28 outubro 2007

Delenda est Aécio

Quem assiste ao Tarso Genro falando em refundação do PT, busca das raízes éticas e antagonizando com o grupo de José Dirceu, até fica em duvida se isto não seria algo mais do que uma tentativa de retomar um discurso de ética perdido. Quem lembra que Luciana Genro, uma das fundadoras do PSOL e uma jovem líder da esquerda radical, é sua filha até pensa que aquele radicalismo possa ter sido herdado do pai.

Infelizmente, o alto comissário do PT, o Tarso Beria, como costuma aparecer no Ex-Blog do César Maia, foi esta semana ao principado de Mônaco resgatar o Cacciola para poder jogar lama no PSDB. Sim, o ministro da Justiça foi a Mônaco para dar ao PT uma carta no seu jogo político contra o seu maior adversário, o PSDB. Quem sabe até na CPMF.

Em governos anteriores, o cargo de ministro da Justiça geralmente pertencia a alguém que viria a ser ministro do Supremo e que anteriormente tivera uma carreira de destaque como jurista, enfim, alguém respeitado no meio jurídico e com uma reputação ilibada. Hoje, temos um membro da Executiva do PT comandando o ministério ao qual se subordina a Policia Federal.

Considerando o precedente da operação deflagrada contra a Sarneyzinha no governo FHC por meio da Policia Federal, o que podemos esperar na sucessão de 2010? Lê-se no Ex-Blog do César Maia que já está em curso uma operação para destruir o Aécio Neves, que recentemente andou pegando a Miss Brasil.

Aécio Neves tem uma imagem curiosa. Conversando com um amigo mineiro, ele me diz que o Aécio é um filho da puta mas seu governo é extremamente eficaz e os seus secretários são todos profissionais de alto nível. Então, por que ele é um filho da puta? Talvez porque ele esteja solteiro e quase todo final de semana vai ao Rio participar de festas da high society.

Não podemos nos esquecer que antes da chegada do Tarso a cúpula da PF desempenhou um papel importante na reeleição do Lula ao afastar o delegado que apreendeu os petistas que tentavam comprar o dossiê contra o Serra e ao tentar proibir a divulgação de fotos do dinheiro apreendido. De fato, poucos meses depois o único interessado em prejudicar o Serra, o senador Mercadante foi “inocentado” e todos se satisfizeram com a demissão do seu assessor que tinha alguns milhões sobrando para pagar pelo dossiê.

Recentemente, já na gestão Tarso, dois lutadores cubanos foram rapidamente deportados para Cuba em uma operação da PF que contou até com jatinho fretado por Chávez. Curioso, não? Uma ação da PF em articulação com Cuba e com a Venezuela? Já sabemos que o compromisso do PT com a democracia liberal é muito tênue: lista-fechada e supremacia da ”nomenklatura” sobre a bancada, “Conselho de Ética dos Jornalistas”, defesa do fim do Senado e do centralismo versus federalismo, compra de votos no Congresso versus debate temático, compra de votos com o bolsa família, ataques à imprensa não alinhada com o governo,... Resta saber até onde eles estão dispostos a ir para garantir que em 2010 o sucessor de Lula esteja ligado ao campo da esquerda.

24 outubro 2007

Oportunidades

A oportunidade faz o furto. Qualquer nação, povo ou líder nasce ladrão. Sem falar nas muitas instituições. O sofrido (e ambíguo) anti-imperialista egípcio Gamal Abdel Nasser era, afinal, um descendente dos faraós. Até o nosso Brasilzinho incruento deu uma de realpolitik pra cima do Paraguai no Século XIX. Liquidamos quase todos os paraguaios homens, numa guerra cuja história ainda não foi satisfatoriamente contada, talvez. O curioso é que os dois maiores imperialismos dos Séc. XX, o dos EUA e o da URSS, nasceram de revoluções anti-imperialistas. O círculo e ciclo vicioso perfeitos.

Os EUA reagiram hostilmente à luta pela independência no Brasil. O próprio Jefferson esnobava nossa gente. Ah, e também houve a metamorfose da Revolução Francesa no imperialismo napoleônico, mas esse durou pouco. "As coisas devem mudar para continuarem como estão", diz Tancredi em Il Gattopardo, de Lampedusa (ilustração). Enfim, o revolucionário de hoje é o reacionário de amanhã: isso é meio verdadeiro, mas simplista, porque há muito mais por trás disso tudo.

O zé-povinho está por fora das sutis modulações do pensamento histórico. Hoje visto como imperialista, Israel era o paradigma da justiça e da virtude lá no começo. E se considera superior aos demais países, como todos os outros. O patriotismo não é só o último refúgio dos velhacos. O autor da frase, Samuel Johnson, sabia muito bem da força do condicionamento cultural, da língua, costumes, amibente, etc, sobre o indivíduo. Transferida essa força para o coletivismo da nação, da “raça”, do povo, temos os nacionalismos.

Às vezes me parece que quanto mais sofrido o grupo humano, mais paranóico. Quase todo brasileiro alfabetizado sabe que não passamos de uma Ruanda com elefantíase, mas no que fazemos bem (ou achamos que fazemos), futebol e carnaval, por exemplo, entregamo-nos a uma arrogância e insolência incríveis. Essa explosão tribal quando a Seleção ganha uma Copa poderia, em outras circunstâncias, ter sido recondicionada, digamos, para esmagar o Uruguai, a Argentina ou a Guiana Holandesa — e com todo mundo se achando do lado do “bem”. Qualquer superpatriota, seja americano, russo, chinês, israelense, árabe, nigeriano, etc, tem sempre explicações cartesianas para os atos do seu país. Não admite, em termos de nação, o irracionalismo que experimenta em si próprio. Idiota, mas verdadeiro.

Quem pode, quando pode, destrói e reprime enquanto der. Por exemplo, no último século, enquanto os comunistas matavam, os católicos se limitavam a nos condenar ao fogo eterno (e, no episódio do Holocausto, quando poderiam ter feito algo de bom, salvando muita gente, preferiram se omitir — ao menos a cúpula, no Vaticano). Uns estavam aproveitando a oportunidade, outros já haviam perdido a sua. Mas há outras formas de repressão ainda bastante ativas. Até hoje as várias Igrejas exercitam, ainda que sutilmente em muitos casos, uma certa repressão à liberdade sexual. O indivíduo com domínio e expressão de suas sensações escapa à engrenagem. A construção de todos os sistemas políticos e religiosos foi marcada pelo moralismo. O ódio entranhado de São Paulo ao sexo tinha relação com a repulsa necessária ao free for all do paganismo. Freud percebeu coisas assim, mas aceitou tudo fatalisticamente, como imprescindível ao progresso, embora considerasse impossível transformar nosso cerne biológico. Somos um animal domesticado, mas indomesticável, no fundo. Desse choque vem a nossa patologia psíquica. Uma das premissas da tradição judaico-cristã é a de que temos de ser aperfeiçoados para um destino autotranscendente, superior, ad majorem Dei gloriam. A mística da perfeição.

Prefiro a mística da imperfeição do homem, antes da conquista do pensamento ocidental pelo cristianismo. Os gregos e romanos pregavam a imperfectibilidade do homem como condição permanente, a ser dosada por melhorias, devagar, aos poucos e com realismo. Aristóteles, principalmente. Tomás de Aquino batizou-o, postumamente, mas extraiu muito do que havia de mais sadio. Se Freud tinha razão ao dizer que os judeus assassinaram Moisés no deserto, por não agüentarem mais a tirania salvacionista do líder, estes fizeram muito bem. Em certos momentos históricos, o lema devagar e sempre merece os nossos mais altos protestos de estima e consideração.

20 outubro 2007

A Vocação Estatizante

Um dia desses eu jantava com um grupo de professores de faculdades particulares e um dos assuntos era o desempenho de seus ex-alunos em concursos públicos. Um dos professores arregalou os olhos surpreso diante das notícias enquanto o outro aproveitou a oportunidade para ressalvar que se suas faculdades eram ruins o resto dos cursos não era melhor. Um outro aproveitou a chance para enfatizar como são mercenários os donos destas fábricas de diploma e começou a elencar as piores faculdades.

Um jovem esquerdopata aproveitou para lembrar que estas faculdades haviam sido criadas na gestão do Paulo Renato, no governo FHC, que pretendia privatizar as universidades públicas. Os tempos mudaram, como sempre mudam, e o maléfico FHC está dando aula na Brown University enquanto o Lulinha Paz e Amor está no poder a aplicar sua filosofia de gestão baseada em contratações maciças de servidores públicos.

Será que os pobres alunos são vítimas proletárias dos inescrupulosos capitalistas do ensino? Afinal, se o curso é fraco e o currículo dos alunos egressos destas arapucas vai para o lixo na primeira peneirada de uma seleção de uma empresa qualquer, então o que está acontecendo?

O fato é que os pobres aluninhos querem um diploma de nível superior para fazer concurso público e poder se tornar um típico membro da burguesia de Estado, e muitos deles vivem camuflados em um discurso de esquerda que mascara e justifica a escolha do seu estilo de vida acomodado aos privilégios do Estado.

É uma tragédia para a nossa sociedade. Uma parte considerável da inteligência brasileira, cerca de 5 milhões de pessoas, está mobilizada em aprender coisas inúteis (direito administrativo, código disso e daquilo) para conseguir um emprego no qual, na maioria das vezes, se terá uma baixa produtividade. De fato, há órgãos na administração que funcionam em meio expediente e setores inteiros cuja ação é inteiramente ineficaz.

O Estado neste caso funciona como um transferidor de riqueza, como diria o Eduardo Gianetti, recolhe impostos de pessoas que trabalham de 40 a 60 horas por semana e transfere para pessoas que trabalham 35 horas e ganham salários muitas vezes 2 a 3 vezes maiores com uma produtividade muito menor. Ou seja, o Estado transfere o escasso capital social para investimentos de baixo retorno social à custa de onerar a produção e inviabilizar inúmeros investimentos.

Apesar dos seus muitos erros, FHC percebeu este terrível desvio da nossa sociedade viciada no Estado. Para os pobres, temos a promessa das bolsas. Para a classe média temos a promessa dos bons empregos. Para os ricos temos a promessa de linhas de financiamento e benefícios especiais.

Falta apenas alguém que se disponha a mentir para todos e agenciar as trocas de favores. Alguém que cobre impostos dos ricos e da classe média em troca dos empregos e favores que dispõe. Alguém que dê bolsas para os pobres em troca de votos. Alguém que conceda benefícios para os empresários em troca de financiamento para as campanhas políticas. Aí entra o Lula e seus companheiros com a sua disposição em dar bolsas para os pobres, empregos seguros para a classe média e favores e PACs para os ricos.

Com isto, todos se deixam enganar e a maioria fica acomodada. Muitos pobres acomodam-se com suas bolsas, uma grande parte da classe média acomoda-se com os seus empregos públicos e muitos ricos acomodam-se com os seus benefícios. E para a tranqüilidade de todos ainda teremos alguns acadêmicos marxistas que dirão que a culpa de nossas mazelas é da exploração do nosso povo pelos terríveis capitalistas americanos, que receberão toda a culpa.

15 outubro 2007

"01, manda subir!"

"Vai ficar todo mundo quietinho aí! Todo mundo quietinho! Ninguém sobe!" (Capitão Nascimento, o novo herói por vias tortas nacional, para um grupo de PMs na subida do morro)

E não sobem mesmo. Podem até resmungar, mas PMs comuns não sobem o morro junto com o BOPE.

Na abertura, uma citação que diz mais ou menos o seguinte: não é o caráter que determina as condições de um homem, mas, sim, o contexto social em que ele vive. Mais ou menos isso. Muita gente não deve ter gostado. Para mim, por mais forte e bem construído o caráter, o meio às vezes pode passar por cima dele e virar tudo do avesso. Não é fatalismo, mas fatalidades acontecem, e nem por isso o raciocínio geral precisa ser fatalista. Isso exige a compreensão de certas nuances, claro. Quem vê e lê as coisas nas entrelinhas as pega, as nuances, sem problema.

Excelente história (a gente sai com gostinho de quero mais, pena que dificilmente venham a fazer uma seqüência), boas seqüências de ação e táticas de combate assustadoras. Esperava ver mais cenas assim, se bem que os ataques furtivos dos caras são show...

Cruzaram bem as vidas, os “destinos”, pra quem acredita nessas coisas, do Capitão Nascimento e dos dois “aspiras”, jovens e inexperientes, mas íntegros, PMs. Aliás, dois atores ótimos.

Violento, porém sabendo que não apareceu o pior. Quase chegou lá. Nem poderiam mesmo mostrar certas coisas que as polícias do Rio e de São Paulo fazem. Talvez o livro conte mais.

Sobre a violência do treinamento. Alguma violência funciona e é necessária, só que nem todos os grupos de elite fazem assim. Muitos não fazem absolutamente nada disso, nem pensar. Em muitos deles o treinamento em si é tão massacrante que simplesmente não há necessidade de espancamento e humilhações. Claro que isso varia muito de país para país, mas não é a norma, por exemplo, no Special Air Service, o SAS inglês. Mas é — a brutalidade — nos Spetsnaz russos. Depende. A mim me parece uma questão cultural, de cultura militar, de tradições guerreiras, chamem como quiserem.

Não estou querendo sugerir que os britânicos sejam um “doce”, enquanto os russos são, bem, os russos. Antes muito pelo contrário... Mas um treinamento não precisa de violência, física ou psicológica, para ser cruel. Sempre há outros meios. Poderia citar outras unidades de elite menos conhecidas e seus métodos, mas a lista é longa, vamos ficar por aqui. O que interessa é que o treinamento desses caras é ainda mais pesado e diversificado, mais voltado para resistência e sobrevivência, além de coleta de informações/espionagem, assassinato, seqüestros, atentados, demolições, reconhecimento, guerra convencional e irregular, enfim, tudo. Diferente do BOPE do Rio, sem dúvida.

O que não quer dizer que o BOPE seja inferior. Fazem intercâmbio com alguns grupos estrangeiros até. Mas estamos falando de guerrilha urbana, de polícias de elite, nada a ver com grupos militares de elite. No entanto, em matéria de infiltração e furtividade, surpresa, o BOPE é dez. Por outro lado, treina unidades militares estrangeiras, nesses particulares, nesse ambiente, não só forças policiais de fora. Eis a grande diferença. Além do que, no Brasil há outros grupos assim, policiais e militares, nunca sequer mencionados. Bem, o BOPE existe desde 1978, a guerra nos morros do Rio é antiga e ele só ficou famoso agora, não?

Eles chegam a escalar paredões, encostas, cientes de que os traficantes não esperam um ataque naquela direção. Acho que dá pra ver isso numa cena. Tudo para não perder o elemento surpresa. Acredito no oficial do grupo que, sob anonimato, disse que há muito mais que não foi mostrado no filme. E imagino que não foram só técnicas de tortura, mas de combate, de guerra, que ficaram de fora. Ainda assim, o que foi mostrado é bem legal: táticas de assalto silenciosas, rápidas, letais e, claro, o tiro de precisão dos snipers.

Destaque para a cena em que pegam um traficante, que pede para não ser “finalizado” com um tiro no rosto, para sair bem no enterro. O oficial do BOPE não só ignora o pedido como pega um rifle de repetição calibre 12, antes de passar essa execução para um colega. Não poderia haver estrago maior do que o causado por essa arma...

Mas não é só tiros, não. Expõe a corrupção generalizada e arrasa com a classe média e média alta. O melhor, a meu ver.

Sabem, não tenho raiva nem (muita, he, he) inveja de um Luciano Huck, digamos - esse membro da "elite branca" atacado pela própria, bem como por supostos representantes dos "excluídos" (não existem mais pobres, sabiam?) depois daquela entrevista, do roubo do Rolex. Independente do que cada um pense dele, razão ele tem em ficar com medo e revoltado. E a gente em ficar preocupado. Afinal, isso pode acontecer com qualquer um de nós. Não sei, por exemplo, se o Luciano Huck realmente faz o que diz que faz pelas crianças carentes, com tanta dedicação, por meio de uma ONG numa favela. Imagino que sim, que faça. Bom, não acho que essa seja a questão, nem vou entrar nesse assunto agora.

O fato é que parte dessa elite retratada no filme — só se for elite do ponto de vista da renda, porque intelectualmente é uma negação — realmente é de dar nos nervos.

A parte da discussão universitária parece meio artificial, ensaiadinha demais, mas me lembrou tanto de certas aulas na faculdade... Aqueles universitários de direito fazendo o trabalhinho sobre Foucault. Ah, eu passei por isso. Repetidas vezes. Com 98% de semelhança. Tive que ler essa joça, entre outras. Os coleguinhas, quase todos exatamente como aqueles, tolos, alienados e, também quase todos, consciente ou inconscientemente, de esquerda ou “libertários contestadores do sistema”. Do livrinho chatóide do Foucault, aquele picareta “pós-moderno” francês, entrávamos nas lições de filosofia (risos) de Marilena Chauí. Li, voando, como um médium psicografando textos do Além, muitas piroquetagens modernosas importadas de Paris e da Alemanha. E o discurso em academês do professor? Perfeito.

Só faltou o BOPE entrar em sala de aula. Aquela linguagem seca, o “01, manda descer!”, dentro da faculdade, já pensou?

Dentro disso tudo, a melhor frase foi a do policial para a ex-namorada: "Não se preocupe com seus amigos seqüestrados: os traficantes têm consciência social." Não tinham, lógico, e deu no que deu.

Depois de salvar dois PMs encurralados num morro, o Capitão Nascimento olha para eles e pergunta: “Os Srs. estão feridos? Os Srs. são policiais? Pois agora os Srs. vão aprender a carregar corpo.” Pois é: ou você se corrompe ou finge que não é com você ou entra na guerra.

13 outubro 2007

Vítimas e Vilões

Um dia desses, li surpreso uma carta de Clara Becker publicada no UOL defendendo a honra e a integridade de José Dirceu. Esta senhora é a famosa esposa que ele teve no período em que viveu escondido no Brasil e que, segundo conta a lenda, havia sido abandonada por ele. Ela nega este fato e defende o pai do seu filho, atual prefeito da sua cidade.


A motivação para escrever a carta foi o seu repúdio à invasão da sua privacidade pelo autor de novelas da TV Globo, Aguinaldo Silva, que disse ter se inspirado em José Dirceu e em sua famosa plástica para compor o personagem da novela Duas Caras. Eu diria que este é um ônus por ter sido casada com José Dirceu e ser mãe de um jovem que é seu herdeiro político.

Em certo sentido, para as famílias de uma esquerda brasileira, suas biografias são uma herança que deixarão para seus filhos, que poderão ocupar importantes posições no partido e na vida pública. Uma breve relação de filhos e netos herdeiros das biografias da esquerda começa pelos Genro, Ponte, Arraes e muitos outros.

Uma das melhores coisas do fim da ditadura foi o fim desta relação de vilão e vítima entre direita e esquerda. Hoje, os esquerdistas não são mais aqueles jovens coitadinhos perseguidos pelos militares. Foi-se o tempo da esquerda como vítima. Muitos deles já passaram há algum tempo para o papel de vilões e não têm sequer capacidade para perceber isto. Afinal, eles são como todo mundo e seguem a velha máxima: “democracia é quando eu estou no poder e ditadura é quando eu estou na oposição”.

Será que o Aguinaldo Silva não poderia se inspirar na vida de José Dirceu? Ou será que a Veja não poderia fazer uma reportagem sobre as incoerências entre o idealista romântico Che Guevara e o guerrilheiro pragmático que fazia o que era necessário para assegurar a vitória? Nestas questões, ainda sinto presente na esquerda um ranço de vítima que me parece incompatível com a realidade em que eles são o grupo hegemônico que controla o governo.

Talvez seja intrínseco ao discurso da esquerda o discurso de vítima. É o discurso dos oprimidos e dos desfavorecidos. Acho que mesmo quando eles dominam a cena política eles não conseguem nem querem mudar o discurso de vítima pois ele tem os seus benefícios; mantém um clima de ameaça constante, denuncia o "vilão" sempre a postos, armado e perigoso, e neste "embate" "desvantajoso" no qual posam de fracos arranjam as justificativas para todas suas atitudes e resposta para todas as críticas que recebem. Lula, o vitorioso de duas eleições presidenciais continua sendo a vítima da perseguição dos veículos de comunicação da mídia burguesa que tenta implantar uma ditadura da mídia no Brasil.


Muitos se surpreendem com a alteração dos livros de história da Venezuela ou dos livros comprados pelo Ministério da Educação no Brasil. Não deveria haver surpresa pois os vitoriosos escrevem a história e decidem quem são os vilões e os mocinhos. Para uns, Mao foi um sociopata enquanto que para um petista ordinário ele é o libertador dos chineses.

Vejo nisto traços de totalitarismo. Um vencedor que usa um discurso de vítima. Um partido do governo que quer ocupar o espaço da oposição. Um governo que não quer ser criticado. E homens e mulheres fiéis ao governo cujas práticas se explicam apenas pelo plano de manter o seu grupo no poder custe o que custar.


06 outubro 2007

Tropa de Elite

Amigos, Inimigos e Desconhecidos leitores do Pugnacitas, acabei de assistir a Tropa de Elite, o filme que está na capa da revista esquerdista e governista Carta Capital e simplesmente adorei. Tornou-se absolutamente imperativo uma edição especial do Pugnacitas. Quem nunca olhou para aquelas manifestações de maconheiros pacificistas vestidos de branco e não teve vontade de entrar numa delas distribuindo porrada naqueles hipócritas que financiam o tráfico de drogas?


O Wagner Moura é o melhor ator desta geração. A atuação dele no papel do capitão do BOPE dividido entre a família e o dever é genial. O retrato do Rio de Janeiro é absolutamente fidedigno. A corrupção presente nas menores coisas do dia a dia. O clientelismo que vem desde a Corte Imperial. As panelinhas e o mercado de troca de favores. Para os amigos, os favores, para os inimigos a lei.

Quem conhece o Rio de Janeiro sabe do seu baixíssimo nível de civilidade. Andando pelas ruas, quando se cruza com grupos de pessoas elas não abrem passagem, pelo contrário, quase passam por cima da gente. Mulheres com carrinhos de bebê são como ambulâncias para os pedestres, vão abrindo caminho. Em ambientes AA como clubes de montaria, não deixe o seu jornal desacompanhado pois poderá ser roubado por uma madame.

Meus amigos esquerdistas fãs de José Dirceu consideram a corrupção a suprema arma revolucionária. Para eles, Tropa de Elite é um filme reacionário, pró-tortura e contra os direitos humanos. Eles vêem a corrupção como a prova da inviabilidade da sociedade aberta, individualista e da democracia liberal. Nestas horas, eles se esquecem das tríades chinesas, das máfias russa e cubana, mas tudo bem.

Quando aquela criança de cinco anos foi arrastada por um grupo de criminosos menores de idade no Rio de Janeiro por algumas dezenas de metros durante o roubo do carro em que se encontrava eu não me esqueço das baboseiras ditas pelo Lula, que aquilo era um problema social e que a redução da maioridade penal não teria o apoio do PT. Isto foi bem enfatizado no Senado por Mercadante, que conseguiu enterrar a iniciativa dos Democratas de reduzir a maioridade penal para 16 anos.

Falando em esquerdistas, quem poderia se esquecer de Brizola, um dos mais espirituosos oradores que já vi, que era casado com a irmã de João Goulart? A partir dele, o Estado no Rio de Janeiro perdeu o controle das favelas com a sua política de proibir a policia de subir nos morror. Se bem que o Brizola, comparado a esses caras que estão aí, era mil vezes melhor. Ele e o Darcy Ribeiro pelo menos pensavam em dar educação para o povo, enquanto os companheiros do PT preferem distribuir esmolas. Concluindo, vamos ao lema de Tropa de Elite: “Caveira” ou uma outra frase ótima do filme: “senta o dedo”.

05 outubro 2007

Dissonâncias Cognitivas e Tensões do Dia a Dia

Esta semana tentei prestar mais atenção ao meu corpo, afinal, como dizem alguns filósofos, é a parte mais real de mim mesmo. Reparei surpreso em como fico tenso no trabalho. Na verdade, tenho uma colega que só de vê-la já me crispam o maxilar e os ombros. A tensão que sinto é tamanha que deve ser perceptível.


Então pensei: preciso relaxar. Afinal, se fulana não é legal não é motivo para eu passar o dia tenso. De fato, em retrospecto, mudam os fulanos mas as tensões continuam as mesmas, então a culpa não deve ser deles. No caso desta colega, a tensão se deve a ela ser uma concorrente natural, ter se aliado a um cara com quem eu tive uma discussão, de não gostar de mim e de ser muito espertinha, além de competente.

Mas uma coisa a gente precisa reconhecer: as pessoas têm o direito de competir. E competem com ou sem a nossa autorização. O fato é que passar o dia tenso não muda isto. É preciso aprender a fazer como eles, competir e sorrir. Quando eu vejo o sorriso da tal garota eu sinto três coisas: desconfiança, satisfação pela consideração e um certo alívio na minha tensão. É uma sensação dissonante. Como seria bom sentir-se em harmonia com as pessoas.

A relação com os amigos, por outro lado, também pode ser complicada. Queremos agradá-los e também receber atenção. Às vezes, a ansiedade envolvendo um amigo é tamanha que estressamos. Isto quando não temos algo para provar a ele ou dele não desejamos alguma coisa.

É uma tensão cujo alivio só vem quando o deixamos para então, doentiamente, reexaminarmos os momentos que passamos com ele. É muita neurose para pouco psicanalista. Aí está uma outra relação complicada. Se o analista não se importa não confiamos no cara, se o analista se importa demais ficamos desconfiados de que seja mais maluco do que nós.

Danem-se todos, os inimigos e os amigos, e vamos aproveitar e que se danem também os desconhecidos, a começar por aquelas mulheres assustadoras que ralam a bolsa em você no ônibus. Considerando o tamanho da bunda de algumas delas, bem que poderiam ter retrovisor e pisca-alerta. Como diria alguém, mardita celulite.

Em seus delírios narcisistas os jovens adoram pensar que podem mudar o mundo. A verdade é que o mundo só muda se nós mudarmos primeiro. Senão sempre haverá fulanos - amigos, inimigos e desconhecidos - que nos trarão uma tensão desnecessária. E o que haverá além desta tensão, da respiração ansiosa e dos vazamentos de um inconsciente torturado? Talvez apenas um nada. Se for assim, então pelo menos será alguma coisa.
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