25 novembro 2007

O Homem Justo na Bíblia

Na Bíblia temos 419 registros para "justo", segundo pesquisa no bibliacatolica.com.br . O primeiro homem chamado de justo é Noé. Obviamente, Adão não foi merecedor deste título. A seguir temos a discussão em torno da destruição de Sodoma, na qual Deus considera a possibilidade de poupar a cidade se houver um número suficiente de justos. Esta é uma discussão interessante e politicamente não correta, na medida em que mostra um deus interessado em uma elite de "justos" e desconsiderando o direito à vida dos demais.

Mais tarde Deus, por meio dos Dez Mandamentos entregues a Moisés, decreta ser pecado matar um justo e um inocente, ou seja, mais uma vez ignorando o direito universal à vida. A seguir temos a história do justo mais famoso da Bíblia: Jó. Nos Salmos temos uma série de promessas de retribuições de Deus àqueles que oprimirem os justos. De fato, em Salmos 140,5 lê-se: “Se o justo me bate é um favor, se me repreende é como perfume em minha fronte. Minha cabeça não o rejeitará; porém, sob seus golpes, apenas rezarei.”

Em Provérbios, mais vez se enaltece os justos afirmando, em geral, que aquilo feito ou dito pelos justos é bom e aquilo feito ou ditos pelos ímpios é mau. Eis uma boa passagem: “As palavras dos ímpios são ciladas mortíferas, enquanto a boca dos justos os salva.” Em Eclesiastes o tom muda e critica-se a vaidade dos justos. O tom é mais "socialista": “Um mesmo destino para todos: há uma sorte idêntica para o justo e para o ímpio, para aquele que é bom como para aquele que é impuro, para o que oferece sacrifícios como para o que deles se abstém. O homem bom é tratado como o pecador e o perjuro como o que respeita seu juramento.” Também encontramos neste livro (7, 16) esta curiosa admoestação: "Não sejas justo excessivamente, nem sábio além da medida. Por que te tornarias estúpido?"

Em Sabedoria retoma-se o tom elogioso aos justos e o elitismo por assim dizer. De fato, a vida eterna seria destinada apenas a esta elite: “Mas os justos viverão eternamente; sua recompensa está no Senhor, e o Altíssimo cuidará deles.” Apesar da eternidade pertencer aos justos, eles não estão a salvo de morrer pelos pecados dos ímpios, como podemos ler em Lamentações: “Foi por causa dos pecados de seus profetas e das iniqüidades dos sacerdotes, que derramavam em seus muros o sangue dos justos.”

Ezequiel, por sua vez, se ocupa em falar dos justos que abandonaram o caminho: “E, se um justo abandonar a sua justiça, se praticar o mal e imitar todas as abominações cometidas pelo malvado, viverá ele? Não será tido em conta qualquer dos atos bons que houver praticado. É em razão da infidelidade da qual se tornou culpado e dos pecados que tiver cometido que deverá morrer.”

Mateus já retoma uma visão mais conciliadora, socialista e antielitista: “Deste modo sereis os filhos de vosso Pai do céu, pois ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos.” O interessante é que em Mateus surge o inferno para os ímpios, enquanto antes eles tinham o nada. É uma nova abordagem, esta do Novo Testamento, de tentar atrair os ímpios. Acho meio populista.

Bem que eu desconfiava que estes apóstolos de Cristo eram meio esquerdistas, vejam só esta passagem: “Jesus respondeu-lhe: Por que me chamas bom? Ninguém é bom senão só Deus.” Acaba com a idéia da elite dos bons e dos escolhidos. Se bem que uma coisa que eu detesto é aquele que se faz de justo, o fariseu, que atualizado seria o politicamente bonitinho, este é um sepulcro caiado. No Brasil, hoje, este personagem é aquele que veste uma camiseta do Che...Bem, desconfio que obsessão não esteja entre as qualidades dos justos...

Em João, por sua vez, há uma passagem interessante em que se discute o que é um homem justo: “De mim mesmo não posso fazer coisa alguma. Julgo como ouço; e o meu julgamento é justo, porque não busco a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou.”

"Justo" na Bíblia pode ser entendido como "aquele que age de acordo com a vontade de Deus", seja ela qual for. Hoje, a disputa é por ser considerado justo, pois suas ações terão legitimidade. Infelizmente, o privilégio de agir é muitas vezes exercido em detrimento daqueles que sofrerão as consequências de suas ações.

Entramos em outra questão aqui. O que é agir? Segundo o Aurélio, a sua definição filosófica seria: "Processo que decorre da natureza ou da vontade de um ser, o agente, e de que resulta criação ou modificação da realidade." Boa definição, que considera como pré-requisito da ação a existência de vontade e como conseqüência a mudança da realidade. Neste sentido, existem muito poucas "ações", embora muitas sofram as conseqüências de ações alheias à sua vontade.

Caímos agora na questão karma e darma. As ações do ego geram karma. A definição psicanalítica de ego segundo o Aurélio é: "A parte mais superficial do id, a qual, modificada, por influência direta do mundo exterior, por meio dos sentidos, e, em conseqüência, tornada consciente, tem por funções a comprovação da realidade e a aceitação, mediante seleção e controle, de parte dos desejos e exigências procedentes dos impulsos que emanam do id." Os justos, como não agem obedecendo ao ego, estão livres do karma. Somente eles são livres, os demais são escravos dos sentidos e dos desejos. Logo, a única escolha estaria entre servir ao ego ou servir a Deus.

18 novembro 2007

O Preço da Liberdade é a Eterna Vigilância

Hoje, na nossa vizinha Venezuela, temos um regime totalitário onde o partido único domina o Estado, e este a sociedade, sob a tutela de um líder carismático. Chatelet considera que o século XX marcou o surgimento dos regimes totalitários nos quais um partido domina o Estado em nome das massas. O próprio nazismo foi uma doutrina totalitária que misturava socialismo e racismo.

Com a queda da União Soviética e o colapso do socialismo real, concluiu-se equivocadamente que o liberalismo havia triunfado e que a História havia chegado ao fim. A euforia global terminou com as crises financeiras e a euforia americana no 11 de setembro. Com a incapacidade de estabilizar o Iraque, a crise da hipotecas e a expansão do socialismo na América Latina, o liberalismo entrou em depressão.

Este confronto entre o capitalismo e o socialismo, para muitos, é o confronto entre o bem e o mal. Ironicamente, em certo sentido, estas duas propostas surgiram de duas tendências cristãs. A corrente liberal funda-se no livre-arbítrio e na doutrina da salvação individual, enquanto a corrente socialista funda-se na comunidade de Cristo e da irmandade de todos em Cristo.

Um ponto comum dos discursos filosóficos, teológicos e políticos é a sua intenção de libertar o homem. Embora todos estejam de acordo no diagnóstico, ou seja, o homem é um escravo, os prognósticos variam radicalmente. O discurso político socialista considera que o homem é o seu trabalho e que a expropriação do seu trabalho pelos proprietários dos meios de produção gera a alienação. A corrente liberal, após o advento do cartesianismo e do utilitarismo, deu origem ao capitalismo e à sua estrutura impessoal e mecanicista de regulação das relações sociais. O fato é que independente da corrente da qual sejamos adeptos, a qualidade das idéias não garante o sucesso do seu propósito de libertar o homem.

Krishnamurti, em um discurso filosófico, disse: “A liberdade só nasce com o autoconhecimento, nas ocupações de cada dia, isto é, em nossas relações com as pessoas, coisas, idéias e a natureza.” Ainda segundo ele: “Dominar significa fazer uso de outrem para nossa satisfação própria, e na utilização de outra pessoa não pode haver amor.” Por fim, temos que: “Apenas o autoconhecimento pode trazer a tranqüilidade e a felicidade ao homem, porque o autoconhecimento é o começo da inteligência e da integração. A inteligência não é mero ajustamento superficial; nem cultivo da mente, aquisição de saber. Inteligência é a capacidade de compreender as coisas da vida, é a percepção dos valores corretos.”

A social-democracia conseguiu como triunfos os “welfare states” escandinavos, que infelizmente por diversas circunstâncias não puderam ter reproduzidos em outras partes do mundo estes paraísos de prosperidade e igualdade. Hoje, na aurora do século XXI, temos o liberalismo americano em crise enquanto que o totalitarismo chinês e o socialismo latino-americano avançam. Resta ao indivíduo que valoriza a liberdade estar atento porque, como diz o velho ditado: “O preço da liberdade é a eterna vigilância.”

13 novembro 2007

Um Discurso de Ódio

Hoje fui com meu amigo comunista gramsciano assistir a um seminário em homenagem aos 90 anos da Revolução Russa. O lugar não poderia ser mais apropriado; o salão Nobre da Faculdade de Economia da UFRJ na Praia Vermelha. Infelizmente, o "camarada" Coutinho, um grande estudioso de Gramsci, faltou e teve de ser substituído por outros camaradas professores. Lamentável, na verdade.

Os dois fanfarrões, como diria o capitão Nascimento, passaram duas horas atacando a democracia e defendendo a violência como meio de libertar os trabalhadores da exploração da qual são vítimas. Quando desafiados por provocadores que falavam de Gramsci e o seu método de guerra de posições para ampliação da democracia, responderam que Gramsci era, antes de tudo, secretário-geral do Partido Comunista italiano e ninguém que ocupa um cargo destes é bonzinho.

De fato, eles afirmavam que a sociedade burguesa é essencialmente violenta em função da alienação do trabalho, que é apropriado pelos burgueses na forma de mais-valia. A solução proposta por eles é a substituição da propriedade privada pela propriedade coletiva de forma que a mais-valia seja expropriada pela coletividade. Um fez questão de lembrar que o problema da Comuna de Paris foi que poucos burgueses foram fuzilados.

Assistindo ao professor fulano de tal falando e fumando, fiquei pensando que este discurso de ódio estava muito próximo de um discurso racista ou nazista, e ponderei até que ponto a instituição da liberdade de opinião não estaria em contradição com o próprio discurso. Talvez fosse o caso de se proibir discursos incitando à violência feitos por servidores do Estado em estabelecimentos públicos.

Sempre achei correta a visão dos generais japoneses ou alemães que se suicidavam após mandarem seus homens para a derrota. Melhor ainda, o lugar de um general é na linha de frente ao lado dos seus soldados. Nada mais covarde do que mandar outros para matar ou morrer por suas próprias neuras. Este é o diferencial de um Che Guevara, que podia ser também um assassino revolucionário mas não era um covarde que vivia às custas do sangue de outros.
O curioso é que estes professores são um resultado de uma academia onde eles próprios foram explorados por seus orientadores para produzir teses que lhes investiriam de um poder simbólico dando-lhe as credenciais de poder simbólico que lhe permitiriam passar ao pólo ativo desta relação sadomasoquista.

Pessoalmente, acredito que a violência não está na alienação mas na identificação, ou seja, não somos definidos pelo trabalho que produzimos e portanto a alienação deste não nos degrada como seres humanos. Antes de tudo, acredito que o que nos define como seres humanos é a não-identificação ou, como diria Freud, é o estado de consciência em que nosso ser não está refém de nenhuma idéia, emoção ou desejo. É um estado de consciência onde o indivíduo encontra-se integrado, agora como diria Jung, em um estado onde o ser se integra com a realidade transcendendo os próprios limites da individualidade.

Mas se vamos comemorar algo, que seja os 70 anos do golpe de Getúlio que fundou o Estado Novo. Violência por violência, fico com Getúlio, que prendeu os comunistas e integralistas que pretendiam fundar uma versão tropical do nazismo ou do comunismo soviético. Criou o Estado moderno brasileiro, a previdência social e lançou as bases da industrialização com um custo de violência baixíssimo se comparado aos comunistas e nazistas.

Acho que estas pessoas são alienadas da cultura brasileira. Não entendem que o jeitinho brasileiro e o clientelismo são poderosos anticorpos antiautoritarismo. Creio que o melhor é seguirmos o conselho de Geisel e caminharmos de forma lenta, gradual e segura em direção a uma democracia mais aberta e com instituições que suportem a liberdade dos indivíduos. Ao contrário do que dizem os marxistas, acredito que é necessário esforço para se libertar das identificações e criar um espírito de boa vontade que torne possível negociações que nos ajudem a enfrentar os problemas concretos de forma que todos ganhem ou que se possa negociar as perdas.

12 novembro 2007

A Vaia de Carmen Miranda

Assistindo a um documentário sobre a vida de Carmen Miranda, fiquei mais uma vez com a impressão de que não valorizamos o que é brasileiro, talvez devido aos governos se apropriarem de símbolos da nossa cultura para justificar o seu poder, como fez Getúlio Vargas, que usou a senhora Miranda como propaganda do regime. Desta forma, a repugnância a um regime acaba sendo transferida para um artista, herói, ou idéia apropriada por este regime.

Era um tempo diferente, onde quem cantava samba eram os negros e em que a elite ainda não era americanizada e sim afrancesada e os artistas ainda não tinham o status social que gozam na atualidade como formadores de opinião. Nos EUA, a sua imagem era a de uma moça ingênua como convinha a uma mulher de então. De fato, dificilmente consegue-se ser tão inteligente em outra língua quando na sua própria, e no início ela deu entrevistas onde dizia conhecer apenas duas palavras em inglês: men e money.

Outra coisa que impressiona são pessoas suas contemporâneas hoje na casa dos 80 ou 90 anos com perfeito domínio das suas faculdades falando daquele tempo e mostrando uma boa capacidade de análise crítica e imparcialidade. Nos EUA, ela foi usada pela propaganda de guerra no esforço americano de aproximação da América Latina para uso de seus mercados e matéria-prima, daí a acusação de que ela havia se americanizado.

Na primeira vez em que voltou ao Brasil após o seu grande sucesso na Broadway, decidiu fazer um show para a alta sociedade carioca. Talvez em um esforço de aproximação, cumprimentou a platéia com um good night que foi seguido de um silêncio sepulcral, e após algumas musicas teve que se retirar do palco. O resultado era previsível, afinal a elite ainda não havia se americanizado e nunca tivera nenhuma afinidade com a cultura popular dos morros. Provavelmente, havia algo de inveja também mascarado por este desprezo.

Alguém já me disse que tolerar o sucesso de alguém extraordinário é possível, mas tolerar o sucesso de alguém normal é quase insuportável. Os judeus que o digam; o seu sucesso material tem um papel importante no ódio e inveja de que são objetos, além do fato de seus antepassados terem matado Jesus e Moisés (segundo Freud). O sucesso é difícil de se engolir até hoje, a Madonna que o diga.

Boa parte da doutrinação de esquerda parece esconder a inveja de uma "classe média esforçada" mas não muito bem sucedida que se volta contra os valores que sustentam o mérito dos bem sucedidos. Um tipo de vingança. Vejam o velho Marx, por exemplo, que antes de engravidar a sua empregada não conseguiu uma vaga de professor na sua universidade e passou a vida sendo sustentado por Engels enquanto preparava os seus petardos contra o capitalismo. A inveja é foda.

10 novembro 2007

A Reconquista do Brasil

Depois de assistir ao Tropa de Elite me dei conta de algumas questões que antes ainda não estavam claras para mim. Primeiramente, o Estado não pode tolerar que bandos de criminosos assumam o controle de partes do seu território, onde eles passem a ditar a lei. Em segundo lugar, seria melhor que uma favela fosse controlada por uma milícia da comunidade do que por traficantes de drogas ou outros criminosos.

Mas antes de falarmos disso, cabe um parêntese. Curiosamente, no ano passado, quando o alquimista começou a ganhar forca na campanha presidencial, o PCC resolveu declarar guerra à cidade de São Paulo e tivemos uma seqüência de atentados que desencadearam dezenas de mortes. Passada a eleição, as coisas serenaram em uma estranha coincidência. Será que haveria uma conexão entre o PT e o PCC para garantir a eleição de Lula?

A política de segurança publica do governo Lula, por sua vez, é absolutamente maniqueísta. No início do primeiro mandato, tentaram mandar aquela de proibir a venda de armas de fogo. Os argumentos eram ridículos, afinal, é estatisticamente 100 vezes mais perigoso para uma criança viver em uma casa com uma piscina do que com uma arma de fogo, além do que a banda podre da polícia desempenha um papel muito mais relevante em armar os criminosos do que eventuais armas obtidas em assaltos a residências. Pessoalmente, creio que eles queriam desarmar a classe média e deixar os proprietários rurais à mercê do MST.

Mas voltemos às questões que ensejaram este artigo. Outro dia discutia com um amigo marxista como Arrighi e sua teoria do capitalismo e territorialismo haviam sido um avanço na teoria marxista, que não levava em sua devida consideração a questão do estado-nação. Para Arrighi, em uma perspectiva braudeliana de longa duração, o binômio capitalismo-territorialismo era uma abordagem com grande poder explicativo no contexto do longo século XX e a evolução do capitalismo. Resumidamente, Arrighi acredita que a parceria estado-nacional e capitalismo seria a fórmula histórica mais bem sucedida até o momento.

Argumentava eu com ele que Arrighi concordaria que nenhum estado pode se dar ao luxo de perder o controle sobre a essência do seu poder, o controle do seu território. Lugares onde o estado-nação não conseguiu se firmar são caóticos e miseráveis como a África ou os Bálcãs, onde os recortes territorias coloniais e históricos não acompanharam as culturas, daí seus estados serem instáveis por serem constituídos de varias nacionalidades ou tribos.

A meu ver, um traficante, ou um bando armado que queira assumir o controle de uma "comunidade" está declarando guerra ao estado-nação brasileiro. Em uma guerra, os agentes do estado têm a famosa autorização para matar e até recebem condecorações por isto. Esta seria uma maneira de se ver esta situação, ou seja, quer traficar droga, ok, sofre as penas da lei, mas se quiser assumir o controle de uma parte do território nacional então isto deveria ser um problema de segurança nacional. E, sendo este o caso, se deveria mandar o BOPE, as Forcas Especiais do Exercito, os Fuzileiros Navais para reconquistar o território brasileiro ameaçado e libertar os cidadãos sob o jugo dos tais criminosos. E não esqueçamos que a Convenção de Genebra só vale para guerra entre estados; portanto, ...

Alguém pode dizer que isto é terrorismo de Estado e eu responderia que não. Terrorismo de Estado é o que esta ocorrendo na Venezuela, onde os opositores do regime são alvejados por atiradores quando se manifestam pelas ruas e quando hordas de simpatizantes do governo atacam grupos da oposição impunemente. Isto é terrorismo de Estado. O que ora se propõe é apenas a libertação de cidadãos brasileiros vivendo no Brasil sob o jugo de grupos armados.

06 novembro 2007

1º Aniversário do Pugnacitas

Perdoem-me por este "metapost", porque é uma brutal de uma falta de assunto postar sobre posts, blogs - principalmente sobre o próprio -, blogueiros, comentários e comentaristas. Talvez faça um novo balanço em 06/11/2008, desde que até lá as orações de alguns crentes não sejam atendidas e assim os membros deste blog sobrevivam à providência divina.

As discussões sobre religião começaram há bem mais de um ano, após eu ter aberto em minha caixa postal um e-mail de meu irmão contendo uma frase de Padre Pio de Pietrelcina - um embusteiro estigmatizado (vejam este esclarecedor vídeo) que passou desta para lugar nenhum em 1968 e que virou constelação por obra do canonizador serial João Paulo II - em que afirma que uma única Missa agrada mais a Deus do que todas boas ações realizadas por todos os justos do mundo em todos os tempos. A bizantina asserção, não menos absurda do que dizer que de todos os planetas cúbicos do Sistema Solar o mais cônico é o Sol, relaciona-se à crença em que cada Missa celebrada por qualquer padreco pedófilo é literalmente Jesus a sacrificar-se movido pelo mesmo amor infinito de 1974 anos atrás.

As discussões sobre política iniciaram-se com a última campanha presidencial. Eu e o Heitor pensamos então em criar um blog onde pudéssemos organizar os textos que enviávamos por e-mail e principalmente os comentários que se seguiam, sempre perdidos, desordenados.

Um numerólogo diria que escolhemos a data 06/11/2006 porque resulta no cabalístico número sete, que é o casamento do número espiritual, o três, com o número material, o quatro; um hagiólogo diria que escolhemos pelo dia onanístico, digo, onomástico do Beato Nuno Álvares Pereira, nobre guerreiro português que tinha na invicta lâmina de sua espada gravado o nome de Maria (alguns ainda têm por hábito tatuar, digo, gravar o nome da amada na espada...), e de cuja filha originou-se a Casa de Bragança, posta para correr do Brasil por ocasião da quartelada que fundou a Resnulius, digo, a República.

Nada disso! No nosso Gênesis não há o número sete e tampouco divinos condestáveis portugueses. Cheguei em meu escritório em uma segunda-feira que por acaso era seis de novembro, deambulei por alguns sites para não sofrer uma comoção, um choque por já ir assim de cara trabalhando na segunda de manhã, e me deparei com um texto de Reinaldo Azevedo intitulado "Sunga, decoro, Mann e Musil", em cujas linhas lemos que as praias são lugares indecorosos, que é degradante a intimidade de ver a própria esposa escovando os dentes e que "os homens só existem para que, ao fim da vida, possam honrar seus pais". Comentei em seu blog que a vulgaridade não reside no tamanho das peças de roupa, que o comunismo, enquanto parcialmente oculto pela cortina de ferro, causava suspiros por aqui - como a noiva sob um véu que em um episódio do cartoon Pica-pau subia ao altar com o Abutre para na hora do beijo se revelar uma mocréia repulsiva - e que apenas cegos com sinusite (ideológicos) dele continuam enamorados. Comentei ainda que achava um absurdo o homem existir para honrar os pais, porque se assim fosse ainda apedrejaríamos adúlteras e teríamos escravos, entre outras críticas. E não é que para minha surpresa ele (ou sua equipe) moderou minha mui sincera e inofensiva opinião? Acabei criando o Eneadáctilo naquele mesmo dia para publicar meus comentários vetados por asnos tão sensíveis quanto desonestos. E o Eneadáctilo acabou se tornando o blog que já planejávamos criar.

O Heitor opinou que "Eneadáctilo" (nove dedos) era "um pouco agressivo, além de ser uma homenagem a alguém que não merece". E foi aí que surgiu o Pugnacitas, "desejo de lutar" em latim. Para amenizar o significado, usamos como ícone uma pena, sugerindo que as lutas resultariam no máximo em brutais derramamentos de tinta virtual. E não foi diferente: Blogildo, Eleitor, Patrícia M e Luisete saíram amuados por causa de nosso jeito pouco amistoso de pelejar, principalmente por estarem de alguma forma presos a ideologias e por aqui elas serem severamente atacadas, Clarissa e Lord of Erewhon saíram decepcionados pelas acusações do diabrete O+cioso de que eram a mesma pessoa, acusações as quais acabamos também por comprar, Mostardinha sumiu da blogosfera, e por fim o próprio C. Mouro escafedeu-se batendo a poeira dos sapatos e sugerindo que fungássemos uns os traseiros dos outros. O sebastianismo gerado pela saída do Mouro só se aplacará após o advento de um outro cavaleiro misterioso e sanguinário como ele, o que é bastante improvável. De fato, o verdadeiro mestre manda os discípulos para aquele lugar quando julga não ter muito mais a ensinar. Ou quando o saco pesa. Ou quando está com problemas em casa e no trabalho pelo excesso de tempo gasto em blogs de fedelhos com a metade de sua idade.

A Simone abandonou o time há pouco tempo em virtude de excesso de trabalho e das demandas do mestrado. E o nobre André Balsalobre, que já comentava assiduamente no blog desde dezembro de 2006, é agora um dos membros, um dos bons, como diria nosso Dom Sebastião. Já convidei o Bocage mas ele prefere colar textos alheios em seu blog a escrever eventualmente um post por aqui :). Pelo jeito o tempo tem sido escasso para todos. Eu mesmo tenho postado pouco e pouco visitado outros blogs.

Quero agradecer a todos os visitantes e comentaristas pela alegria que nos têm dado, mesmo quando nos mandam para a PQP, quando nos metem apelidos, mesmo quando tampam os ouvidos e berram "lá lá lá lá" durante nossas argumentações. Obrigado Eduardo Silva, C. Mouro, David, Ricardo Rayol, Bocage, Roberto Eifler, Orlando Tambosi, Anselmo Heidrich, Marcos Ferrari, a_maggiore@hotmail.com,, Luisete, Blogildo, Patrícia, Clarissa, Lord e Klatuu, Helder Sanches, Pedro Couto, Mostardinha, Holy Father, Ed, Susy Tude, André Wernner, Sônia, Alex, CostaJr, Roça, Ielpo, Glênio Gangorra, O+dioso, Anônimos, Anonymous e outros dos quais não me recordo, pelo quê peço desculpas.

Vamos aos números.

O blog foi um sucesso até agora. Poucos posts mas muitos comentários, o que faz dele mais um fórum do que um blog. Foram 77 artigos; 47 do Heitor, 21 meus, 4 do André, 3 textos antigos cedidos pelo C. Mouro, 1 da Simone e 1 cedido pela Clarissa Septimus.

- Mais de 25000 visitas, aprox. 70/dia
- Mais de 15000 visitantes únicos, aprox. 40/dia
- Mais de 36000 exibições, aprox. 100/dia
- Dia com maior número de acessos: 1º de outubro, durante o post Divagação Erudita, e 24 de outubro, durante o post Oportunidades: 165 visitas.

- Países com maior número de visitantes: Brasil, Portugal e EUA

- Post arquivado mais acessado: Deuses e Pecados Capitais, aprox. 1700 vezes

- Total de comentários: 3885, aprox. 50/post e 10/dia
- Post mais comentado: A TV do Lula, com 176 comentários.

Se formatarmos o conteúdo da caixa de comentários do post A TV do Lula para Times New Roman tamanho 12 e projetarmos grosseiramente o resultado para o conjunto dos posts obteremos mais de 2000 páginas de textos. Apesar das repetições, links, artigos alheios colados, citações de outros comentários, etc., acho que seria possível extrair do Pugnacitas um bom e original livro escrito a trinta mãos. Parabéns a todos!

Um grande abraço!

03 novembro 2007

Faço porque posso

Por que o Chávez aprovou a reeleição sem limites na Constituição da sua Revolução socialista? Simplesmente porque ele pôde. Como disse Lord Acton, “O poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente”. Espero que isto nos sirva de lição e nos incentive a valorizar a democracia como uma instituição que dificulta que uma pessoa ou grupo detenha mais poder do que seria conveniente.

Infelizmente, as nossas raízes lusas são autoritárias. Em algum lugar do nosso inconsciente ainda esperamos o retorno do jovem D. Sebastião, o rei português que morreu em Alcácer-Quibir, no norte da África, uma batalha sem significado algum estratégico ou comercial, e cujo corpo jamais seria recuperado.

A perda foi um trauma para Portugal. Com a sua morte terminava a dinastia de Avis, que transformara Portugal na maior potência da Europa de então. Sem deixar herdeiros, Portugal viria a ser governado pela Espanha dos Habsburgos.

Poucos sabem, mas grande parte da Invencível Armada com a qual Felipe II atacou Elizabeth I da Inglaterra era portuguesa. A perda da sua armada foi um golpe fatal para um reino cujas possessões estavam espalhadas pelo mundo. Era o inicio de uma longa decadência, que teve na crescente dependência em relação ao poderio marítimo inglês uma faceta. Portugal dependia dos navios ingleses para conectar suas colônias e, talvez com mais urgência, para colocar as pretensões espanholas de reconquista de Portugal em cheque.

Para o populacho surgia o sebastianismo, um misto de saudade e de messianismo, que colocava as esperanças de uma vida melhor nas mãos de um rei que retornaria glorioso do Hades para devolver a Portugal o seu lugar entre as grandes nações. Nós herdamos este mito autoritário de alguém que, investido de todo o poder, faria o bem.

O problema, amigos, é que somos apenas homens, imperfeitos por natureza e, infelizmente, o “poder” não torna ninguém melhor. Muito pelo contrario, alimenta a vaidade e o narcisismo que geralmente se encontram em grande quantidade naqueles que buscam o poder absoluto e revolucionário.

Na minha limitada experiência, conheci alguns homens “excelentes” que talvez devessem ser nossos líderes. O curioso é que estes homens não desejam o poder. A sua realização não está em receber o delirante aplauso dos outros seres humanos. Talvez estes homens tenham a prudência de, mesmo podendo, não desejar a adulação dos outros, para o seu próprio bem.

De fato, acredito que este desejo, esta esperança no aparecimento de um líder autoritário que resolva todos os problemas, esconde uma preguiça doentia. É uma tentação para os fracos encontrar alguém cujo carisma prometa coisas pelas quais não precisarão se esforçar. Mais do que isto, alguém que se proponha a pensar por eles, a lhes mostrar o caminho. Alguém disposto a lhes dizer que não têm culpa de nada, que são vítimas de um passado de exploração. Infelizmente, para muitas pessoas, é melhor ser manipulado do que ter de assumir responsabilidade pela própria vida e pelo seu destino.
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