27 julho 2007

A Trajetória da Geração de 68 ao Poder

A Geração de 68 é um símbolo para muitos jovens. É a geração dos hippies, da paz e amor, da Era de Aquarius, daqueles que iriam mudar o mundo. Hoje, em 2007, estão chegando aos 60 anos e, no Brasil, são a geração que fundou o PT e chegou ao poder com Lula. A nossa Geração de 68 pregava a Luta Armada e nutria grandes simpatias por Cuba. Pretendo analisar a sua trajetória até o poder e mostrar quanto daquele romantismo restou e quanto apenas virou hipocrisia.


Há algum tempo assisti a uma entrevista do José Dirceu ao Roberto D’Ávila onde falava de sua vida e de como a sua militância política começara. Segundo ele, tudo começou quando ele, um jovem e bonito aluno de direito da PUC/SP, organizou uma rebelião para que as turmas separadas de homens e mulheres passassem a ser mistas. Como disse uma vez o José Genoíno, enquanto ele trabalhava nos Congressos da UNE o Dirceu “passava o rodo”.

Há alguns anos, perambulando por um sebo, encontrei um livro organizado pelo Guido Mantega, então porta-voz dos economistas do PT, chamado Sexo e Poder. Segundo João Domingos, no artigo de Mantega “Sexo e Poder nas sociedades autoritárias: a face erótica da dominação” podemos ler: “...a construção do homem novo e a conquista da liberdade vão muito além da destruição do Estado capitalista.” Hoje, 30 anos depois, podemos nos arriscar a dizer que a Revolução Sexual e a erosão dos valores vitorianos não destruiu o capitalismo.

Todos conhecem a outra expoente da sexualidade do PT paulista, a ministra do Turismo Marta “Relaxa e Goza” Suplicy. Ela é talvez a principal expoente feminista pela libertação sexual do partido, participando todos os anos da passeata dos GLBTS, embora, segundo seu filho Supla, não seria mais do que uma burguesinha se não fosse o seu pai, o ilustre senador Eduardo Suplicy. Foi ele quem, ainda nos anos 80, propôs o Programa de Garantia de Renda Mínima. Seria assim quase um “pai” do Bolsa Família.

Se bem que é opinião comum até entre os petistas que este ícone da ética seja meio lesado. Vai ver foi por isso que a Marta, então prefeita de São Paulo, deu-lhe um pé na bunda para ficar com o franco-argentino Luis Favre - ou seria Felipe Belisário Wermus, envolvido no esquema de Caixa 2 do Partido dos Trabalhadores e na negociata envolvendo a Portugal Telecom juntamente com Naji Nahas, o homem que quebrou a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro em 1989, quebra da qual esta Bolsa nunca se recuperou? É muito irônico! De mulher do “homem perfeito” à mulher de bandido.

Segundo os boatos, quem lucrou dando este “corner” em Nahas foi um jovem economista chamado Daniel Dantas, do qual, segundo se comenta, o professor Simonsen disse tratar-se do aluno mais brilhante que já tivera. De fato, mais tarde Nahas se aliaria à Telecom Itália e ao PT contra Dantas na disputa pela Brasil Telecom. Dantas contrataria a Kroll para espionar a cúpula petista e acusaria o governo Lula e o PT de tentar cobrar US$ 50 Milhões para que a Anatel e os fundos de pensão estatais o apoiassem na questão da Brasil Telecom.

Em 1968, o jovem cheio de hormônios José Dirceu participou do rompimento com o Partidão e se aproximou de grupos como a ALN liderada por Carlos Marighela e Dilma Roussef. A sua decisão pela luta armada duraria pouco, pois no mesmo ano foi preso no XXX Congresso Nacional da União dos Estudantes (UNE), realizado em um sitio em Ibiúna em São Paulo – aliás, coisa de “gênio” aquele congresso supostamente secreto. Em seguida, é trocado pelo Embaixador americano seqüestrado pela ALN e MR8 e é exilado.

No exílio fez supletivo de guerrilha em Cuba mas não se tem conhecimento de nenhuma ação em que tenha estado envolvido. O engraçado é que os velhos comunistas ainda têm mágoa destes caras da Geração de 68 que declararam guerra aos militares e foram para o exílio enquanto eles ficavam aqui levando porrada. Mais tarde, a Geração de 68 pratica o segundo rompimento com o Partidão fundando o PT em 1980.

Com a fundação do PT, a Geração de 68 começa a desistir da luta armada como caminho para se chegar ao poder. O discurso agressivo nacionalista e anti-corrupção do PT foi muito bem sucedido na década de 80 e nos estertores do pior governo brasileiro do século XX, o governo Sarney, que terminou o mandato com inflação de 80% ao mês. Eles talvez conquistariam o poder se não fosse pela intervenção da Rede Globo, que editou o debate com o Collor e explorou muito bem o episódio do seqüestro do empresário Abílio Diniz por um guerrilheiro esquerdista chileno. Não podemos esquecer também da amante do Lula e da sua filha fora do casamento que lhe causaram algum embaraço e da ameaça do Collor com a 'pasta'. Enfim, na ocasião o Lula afinou e segundo gente que era do partido na época foi tomar uísque com a direção da TV Globo.

Nesta época, o PT ainda acreditava nas Comunidades Eclesiais de Base como uma forma de aproximação com o povo. Mais tarde, o Bolsa Família se mostraria muito mais eficiente. De fato, o Bolsa Família foi capaz de substituir a perda de parte da classe média após o Mensalão. Mesmo nos piores momentos o PT sempre teve o apoio do MST, da CUT e dos sindicatos de servidores públicos - a burguesia de estado -, que, em geral, foram comprados com bons aumentos, embora tenham de tolerar chefes geralmente incompetentes oriundos do partido, como o Milton Zuanazzi, presidente da ANAC, que de vereador amigo da Dilma e sem experiência em aviação civil virou a principal autoridade civil na área.

Na década de 90, após a derrota de Lula duas vezes para FHC, a cúpula petista percebe a necessidade de mudar a orientação do PT, e José Dirceu é encarregado de subverter a ordem petista com o Campo Majoritário, cujo poder se sobrepõe as tendências, disciplinando-as. Mais tarde, Lula adota uma linha quase hippie de paz e amor chamada de “Lula Light” sob a orientação do publicitário Duda Mendonça e conquista o centro do espectro político.

O PT aceita que o povo não gosta de inflação nem de bravatas do tipo que não fará o pagamento da divida externa e o IBGE mostra que com o fim da inflação começa-se a redução da concentração de renda. De fato, a proposta de FHC, pai da teoria da dependência e ex-discipulo de Florestan Fernandes era reduzir o Estado e desta forma atacar a burguesia que vive as custas dos favores deste. Chavez e a sua boli que o digam.

Semana passada, discutindo com alguns ex-alunos da Maria da Conceição, que comemoravam a morte do ACM, eles me diziam que Dirceu é na verdade um herói, um verdadeiro Robin Hood que descobrira um novo caminho para a Revolução Socialista, o caminho da corrupção. Segundo eles, o abrandamento do discurso petista e a adoção do Caixa 2 punha o partido em condições de igualdade na disputa eleitoral com os demais partidos permitindo-lhe efetivamente chegar ao poder. Para eles, é natural que diante de uma burguesia corrupta a melhor estratégia seria adotar o seu jogo e usá-lo contra os próprios burgueses.

Embora o Caixa 2 tenha dado melhores condições de disputa eleitoral ao PT, foi o Bolsa Família que efetivamente deu a Lula a sua reeleição com os fantásticos índices de aprovação em torno de 80% no Nordeste. Cristóvam Buarque não hesita em afirmar que o Bolsa Família é corrupção. É coronelismo mas é realpolitik e funciona. Acho que nunca o certinho do Eduardo Suplicy imaginou a utilidade eleitoral de sua idéia, que visava dar cidadania às pessoas e não construir o maior curral eleitoral que já se viu na história deste país. O Cristovam Buarque foi o homem que teve a melhor idéia daquela geração propondo o Bolsa Escola, ou seja, a extensão do sistema de bolsas para os alunos carentes desde o ensino fundamental.

A partir disto, o aparelhamento do Estado passa a ser na verdade condição necessária para que os recursos do Estado sejam desviados para os movimentos sociais aliados do governo e da “Revolução”. Afinal, se os grandes fazendeiros “roubam” o Banco do Brasil, por que os Sem Terra e outros movimentos sociais não têm direito a algum recurso a fundo perdido do Tesouro? Isto é apenas distribuição de renda. E se existe corrupção nas estatais e nos fundos de pensão, que se cobre a parte do partido e dos aliados. E para isto ser feito da melhor maneira é preciso nomear os companheiros de confiança para estes cargos, independente das suas qualificações profissionais.

Mas política também é aprendizado e o PT aprendeu com a cassação de Collor. Construiu uma maioria no Congresso com cargos, emendas no orçamento, favores e por que não, dinheiro (o Mensalão). Hoje, o PMDB é o melhor partido que o dinheiro pode comprar e com ele o governo consegue maioria no Congresso, elege os presidentes das duas Casas e controla a agenda legislativa. Afinal de contas, por que o PMDB luta há meses para nomear diretores na Petrobras? Será preocupação para que esta empresa seja bem administrada ou uma maneira de garantir o seu quinhão no butim?

Ate a UNE que gerou grandes lideranças no passado como Jose Serra que foi seu presidente em 63/64 e foi exilado, hoje virou capacho do governo. No exterior, ao invés de cursinho de guerrilha Serra fez doutorado em Economia em Cornell e foi professor em Princeton. De volta ao Brasil, se tornou professor da UNICAMP, propôs a lei que capitaliza o BNDES com 40% dos recursos do FAT, a principal fonte de recursos para o setor privado, alem da conhecida lei dos genéricos. Hoje, esta UNE, outrora maternal dos futuros politicos, apóia o Lula na crise do Mensalao e vive do comercio entre fraudulento e negligente de carteirinhas de estudante.

O próprio Mensalão não é algo sem precedentes. Quem não se lembra da denúncia de que o Maluf estaria comprando os membros do colégio eleitoral em 1986 ou de que o FHC teria comprado votos a R$ 200.000 por cabeça para aprovar a sua reeleição em 1996? Portanto, o Mensalão é apenas uma questão de aprendizagem.

Quanto à Globo, em breve ela enfrentará a concorrência da TV Lula, capitaneada pelo Franklin Martins, que certamente está ansioso para dar o troco na emissora que o demitiu. A Veja vai mal das pernas, a Primeira Leitura fechou e a imprensa é constantemente atacada por membros do governo, senão pelo próprio Lula. Enquanto isto, a imprensa amiga do governo vai se fortalecendo financeiramente com o aparecimento de patrocinadores dispostos a por dinheiro a fundo perdido em diversos órgãos. A circulação da Carta Capital cresce cada vez mais.

As resistências vão cedendo e a “Revolução Socialista da Geração de 68” vai se tornando uma realidade. Não pela Revolução Sexual, não com a libertação da mulher, não pela Luta Armada como fez o seu ídolo Fidel, não com o combate à corrupção, não com as Comunidades Eclesiais de Base mas com um líder sindical carismático semiculto e com muita corrupção.

O grande general sifilítico Mao conquistou a China com a Grande Marcha. Lênin conquistou uma Rússia esgotada pela Primeira Guerra Mundial e cuja elite afrancesada havia perdido o contato com as bases sociais. Lula dominou o Brasil com um pouco de corrupção e com o Bolsa Família. E a TV Lula só tende a aumentar esta hegemonia dando a cobertura “correta” aos acontecimentos nacionais e se preparando para ser uma alternativa caso um dia se tenha que chegar ao extremo de discutir o controle “democrático e social” da concessão da TV Globo.

21 julho 2007

As Angústias de um Engravatado

É curioso como às vezes pensamos em escrever uma coisa mas quando nos sentamos somos guiados pelas nossas angústias para escrever outras. Hoje, saindo do trabalho, olhei para os prédios em volta e para as pessoas passando por mim e pensei que era ali que eu havia desejado estar, ou seja, em um local cheio de pessoas, de prédios e de trabalho.

Não apenas trabalho mas projetos interessantes. Afinal, o trabalho deveria nos prover não apenas o pão mas também a realização... Ridículo, não? Esta é a típica neura da classe média "full of shit". Não seria mais fácil simplesmente ter desejado ficar rico ou ter um bom emprego público, como o de um juiz ou promotor?

O ambiente de trabalho moderno é um desafio ao ego. É muito dinâmico. As relações são marcadas por competição e colaboração às vezes quase simultâneas. O espaço físico é cada vez menos pessoal, mais grupal. Mesmo nos ambientes de escritório americanos, vemos que o espaço privado é um privilégio cada vez maior.

Já disse um "filósofo" chamado Gurdjieff, certa vez, que o homem quer "dormir" e o conforto ajuda muito nisto. Ter um emprego, uma certa estabilidade e a esperança de uma carreira são uma armadilha e tanto. O dormir para ele é igual a estar passivo interiormente, é o deixar-se levar pela maré.

O trágico desta estória é que geralmente quase todos "despertam" na velhice, quando a vida já passou. De que adianta a sabedoria de um velho? Ele provavelmente nunca a usou e o jovem que o ouve também não acreditará nele. Os jovens preferem aqueles que falam a insensatez que eles queiram ouvir, afinal, a Verdade não é algo agradável ao nosso ego, que vive da mentira e de cultivar as suas pequenas ilusões.

Talvez seja por isso que a velhice contenha sabedoria, afinal, um dia, por mais que neguemos, não conseguiremos mais nos iludir. Se bem que agora me lembrei que meus colegas de blog não acreditam n’A Verdade. Acho que A Verdade começa quando aceitamos o que somos aqui e agora.

E quem somos nós? Sugiro um minuto de silêncio interior para que esta pergunta possa ecoar um pouco antes de ser ansiosamente respondida ou desclassificada pela nossa mente. Eu mesmo estive tentado a escrever o que acho, mas penso que cada um deve responder por si mesmo.

As palavras são apenas códigos que nos permitem comunicar, pois supomos que elas estão associadas a objetos comuns. O problema é que quanto mais subjetiva se torna a comunicação menor a chance das palavras se referirem aos mesmos objetos. Neste caso, não há comunicação. Acho que esta é a tragédia dos “livros sagrados”, que tentam nos dizer quem somos.

Vamos tentar de outro jeito; se vocês não acreditam n’A Verdade, então vocês devem acreditar n’A Mentira? E se A Mentira existe, então dialeticamente existe um pouco de Verdade na sua própria negação, ou seja, A Mentira.

Se bem que existem pessoas que confundem Verdade, sinceridade, com algum tipo de incontinência verbal. O caso clássico é quando alguém chega para você e começa a frase dizendo: “Eu queria te dizer umas verdades...”

Eu sempre tive pouca fé, mas acho que todo mundo deve escolher no que acreditar. Seja no lucro, seja em Marx ou então, quem sabe, na liberdade. Existe liberdade? Segundo uma psicanalista amiga minha, não. Somos escravos de algum desejo que tivemos algum dia e que submergiu em nossa inconsciência. E de lá domina toda a nossa existência.

A boa nova, segundo um outro autor que li, seria que se não somos livres então também não podemos pecar. Neste sentido, um santo que lutou toda a sua vida para se libertar de todas as paixões poderia em um momento pecar mais que nós em toda a nossa a vida. Tem um lado meu que não consegue evitar o pensamento: “Se fudeu.” Tanto esforço para se tornar um pecador, kkkk.

Meu ego agora está feliz...transformei as minhas angústias em palavras e ainda mostrei como sou profundo. Isto é que é um bom ego! Ele se orgulha até das próprias angústias. Será que algum dia ficaremos livres dele?

17 julho 2007

O Congresso é um Prostíbulo

Para os brasileiros que assistem à novela de Renan Calheiros, nas últimas semanas o Congresso tornou-se um antro de ladrões e prostitutas que se vendem por favores a construtoras. Mas nem todos estão desapontados. O Palácio do Planalto está feliz que os escândalos estejam localizados na Câmara alta, único local onde o seu poder não é absoluto - lá e na imprensa. Como diz o pesquisador Werneck Viana, vive-se em um novo Estado Novo onde Lula faz as vezes de Getulio Vargas, tendo cooptado as lideranças da sociedade civil em troca de cargos no governo. Veja-se o caso do próprio Mangabeira Unger, que anteriormente criticava o seu governo.

Nas rodinhas de bate-papo, muitos falam que seria melhor fechar o Congresso. Acho que isto seria uma tolice, pois o poder iria simplesmente migrar para outro prostíbulo. Certa vez, ouvi uma historia de que no governo de Pinochet era de fato necessário sair em busca da puta de um general específico para que ela intermediasse um favor a ser pedido. Com o Congresso aberto, pelo menos o prostíbulo fica mais transparente e uma parcela mais ampla da sociedade pode ser mobilizada pela imprensa, formando a opinião publica e influenciando a decisão.

A esquerda aproveitou a oportunidade para lançar a idéia de que o Senado é uma instituição antiquada e que deveríamos abolir o sistema bicameral. Ocorre que é ele que impede que o rolo compressor do governo termine de atropelar o Congresso. As votações nas duas casas ampliam as discussões em torno dos temas e dão mais vagar às suas aprovações, o que, a meu ver, também é positivo.

Sei que muitos petistas gostam da idéia de um regime castrista ou chavista onde multidões de correligionários comparecem nas praças para urrar em apoio ao seu líder e participar da aparência de uma democracia popular. Mas nestes regimes o poder de fato está nas mãos de grupinhos de familiares ou aliados, como atesta a indicação do irmão de Fidel para substituí-lo.

O bicameralismo é uma herança da Antigüidade Clássica. "Senado" é o nome romano para o conselho de anciãos - daí o nome, de "senex", idoso, de onde vem também a palavra "senil" -, conselho que existia no oriente há vários milhares de anos. Pelo nosso "conselho de anciãos" já passaram velhos como a Heloísa Helena, que entrou na casa antes de completar quarenta anos, e veneráveis sábios como Joaquim Roriz, Gim Argello, Luiz Estevão, Jader Barbalho e ACM.

Antigamente, buscava-se pessoas que tivessem uma certa dignidade e compostura para o Senado. No governo militar tivemos o ilustre senador Jarbas Passarinho que, apesar de ser um coronel com viés autoritário, costumava ter o respeito dos seus adversários no antigo MDB. Hoje em dia, ser honesto virou até mote de campanha política, um "diferencial". Ainda assim, fica difícil listar os senadores com reputação de honestidade. Além do Cristóvam, do Pedro Simon, do Eduardo Suplicy, do Jefferson Peres e do Romeu Tuma, alguém se lembra de algum outro?

No quesito dignidade, acho que merece menção o senador Delcídio, que cumpriu as funções de Relator da CPI dos Correios apurando todos os fatos, não poupando ninguém, apresentando o relatório apesar das pressões imorais sofridas dentro e fora do Plenário, como o comprovou o triste episódio envolvendo o deputado Bittar, que o agrediu durante a sessão. A sua função foi cumprida para com o país e com a democracia, tendo sido apresentado no prazo o relatório que resultou na denúncia dos 40 ladrões pela Procuradoria Geral da Republica.

A propósito, só faltou o Ali Babá, mas quem sabe agora, nos escândalos da Petrobras, não se chega a ele? De novo, o escândalo tem grande potencial, afinal a presidência do conselho da empresa é ocupada pelo atual ministro-chefe do gabinete civil, a Dilma Roussef. Mas a disputa contra a apuração dos fatos é grande e a Petrobras obteve liminar contra o pedido do TCU para ter acesso à intranet da companhia.


11 julho 2007

Frases de Luminares

Há poucas semanas, enviei a um primo algumas frases de luminares céticos a respeito da crença em deuses, de seus supostos ensinamentos, do papel desempenhado pelos sacerdotes e agremiações religiosas.

Ele, um católico fervoroso e muitíssimo inteligente, contestou cada uma delas, fiz minhas tréplicas, com algum cuidado para não o ofender, e a partir delas fez suas últimas objeções. A discussão prosseguiu ao vivo, quando ele esteve em Brasília, e, embora não tenhamos nem de longe chegado aos "finalmentes", como quase aconteceu entre o Heitor e seu amigo petista, fato descrito no post anterior, não nego que tivemos de mudar de assunto quando o mal-estar típico desses embates verbais se avizinhou. De fato, a discussão por escrito é a alternativa viável quando não há um mediador que impeça um argüente de cortar a exposição do raciocínio do outro e que discurse além do tempo conveniente. Nas caixas de comentários de blogs, passamos ao comentário seguinte quando percebemos que o debatedor perdeu-se dourando a pílula ou repetindo algo que já havia escrito.

Inspirado no conflito entre amizade e ideologias/filosofias incompatíveis, colo aqui uma pequena amostra da discussão, adiantando que não há muita novidade na maioria dos argumentos, de ambos os lados.

George Smith: “Se não há um deus, estamos corretos; se há um deus indiferente, não sofreremos; se há um deus justo, não temos nada a temer pelo uso honesto da racionalidade; mas, se há um deus injusto, temos muito a temer – assim como o cristão.”

Primo: Realmente não temos nada a temer pelo uso honesto da racionalidade. A crença em Deus não é anti-racional. É extra-racional. Quem entende corretamente o cristianismo, não teme a Deus, mas O ama. Um mau religioso não serve de base para se condenar a religião, assim como um mau cientista não serve de base para se condenar a ciência.

Eu: Extra-racional? Que diabos vem a ser isto?
" Um mau religioso não serve de base para se condenar a religião,..."
Entre os religiosos que detiveram algum tipo de poder - portanto agora não estou falando da massa de prosélitos - o abuso de autoridade não apenas não foi exceção mas quase uma regra.

Primo: Extra-racional, supra-racional, mas não irracional. Os sentidos, que captam as informações sobre o mundo, podem fazê-lo de modo direto – através de sensações “em primeira mão” – ou indireto – através de relatos, testemunhos etc. Os que tiveram experiências extraordinárias “em primeira mão”, quando não são doentes mentais, têm menos dificuldade em aceitar a existência de uma realidade que não fica óbvia no quotidiano. Os outros, que ouvem dizer, usam seus próprios recursos de filtragem, seu pensamento, seu sentimento, suas intuições, o conjunto de seus próprios recursos, conscientes e inconscientes, para aceitarem ou rejeitarem o lhes narram. É fácil rejeitar uma história do “Chicó” e seu “não sei... só sei que foi assim...”. Já não é tão fácil rejeitar os fenômenos vistos no sol em Fátima. Os dois tipos de relato parecem partilhar o “absurdo”. Só que um é engraçado e ninguém em sã consciência levaria a sério; o outro entra numa categoria diferente.
Um indivíduo que possuísse apenas a razão seria um “aleijado”, assim como aquele que dela não dispusesse.

Nem um mau religioso, nem bilhões, sejam eles do povo ou dos governos, servem de base para condenar a religião (não esta ou aquela forma de viver a religião, não este ou aquele uso da religião, mas a religião). Dezenas de reis corruptos ou milhares de religiosos sanguinários não tornam a religião ruim. Mas um só Jesus, uma só Teresa de Lisieux, um só Padre Pio ... serve para demonstrar o que a religião pode significar para a humanidade. Este argumento se aplica a diversas frases aqui citadas, por isso não voltarei a repeti-lo.

Eu: Extra-racionais deviam ser as provas da existência de Júpiter para muitos devotos romanos. Por si só aquela fé não teria sucumbido tão facilmente; foi necessário o cristianismo para sepultá-la - ou adaptá-la. Da mesma maneira, só foi possível quebrar, em uma grande parcela dos cristãos, o reforço comunal da intercessão dos santos com uma dissidência que surgiu com "pureza", força, "verdade" e, teoricamente, poucos podres no currículo: o protestantismo.
O embuste de Fátima necessita de uma discussão à parte.

Reforço Comunal é o nome do processo pelo qual uma afirmação se torna uma crença profunda pela repetida confirmação pelos membros de uma comunidade. Robert T. Carroll explica que o processo é independente de a afirmação ter sido investigada ou de existirem dados que dêem suporte a ela. Muitas vezes os meios de comunicação contribuem para este processo, divulgando a afirmação sem qualquer suporte factual, como a larga cobertura que a imprensa deu (e dá) a Chico Xavier e a histórias de assombração, etc.
Outros exemplos abundam: ET de Varginha, Caso Roswell, raptos por extraterrestres, projeções astrais, idéias racistas, influência da lua cheia no corte de cabelo, o sexo com virgem para se livrar da AIDS - os supostos casos de êxito alastraram a prática em algumas regiões da África -, etc. Muitos cristãos costumam rir dessas coisas, sem atinarem que existem aqueles que acham a mesma graça das estátuas que choram, das aparições, dos milagres que acontecem com hora marcada no Grupo de Oração das cinco, da Renovação Carismática.

Sem falar na alucinação coletiva.
“Muitas testemunhas de milagres concordam nos seus relatos porque têm as mesmas expectativas. E mais, relatos distintos convergem para a harmonia quando o tempo passa e o relato vai sendo recontado. Os que nada vêem de extraordinário e o admitem são postos de lado por não terem fé. Outros, sem dúvida, não vêem nada mas em vez de admitirem que falharam... imitam o relato dos outros e, subseqüentemente, acreditam que de fato observaram o que inicialmente fingiram que observaram" (Rawcliffe).

“...uma só Teresa de Lisieux (...) serve para demonstrar o que a religião pode significar para a humanidade.”

Então apenas um comunista bom serve para demonstrar o que o comunismo pode significar para a humanidade? Aquele comunismo soviético?

Schopenhauer : “Se uma proclamação pública repentinamente anunciasse a anulação de todas as leis criminais, imagino que nenhum de nós teria coragem de ir para casa sob a proteção das causas religiosas.”

Primo: Sim, e daí, Schopenhauer? Se a proclamação anunciasse a anulação de todas as leis criminais, também não seríamos protegidos pela ética, nem pela filosofia etc. Isto quer dizer que a ética e a filosofia são supérfluas?

Eu: Ninguém acredita que a ética, a moral e a filosofia existam independentemente do homem, muito menos que interfiram conscientemente nos acontecimentos naturais. E ninguém reza a elas por proteção. Pelamordeseudeus!

Primo: Achar que o fundamento da religião é eu merecer mais do que os outros por ser religioso não corresponde aos ensinamentos de Jesus. Ele já nos dizia: “Acreditais por acaso que aqueles homens mortos pelo desabamento da torre de Siloé eram piores do que vós?” Corremos o risco de aplicar às relações com Deus nossos vícios políticos (somos amigos do chefe, então teremos privilégios sobre os outros). Eu acredito na proteção divina para aqueles que confiam em Deus. Se existem catástrofes, crimes e acidentes, prefiro não usá-los para julgar a Deus ou para decidir se Deus existe. Entendo que o amor a Deus sobre todas as coisas junto ao amor ao próximo como a nós mesmos ou – aperfeiçoamento trazido por Jesus – o amor aos outros com o tipo de amor pelo qual Jesus nos amou substitui a disputa de privilégios pela solidariedade espontânea, essa sim, capaz de melhorar o mundo. O fato de não podermos contar com essa solidariedade espontânea para sairmos à noite pelos becos das favelas não invalida o princípio da solidariedade.

Eu: Mais uma vez: solidariedade também não é uma entidade consciente à qual podemos pedir qualquer coisa. Já a um deus podemos pedir e ele responderá com um "sim", um "não" ou um "espere". Do mesmo modo, se rezarmos a um bule de chá as suas respostas serão sempre "sim", "não" ou "espere". Você poderá receber o que pediu imediatamente, em algum tempo ou jamais receber. Claro que o consolo, a segurança e a paz interior que a oração propicia aos inseguros e medrosos são bem reais.

Antigamente, as pessoas rezavam mais por chuva do que hoje, com tantos satélites fotografando nosso planeta e com a miríade de meteorologistas a analisar os dados e a transmiti-los à população por canais como o Weather Channel. Da mesma maneira, quem perde tempo expulsando demônios de epiléticos, se qualquer pessoa sem autoridade divina pode ministrar o remédio adequado e controlar a crise?

Bertrand Russell: “Afirma-se – não sei com quanta veracidade – que um certo pensador hindu acreditava que a Terra estava apoiada em um elefante. Quando lhe perguntaram no que o elefante se sustentava, respondeu que se sustentava numa tartaruga. Quando lhe perguntaram sobre o que a tartaruga se sustentava, ele disse ‘Estou cansado disso. Vamos mudar de assunto’. Isso ilustra o caráter insatisfatório do argumento da Causa Primeira.”

Primo: Isto é válido para os que acham que é possível provar racionalmente a existência de Deus, mediante o argumento de que, se o universo existe, alguém deve tê-lo criado. Russell poderia usar o mesmo raciocínio para Deus: se Deus existe, alguém deve tê-lo criado. A razão não se presta para provar a existência de Deus e muito menos para provar a não-existência de Deus. Simplesmente esse assunto está fora de sua alçada.

Eu: "Provar a não existência": Você nunca conseguirá provar que algo não existe. No máximo posso provar que não existe um triângulo de quatro lados, he he.
Provar que o seu deus existe seria quase possível; bastaria que uma boca do tamanho da abóbada celeste surgisse e, tonitruante, pronunciasse “Eu sou o deus de Abraão”. Ainda assim poderia ser um Micrômegas de Voltaire a nos pregar uma peça. De fato, na lista de probabilidades, quase tudo vem antes de um demiurgo onisciente, onipotente e onipresente.

Primo: Ou seja, Catellius*: nenhuma demonstração de natureza científica PROVA a existência de Deus. Portanto, não cabe ao cientista, como tal, dizer se Deus existe ou não. Fazendo um paralelo, nenhuma mulher poderia provar cientificamente que ama um homem. Se ela der sua vida por ele, alguém pode levantar a hipótese de que ela estava mesmo pensando em suicídio e aproveitou a oportunidade para impressioná-lo ou fazê-lo sentir-se culpado... que ela era louca... e milhares de outras opções que os romancistas se encarregariam de levantar. Se ela lhe fizer surpresas, pode ser vista como interessada em retribuição; se ela recusar retribuição, pode ser vista como orgulhosa; se ela for meiga, é perigosamente insinuante; se ela não der nenhum sinal ambíguo, é uma farsante extremamente hábil. Conclusão do “cientista”: quem acredita no amor é um idiota!

Pode parecer brincadeira, mas há psicólogos, entre os adeptos do determinismo absoluto como explicação para o comportamento humano, que tentam traduzir o amor em termos de simples condicionamento respondente e operante. Essa corrente advoga a idéia de que o amor é só uma forma de condicionamento, uma resposta automática. Eles de fato ajudam a entender alguns fenômenos relacionais (afinal, o condicionamento existe), mas essa explicação não deixa nada fora? Ela dá conta de todos os fatos? Se for assim, então um supersistema de controle poderia ser exercido, no sentido de condicionar alguns cidadãos a ficarem junto com suas respectivas cidadãs, ter um determinado número de filhos – e só o número determinado – e outros cidadãos a permanecerem desacompanhados e a não reproduzir para não aumentar a população. Você acredita que amor existe?

Feuerbach: “Sempre que a moralidade baseia-se na teologia, sempre que o correto torna-se dependente da autoridade divina, as coisas mais imorais, injustas e infames podem ser justificadas e estabelecidas.”

Primo: Feuerbach faz aqui uma constatação aplicável a muitos fatos da história humana, porém não a todos. Novamente a armadilha do “sempre”. Quando alguém “raciocina” com indignação, corre um risco maior de cair no estereótipo, como é o caso aqui, mesmo tratando-se de um filósofo respeitado.

Eu: Ele usou o "sempre" mas concluiu com o "podem".
Não disse que as coisas mais infames são sempre estabelecidas. Disse que podem ser estabelecidas.
O afã de achar erros naquilo que já a princípio (ou por princípios) somos contra, nos arma armadilhas como essa.

Primo: O afã de achar erros? Você está enganado. Se eu tivesse atentado para esse “podem”, não teria feito objeções à frase, como não fiz em outras situações. Provavelmente, você está me interpretando de forma preconcebida. Quando leio as várias declarações e os vários argumentos seus, estou aberto à possibilidade de estar de acordo ou de estar em desacordo com o todo ou parte do que foi dito. Caso contrário, que sentido haveria nessa troca? Ela seria um eterno discutir palavras, inócuo e nem mesmo divertido.

Eu: Independentemente da ação dos religiosos, as religiões contêm preconceitos, verdades absolutas, uma moral absoluta que é a mãe do moralismo e da intolerância, e conferem autoridade de juízes e de representantes divinos a determinado grupo de homens. Aí está a receita perfeita para o desastre. Concordo com Carlos Esperança quando escreve que "a fé e a intolerância são irmãs gêmeas. As Igrejas odeiam-se com uma veemência que estarrece as pessoas civilizadas e transmitem o ódio dos seus líderes à multidão de crentes que as seguem. Faz parte da sua natureza. A fé, em o que quer que seja, virou um problema mundial".

Bakunin: “As pessoas vão à igreja pelos mesmos motivos que vão à taverna: para estupefazerem-se, para esquecerem-se de sua miséria, para imaginarem-se, de algum modo, livres e felizes.”

Primo: “As pessoas”... Note o insidioso termo “todas” subentendido! Muitas pessoas realmente podem usar a religião como ópio. Vamos proibir o vinho porque “as pessoas” fazem bebedeiras com vinho. Eh, Bakunin!

Eu: Quando um número significativo de pessoas mata sob efeito do álcool, o consumo de bebidas alcoólicas deve ser restringido sim, e o rótulo deve conter “proibida para menores” (no outro caso: proibida para ignorantes), “consuma moderadamente” (no outro caso: não acredite no que lhe dizem os representantes de deus).

A restrição veio em bom tempo. Uma espécie de lei seca limitando o poder dos alcoólatras de deus. A religião católica foi então domesticada pelo laicismo europeu. Como os muçulmanos ainda estão apenas domados, alguns em estado feral, os cristãos olham para eles com desdém, esquecendo que há pouco tempo eles eram os chacais com a boca encharcada de sangue, apesar de suas escrituras serem as mesmas de hoje, e apesar do imenso poder que os religiosos já tiveram para estabelecer a paz no mundo. Espero que não tenham uma nova oportunidade para promover o seu ideal de justiça e liberdade...

Primo: O que pretendo dizer é que se pode usar um remédio como veneno. A culpa não é do remédio, mas do uso.

Carl Sagan: “Não é possível convencer um crente de coisa alguma, pois suas crenças não se baseiam em evidências; baseiam-se numa profunda necessidade de acreditar.”

Primo: Então a crença de Carl Sagan de que Deus não existe baseia-se numa profunda necessidade dele de acreditar que Deus não existe? “Um crente” = “todo crente”. Generalização subentendida! Tenho certeza de que o próprio Carl Sagan acreditava em muitas coisas porque faziam sentido e não porque tinha necessidade de acreditar.

Eu: Segundo as palavras do físico, “Existem muitas hipóteses na ciência que são erradas. Isso é perfeitamente correto; elas são a abertura para descobrir o que é certo. A ciência é um processo autocorretivo. Para serem aceitas, novas idéias devem sobreviver aos mais rigorosos padrões de evidência e escrutínio."
Carl Sagan morreu aceitando a teoria do Big Bang como verdadeira. Hoje uma parcela significativa dos cientistas já a está descartando.
Mas Carl Sagan mudou suas crenças científicas várias vezes durante a vida, obviamente devido a novas evidências, a debates, a pesquisas e a experiências ao redor do mundo. E nenhum “supercientista” o excomungou por isso.

Jason Stock: “A ciência está aberta à crítica, que é o oposto da religião. A ciência implora para que você prove que ela está errada – que é todo o conceito – enquanto a religião o condena se você tentar provar que ela está errada. Ela te diz aceite com fé e cale a boca.”

Primo: Organizações religiosas até podem condenar que as contradiz. Não a religião. A religião é uma conexão, uma busca, um encontro. Quem diz “aceite e cale a boca” é uma pessoa, não a religião, é uma pessoa que está tendo uma atitude arrogante. Além disso, como já foi falado, ciência e religião buscam coisas diferentes! Podem-se auxiliar mutuamente, mas não há como se contradizerem.

Eu: É claro que quando ele diz "religião", não se refere a uma entidade consciente que mandará quem quer que seja calar a boca. São sempre os protetores das crenças religiosas que o fazem, principalmente aqueles que falam em nome dos fiéis.

Não há como religião e ciência se contradizerem? Aí temos um belo postulado, daqueles que você classificaria como generalização. Só se a religião fosse restrita ao que "não tem nada a ver com ciência". Mas temos os milagres, as aparições, a cosmologia, os anacronismos históricos...

Mil anos atrás a origem do homem era assunto metafísico, no máximo especulação de filósofos. Mas quando a ciência, em sua caminhada natural, contradisse a religião nesta questão, os religiosos negaram em um primeiro momento, aceitaram com ressalvas em um segundo (passaram a chamar o Gênesis de "simbólico") e agora descobriram que podem recrutar cientistas mercenários ou eles mesmos se formarem em física para "provarem", respaldados por credenciais, que sempre tiveram razão.

Primo: No meu ponto de vista, não há como religião e ciência se contradizerem, embora seja possível um cientista contradizer um religioso e vice-versa. São ambas perfeitamente válidas, complementares, e cada uma tem sua área específica.

Xenófanes: “Se os bois e os cavalos tivessem mãos e pudessem pintar e produzir obras de arte similares às do homem, os cavalos pintariam os deuses sob forma de cavalos e os bois pitariam os deuses sob forma de bois.”

Primo: Perfeito! Se os cavalos tivessem o poder da reflexão e liberdade, o Verbo Eterno poderia encarnar-se sob essa forma, para ajudar tais seres pensantes a viver na matéria em harmonia com o espírito.

Eu: Acho que não foi isso que ele quis dizer. O filósofo jônico ficou famoso por combater o antropomorfismo. Ele acreditava em um deus único, onipotente, "com clarividência perfeita, justiça infalível" e sem forma humana. Mas a frase serve para ilustrar que os homens criam deuses à própria imagem e não o contrário. Viam reis com mensageiros e tratavam de criar anjos, viam assessores e "burocratas" e tratavam de criar santos, instâncias entre eles e as divindades.

Primo: O antropomorfismo também é combatido pela religião católica. Não é Deus que tem a imagem do homem, mas o homem que é imagem de Deus. É óbvio que imagem, aqui, não se refere a olhos, nariz, boca, pescoço, barriga, pernas etc.

Justin Brown (Será James Justin Brown?): “Se a bíblia está errada ao nos dizer de onde viemos, como podemos confiar nela ao dizer pra onde iremos?”

Primo: Para quem literaliza Adão e Eva não é difícil literalizar também um céu com anjos de harpa sobre nuvens. Novamente, religião não é ciência e ciência não é religião. Crer que viemos de Deus e que para ele vamos ainda não pôde ser contraditado pela ciência. Várias dessas frases combatem a religiosidade estúpida como se ela constituísse a essência da religião.

Eu: O Gênesis só deixou de ser literal quando Darwin entrou em cena. Hoje quem enxerga nessa crença de três mil anos, ainda aceite por muitos, um exemplo de obscurantismo, está sendo maldoso, está literalizando...

A idéia de pecado original surgiu para explicar o mal no mundo; dois indivíduos seriam os primeiros pecadores. Isto é literal. A crença no poligenismo pode levar alguém à excomunhão. Só o monogenismo é aceito pela Igreja Católica.

"Anjos nas nuvens" também já foi algo literal. Acreditava-se que o deus abraâmico, de seu trono, via toda a humanidade, a qual habitava uma terra chata. Acreditava-se que o firmamento era uma espécie de concreto cheio de furinhos através dos quais as "águas superiores" caiam para cá. Alguém que tivesse levantado a hipótese da evaporação poderia até ter sido morto a mando de um Eliseu da vida.

"Crer que viemos de Deus e que para ele vamos ainda não pôde ser contraditado pela ciência". Como isto não é falseável, não é do campo da ciência.

H. L. Mencken: “Para mim, um homem rezando e outro portando um pé de coelho para lhe dar sorte são igualmente incompreensíveis.”

Primo: Se a expressão “são igualmente incompreensíveis” for uma abertura para a investigação, parabéns para Mencken! Se for uma forma de dizer que o homem que reza é estúpido, pelo menos ele iniciou a frase com um “para mim”.

Eu: A descoberta dos micróbios e dos germes, a assepsia, a penicilina, a vacina e o antibiótico conseguiriam salvar a maior parte dos dois terços de cristãos cujas vidas foram ceifadas pela Peste, no fim da Idade Média. Certamente eles oraram muito. Os padres sobreviventes culparam os pecados das vítimas pelo ocorrido, já que tinham catástrofes como o Dilúvio Universal nas quais se espelhar. Pés de coelho, da mesma maneira, não teriam adiantado muito, já que a ira do deus bíblico exigia sangue humano...

Primo: Logo, não se deve rezar: é anticientífico! É isso?

Anatole France: “Se 5 bilhões de pessoas acreditam em uma coisa estúpida, essa coisa continua sendo estúpida.”

Primo: É difícil imaginar 5 bilhões de pessoas acreditando numa coisa estúpida. Isto só seria possível com Anatole France pairando sobranceiro acima de todas elas. Mas, brincadeiras à parte, entendi o argumento dele: Mais vale um bom cientista pesquisando uma vacina do que uma multidão de pessoas misturando a esmo as mais diferentes melecas, sem qualquer formação científica, na esperança de debelarem a doença. Também poderíamos dizer: Não é sensato fazer uma eleição para decidir se Deus existe.

Eu: Vide a crença na reencarnação. Se os chineses e indianos nela crêem e, por acaso, reproduziram-se mais do que os europeus, daria para afirmar que a crença deles passou a ser a correta?

Primo: A recíproca também é verdadeira. Cinco bilhões de falsos milagres não invalidam um único milagre autêntico. Basta um para fazer ruir todo esse sistema baseado no pressuposto de que só existem truques, engodos e ilusões. E quem quiser realmente investigar, que investigue. Material não falta.

07 julho 2007

Idealismo e Realidade

Fiquei muito feliz, um dia desses, quando um amigo petista me chamou para almoçar, afinal até os liberais gostam de ser estimados. O almoço ia bem até que começamos a falar em política. Chegamos quase aos finalmentes: eu disse que o Lula e sua quadrilha eram um bando de ladrões que pilhavam as estatais para o partido, e ele disse que, no fundo, o FHC odiava o Brasil. Enfim, um completo desastre. Fiquei deprimido.

Depois liguei para ele e propus uma conciliação. Disse-lhe que, para mim, a questão tratava-se apenas de como apreendíamos a realidade. O idealista gosta sempre de ver o copo meio cheio, e o realista estraga tudo dizendo que não existe “meio” vazio e tampouco “meio” cheio, assim como não se pode ser meio honesto nem se estar meio grávida; para o realista o copo está pela metade. E assim acaba passando a imagem de pessimista, muitas vezes. Além disso, sabe que o homem é um tipo basicamente egoísta, embora tenha a capacidade para ser solidário. Existem aqueles que gostam do discurso politicamente bonitinho enquanto outros são desconfiados por natureza.

Argumentei que achava o discurso da direita mais verdadeiro porque estava geralmente embasado em ações, enquanto muito poucos que adotam o discurso socialista o são na prática. Ele revidou dizendo que era um absurdo pessoas que tinham ganho bolsa de mestrado criticarem o Bolsa Família. Eu respondi que apoiava o Bolsa Escola e que, portanto, não havia incoerência alguma.

Enfim, todo governo precisa dos seus otimistas e não sou eu que vou perder um amigo. Foda-se o governo. Fiquei até com inveja da fé do meu amigo. Talvez seu mundo seja mais feliz do que o meu. E considerando que ele está na iminência de ser promovido, penso que talvez os crentes sejam mais atraentes e agradáveis aos demais, que são, em sua maioria, crentes de algum tipo. O verdadeiro indivíduo, aquele que age em seu próprio benefício, talvez não perca muito tempo tentando disseminar idéias que ele julga mais corretas. Apenas aproveitará as oportunidades para fazer o melhor.

Mas quem sabe não seja melhor, em algumas situações, você dizer o que as pessoas querem ouvir? E se você ainda por cima acredita nisto, bingo! Só não dá para criticar os políticos mentirosos. Eles falam o que todos querem ouvir. Depois os incautos elegem as criaturas e elas não cumprem o que prometeram; e a culpa é de quem? De quem foi eleito mentindo ou de quem votou desejando desesperadamente acreditar?

Muitas vezes a salvação dos ideais está na esperança de punição, porque ela pode purificar novamente o ideal, restaurar seu hímen. Se um petista roubou, que seja preso para que os ideais aos quais está associado sejam mantidos impolutos. Mas, e quando não se tem esperança de punição? Então não faz mal, afinal eles amam o país, são idealistas e, se roubaram, não é lá tão ruim assim, pois os outros fizeram isto também.

A ironia destes esquerdistas é que a corrupção não pode ser sistêmica e portanto responsabilidade da coletividade do governo e do seu chefe. Ela tem que ser culpa de alguns indivíduos. Só o mérito pertence ao grande líder, ao grande pai, àquele que inaugura obra atrás de obra sem em nada ter contribuído para a maioria delas, enquanto a culpa é de algum burocrata insignificante do partido.

Mais aí retornamos à questão do copo “meio cheio” e “meio vazio”. Os esquerdistas gostam de ver qualidade na coletividade e culpa nos indivíduos. A direita exalta o indivíduo e às vezes parece deplorar o coletivo. Qual será a realidade?


02 julho 2007

O Exército de Chávez

Alguns petistas mais ligados aos ideais da geração de 68 vêem no regime chavista um aliado ideológico. Alguns como a Dilma defendem a construção do Gasur, um gasoduto que atravessaria o território brasileiro e conectaria a Venezuela à Argentina. De fato, este gasoduto tem o potencial de gerar enormes prejuízos para a Petrobras, muito maiores do que os sofridos com as perdas na Bolívia. Mas agora temos um complicador nesta história; a Venezuela mostra ambições militares além das estratégicas e inicia uma corrida armamentista.

Recentemente, em suas conversas com Putin, Chávez teria dito que vê a Venezuela em relação à América como a Rússia em relação à Europa. Entretanto, observa-se que as relações entre os europeus e os russos têm sofrido estremecimentos diante da interrupção de fornecimento de gás para a Alemanha, e de outras ameaças russas.

Sob a alegação de temer uma invasão militar americana, os venezuelanos iniciaram esta corrida armamentista – na verdade uma corrida aos shoppings militares do mundo levando consigo o dinheiro do petróleo. De fato, a Venezuela tem uma disputa territorial com os EUA, a França e a Holanda em sua plataforma continental cheia de petróleo.

Atualmente, a Venezuela treina um contingente de 2 milhões de reservistas que deseja reintegrar às forças armadas visando preparar-se para uma longa guerrilha contra uma possível invasão americana. Esta demonização do maior comprador do petróleo venezuelano não deixa de ser curiosa.

Em 2000, as Forças Armadas Venezuelanas tinham um contingente de 75.000 homens. Em 2005, cerca de 100.000 homens foram adicionados a um corpo separado das forças armadas. Elas são organizadas em seis corpos subordinados a dois comandos independentes. Esta estrutura parece refletir mais o temor de sofrer um novo golpe interno do que um sistema eficiente de combate a um inimigo externo.

A lista de compras de equipamento militar de Chávez inclui: 12 navios de transporte e aviões de reconhecimento e oito navios patrulha comprados da Espanha; 100 mil rifles AK-103, 12 helicópteros Mi-17, 24 caças Su-30 e 6 submarinos de ataque a diesel da Rússia; sistemas de radar da China; sistema antiaéreo da Bielorussia e a licença para produzir os rifles de assalto AK em seu território.

Os venezuelanos tentaram adquirir outros equipamentos mas sofreram embargo dos americanos, que ameaçam as empresas ou países vendedores com perdas de contratos ou de licenças de uso de tecnologia americana. Além disso, os venezuelanos acusam os americanos de não oferecerem manutenção adequada à esquadrilha venezuelana de F-16.

E o Brasil? Seria realmente de nosso interesse construir um gasoduto caríssimo que aumentaria a nossa dependência de um regime que no futuro poderá estar desalinhado ideologicamente com o nosso, que não tem uma prática democrática, que tem tradição em rompimento de contratos e que está se tornando uma potência militar?


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