30 agosto 2007

Ave Serra

O Brasil está perdendo a melhor chance de crescimento dos últimos 30 anos. Na década 80 não crescemos devido à inflação e à dívida externa. A inflação foi estabilizada pelo Plano Real, a dívida externa deixou de ser um problema com os saldos da balança comercial "turbinados" pela valorização de commodities (efeito China). Na década de 90, o Brasil cresceu menos que o mundo devido às enormes taxas de juros do Plano Real. A partir de 2001, o Federal Reserve, como reação ao choque do atentado de 11 de Setembro, promoveu uma enorme redução das taxas de juros, que foi seguida pelo Brasil. Então, por que não crescemos mais que o mundo?

O meu palpite é incapacidade do Lula e do PT em ser minimamente eficientes na gestão e absolutamente incapazes de promover as reformas necessárias para o crescimento do país. Afinal, temos um território grande, uma população relativamente jovem, abundância de recursos naturais e sobra dinheiro para investimento no mundo.

É nestas horas que eu me lembro que poderia ter votado no chato e careca do Serra. Ele não teria perdido esta chance. Ele teria sido um gestor eficiente e teria tratado das reformas que atrairiam os investimentos necessários. Mas ainda não é tarde, quem sabe o Moon-Rá não decide concorrer à presidência em 2010. Então, talvez ele retome uma agenda de reformas que possa aumentar a produtividade e competitividade brasileiras, tornando o país apto a competir pelos investimentos internacionais e crescer mais.

Uma das teorias econômicas diz que para haver crescimento tem que haver investimento em setores que tenham uma produtividade mais elevada. Infelizmente, o governo Lula usa os impostos para retirar recursos de setores de alta produtividade e dá-lo a setores de baixa produtividade, como é o caso do setor público.

No Brasil, muitos jovens sonham com um emprego público, que paga melhor que o setor privado, trabalha-se pouco e tem-se estabilidade. E se, para completar, o governo ainda gerencia mal a máquina, colocando apadrinhados políticos despreparados em cargos de chefia, então os escassos recursos dos impostos são investidos no consumo da "burguesia de Estado", sem nenhum retorno para a sociedade.

Se o país quiser crescer mais que o mundo e aspirar a se tornar um país relevante, então a sociedade precisa ter um consenso em torno do que é necessário. De minha parte, vou sugerir algumas medidas que poderiam ser implementadas por um governo Serra a partir de 2010.

1) Política Salarial dos Servidores Públicos vinculada ao poder de decisão, à complexidade da atividade e à formação requerida, ao invés do poder do sindicato da categoria ou do orçamento do órgão onde se trabalha;

2) Fim do Regime Jurídico Único, conjunto de privilégios dos servidores públicos que contribui para torná-los menos produtivos que os trabalhadores do setor privado, passando-os para os mesmos direitos dos trabalhadores do setor privado;

3) Extinção da aposentadoria integral para servidores públicos e a criação de um teto igual ao dos trabalhadores do setor privado. Não tem sentido um servidor público se aposentar com um rendimento dez vezes mais alto que o do setor privado e que vá ser financiado pelos trabalhadores desse setor, que ganham muito menos, trabalham mais e por muito mais tempo;

4) Criação de um teto de arrecadação de impostos limitado a 33% do PIB, permitindo que as empresas e as pessoas decidam como aplicar 66% da renda produzida por elas;

5) Proibição do governo de gastar mais do que arrecada, pois estes gastos terão que ser pagos com emissão da dívida, que terá que ser paga pela próxima geração, que não se beneficia com o consumo da geração atual;

6) Proteção dos investimentos por meio de agências reguladores fortes, profissionais e eficientes, e, desta forma, viabilizando os necessários investimentos em infra-estrutura;

7) Privatização das estatais para que sua administração passe a buscar a eficiência ao invés de servir de moeda política do governo e fonte de caixa 2.

Algumas medidas como essas seriam um bom começo na direção do aumento da eficiência, da produtividade e da canalização da poupança para setores que poderão ajudar o PIB do país a crescer mais. Crescendo mais arrecada-se mais e se tem mais dinheiro para o governo investir no combate a pobreza, na educação e na saúde. Portanto, vamos torcer para que o chato e impopular do Serra ganhe a eleição de 2010 e implemente um monte de medidas chatas mas que possam ajudar o país a crescer. Ave Serra.

25 agosto 2007

Vida Longa aos Facínoras

Apresentação: Na caixa de comentários do post passado a Clarissa e o Bocage manifestaram-se contrários à pena de morte, e este disse ser da opinião de que os presos deveriam trabalhar para ter algo mais do que um colchão e um pão duros mas "poderiam ficar com o excedente do custeio das ditas regalias ou enviá-lo a parentes". O Mouro fez um longo comentário, contundente como sempre, e eu tomei a liberdade de excluí-lo para publicá-lo como um post.

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Texto de C. Mouro

Vida longa aos facínoras que destroem vidas inocentes, pois defendê-las não é tão consagrador:

"Amar os amigos até os maus amam, a virtude está em amar os inimigos."

Ou seja, amar o mau e fazê-lo prosperar é que é o máximo da bondade. Enquanto tal perversão for moralmente consagradora, o mal prosperará em nome do bem. “Bendita vaidade, capaz de subverter a razão”, diria o “diabo”.

Os piores males causados à humanidade foram feitos em nome do bem, em nome de consagradores ideais capazes de bestializar o homem em sua estúpida vaidade. As atrocidades religiosas, Stalin, Hitler, Mao, Pol Pot, etc., todos, sem exceção, ostentavam-se magnânimos, travestiam-se de “santos salvadores” com belos propósitos envaidecedores.

Tenho um texto, “Do futebol esclarecedor”, que em resumo é o seguinte:

Num jogo de futebol o torcedor do time que é favorecido pelo juiz jamais conseguirá odiá-lo, enquanto que o torcedor do time prejudicado o detestará, lançará contra ele imprecações as mais cabeludas, fará acusações e o terá na pior das contas. Já o torcedor do time beneficiado, procurará mitigar os erros do juiz, mesmo que canalhice deliberada, e se não puder fazê-lo os admitirá, mas jamais o criticará da mesma forma com que critica quando prejudica o time pelo qual torce.

Claro que, por vezes, não há uma torcida mas apenas uma adequação ao estereotipo consagrador, uma ostentação conveniente e sem muita reflexão. Tudo depende do quanto se ostenta de reprovação incisiva a um lado e, quando muito, uma “reprovação compreensiva” ao outro, ou mesmo se ignora um lado para apenas ostentar a repugnância consagradora ante a moral arbitrada para a comunidade, fugindo da análise dos fatos.

Eu defendo que:

* O criminoso eventual seja separado do criminoso profissional.
* O criminoso profissional não merece respeito, já que não respeita nada além da própria conveniência.
* O criminoso deve trabalhar para pagar sua estada e despesas do aparato que demanda para mantê-lo encarcerado, sem direito ao excedente. Afinal, as vítimas não podem ser condenadas, injustamente, a sustentá-los, em muitos casos até com aquilo que a elas falta.

O facínora que é capaz de sair de casa predisposto a matar um pai inocente, muitas vezes ainda arruinando sua família, crianças inclusive, merece morrer como uma ratazana, como uma barata, pois é ainda pior do que elas. E quem se preocupa com a vida dos facínoras despreza a vida dos inocentes, é o pior tipo de pessoa, pior do que o próprio facínora, que ao menos expõe sua índole francamente. Todo defensor de facínoras é cúmplice nas vítimas que estes fazem.

Questão de Dúvida e Chance
C. Mouro, 07 de dezembro de 2004

Alega-se que um facínora tem chance de se recuperar. Assim, foca-se na “elevação moral” de se dar chance ao facínora que já cometeu atrocidades. Diante desta “bondade” se está admitindo que o facínora poderá voltar a cometer atrocidades contra inocentes, matando, torturando, estuprando, destruindo famílias e etc.. Afinal, não há certeza de que um facínora se “recupere” após cumprir uma pena que lhe permita voltar ao livre convívio com seus pares queridos e também com as vítimas; sejam as que fez e as que poderá ainda fazer.

Diante da proposição de pena definitiva, as “belas pessoas” afirmam que é desumano, intolerável, condenar um “ser humano” a uma pena definitiva; embora o facínora o faça com a tolerância das “belas pessoas”. Estas reivindicam que se lhe dê a chance de recuperação, arbitrando o “dever humanitário” de preservar a vida e a liberdade do facínora, diante da DÚVIDA sobre sua recuperação, exibindo grande “revolta humanitária” ante a proposta de pena definitiva para o facínora; por assim se estar perdendo a chance de salvar a vida do facínora que já cometeu atrocidades contra inocentes - embora essa revolta exibicionista não se manifeste ante a pena que os facínoras impõem às vítimas inocentes.

Então, como toda questão tem dois lados, cabe analisá-los:

Havendo dúvida se o facínora voltará à pratica de atrocidades contra inocentes ou se recuperará, disso resulta:

1) Pena definitiva para que ele jamais volte para a liberdade, pois aplicar-lhe pena branda é injusto e temerário; na visão das “más pessoas”, dos “bárbaros”, que parecem preocupados unicamente com a vida, a liberdade e demais direitos do ser humano inocente.

2) Pena branda para que o facínora volte para a liberdade, pois aplicar-lhe pena definitiva é injusto e o revolta; na visão das “boas pessoas”, dos “santos” e “humanistas”, que parecem muito preocupados com a vida, a liberdade e demais direitos do “ser humano” facínora.

Das conclusões:

Ora, é extremamente simples perceber que:
As “boas pessoas” exibem a sua “bondade” usando a dúvida como argumento para permitir que o facínora se “recupere” depois de branda pena, demonstrando assim grande zelo pelo bem estar e pela vida deste “ser humano”: Em nome da dúvida.

Mas é em nome desta MESMA DÚVIDA que os “malvados bárbaros” não querem permitir que este facínora volte a cometer atrocidades contra inocentes. Afinal, TUDO É DÚVIDA.

Os resultados possíveis ante a dúvida são:

R-1) Se o facínora é definitivamente penalizado:
Talvez ele se recuperasse. Neste caso será um FACÍNORA que já supliciou inocentes, aquele que sofrerá AS CONSEQUÊNCIAS da proposta dos “bárbaros”: de não lhe dar chances.

R-2) Se o facínora é brandamente penalizado:
Talvez ele não se recupere. Neste caso serão AS VÍTIMAS INOCENTES, quem sofrerão AS CONSEQUÊNCIAS da proposta das “belas pessoas” que, “humanitariamente”, concederam a chance do facínora fazer mais vítimas inocentes.

Conclusão lógica (não é suposição, é fato lógico):

1) As “boas pessoas”, os “santos”, tomados pela dúvida, OPTAM, ESCOLHEM, PREFEREM QUE DE SUA DÚVIDA RESULTE O SACRIFÍCIO DE INOCENTES. Ou seja, as vítimas, pessoas honestas, trabalhadoras, e seus familiares sofrerão os suplícios individuais e destruição familiar.

2) As “más pessoas”, os “bárbaros”, tomados pela dúvida, OPTAM, ESCOLHEM, PREFEREM QUE DE SUA DÚVIDA RESULTE O SACRIFÍCIO DE FACÍNORAS que já trucidaram vítimas inocentes e arruinaram famílias.

É muita diferença de preferência.
Não é possível negar a lógica, pois está claro que haverá vítimas inocentes, já que não há certeza de “recuperação”, ou não haverá facínoras recuperados por não haver tal chance.

Assim, a “beleza” de salvar facínoras supostamente recuperáveis, necessariamente implica em produzir VÍTIMAS INOCENTES destes facínoras. Em visível tolerância moral a seus crimes, quase um incentivo.

Da mesma forma a pena definitiva NECESSARIAMENTE implica em penas definitivas para FACÍNORAS CULPADOS, que já fizeram vítimas inocentes, mas que talvez se recuperassem. Em visível intolerância moral a seus crimes, para ainda intimidá-los.

Os “humanistas” preferem pagar por sua dúvida com a vida ou outros direitos dos inocentes, enquanto os “bárbaros” preferem pagar por sua dúvida com a vida ou bem estar dos facínoras, que já fizeram vítimas inocentes.

É estarrecedor alguém tranqüilamente afirmar:

“3) Não existe como salvar os inocentes.”
.
Como eu disse, as “belas pessoas” consideram que as vítimas inocentes são uma fatalidade, e não se importam com elas, sequer se dedicam a tentar diminuir a ocorrência destas, dedicando-se unicamente a tentar SALVAR O MÁXIMO DE FACÍNORAS, MESMO QUE ISSO RESULTE EM MAIS VÍTIMAS INOCENTES destes facínoras.
.
Os “santos” e “humanistas” não se importam com as vítimas inocentes, pois importar-se com elas até os “bárbaros” se importam, então, ideologicamente, “não há mérito nisso”. O mérito ideológico está em “amar os inimigos”, em “dar a outra face” e proteger o mal para que ele prospere.

Com náuseas,
C. Mouro
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23 agosto 2007

Canibalização Cultural

Por Clarissa Septimus:

O post de Janer Cristaldo, "Antropólogos protegem assassinos", suscitou aceso debate e, malgrado meu, longe de me sentir mais esclarecida quanto à situação política, económica, social e cultural do Índio Brasileiro, compreendi que o meu desconhecimento me impede de tecer a este respeito uma opinião devidamente fundamentada. Poder-se-ia continuar, quase indefinidamente, a discussão das questões lá levantadas: A inimputabilidade dos Índios, A questão do território atribuído, O contacto entre culturas, Os massacres ocorridos dentro da comunidade Índia sob custódia de práticas culturais ancestrais, A aculturação, O direito de opção por uma cultura diferente da originária, A repressão cultural, A percentagem de população Índia, A criminalidade nas grandes cidades versus criminalidade entre a cultura Índia, A riqueza do território Índio.

Considerando todas estas questões merecedoras de análise, a verdade é que lhes subjazem questões éticas, essas sim verdadeiros desafios que se colocam à sociedade civil e às directivas políticas do século XXI. Como articular, na prática do quotidiano, conceitos como Multiculturalismo, Identidade cultural, Direitos Humanos, sem aquilo a que se pode chamar uma canibalização cultural? O professor Boaventura de Sousa Santos, chamando a atenção para a necessidade de uma hermenêutica diatópica, afirma (clique aqui para o artigo completo):

"Porém, uma concepção idealista de diálogo intercultural poderá esquecer facilmente que tal diálogo só é possível através da simultaneidade temporária de duas ou mais contemporaneidades diferentes. Os parceiros no diálogo são apenas superficialmente contemporâneos; na verdade, cada um deles sente-se apenas contemporâneo da tradição histórica da sua cultura."

A canibalização cultural, expressão do professor Boaventura de Sousa Santos, não é, a meu ver, senão uma forma anacrónica, ineficaz e incoerente de lidar com o multiculturalismo. Proclamar a repressão, hasteando a bandeira com os 30 artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, ao mesmo tempo que se ignora que o indivíduo não existe deslocado da sua cultura, e que é nessa diversidade cultural que encontramos a História da Humanidade, é ir contra as orientações fundamentais que estiveram subjacentes à filosofia da Carta dos Direitos Humanos.


20 agosto 2007

The Claps Hunter

Tudo começou no Maracanã quando Lula foi inaugurar os jogos pan-americanos. Por algum descuido, a assessoria do Planalto esqueceu-se da claque dos Sem Terra, dos pelegos da CUT, de alguma ONG financeiramente ligada ao governo e decidiu expô-lo à população em geral. Além das gratuidades, os ingressos vendidos foram nos setores A a D, variando de R$ 10 a R$ 50, portanto pode ter ocorrido a exclusão dos beneficiários do Bolsa Família, para o azar do nosso mandatário. Nesta ocasião, ele foi vaiado todas as vezes em que tentou falar, e acabou tendo de se retirar para não mais voltar, nem para o encerramento do evento esportivo.

Magoado, Lula disse que o Rio de Janeiro não sofreria retaliações de verbas pelo fiasco sofrido por ele. A assessoria do presidente tentou reagir organizando viagens ao curral eleitoral nordestino, onde ele teria apoio de todos os seus compadres. Não deu certo; ele foi novamente vaiado em Pernambuco. A assessoria então mudou a estratégia e organizou um roteiro de viagens pela América Central, e enfim Lula foi aplaudido na Nicarágua, no México e na Jamaica.

De volta ao Brasil, já recuperado, Lula comentou que tem dois ouvidos, um para vaias e o outro para aplausos. Foi então a Campos, no Rio de Janeiro, onde foi novamente vaiado. Lula reagiu mais agressivamente e recorreu ao seu estilo de ameaças veladas. Na casa de Apolônio de Carvalho, mais vaias. O ouvido que por anos estivera surdo funcionava com saúde exemplar.

O que o Lula irá dizer? Que está sendo perseguido pela elite aonde quer que vá? Talvez fosse o caso de ficar um pouco em Brasília e trabalhar. Sei que sindicalistas não têm este mau hábito, do qual ficaram livres no dia em que foram eleitos para o sindicato, mas o país precisa de um presidente que conheça os seus problemas e trabalhe para resolvê-los. Não queremos alguém que alegue desconhecimento toda vez que eles aparecem.

Sei que o Lula não concorda, mas a campanha termina quando o sujeito está eleito para o cargo. Então tem início o trabalho para cumprir as promessas que fez. Na visão dele e sua turma, a política é viajar e fazer campanha. Enquanto isto, a chefia do Executivo, cargo para o qual ele foi eleito, fica entregue à Dilma, como antes esteve nas mãos do Dirceu.

Esta é uma velha tradição das elites brasileiras; não trabalhar. Elas deixam o trabalho para ser feito pelos seus capatazes, geralmente figuras truculentas e autoritárias. Tomemos o exemplo do setor elétrico. Se ao menos os capatazes fossem competentes, as ameaças que pairam sobre o setor já teriam se dissipado, mas com eles é tudo na marra. Se as suas regras para o setor elétrico não atraem investidores, que entrem as estatais; se ninguém entra nos seus leilões, que entre a Petrobras; se há expectativa de falta energia, que se converta então usinas a gás para usinas a óleo diesel, e foda-se a vida útil dos equipamentos.

É nestas horas que eu me lembro do Serra, este sim um trabalhador (ainda que um autoritário ex-comunista), destes que dormem 4 horas por noite, com perfil para liderar projetos e capacidade técnica garantida por um PhD. Pena que ele não tinha o Duda Mendonça como marqueteiro nem seja um sujeito simpático, mas penso que ele teria sido um presidente melhor, apesar de todos os seus defeitos.

Se bem que se o PSDB não fosse tão paulicentrista teria apoiado o Tasso em 2002 e ele teria sido eleito mais ou menos com a mesma fórmula eleitoreira do Lula, que é um sindicalista paulista e retirante da seca nordestina. Tasso seria um membro da elite nordestina progressista e um empresário bem-sucedido. Para quem não sabe, São Paulo e o Nordeste são os dois maiores colégios eleitorais deste país.

15 agosto 2007

Rodoviária de Aviões

Quando eu era criança, um dos programas de final de semana era ir ao aeroporto. Meu pai juntava a gente, punha dentro do carro e lá íamos passear no aeroporto, que era um lugar chique e interessante. Só não podíamos pedir nada porque tudo por lá era caro. De vez em quando eu até viajava de avião, em algumas férias muito especiais. Então, tudo era muito fino, as aeromoças bonitas, os almoços bem apresentados em caixinhas, a possibilidade de escolher vários tipos de refrigerante... E foi em uma dessas viagens que eu descobri de onde vinham alguns talheres engraçados que tínhamos em casa.

Na faculdade, tive um professor jamaicano, destes que viam a cultura brasileira com olhos de eterno forasteiro. Era um engenheiro aeronáutico com PhD na Inglaterra e havia vindo parar por aqui. Ele falava, então, que tínhamos uma mentalidade atrasada. "Aeroporto não é transporte de luxo", dizia, "é transporte de massa". Hoje, vejo que ele tinha razão.

Nesta gestão petista, caracterizada pela incompetência e falta de planejamento, os aeroportos estão se transformando naquilo que deveriam ser há muito tempo, ou seja, rodoviária de aviões. O Milton Zuanazzi, amigo da Dilma, presidente da ANAC e até outro dia um novato em aviação civil, diz que está tudo bem. Os caciques da política carioca afirmam que o Galeão está ocioso e poderia resolver o problema da Malha Aérea - mas nada é feito. Os professores da USP dizem que há três anos deveria ter sido iniciada a construção da segunda pista de Guarulhos e da conexão de metrô, o que resolveria os problemas atuais da Malha - mas está tudo bem, é o crescimento econômico, diz o Mantega. Sem falar em outras "gozações"...

Eu mesmo outro dia estava em meio ao caos do Galeão, que vivia o auge do Apagão Aéreo. Os passageiros não podiam entrar na sala de embarque porque haviam ocorrido revoltas, um avião havia até mesmo sido invadido e teve de ser desocupado pela Polícia Federal. Todos os vôos estavam atrasados e tínhamos que aguardar em pé próximos ao portão de embarque porque os painéis e o sistema de som estavam em pane. Um sujeito berrava ao megafone quando um vôo estava confirmado, para que as pessoas pudessem ir à sala de embarque.

Foi então que uma “gerente de filas” da Gol se aproximou de mim e de outras pessoas ordenando a nossa saída da área reservada às filas da companhia, demarcadas pelos postes com as fitinhas. Detalhe: não havia fila porque o atendimento estava quase encerrado. Quando a mulher gritou pela segunda vez foi enxotada aos berros por um dos passageiros. Eu não sou de gritar, porém fiquei satisfeito ao ver um membro da classe média lutar pelos seus direitos.

É por isso que a classe média é odiada pelo Lula e pelos petistas; por isso somos chamados de “elite”. Não somos nada disso; somos trabalhadores educados e cidadãos. Não somos os analfabetos funcionais que votam nele e na sua turma em troca de um Bolsa Família.

Mas deixemos os ódios para o Lula e sua corriola, que gostam de alimentar a política dos ódios de classe, de raça, de gênero, dos regionalismos,... Todos estes ódios são bons para desqualificar os críticos do governo, porque sempre serão membros da elite, egoístas, brancos que odeiam nordestinos e negros. E acabam até por carrear simpatias das vítimas de discriminações. Esta é a política do Lula e do PT: fomentar a cizânia, o ódio, para se firmarem cada vez mais como a força hegemônica na política brasileira.

10 agosto 2007

A Morte dos Ideais Petistas

A política partidária talvez seja necessariamente odiosa porque simplesmente traduz o funcionamento normal do cérebro humano. Acho que em grande parte somos binários: sim ou não, a favor ou contra, PT ou PSDB e socialista ou capitalista. E ainda existem os maus e ignorantes cuja política e baseada no agravamento das diferenças. A política das quotas, das minorias, dos sexos, dos nacionalismos exacerbados, das disputas religiosas e que mostra seus resultados mais agudos no Oriente Médio e nos Bálcãs.

Simplesmente não conseguimos ser justos. Não conseguimos encontrar um ponto neutro onde exista alguma liberdade. Muitos filósofos consideram a justiça um ideal no estilo platônico. Não acho que o idealismo seja algo positivo. Hitler era um grande idealista no melhor estilo do Senhor dos Anéis. Ele acreditava que os seus SS iriam purificar a raça ariana da miscigenação com outros povos, especialmente os judeus, e que ao cabo de algum tempo ele iria gerar "elfos" arianos que teriam superpoderes e dominariam todas as raças inferiores.

Deng Xiaoping foi um destes homens mais justos, que adaptou os ideais socialistas soviéticos à realidade, à cultura e às necessidades chinesas. Como resultado temos um país que cresce a taxas da ordem de 10% há quase três décadas. A vitória do grupo liderado por este homem tira milhões de chineses da miséria, evitou a fragmentação deste país com o fim abrupto do seu socialismo. Além disto, ajuda muito o capitalismo produzindo bens a preços baixíssimos (combate à inflação), financia o consumo americano com a compra de T-bonds e oferece uma demanda potencial que é fundamental para encurtar qualquer crise capitalista.

Na Europa, temos vários capitalismos também. Adaptações locais mais ou menos bem-sucedidas destes ideais. Temos o capitalismo de coordenação de países como Alemanha, Holanda, Suécia e Dinamarca; o capitalismo de orientação onde o Estado guia os investimentos, como na Franca, Itália e Espanha. E ainda temos capitalismos híbridos na Europa Oriental com variadas articulações Estado-mercado. Talvez os mais bem sucedidos sejam os nórdicos, que têm muita justiça social e crescimento econômico.

Seria bom se o Brasil tivesse um líder do nível de um Deng Xiaping, mas infelizmente temos apenas uma herança maldita da ditadura. Um político que sobreviveu porque era considerado menos perigoso enquanto outros foram destruídos, ele e seus asseclas da geração de 68, que começaram a vida seguindo os ideais da Revolução Cubana e terminaram vendendo a alma pelo poder.

Mas isto era inevitável. Os idealistas negam a realidade seja ela qual for e praticam as maiores atrocidades para atingir os ideais que pretendiam, sendo que no processo violento em que se colocam acabam simplesmente se tornando aqueles que pretendiam destruir. O próprio Lula é um exemplo disto. Por que ao invés de acabar com o coronelismo Lula tornou-se o maior coronel que este pais já viu? Ele não é um coronelzinho qualquer, que distribui algumas cestas básicas. Ele distribui o Bolsa Família para milhões de famílias, o que o torna o titular do maior curral eleitoral da história deste pais. Nunca é demais lembrar que pessoas como Cristóvam Buarque não hesitam em afirmar que o Bolsa Família é corrupção.

Mas eles falharam porque nunca foram justos. Eram idealistas e os ideais são traiçoeiros porque se baseiam na vaidade, e acabam se tornando apenas vaidade. Depois da morte dos ideais, trucidados pela realidade da luta pelo poder, sobra apenas a vaidade e a necessidade de mantê-lo a qualquer custo. Mas até isso morrerá no dia em que os corpos decadentes dos membros da geração 68 tiverem o mesmo destino dos seus ideais.

Isto me faz pensar no enterro de Lula. Deverá ser um evento épico com direito a três dias de luto, muita cachaça, greve geral, passeata dos Sem Terra e milhares de descamisados choramingando como órfãos. Talvez se decida até mesmo por preservá-lo mumificado, a la Evita. Se for este o caso, tomara que nenhum general se apaixone pela múmia...

07 agosto 2007

Bananas

Texto de André Balsalobre

Os primeiros dois anos do terceiro mandato de Lula - via Emenda Constitucional de Emergência - seguem monótonos, com as demonstrações de esquerdismo e populismo de sempre. Todo o núcleo duro retorna: Dirceu, Palocci, Genoíno, Gushiken.

Fidel, firme e forte, visita o país. Acordos bilaterais são assinados, incluindo um de defesa mútua contra um ataque norte-americano. As FARC ganham de presente um pedaço da Amazônia. Depois se apoderam de três vezes o que receberam.

Novos e maiores escândalos de corrupção em 2012. Lula diz não saber de nada.

Economia: Palocci e aderentes caem e são substituídos por Caetano, Gal e Betânia. Maria da Conceição Tavares é nomeada presidente do Banco Central.

Com a nova queda de Dirceu, envolvido em esquemas de corrupção do programa brasileño-cubano Bolsa-Camarada, Ariano Suassuna é convidado para a Casa Civil. Aceita mas, antes que possa assumir, se vê enredado num esquema de propinas do Ministério da Educação, cuja pasta vinha ocupando, e logo num programa de sua autoria: proibir o ensino do inglês, a venda de Shakespeare e Oscar Wilde no país, a exibição de filmes norte-americanos na tv e nos cinemas e instituir Patativa do Assaré e Mané da Rabeca no currículo das escolas públicas. Acuado, escreve O Auto do Processo de Agravo de Instrumento, peça que faz muito sucesso no Supremo Tribunal Federal e livra sua cara no processo por crime de responsabilidade. Para a CNBB, escreve O Auto do Padre Vieira. Para Lula, dedica O Auto do Pau-de-Arara. Para os fósseis do PC, o Partidão, dedica O Auto da Coluna Prestes.

Fernando Henrique Cardoso termina seus dias numa cátedra de filosofia pós-moderna na Sorbonne.

Perdido, Lula tenta promover um grande debate com todos os segmentos da sociedade civil. Fracassa. Novos escândalos envolvendo membros do governo em 2011.

Um grupo dissidente nas Forças-Armadas tenta um golpe, mas os tanques não pegam e os soldados estavam em greve; não aparece ninguém.

Cansado de conversa e dizendo-se vítima de uma “orquestração golpista” por parte da “burguesia reacionária do centro-sul do país”, Lula dissolve o Congresso e baixa seu primeiro Ato Individual, o AI 1. Era pra se chamar Institucional, mas o Presidente não sabia como soletrar, muito menos escrever — e ninguém teve coragem de criticá-lo.

De qualquer forma, aproveitam pra reciclar a já famosa abreviatura. Tal ato de individual não tem nada, tendo sido redigido por um “grupo de notáveis” reunido às pressas. Participam dele Marilena Chauí, filósofa do proletariado, João Pedro Stédile, recém-empossado no Ministério da Agricultura, Dalmo de Abreu Dallari, Mino Carta e Roberto Bolaños, o ator mexicano conhecido pelos personagens Chaves e Chapolim. Frei Betto e Leonardo Boff servem de guias espirituais.

No mês seguinte, o Executivo baixa o AI 2, na verdade, só uma revisão do primeiro, devido ao excesso de obscurantismos, cortesia do filosofês cheio de Spinoza, Kant e Hegel da Marilena Chauí.

A República Federativa do Brasil é renomeada para República Democrática e Popular Brasileira.

O governo de exceção durará quatro anos. O que não incomoda muito o povo, pois a Seleção Brasileira segue ganhando as Copas do Mundo, que passam a acontecer de dois em dois anos, após intervenção do Itamaraty junto à FIFA. Ambos assinam um acordo pelo qual o Brasil se compromete a pagar por todas as despesas nas próximas dez Copas.

Medidas drásticas sufocam os últimos bolsões de insatisfação ao regime: a cerveja é incluída pelo governo na cesta básica, enquanto os canais Premiére de futebol da tv fechada são liberados para a população.

Queda vertiginosa do barril de petróleo leva a uma revolta popular na Venezuela, o que abre caminho para intervenção bem-sucedida dos EUA. Hugo Chávez, com o dinheiro do saque, se exila por aqui e vai morar no Lago Sul, onde constrói a suntuosa Mansão Bolívar.

Heloísa Helena e Babá fundam um movimento guerrilheiro campesino de fundo marxista-cristão numa igreja em Juazeiro do Norte. Padim Ciço aparece para ambos e começa a fazer milagres e lançar profecias, entre elas as da volta do Império e de Dom Sebastião. O número de romeiros triplica. A Igreja, tentando se acomodar à nova situação, canoniza o Padim rapidamente e, de quebra, beatifica Virgulino Ferreira, o Lampião.

Zé Maria, eterno candidato do PSTU, funda uma república separatista no terreno de uma faculdade pública. Logo explode uma guerra com o PCO – Partido da Causa Operária, que havia proclamado outra república ao lado. O exemplo se repete em outras faculdades pelo país. A revolta fica conhecida pelo nome de Facultada.

Remanescentes do Congresso, militares e membros da sociedade civil criam um movimento de resistência ao regime.

Enéas (não morreu, era um sósia) faz um discurso emocionado no Congresso. Clama pela Reestruturação da Ordem Nacional, no que é rotineiramente apoiado pelos 4 Poderes (os 3 conhecidos, mais o Dinheiro). O povo sai às ruas. Não para derrubar o governo, mas para comemorar mais uma vitória da Seleção. Lula desaparece. Tropas fiéis à resistência encontram em seu gabinete o rascunho do AI 3, sem maiores novidades além da supressão dos direitos que restavam, a criação de dois deveres para cada direito extinto — e a evidência clara de que Lula ainda não sabia como escrever “institucional”.

Enéas dissolve a República e proclama o Segundo Império, inspirado em Antônio Conselheiro, inaugurando um regime de índole puritana. Maria da Conceição Tavares continua firme no Banco Central, o qual já não obedece ao novo regime. Mas ela mete medo em todo o mundo, por isso preferem deixá-la quietinha em sua sala.

Lula e acólitos se instalam em Paris, na casa de Chico Buarque. Gilberto Gil morre durante atentado ao Palácio Presidencial Patrice Lumumba no Congo. Estava em uma cerimônia oficial quando houve um golpe de estado. Caetano Veloso, João Gilberto, Lenine, Chico César e dezenas de outros expoentes da MPB estavam presentes. Nunca mais retornaram, tendo sido transformados em artistas escravos pelo ditador local, um afroblacknegão com sorriso Colgate.

O Segundo Império congela praticamente todas as contas do PT no exterior, graças a um substancial caderninho apreendido pela Polícia Federal na casa de Zé Dirceu. Em Paris, Lula descobre que até sua conta foi congelada, durante uma tentativa de saque (dessa vez não ao povo, mas em frente ao caixa eletrônico mesmo). Sem dinheiro para nada, com o estoque de aguardente acabando e sem conseguir encontrar cds de Zezé Di Camargo e Luciano para sua mulher, Lula cai em depressão. Chico Buarque cobra o aluguel e a conta do hospital de um assessor do ex-Presidente. Rompimento entre Lula e Chico.

Em seu aniversário de 105 anos, Oscar Niemeyer assina um abaixo-assinado com outros duzentos nomes dos meios artístico e intelectual, repudiando o Segundo Império. No dia seguinte o governo lhe encomenda umas obras e Niemeyer joga o abaixo-assinado na lata de lixo da História — aquela mencionada por Trotski. Maria da Conceição Tavares se recusa a retirar o nome do abaixo-assinado.

Enéas adota um tom cada vez mais militarista. Com apenas um ano de governo, invade a Venezuela, reinstala Chávez no poder e diz que não vai parar até chegar ao Canal do Panamá. Os EUA esmagam os exércitos brasileiros nos arredores de Caracas e invadem o Brasil, que não oferece qualquer resistência. Chávez se esconde numa quitinete na Asa Norte (sua saudosa Mansão Bolívar virou uma casa de bingo). Traído dentro de casa por um convescote partidário de última hora, Enéas abandona a política e volta a dar aulas na faculdade de medicina.

Exilados em Paris, os remanescentes da república petista fazem ato de solidariedade e greve de fome enquanto Fidel Castro, que também estava lá, faz compras. El Comandante convida os exilados para uma visita oficial a Havana, onde morre logo ao chegar, vítima de um resfriado (não havia mais bons médicos em Cuba, todos eles foram para Cleveland). Os exilados, companheiros e camaradas alegam um complô da CIA. Cuba Socialista cai e dá lugar ao Protetorado de Cienfuegos, um subdepartamento sob a responsabilidade de Porto Rico.

Mangabeira Unger e Ciro Gomes são convidados pelos EUA para fazer parte de um novo governo provisório, parlamentarista. Logo assumem como Presidente e Primeiro-Ministro, respectivamente. Assim que os EUA se retiram, a briga começa. Hugo Chávez se torna uma figura influente na política local. Pede a volta de Lula. Ciro prefere convidar FHC, mas este recusa, dizendo que "assim não dá", que o “desrespeito às instituições democráticas é inaceitável” e continua lecionando em Paris.

Lula entra no movimento sindical francês mas perde muito dinheiro, pois as maracutaias são em francês e ele não entende nada. Pobre, tenta arrumar um emprego na Renault, outro na Citroen, mas as fábricas são totalmente automatizadas. Arruma emprego numa das fazendas de gado de seu amigo José Bové — que deixou os movimentos antiglobalização e agora vende carne para o MacDonalds — mas logo é demitido com a mecanização da ordenha. Contrabandeado para o Brasil por uma ONG, Lula vira garoto-propaganda da bebida Velho Barreiro. Enriquece novamente, se separa de D. Marisa e casa com Benedita da Silva. Finalmente, é um homem feliz.

Terremoto de 13 pontos na escala Richter engole Brasília. No governo, apenas o Legislativo pouco sofre, pois, pra variar, não havia ninguém no Congresso. A cidade é totalmente devastada. Maria da Conceição Tavares é retirada dos escombros do prédio do BC com vida. Sofre escoriações leves e passa bem.

Ciro e Mangabeira Unger morrem, junto com todo o Executivo. Chávez sai em meio aos escombros de Brasília, organiza uma carreata às pressas e toma o poder. Dissolve o parlamento, instalando sua tão sonhada Nación Bolivariana.

Marta Suplicy se casa com Chávez. Este endurece no poder, porém logo acata o conselho da patroa: “relaxa e goza” e o Brasil se redemocratiza. Maria da Conceição Tavares também se casa, com José Saramago, que a convence a sair do BC e voltar para Portugal, onde ela se filia ao bom e velho Partido Comunista português.

Internado com cirrose, Lula morre em 1º de Abril de 2019, Dia Internacional dos Bobos. É enterrado ao lado de Fidel em Havana.

Chávez mantém o discurso radical bolivariano apenas para as massas, convertendo-se habilmente num capitalista neoliberal. Até privatiza a Petrobrás, agora presidida por Evo Morales. O Brasil finalmente entra numa rota de desenvolvimento sustentável.
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01 agosto 2007

Epitáfio ao Kokotako

Há quarenta anos meu pai foi transferido de Caxias do Sul para Videira, em Santa Catarina. Tinha vinte e um anos e recém ingressara no Banco do Brasil. Deixou para trás a noiva (minha mãe), irmãos, parentes, bons amigos, aulas de violino e um animal de estimação: o velho Kokotako, um destemido gato vira-lata libertário, ateu (todos são, não?), namorador, indolente, sempre com falhas na pelagem, mercê das assíduas pelejas com os cachorros e gatos da vizinhança. Às vezes desaparecia por semanas, e quando todos o davam como morto, supondo que perdera a terceira dimensão sob algum pneu de carro ou que caíra do campanário aonde ia para mastigar filhotes de pombo, lá estava ele sobre o muro de pedra, em frente à cozinha, a lamber-se ao sol - talvez com uma vida a menos -, exibindo-se orgulhoso para as crianças, que corriam até ele para cobri-lo de mimos.

Cheio de obrigações, tenso por causa da "diferença" no caixa ao fim do expediente, longe de todos os que lhe eram caros, sob o cortante frio de mezz'anno, saudoso das longas tardes sob os parreirais a ler os clássicos com o irmão mais velho, meu jovem pai recebe uma carta do irmão narrando, entre outras coisas, o triste fim do bichano, finalmente vencido pelo gadanho da morte. Tão logo leu a missiva, pegou na caneta tinteiro e redigiu o mórbido porém divertido soneto (quatro quadras, na verdade) abaixo, bem ao estilo mal-do-século de Álvares de Azevedo porém ritmado como um Gonçalves Dias.

Encontrei em um armário na casa de meus pais, dia desses, uma fotografia do manuscrito tirada pelo meu tio, cujo conteúdo reproduzo aqui.

***

Ao Hades tristonho, de trevas povoado,
Mansão onde as sombras passeiam silentes -
As sombras fantásticas dos que já deixaram
A terra habitada por pobres viventes,

Ao morto país onde os ventos irados,
Torcem das árvores os galhos despidos,
Sem que da negra floresta agitada
Se escute o eco sequer de um gemido,

Às terras medonhas estéreis e tristes
Que há séculos cobre a sombra da morte,
Onde o imenso oceano estagnado descansa
Entre rochedos frios, de tétrico porte,

Partiste, herói de mil lutas gloriosas,
D. Juan das amantes que achaste por cá!
Agora teus filhos, teus netos e esposas
Soluçam e dizem: "Jamais voltará!"


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Discute-se, na caixa de comentários, morte, vida eterna, morte eterna, gatos e o de sempre: Política e Religião.
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