30 setembro 2007

Divagação Erudita

Introdução

Feliz 119!
Dedico este post ao novo membro do Pugnacitas, André Balsalobre, que veio à luz há exatos trinta e um anos, no reveillon do ano 88 da Era da Salvação, iniciada em 30 de setembro de 1888 do falso calendário.

Obviamente, não falo a sério. Entro no espírito de uma brincadeira feita por Nietzsche na data da conclusão de seu ensaio “O Anticristo”, 30 de setembro de 1888, há 119 anos.

30 de setembro é também o dia mundial do traidor, digo, tradutor. Traduttore = traditore, dizem os italianos. A homenagem nasceu do dia onomástico de São Jerônimoooo, padroeiro dos paraquedistas e praticantes de bungee jump e traditore da Bíblia para o latim a partir de manuscritos em grego e hebraico, no século IV d.C..

No dia 30 de setembro de 1452 Gutenberg apresentou o primeiro livro impresso: a Bíblia. Uns setenta anos depois, Lutero, valendo-se do invento do conterrâneo, difundiu pelas populações alemãs milhares de cópias do Novo Testamento traduzido por ele próprio para o alemão (saxão). Celebra-se entre os protestantes a tradução de Lutero como um símbolo de libertação em relação à Igreja de Roma. No entanto, existem várias impressões da Bíblia em alemão anteriores à versão do traditore Lutero, como podemos ler no verbete Versions of the Bible, da Catholic Encyclopedia. Trecho: “Of special interest are the five complete folio editions printed before 1477, nine from 1477 to 1522, and four in Low German, all prior to Luther's New Testament in 1522”.

Segundo os católicos conservadores, o livre exame das escrituras promovido pelos protestantes teria permitido a vulgarização e a profanação da Bíblia pela figura do "caçador de contradições". Segundo eles, as contradições apenas mostram o grave erro em que se incorreu ao dar a cada cristão a possibilidade de ser um exegeta. Como não existem explicações na própria Bíblia para as contradições, seria necessário um intérprete autorizado por Deus para harmonizar as diversas passagens, para explicar as divergências valendo-se da Tradição. A autorização de Deus viria por meio do sedizente sucessor de Pedro: o Papa. Para tais católicos seria muito melhor para a cristandade se os livros ainda fossem reproduzidos manualmente, por copistas.

“Tradição” não significa “traição”, é claro. Mas podemos traduzir a palavra para “prevalência da vontade das facções mais barulhentas e poderosas dos concílios”, “crendices populares consolidadas por gerações”, “sufocamento sistemático de 'hereges' e de inimigos da tradição", necessária esta para futuras interpretações baseadas na tradição.

Caçadores de contradições não faltam. Há milhares de sites Web afora dedicados a denunciá-las. E, como não poderia deixar de ser, outros tantos milhares a refutá-las.

Divagação Erudita

Nietzsche escreveu no supracitado ensaio, referindo-se não à hagiografia católica, como pode parecer ao se retirar o trecho de seu contexto, mas às páginas da Bíblia: “Que me importam as contradições da ‘tradição’? Como alguém pode chamar lendas de santos de ‘tradição’? As histórias de santos são a mais dúbia variedade de literatura existente; examiná-las à luz do método científico na ausência total de documentos corroborativos a mim parece condenar toda a investigação desde suas origens – isso seria simplesmente uma divagação erudita...”

Eu escrevi em determinado ponto do post Elemental, meu caro Watson: “Quero evitar falar desses deuses e do deus bíblico porque já sucumbiram em contradições que envolvem desde mandamentos conflitantes a códigos morais anacrônicos e invencionices descaradas hoje adaptadas pelos exegetas para ‘simbologias’”.

Mas confesso que às vezes me apraz fazer pescaria na Bíblia, fisgar botas revestidas de untuosos plânctons, pneus (hagia pneuma) e outros trastes velhos atirados pelos pais do cristianismo ao já poluído e enturvado lago divino, verdadeiro Piscinão de Ramos em cujas águas milhões e milhões de ignorantes diariamente se banham e contraem as mais diversas moléstias, comumente aquelas que atacam o córtex cerebral, a área do cérebro responsável pela razão.

Então, nesta última hora deste 30 de setembro, faço uma inútil “divagação erudita” sobre uma pescaria que fiz um bom tempo atrás.

Em Jerash

Vocês podem não ter fé em mim, mas no dia 30 de setembro de 1992 eu e um colega de universidade visitávamos as ruínas de Jerash (Gerasa), uma cidade da Decápole Romana, chamada hoje pelos jordanianos de "Pompéia do Oriente", a mesma alcunha dada pelos sírios à Palmira (Tadmor), e naquele local eu, à época um católico “exemplar”, tive meu primeiro contato com uma contradição bíblica, mais precisamente uma impossibilidade geográfica.

Pois bem, estávamos tão extasiados a explorar as preciosas ruínas por tantos séculos esquecidas no deserto, a contemplar a perfeição da pavimentação das ruas, com sarjetas, meios-fios e calçadas, a elegância dos templos e colunatas cujas cores esquentavam-se ao crepúsculo, que perdemos o último ônibus que saía para Amã, onde eu executava algumas pinturas para o Patriarcado de Jerusalém. Cliquem aqui para ver a capa do Livro History of Modern Christianity in the Holy Land, ilustrada com um óleo de minha autoria. As cores estão mortas na reprodução. A torre contra o sol gera uma auréola na Igreja de Mádaba, cidade próxima ao Monte Nebo, camarote do qual Moisés imaginou com pesar os massacres do povo cananeu que se consumavam a poucos quilômetros. Com pesar por não ter sido autorizado a participar, claro. Quem mandou ferir a rocha duas vezes com a vara para que brotassem as águas de Meribá?

O primeiro lugar onde nos ocorreu procurar pernoite foi a igrejinha que havia em Majdal, um dos vilarejos vizinhos, de maioria muçulmana. O padre, um francês, torceu o focinho para o nosso pedido. Por sorte, um muçulmano que passava pelo local parou quando viu os dois estrangeiros e, posto a par da questão, achou que era uma boa ocasião para vender a “grandeza” de sua fé e expor a hipocrisia da concorrente. Insistiu para que o padre nos indicasse algum canto da construção principal ou de seus anexos onde pudéssemos nos recostar até a manhã seguinte. O padre, que em determinado momento parecia disposto a ceder, após a interferência petulante do islâmico recusou-se peremptoriamente a nos dar abrigo. O outro proferiu com voz empostada de muezim que a hospitalidade era um dever do muçulmano e que ainda que fosse no mihrab da Mesquita arranjaria um local para nos abrigar contra o frio da madrugada.

No fim das contas, dormimos na casa dos pais do rapaz, que deram uma pequena festa em nossa homenagem com música ritmada por derbake, sucos, frutas, pães e queijos. Acabamos retornando a Amã somente seis dias depois porque os vizinhos quiseram que dormíssemos também em suas casas para que pudessem exercitar a hospitalidade. Os convites eram feitos ríspida e guturalmente enquanto nos seguravam pelos punhos, impedindo que cruzássemos o vão da porta. De fato, apenas despertávamos sua curiosidade, tanto que na quase totalidade das vezes o preceito da hospitalidade era esquecido tão logo os anfitriões esgotassem as frases prontas em inglês e nós as em árabe...

No terceiro dia, dormimos na casa de um certo Mohammad, cujo inglês era bem aceitável, apesar do sotaque. Durante o jantar falou muito, exaltou a região e sua história, o islamismo e, como não poderia deixar de ser, criticou a fé rival: “Alá não é três, é um!”, “Jesus não é um deus. Ele é um profeta do Islã”. Desatou a listar os erros do livro sagrado dos cristãos e acabou por citar Marcos 5, onde é descrita a visita que Jesus e sua gangue fizeram à terra dos gerasenos: Gerasa, ou Jerash. Para ele, a prova de que Marcos não fora testemunha de episódios da vida de Jesus como a sua prisão no Getsêmani residia no fato de que o verdadeiro autor daquelas linhas ignorava detalhes importantes da geografia da região.

Retirado da Bíblia Católica:

Marcos, 5
Passaram à outra margem do lago, ao território dos gerasenos. Assim que saíram da barca, um homem possesso do espírito imundo saiu do cemitério onde tinha seu refúgio e veio-lhe ao encontro. Não podiam atá-lo nem com cadeia, mesmo nos sepulcros, pois tinha sido ligado muitas vezes com grilhões e cadeias, mas os despedaçara e ninguém o podia subjugar. Sempre, dia e noite, andava pelos sepulcros e nos montes, gritando e ferindo-se com pedras.
Vendo Jesus de longe, correu e prostrou-se diante dele, gritando em alta voz: "Que queres de mim, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Conjuro-te por Deus, que não me atormentes." É que Jesus lhe dizia: "Espírito imundo, sai deste homem!"
Perguntou-lhe Jesus: "Qual é o teu nome?" Respondeu-lhe: "Legião é o meu nome, porque somos muitos". E pediam-lhe com instância que não os lançasse fora daquela região. Ora, uma grande manada de porcos andava pastando ali junto do monte. E os espíritos suplicavam-lhe: "Manda-nos para os porcos, para entrarmos neles." Jesus lhos permitiu. Então os espíritos imundos, tendo saído, entraram nos porcos; e a manada, de uns dois mil, precipitou-se no mar, afogando-se.
Fugiram os pastores e narraram o fato na cidade e pelos arredores. Então saíram a ver o que tinha acontecido. Aproximaram-se de Jesus e viram o possesso assentado, coberto com seu manto e calmo, ele que tinha sido possuído pela Legião. E o pânico apoderou-se deles. As testemunhas do fato contaram-lhes como havia acontecido isso ao endemoninhado, e o caso dos porcos. Começaram então a rogar-lhe que se retirasse da sua região.
Quando ele subia para a barca, veio o que tinha sido possesso e pediu-lhe permissão de acompanhá-lo. Jesus não o admitiu, mas disse-lhe: "Vai para casa, para junto dos teus e anuncia-lhes tudo o que o Senhor fez por ti, e como se compadeceu de ti." Foi-se ele e começou a publicar, na Decápole, tudo o que Jesus lhe havia feito. E todos se admiravam.


Impossibilidade Geográfica

Jesus atravessa o Mar da Galiléia e ainge o território dos gerasenos. Jerash está a aproximadamente 60 km a sudeste do Mar da Galiléia (vejam no mapa e na fotografia ao lado, a partir do Google Earth. Philadelphia é a atual Amã). Mesmo antigamente, o território dos gerasenos era limitado por Pella, também da Decápole, Hippus, Gadara e Raphana, não sendo lindeiro ao Mar da Galiléia - apesar do nome, um lago de água doce.

Jesus expulsa uma legião de demônios de um só possesso e, como bem avaliou Bertrand Russel, ao invés de usar seus poderes divinos para simplesmente mandá-la embora, leva o(s) suinocultor(es) desconhecido(s) à falência - e quem sabe parte da economia da região, pois eram 2000 porcos! A propósito, para quê povos da província romana da Arábia, árabes portanto, que também não consumiam este tipo de carne necessitavam de população suína tão grande? Ordenhavam as fêmeas?* - e permite que os demônios possuam os animais, causando a morte de todos eles. Não parecia ser essa sua intenção inicial mas atende às súplicas dos capetas... E como tudo isto se passa nos domínios de Gerasa, os porcos-lemingues correm mais do que uma maratona para se precipitarem na água.
“A César o que é de César”, teria dito o homem-deus. No entanto, ao autorizar o suicídio induzido de dois mil porcos lesou os cofres de Roma, que tinha direitos sobre parte dos lucros do(s) criador(es) de porcos.

Outro ponto é que não existem precipícios na orla do Mar da Galiléia, quase sempre plana, no máximo os montes que originam as Colinas de Golã, ao nordeste. Precipícios podem ser encontrados mais ao sul, na região do Mar Morto, mas mesmo lá há praias entre os rochedos e a água. Em Marcos os porcos caem diretamente no Mar da Galiléia. Jesus não se importou com a salubridade da água, que servia aos moradores daquelas paragens. Dois mil porcos em decomposição devem ter transformado a água em um caldo bacteriano extremamente nocivo, matando peixes, arruinando pescadores e impedindo os humanos de consumi-la. Não foi à toa que a população escorraçou o Galileu e sua trupe. Pela interpretação de alguns religiosos os habitantes de Gerasa expulsaram Jesus da sua terra por amarem mais os porcos do que a Deus, he he.

Em Mateus 8, 28, lemos:

“No outro lado do lago, na terra dos gadarenos, dois possessos de demônios saíram de um cemitério e vieram-lhe ao encontro. Eram tão furiosos que pessoa alguma ousava passar por ali.”

Agora são dois os endemoniados e Jesus não desembarcou mais em Gerasa mas em Gadara, que distava uns 10 quilômetros do Mar da Galiléia. Pelo menos a chance dos porcos-lemingues morrerem afogados e não enfartados aumenta um pouco no Evangelho segundo Mateus...

Sujo falando do Mal Lavado
Mohammad irritou-se com algumas objeções que fiz. Na época argumentei que aquelas pequenas diferenças eram mais uma prova de que os Evangelhos eram autênticos, pois se o texto de Marcos tivesse sido escrito a partir do de Mateus e não por inspiração divina as informações não seriam conflitantes. Ele disse então que o livro sagrado dos muçulmanos havia sido ditado letra por letra por Alá e que por isso era muito mais confiável do que a Bíblia, “inspirada” e por isso plena de contradições.

Hoje sabe-se que inúmeras outras versões do Alcorão foram deliberadamente destruídas durante os primeiros califados. Em Sana, no Iêmen, encontraram nos anos 70 fragmentos de um Alcorão da metade do séc. VIII que continha passagens diferentes das que vemos na versão atual, o que deveria sepultar a ridícula crença dos muçulmanos de que cada vírgula de seu livro sagrado foi ditada pelo enViado de Alá, o anjo Gabriel, o mesmo que fez o primeiro exame pré-natal em Maria. Mas seria exigir demais dos pobres muçulmanos. Quando ouvem falar dos manuscritos de Sana dão as explicações Ad Hoc de qualquer religioso fanático: "aquilo foi plantado pelo Shitan (diabo) para confundir os crentes".

Não quero perder meu tempo pescando no imundo charco do Alcorão. Minhas “divagações eruditas” não descem tão baixo...

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* - update: Certamente havia uma boa quantidade de romanos e de povos helenizados na região, ainda mais na Decápole, e não viam problemas em desfrutar de um bom lombinho assado de vez em quando. Infelizmente sem as rodelas de abacaxi, afinal os fenícios, caso tenham estado na América antes de Colombo, esqueceram-se de carregar para a Síria mudas da preciosa bromélia.

27 setembro 2007

República Popular do Brasil

Em 2022, na comemoração dos 200 anos da independência política em relação a Portugal, estaremos comemorando os 20 anos da chegada ao poder do Partido dos Trabalhadores. O Brasil terá então sofrido algumas mudanças em direção à democracia socialista, com novas atribuições do Estado, cuja estrutura política decorrerá de uma Constituinte que terá acontecido entre 2010 e 2020.


Para começar, o Brasil deixará de ser uma federação e o poder central terá sido consideravelmente ampliado em detrimento das oligarquias regionais. O Senado terá deixado de existir, juntamente com a federação, e os Estados se tornarão unidades administrativas com menor autonomia. Retornaremos ao sistema getulista.

Com o fim do Senado, o Congresso passará a ser unicameral. Além disso, terá então sido implementada a lista fechada. Os cidadãos votarão nos partidos, que nomearão os deputados de acordo com a lista definida pela Executiva do Partido. Os parlamentares que votarem contra decisões da Executiva perderão o mandato. O PT continuará como principal legenda de uma ampla coligação da esquerda e de alguns partidos clientelistas.

Lula deixará a presidência e passará a ser o secretário-geral da Executiva Nacional do Partido dos Trabalhadores. Juntamente com os demais membros da Executiva escolherá os membros da bancada do partido no Congresso, cujo maior partido certamente será o PT.

O Estado se imiscuirá nos grandes projetos do setor privado por meio de PACS. Caso um projeto do setor privado não estiver incluído no PAC será um código para que não haja apoio de órgãos do governo ao projeto. Para garantir a colaboração dos órgãos da administração, todos eles serão dirigidos por companheiros do partido, cuja indicação passará pelo Gabinete Civil da Presidência e cuja permanência dependerá da assiduidade no pagamento da contribuição para o partido. Haverá então mais de 100.000 filiados em cargos de confiança gerando uma expressiva receita para o partido, que finalmente realizará o seu sonho de instalar um diretório em cada um dos 5.000 municípios brasileiros.

O Brasil fará uma aliança militar com a Bolívia, Argentina, Venezuela e Cuba para a defesa mútua das democracias socialistas. Os militares e policiais brasileiros farão cursos de aperfeiçoamento e desenvolvimento em Cuba e na Venezuela, sendo que o Ministério da Justiça será sempre dirigido por um membro da Executiva Nacional do Partido. A ABIN será reformulada e ampliada, passando a ser dirigida também por um membro da Executiva.

Os brasileiros que não estiverem satisfeitos com o estado geral das coisas emigrarão para os Estados Unidos, Canadá ou para a Europa. O país perderá um pouco de mão-de-obra qualificada, que será substituída por cubanos também muito bem educados. Aliás, para garantir a qualidade da educação, a autonomia das escolas particulares será sensivelmente reduzida e os livros didáticos sofrerão amplas revisões para garantir que as lutas sociais recebam o destaque que merecem.

A Globo então já terá abandonado qualquer crítica ao governo, em troca de mais propagandas e financiamentos do BNDES, e a TV do Executivo apresentará uma série de programas educativos e informativos sobre as ações do governo. Com isto estará eliminado o risco de uma ditadura da imprensa. A Marta será embaixadora do Brasil em Paris, onde não causará mais estragos ao partido, e o Jacques Wagner será presidente da Republica. Nossa bandeira sofrerá leves alterações; continuará verde mas terá acrescida uma estrela vermelha, e a divisa mudará talvez para Liberdade e Eqüidade.

Leia também o post Brasil 2022, de quando eu não tinha uma bola de cristal.

21 setembro 2007

A xícara de chá quebrou

Há uma frase de Auden, de um poema dos anos 30, que contém tudo o que eu gostaria de dizer neste post: “a crack in the tea cup opens a lane to the land of the dead”. A tradução é chata. A melhor palavra para crack seria racha, mas soa mal em pelo menos dois sentidos. A frase, em inglês, à parte a harmonia maravilhosa (“opens a lane to the land” é o fino) não tem uma palavra latina, corre em monossílabos e dissílabos, o que lhe dá uma dureza perfeita para contrastar com a imagem aparentemente suave da morte do conteúdo. Mal traduzida, mas literalmente: “A racha na xícara de chá abre uma vereda para a terra dos mortos.”

A xícara de chá representa a velha ordem do Império Britânico e de suas classes dominantes. A rachadura, a quebra dessa ordem, abrindo a vereda (a base da aristocracia, de títulos e de dinheiro, dos ingleses, é o campo) para as hecatombes de 1914 e 1939. A xícara de chá há muito foi arquivada na cristaleira. Hoje a Coca-Cola é o que já está rachando e, com ela, o cálice papal e outros utensílios domésticos vendidos às velhas gerações como inquebráveis. Pois Auden pegou foi o momento exato da quebra, que ainda estamos vivendo e que parece, estranhamente, institucionalizado. Nossa civilização lembra aqueles quartos horríveis onde agora põem as pessoas à morte nos hospitais. Tudo no corpo da vítima, já morta para efeitos práticos, é controlado eletronicamente. O moribundo vai se arrebentando aqui e ali. O “sismógrafo” registra a quebra. Entra alguém e tapa o buraco. A agonia se prolonga.

Mas nosso organismo, para ficar na imagem médica, não decai como um todo. Partes dele tentam sobreviver, rebelam-se, mantém uma exasperada vida própria, resistindo. Quem esperava a Igreja Católica refletida por João XXIII? Nem Olavo de Carvalho nem eu. Só o totalitarismo da Igreja, sedimentado em séculos e sugerindo uma ilusória coexistência de opiniões diversas — assim como alguns prédios velhos parecem ter em cada canto uma arquitetura única diferente do conjunto — só o totalitarismo preservou a fé institucionalizada (a fé de cada um é outra conversa, infinitamente variável) em face do furacão do materialismo, onde, no mínimo, três “bestas” apocalípticas são visíveis: Darwin, Marx e Freud. João XXIII achava que o melhor do crisitianismo, o respeito ao indivíduo, o desprendimento de coisas materiais, a caridade, etc, poderiam influenciar o pensamento moderno, e resolveu abrir a porta para esse cavalheiro. Foi o mesmo que convidar um leão a entrar na arena.

Depois de 44 anos de stalinismo, alguém esperava a Primavera de Praga? Nem o Departamento de Estado dos EUA nem eu — o primeiro só descansou quando a URSS restabeleceu a “verdadeira” democracia na Tchecoslováquia. Tão ou mais preocupados do que os burocratas do Kremlin com aquela revolução estavam os americanos. Já pensaram no efeito de um socialismo democrático na Europa Ocidental e no resto do mundo, àquela época? O que deteve o comunismo não foi o anticomunismo bestialógico, hoje exemplificado de maneira grotesca em um Olavão, mas o medo da classe média de uma tirania de partido único.

Os velhos sistemas racharam de vez, como dizia Auden. Não tem conserto, mas curiosamente ainda está para acontecer o desabamento. Talvez por isso os mandarins do pensamento antigo acreditam que vão sobreviver, melhorando e reformulando suas receitas de salvação. Os católicos mais progressistas acham que o pensamento moderno é um tigre de papel, domesticável. Ou, na pior das hipóteses, capaz de ser fundido com o cristianismo. É possível, mas improvável. Toda a filosofia moderna destina-se a demonstrar o caráter finito do homem, sua prisão dentro do corpo. Cumprida a nossa sentença na Terra, acabamos. Nem mesmo a idéia de uma ordem cósmica, no sentido idealista, resisitiu a Einstein, que, depois, talvez chocado com as implicações do que descobriu (à maneira de Darwin), passou o resto da vida tentando refutar-se a si próprio, inutilmente.

Não deixa de ser irônico que tanta gente genial tenha se esforçado tanto para convencer-se e convencer-nos de que somos umas porcarias, válidos, lúcidos e inseridos no contexto por uns meros 60 ou 70 anos.

O velho cristianismo dizia o contrário: isso aqui é uma porqueira, mas se a gente agüentar firme, com fé, sem revoltar-se, vai sem escalas para o paraíso eterno. Os jovens católicos e outros progressistas (ou esquerdistas) da Igreja estão certos, naturalmente, quando dizem que essa imagem de cristandade serviu de pretexto para que os ricos explorassem os pobres crentes que iriam à forra no além. Um dos motivos principais das perseguições de revolucionários franceses, russos e outros à Igreja era exatamente esse. Esse também era o motivo do sucesso da Igreja tradicional junto às camadas dirigentes, as quais, na hora da morte, pediam perdão pelos seus pecados terrenos.

Claro, estou fazendo uma caricatura. Todo mundo sempre acha que está fazendo o bem. Qualquer teólogo pode produzir 300 textos “antigos” da Igreja contra a exploração do homem pelo homem (e os materialistas outros 300, onde a posição se inverte). Culturalmente, porém, o divisor de águas entre a nova e a velha Igreja é a militância social. Nenhum católico progressista ou moderno admitiria dizer hoje, como São Paulo: “Os senhores poderão ir à igreja acompanhados de seus escravos.” Os católicos do tipo Olavo de Carvalho, por sua vez, nem deixariam os escravos entrarem.

Algumas pessoas acreditam que uma das conquistas revolucionárias do cristianismo foi a conceituação da inviolabilidade do indivíduo, a valorização por igual de todas as almas perante Deus. Paradoxalmente, ao mesmo tempo que rejeitava como transitória a vida neste vale de lágrimas, defendia essa vida para todos os homens, sem distinções, condenando inclusive o direito ao suicídio. De qualquer maneira, só quem conhece História sabe o tournant que esse pensamento representou no destino humano.

Não estou sugerindo que o cristianismo fosse cumprido à risca em qualquer época. O darwinismo, antes de Darwin postulá-lo, é que sempre foi a lei da Terra. E não raro manipulado pelos mentores do próprio cristianismo “pela maior glória de Deus”, slogan que um comunista do passado converteria para “em defesa da revolução proletária”. Por trás do blá, blá, blá, naturalmente, processava-se a sobrevivência dos mais aptos. Mas, dizem, o cristianismo fincou a idéia da inviolabilidade do ser humano, ao menos na consciência das chamadas minorias esclarecidas. Mesmo os humanistas ateus e materialistas que o combateram como corrupto, esclerosado e inconsistente com a realidade do mundo, a partir do Séc. XVIII, teriam aceitado a premissa cristã do direito individual, que inexistia (?) na Antigüidade.

De qualquer maneira, em nosso tempo é que houve uma curiosa reversão. As ideologias modernas põem um abstrato bem coletivo acima do indivíduo. Os maiores crimes, de Hitler, Stalin, Pol Pot e o diabo lá sabe quantos mais, foram e são cometidos em nome dos ideais exaltados da democracia, do comunismo e da herrenvolk (os nazistas, a bem da verdade, eram mais sinceros do que os outros em seu darwinismo, botando pra quebrar em benefício próprio, escancaradamente). Há nisso também um paradoxo. O materialismo declara finita a vida do homem na Terra. E, no entanto, os ideólogos do salvacionismo pela política acham justo o sacrifício de milhões de indivíduos — sem vida eterna — em favor de uma hipotética sociedade justa no futuro. Há método nessa loucura, mas loucura é.

George Orwell está certo quando diz que ideologias, filosofias e crenças de toda espécie perdem todo e qualquer sentido se desacompanhados de um respeito decente pelo próximo. A opção, em última análise, tem de ser moral. A pergunta que nos devemos fazer é: você gostaria de ser tratado como milhões de seres humanos são tratados por aí? Ainda que pela “maior glória” do Deus que você adorar?

Quanto maior a repressão ética, maior a violência repressiva de seus proponentes, como se a grandeza dos fins exigisse uma baixeza equivalente dos meios usados para alcançá-la.

A meu ver, nada disso mais dá pé. Por exemplo, duvido que uma “nova” igreja, mesmo moderninha, volte a interessar à maior parcela pensante da humanidade. Quanto ao padre sujo, de batina puída, de pasta corroída, onde se encontra o mapa do Céu, que ele nunca nos mostra, preferindo descrever a planta do inferno, esse já era. Aliás, porcaria e moralismo, se não são inseparáveis, dão-se muito bem. O odor da “santidade” de São Jerônimo, cuja intolerância do gênero humano fez com que ele impedisse sua mãe de vê-lo quando ele estava à morte, tornou-se um caso clássico da psicanálise. Essa relação do homem com detritos, seus e externos, é uma forma de expressão sexual, segundo Freud. Esse item do conhecimento já deve ter entrado nos seminários depois que João XXIII levantou a tampa do sarcófago, mas no passado ainda se admirava São Francisco de Assis provando cocô de burro (relutantemente, diga-se em favor dele), como punição por suas insignificantes transgressões monásticas.

E duvido que reformem o socialismo, seja lá o que isso signifique, bem como qualquer outra utopia. E, muito menos, o establishment norte-americano vai se corrigir. Vai é manter ilesa sua estrutura, como deseja a plutocracia esclarecida dos EUA. A economia americana é mais ou menos igual a imperialismo. Exige uma crescente expansão imperialista. Ponto final.

Sem falar que certos lugares estão acordando. Para ficar num só: a Rússia está renascendo, aos trancos, como de costume, mas está.

Os antigos sistemas pifaram. Muita coisa feia ainda vai acontecer. Nossa década talvez ainda seja lembrada como uma calmaria igual àquela que quase destamancou o Pedro Álvares.

18 setembro 2007

Lições Hollywoodianas

Outro dia eu estava assistindo a Jornada nas Estrelas, a 18ª geração ou sei lá. Que saudades do capitão Kirk e do velho Spock. Neste episodio, a nova tripulação enfrentava uns tais Borgs, seres meio humanóides e meio máquinas cujas mentes estavam ligadas a uma rede chamada de "Coletividade". Não podia ser tão óbvio; os mocinhos estavam lutando contra um regime socialista e totalitário onde as individualidades haviam desaparecido! Que lição mais proveitosa para as criancinhas. Ali já estava presente o incentivo ao individualismo e o culto ao mérito, que encontra seu ápice nos super-heróis.

Falando neles, temos o Super-Homem, um extraterrestre de Kripton que acaba se tornando o melhor dos americanos. Existe um monte de Super-Homens nos EUA, estrangeiros literalmente vindos de lugares que os americanos nem imaginam onde ficam e que acabam se tornando o sal da terra da América. Muitos deles são filhos de elites de todo o mundo que não vêem possibilidades em seus países e acham que seus filhos terão mais oportunidades em um país que valorize o mérito e o esforço individual.

Os americanos são obcecados pelo sucesso. Tudo começa na escola, como já vimos em milhares de filmes de "High School". Aparentemente, na escola deles ocorre uma estratificação dos alunos em grupos definidos por suas habilidades. Temos os intelectuais, que amanhã podem ir trabalhar no Vale do Silício, as patricinhas, que podem ser tornar modelos, atrizes ou casar com homens ricos; temos os atletas, que podem se tornar jovens milionários; temos os debatedores, que podem vir a ser líderes de alguma coisa, políticos ou jornalistas. Mas o grande valor parece ser sempre o inconformismo com o grupo e a busca pela inovação. A necessidade de acreditar em si mesmo, não ser apenas mais um, de trabalhar e não ser um "loser".

Infelizmente, ninguém consegue ser tão especial e tão invencível exceto os Jason Bournes e o policial de Die Hard, que teve ter uns 8 litros de sangue no corpo. Afinal, são homens aparentemente normais que escondem uma determinação implacável e uma capacidade incrível de suportar a dor. Estes filmes são verdadeiras catarses. Curiosamente, são heróis solitários, livres da busca neurótica pela companheira perfeita.

Mais uma vez, tudo culpa de Hollywood. Ainda sou apaixonado pela Branca de Neve, embora hoje prefira a Trinity de Matrix; podemos revivê-las com um beijo. Considerando-se as balas perdidas de nossa perdida guerra civil, seria um boa habilidade de se ter em uma companheira... Esperar a perfeição em alguém é tão injusto quanto esperá-la em si mesmo. Como se depreende da Bíblia, a partir do simbolismo do pecado original, somos seres essencialmente falhos e destinados a não durar....dust in the wind.

A liberdade é o maior valor para os americanos e vale tudo em Hollywood para exaltá-la. Quantos filmes falando da Guerra da Independência e quão poucos sobre a conquista de metade do México. Quantos filmes sobre a paranóia do cidadão contra o Estado e suas elites políticas, que sempre conspiram pelo totalitarismo. Para eles é melhor morrer livre do que viver como um escravo. Em outros, é melhor morrer rico do que viver pobre...

14 setembro 2007

Quem Planta Vento...

Depois que eu soube da salvação de Renan Calheiros prometi a mim mesmo que não falaria no assunto. Surpreendentemente, ninguém falou nada até a hora do almoço, quando um amigo sugeriu que melhor seria acabar com o Senado. Não resisti. Disse-lhe que isto era idéia de um petista de terceira categoria...

Mais tarde, eu estava assistindo à Roseana Sarney, líder do governo Lula no Senado, comentar que o governo não terá dificuldade em aprovar a renovação da CPMF pois terá maioria, assim como teve maioria para salvar Renan Calheiros. Confesso que fiquei um pouco surpreso com a afirmação. Afinal, o Lula se deu ao trabalho de arranjar um álibi viajando para a Escandinávia para tentar convencer os analfabetos funcionais que não tivera nada a ver com a salvação de Renan Calheiros.

O engraçado é que poucos anos antes a senadora Roseana disputava para ser lançada pelo PFL como vice-presidente na chapa do PSDB à presidência, que seria encabeçada pelo Tasso Jereissati. Como todos sabem, uma operação deflagrada pelo setor paulista do PSDB revelou a existência de uma fortuna em espécie na empresa do marido da senadora, supostamente arrecadado para despesas eleitorais, enterrando as suas chances. Hoje, talvez aquela pilhazinha de dinheiro não resultasse em nada.

Lembro-me bem que no Senado houve um confronto entre o papai Sarney ultrajado e um ilustre senador do PSDB. Os discursos foram inflamados e surgiu uma mágoa terrível que levou os Sarney a se tornarem aliados de primeira hora do Lula e do PT. O mesmo Sarney que era presidente do PDS, o partido que sucedeu a ARENA. Uma magoa e um admirável instinto de sobrevivência e oportunidade transformavam o velho Ribamar de lambe-botas de generais no senador da confiança de Lula e do PT, até mesmo para a eventualidade da sucessão de Calheiros.

Os americanos gostam de dizer que um homem pode fazer a diferença. Dizem que foi o que ocorreu ontem na votação da cassação de Renan Calheiros, quando Mercadante supostamente conseguiu que seis senadores do PT votassem em branco em uma votação secreta. Ato de uma covardia extrema: abstenção em uma votação secreta. Um ato digno de um Mercadante, que defendeu que o extrato do cartão de credito corporativo da presidência era segredo de Estado e que enterrou a proposta de redução da maioridade penal para 16 anos, além do escândalo do dossiê.

Depois dessa, acho que o Lula já pode perdoar o Mercadante por ter tido seu assessor envolvido na compra do dossiê fraudulento contra o Serra e que praticamente tirou a vitória de Lula no primeiro turno da reeleição. Mas o Lula só pôde ser reeleito porque o FHC semeou a reeleição e a CPMF só poderá ser renovada porque o PSDB a inventou para “salvar a saúde”.

Como já disse o Lula: “Política e pôr a mão na merda”. Para isto, o PT parece estar bem servido pela senadora Ideli Salvatti, sua líder no Senado. Além de horrorosa e truculenta, ela é uma lutadora incansável pelas causas mais imorais do partido, que vão desde o Mensalão até a salvação do Calheiros. Se houver um céu para os socialistas ateus ela certamente irá para lá pelos seus sacrifícios pelo partido e pela causa.

Lembro-me das afirmações inocentes de jovens feministas, que diziam que a mulher era naturalmente mais honesta que os homens e que em um mundo dominado por elas sequer haveria guerras. Só posso rir e lembrar que a líder do governo do Senado, a líder do PT no Senado, a Marta “Relaxa e Goza” Suplicy e para não mencionar a sucessora do Jose Dirceu, são todas mulheres e o mundo não se tornou mais honesto nem mais harmonioso (a resposta que fica implícita no post “Todo Poder às Mulheres"). Não podemos nos esquecer da velha ex-senadora Benedita da Silva e da viagem oficial para rezar na Argentina. Coisinha boba pelos padrões vigentes desta administração.

E o PT ainda tem coragem de falar em Reforma Política para moralizar o sistema? O problema destes caras é que tudo começa cheio de boas intenções para terminar na velha jogada de mudar o sistema político de forma a favorecer o seu partido. Todos já fizeram isto: os militares, o PSDB, o Chávez, e chegou a hora do PT tentar a sua Reforma Política.

Para os petistas a “democracia” se faz dentro do partido pelo seu centralismo democrático que escolhe o Diretório e a Executiva Nacional do Partido. A bancada eleita pelo povo é apenas um órgão subordinado da Executiva Nacional. Para eles, o debate deve ocorrer dentro do partido entre os pares de cada órgão do partido. Para eles, o Congresso é o lugar onde se trocam favores, cargos, emendas no orçamento e postos estratégicos em estatais com grandes orçamentos de investimento para se atingir os fins propostos pelo partido. Será que alguém acredita que um partido que tem esta práxis democrática vai propor alguma coisa capaz de melhorar o funcionamento da nossa democracia representativa?

Mas não se enganem, ontem, o que foi salvo não foi apenas o senador Renan Calheiros, velho companheiro de Collor, que aliás se manteve muito discreto neste episódio e deve ter votado em favor de Calheiros por uma questão de princípios. Ontem se salvou o governo Lula da fúria de Renan Calheiros. Afinal, se as revelações de Roberto Jefferson quase levaram Lula ao impeachment, imaginem o que as revelações de um Renan Calheiros poderiam fazer!

Este é um momento em que precisamos renovar nosso voto de confiança no Congresso e na democracia liberal e representativa. Não podemos permitir que este ato praticado por uma maioria construída pelo governo do Lula e pelo PT em troca de todos os tipos de favores possa abalar nossa fé na necessidade de haver uma instituição aberta, transparente e representativa de toda a sociedade. Enquanto isto, vamos torcer para que o PT entenda que na democracia quem tem voto tem voz e quem não tem, mesmo se for da Executiva Nacional, deve ficar quieto e deixar os representantes do povo tomarem as decisões.

12 setembro 2007

A Teoria do Mico Amestrado Telepata

Outro dia fiquei feliz em conhecer um economista marxista assumido. A maioria não consegue sair do armário, diz-se pós-keynesiana. Ele, além de assumido, participa de um Grupo de Estudos Marxistas e é um interlocutor de um bom nível. O engraçado foi quando o assunto chegou ao Lula e ele me disse que o presidente “é vítima dos nove ditadores do Banco Central”, que o manipulariam e o impediriam de baixar a taxa de juros.

Não é a primeira vez que ouvi essa idéia de que o Lula não passa de um mico amestrado e facilmente manipulável, então decidi fazer um breve histórico dessa tese. Na primeira vez que a ouvi o general Golbery do Couto e Silva, no período militar, teria poupado o Lula porque haveria um programa da CIA que visava tentar selecionar um líder sindical não-marxista e com baixa capacidade intelectual. Lula teria sido selecionado neste programa.

A versão seguinte desta teoria e que prevaleceu até o Mensalão ou depois é a de que o Lula passou a ser controlado por um grupo de ex-guerrilheiros esquerdistas liderados pelo José Dirceu, que decidiram usar o seu carisma de bom selvagem e o orientaram para que se tornasse o líder operário do Partido dos Trabalhadores.

Em oposição a esta tese temos o testemunho do Frei Betto, ex-assessor palaciano e consultor espiritual do presidente Lula, que teria dito que o presidente, apesar de não ler livros, conseguia ler pessoas, era quase um telepata. Tratar-se-ia então de um ser profundamente intuitivo. Mais um pouco e ele poderia ser recrutado como um dos mutantes do professor Xavier. Conversando com uma senhora idosa que foi vizinha da fábrica da Volkswagen no ABC, ela me disse que conheceu o Lula nos velhos tempos e que ele teria realmente um carisma pessoal incrível.

Encontrar um ponto de consenso nesta questão talvez seja impossível. Mais fácil é entender o Lula governante, porque tudo de bom é feito pelo governante e de ruim é assumido por algum subalterno maldoso e traidor. No caso do Mensalão, por um obscuro professor e tesoureiro do partido. Estas criaturas não têm o benefício da dúvida, são logo expulsas do partido e tornam-se traidores das suas causas. Este é um grave vício platônico de que sofre a esquerda, tradicionalmente utópica e idealista. As idéias são perfeitas; se não dão certo é culpa do indivíduo. Se não dão certo dez vezes é porque nunca foi feito direito.

Felizmente, a antropologia tupiniquim já superou estas questões. Afinal, para ela, se alguém se vê como indígena e é reconhecido como tal, então ele é indígena e pode virar latifundiário no Brasil. Nesta acepção, a identidade socialista da qual se imbuem os membros do PT, especialmente nos seus Congressos, pertence a eles e não lhes pode ser retirada por seus fracassos.

Acho que aí teríamos que formular a teoria do hímen complacente dos idealismos, onde a pureza dos ideais permanece apesar de todos já terem se F.... Pensando bem, acho que é tudo culpa do Platão. Quem mandou ele criar este mundo das idéias perfeitas de onde os idealismos são filhos bastardos? Daí, basta juntar ao idealismo doses generosas de narcisismo para podermos explicar grandes desastres da história da humanidade como o nazismo e o socialismo.

06 setembro 2007

Individualidade, Identidade e Identificação

O individuo é uma criação das grandes religiões monoteístas como o cristianismo e o islamismo. Antes destas religiões prevalecia a lógica tribal. Na Arábia, se houvesse um assassinato, a tribo à qual pertencia a vitima poderia se satisfazer com o assassinato de alguém da tribo do assassino. Isto parece estar também refletido na Lei de Talião.

Estas religiões adotaram a idéia egípcia do julgamento final de Osíris, onde o coração deveria pesar menos que a pena da deusa Maat para que se pudesse ir ao paraíso. Desta forma, a consciência individual estaria em julgamento e não mais sujeita ao destino tribal.

Com a crescente urbanização destas sociedades e a dissolução dos laços tribais, o surgimento das hiper-tribos dos irmãos no islã e em Cristo, juntamente com a questão do julgamento individual, criou as amarras para que o individuo fosse julgado por suas ações. Talvez Freud dissesse que aí surgia o superego.

A psicanálise diria que a idéia de individuo é uma ilusão porque este seria um amálgama entre identificações e uma sucessão de desejos dentro de um eixo de busca de prazer e fuga da dor. Não obstante, do ponto de vista legal, a maioria das pessoas não pode alegar que cometeu um crime porque tinha um desejo que não tem mais e portanto o desejo é que deveria ser punido.

Na Igreja Universal eles chamam isso de demônio. Assim, o individuo, ou talvez como diria um psicanalista, o subjeto foi possuído por um desejo e fez o ato sob sua influência. A Opus Dei talvez recomendasse o cilício, para manter a pessoa a salvo de certos desejos.

Pessoalmente, acho engraçado que nossas novelas tenham sempre um indivíduo mau que quando sobrevive ao assassinato infalivelmente fica louco. Para mim, é um tanto decepcionante ver o mau se desfazer na loucura, inventada ou real.

Os indivíduos têm várias identidades, ou seja, gênero, idade, grupo social, nacionalidade, posição política, e, dependendo da situação, utilizam uma destas identidades ou ela aparece e mecanicamente se impõe. Quando uma identidade se impõe temos uma identificação, ou seja, uma reação automática que traz um personagem supostamente mais bem adaptado a uma situação.

Este mecanismo onde uma identidade assume chama-se identificação, e contraria o funcionamento orgânico do indivíduo, que não decide qual personagem adotar em uma situação. Neste sentido, não há decisão, não há juízo e, portanto não pode haver julgamento. Filosoficamente, se não existe um indivíduo que toma a decisão então talvez não haja nada. Talvez, o indivíduo só comece a existir quando algo tome a decisão. Antes disso, somos apenas uma ilusão.

03 setembro 2007

Irmãos, Compadres e Companheiros

Acredito que a corrupção no Brasil seja resultado da ação de redes clientelares desde a colônia até a República dos Sindicalistas. Acredito que estas redes clientelares sejam os agentes de algumas elites para sua perpetuação de forma autoritária e ilegal no poder. Como se diz por aqui: “Aos amigos tudo, aos inimigos a lei.” Na colônia, aqueles que tinham uma relação de pertencimento ou obrigação se chamavam compadres. Os pertencentes à mesma igreja se chamam irmãos. Os petistas se chamam de companheiros.

Outro dia, o Lula disse que era preciso agradecer a ele a valorização das ações da Bovespa e que aqueles que mais o criticavam eram aqueles que mais ganhavam com o seu governo. Esta afirmação é um tanto narcisista, mas também trai uma visão clientelista e totalitária do papel do governante. Aparentemente, o governante espera aplausos em troca de favores. Isto não é democrático, pois a ação do Estado no interesse público não pode ser vendida em troca de favores a alguns particulares, pois isto é corrupção.

Talvez este seja o problema da nossa frágil civilização latina e tropical, talvez aí esteja o papel didático da propriedade privada; se ao menos aprendêssemos a respeitar o que pertence ao outro, então talvez aprendêssemos a valorizar o que é nosso e um dia talvez até consiguíssemos respeitar o que é de todos. Infelizmente, prevalece a visão de que o que é de todos é de ninguém, e o sonho da maioria dos filhos desta terra, dos governantes até dos mais miseráveis, é apropriar-se daquilo que não pertence a ninguém. Esta é a tragédia do nosso socialismo caboclo, onde o bem público repousa sobre o vácuo.

O Mensalão é fruto desta confusão e desta tradição histórica da elite governante pôr a seu serviço uma ampla rede clientelar, neste caso os companheiros, que ocuparam os cargos de confiança e privatizam os meios do Estado em prol do projeto de poder desta elite sindical. Neste contexto, nada mais natural que o ministro chefe do gabinete civil, o braço direito e esquerdo do presidente, fosse denunciado e esteja sendo julgado pelo STF por estes crimes. E tudo graças ao Judas Roberto Jefferson!

Na visão de FHC, este apóstata do marxismo, a solução para o Brasil é reduzir e enfraquecer o Estado de forma a retirar estas redes clientelares do seu seio. Desta forma, estaria se combatendo a corrupção e possivelmente se ajudando a nossa civilização tropical a melhorar esta relação doentia entre o público e o privado.

O capitalismo, apesar de centenário e de permitir a organização da produção de uma sociedade complexa de forma bastante eficiente, é algo difícil de ser compreendido pela psiquê das pessoas. O lucro desperta emoções como desejo, culpa e inveja. Estas emoções geram um mal-estar que alguns políticos sabem manipular em seus discursos e o capitalizam em prol dos seus interesses.

O capitalismo na nossa sociedade tropical, assim como a democracia, é difícil de ser aceito em meio a estes velhos hábitos autoritários coloniais de usar redes clientelares para se sobrepor à lei e se apropriar de recursos materiais públicos e privados para o projeto de poder da elite de plantão. O liberalismo e a delimitação mais clara da esfera de atuação do público e do privado nos serviriam melhor do que este socialismo caboclo.
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