quer se manter lá. É por isso que temos uma democracia, porque sabemos que os governantes são humanos e que irão tentar, como o ratinho Cérebro, dominar o mundo. Pelo menos os Cerebros deste mundo farão isto.
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