27 junho 2007

Lula e a Sobrevivência

Outro dia o nosso semiculto presidente, ao dar posse ao extremamente culto e inteligente Mangabeira Unger, mostrou um pouco do seu proverbial bom senso. Segundo ele, a primeira preocupação das pessoas é com a sobrevivência e isto deve ser compreendido. Portanto, ao se criar um horizonte de longo prazo para as reformas por meio daquela Secretaria estaria se evitando as preocupações mundanas que muitas vezes impedem a prevalência do bom senso e do bem comum. Nisto ele concorda com o pastor e pai dos economistas Adam Smith. Cada um busca o seu próprio bem ou pelo menos o que julga ser seu maior interesse.

Entretanto, acredito que a simplicidade do pensamento de Adam Smith ainda não tenha sido compreendida pela maioria das pessoas. Este pastor buscou conciliar o egoísmo dos indivíduos com o bem comum (a riqueza das nações). Uma proposta ambiciosa, sem dúvida, mas que tem uma base empírica muito boa: o egoísmo humano. Para ele, a instituição social do mercado faz a intermediação entre os indivíduos e o bem comum. E o que é o mercado? É o local onde os indivíduos podem negociar para atingir um estado mais elevado de satisfação. E, mais importante, o mercado permite aos indivíduos a especialização, que gera aumento da produtividade social (a riqueza das nações).

O Estado soviético acreditava que não deveria haver negociação entre as pessoas pois ele teria capacidade de planejar o que seria melhor para todos. A reação da sociedade russa a isto foi o fortalecimento das máfias, do clientelismo e das panelinhas que buscavam assegurar a sua própria sobrevivência contra a vontade desta entidade desumana e abstrata - o Estado.

De fato, há uma certa ingenuidade no pensamento socialista tradicional. Mais que isto, há um resquício do pensamento dualista de bem e mal. Acredita-se que uma elite do proletariado conheça o bem maior e que a maioria do povo desconheça, portanto, justifica-se a imposição da vontade do pequeno grupo ao grupo maior.

O nosso semiculto presidente, que é originário do povo, prova que o povo tem bom senso. Talvez não tenha muito caráter, como Macunaíma, mas caráter talvez seja um luxo para poucos. E isto não é um pecado tão grande, afinal, como disse o elitista e ex-marxista FHC, existem as razões de Estado.

A negociação com o Estado é muito difícil para a maioria dos indivíduos, uma vez que a melhor alternativa, caso não se chegue a um acordo, é simplesmente deixar o país. Portanto, há a necessidade de conter o poder estatal, ainda mais por ele ser exercido por uma elite de políticos e burocratas que busca apenas a própria sobrevivência.

Conversando com petistas intelectualmente sofisticados, acho impressionante eles ainda não terem entendido a importância da divisão de poderes do Estado para enfraquecê-lo, muito menos a importância de um quarto poder independente, ou seja, uma imprensa não controlada pelo governo. Talvez o seu rancor de classe veja nas TVs privadas uma forma de hegemonia da burguesia. O meu argumento, no espírito de Montesquieu, de que basta que a TV não seja controlada pelo governo para que haja democracia não os convence.

A velha idéia americana dos “checks and balances” talvez seja americana demais para o paladar petista. A idéia é simples. Precisa-se de poder porque ele gera ordem, mas o poder deve ser contido por outros poderes e controlado (a glasnost) para que não degenere em ditadura.

O petista tem uma fé nos seus dirigentes da qual não compartilho; acredita que buscam "o bem maior" quando, como nós, estão em grande parte buscando a própria sobrevivência e daqueles com quem têm relações afetivas.


21 junho 2007

Provérbios Árabes

Como estou meio sem tempo - e isso tem me deixado um tanto quanto frustrado, porque tenho acumuladas algumas coisas para escrever por aqui - por ora listo alguns provérbios árabes interessantes que selecionei, muitos deles análogos a outros que conhecemos aqui no Brasil, mas expostos de um modo diverso, por isso mesmo curioso.

Como o C. Mouro comentou no post Discutindo Marx, bons provérbios, fábulas e aforismos são excelentes para produzir reflexões e, embora possam suscitar centenas de páginas em explicações – é o caso da fábula A Raposa e as Uvas -, devem ser apreendidos instantaneamente. Para bom entendedor, meia palavra basta, reza um provérbio daqui. Mesmo assim, não me furtei de comentar a maioria deles e de procurar associá-los a algum evento conhecido, nem de soltar um ou outro petardo contra Lula e B16, os pobres coitados que mais têm apanhado aqui no Pugnacitas.

Desejo também propor aos leitores que inventem um "provérbio" cuja ilustração seja a fotografia acima, de um asno tentando levantar vôo em um aeroporto brasileiro.

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Sejamos Realistas!

- Guarda-te de fazer com as mãos o nó que deverás desfazer com os dentes.
Obs.: É fácil abrir uma empresa aqui no Brasil; difícil é fechá-la.

- Mede o tecido antes de cortá-lo.
Obs.: “Prometo 10 milhões de empregos”... Ou: de que serve a ponte de 2,9km que a Gautama construiu sobre um vão de 3,0km?

- Encomenda teu pão ao padeiro, mesmo que ele coma a metade.
Obs. Antes um bom profissional cuja comissão é alta do que um amador. Não chame um “cadista”, contrate um arquiteto, he he.

- Come verdes os teus frutos, antes que o ladrão os roube maduros.
Obs. Se tuas ações valorizaram 10% em um dia, vende-as; não espera que valorizem 20%.

- Não gaste duas palavras se uma única basta.
Obs.: Ockham que o diga.

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Condição Humana

- Alimenta teu cão e ele guardará tua casa; faze jejuar teu gato e ele te comerá os ratos.
Obs.: Pessoas diferentes requerem tratamentos diferentes. Do ponto de vista do PT a coisa vai um pouco além. Testemunhou sobre o que acontecia na mansão onde se reunia a República de Ribeirão Preto? Devassa na conta bancária! Traiu, corrompeu, comprou votos, suspeito de envolvimento na morte do prefeito? Tapinha nas costas e um “A luta não terminou, companheiro!”.

- Bastou elogiarmos a limpeza do gato, e ele defecou no depósito de farinha.
Obs.: A meta do gabola é impressionar; tão logo ela seja atingida é bem provável que ele relaxe e seja desmascarado.

- Quando disseram ao gato que o seu excremento era útil ele começou a enterrá-lo.
Obs.: Com os árabes, criadores destes sábios provérbios, aconteceu algo semelhante. O petróleo não significava mais do que excremento para eles; as potências européias lhes disseram que era útil e eles fizeram o embargo de 1973.

- Levaram o asno para a festa de casamento: ele começou a zurrar e pedir que o carregassem com os fardos de sempre.

- Desde quando o mendigo... impõe condições?
Obs.: Se o mendigo for o laranja de um grão-vizir ardiloso, não há limites para tanto. Aqui no Brasil, integrantes do MST, MLST, PCC, UNE, entre outros baderneiros, têm a petulância de impor as condições por terem a proteção do PT e de outros partidos de esquerda. “Cão do príncipe, é príncipe também!”, diz outro provérbio árabe. Neste caso, claro, dá a entender que a consideração que temos por uma pessoa acaba se estendendo a seus parentes e amigos.

- Enquanto fores bigorna, agüenta; quando fores o martelo, bate!

- O mar brigou com o vento e quem virou foi a barquinha.
Obs.: “Sai de perto que é briga de cachorro grande”, costumamos dizer. “Numa luta entre elefantes, o prejudicado é o capim" é um provérbio africano. Em uma fábula de Esopo a doninha e a marta se engalfinhavam no sótão. Os ratos, presas costumeiras de uma e de outra, foram saindo confiantes da toca e se puseram a assistir à luta. As duas, quando se deram conta da petulância dos roedores, cessaram a briga e atacaram os ratos, matando quase todos. O provérbio indica também que quem sempre paga o pato é o coitado que não tinha nada a ver com a história.

- Por causa da rosa, a erva daninha acaba sendo regada.
Obs.: É o caso da ajuda humanitária para a África. Tem servido mais aos celerados do que aos almejados destinatários.

- É como a peregrinação a Meca: quem diz que é fácil, blasfema; quem diz que é trabalhosa, blasfema.
Obs.: É esta justamente a função das coisas sacrossantas: produzir blasfemos.

- O óleo só se extrai com a prensa.
Obs. Ou "O incenso só exala seu perfume se queimado." Update: O Bocage escreveu: "Retira este, Catellius. É o argumento de todos os ideológicos". Caro amigo, os meus melhores projetos saem quando sou "prensado" pelos clientes. Fazer o quê? Há demanda por criatividade quando você está entre um muro de 3 metros de altura e um leão faminto.

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Para Sartre, o inferno são os outros

- A sogra já foi nora, mas... esqueceu!
Obs.: Reinaldo Azevedo e Olavo de Carvalho já foram comunistas - comunistas bem intencionados, por certo! Mas hoje tratam seus ex-companheiros como se tivessem esquecido das intenções que outrora os motivaram e dos argumentos que corromperam suas “mentes brilhantes” juvenis. Na verdade, os dois apenas trocaram o objeto de seu fanatismo. Antes sonhavam com a igualdade a todo custo, revelada por Marx, hoje dizem que aquilo foi uma “fase”, e aderem ao discurso fácil católico em prol da mesma igualdade pela igualdade, em defesa de uma alegada civilização ocidental judaico-cristã na qual os ingratos descendentes do pensamento iluminista insistiriam em cuspir. O que as duas sogras dirão quando esta fase passar?

- Na hora de comprar uma casa, examina primeiro os futuros vizinhos.
Obs.: Pedro Álvares Cabral não possuía a bacia de Nostradamus para antever as tristes figuras de Chávez e Evo Morales. São vizinhos problemáticos. Se têm problemas com suas televisões, que não venham roubar o sinal de nossa TV a Cabo...

- Visita sem presentes é melhor do que a que te traz um carneiro.
Obs.: "Mais caro é o dado que o comprado".

- Não dá trela ao desocupado: ele fará de ti a sua ocupação.

- Quando os beduínos começam a ter abundância de manteiga, usam-na para limpar o traseiro.
Obs.: Era justamente isso que o assessor do irmão do Genoino ia fazer com o abundante dinheiro do Caixa 2 petista.

- Uma mão sozinha não bate palmas.
Obs.: A união faz a força. É verdade. Em compensação, não dá para escrever um bom livro usando as duas mãos – vide as porcarias de Chico Xavier e de Gasparetto. Como disse o C. Mouro, “a união de fracos soma as forças, mas não se pode somar inteligência”. Para fazer barulho, duas mãos são melhores do que uma.

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Vícios e Defeitos

- Defeito que agrada o sultão, vira virtude.

- Com a mentira se consegue o almoço, mas não o jantar.
Obs.: Ou “A mentira tem perna curta”. Este provérbio entra em choque com o “uma mentira repetida mil vezes vira uma verdade”. Se tivesse perna curta, se não conseguisse o jantar, as intenções do ex-inquisidor Ratzinger, que tanto fala em tolerância e liberdade, seriam sempre postas em xeque.

- Os maiores mentirosos são o jovem emigrado e o velho cujos contemporâneos morreram.
Obs.: Os apóstolos de Jesus encaixam-se perfeitamente neste provérbio. Foram jovens emigrados (ide e pregai) e velhos cujos contemporâneos morreram – martirizados à exceção de João Evangelista, ao menos segundo os mentirosos sobreviventes... Por isso a “fabula christi” é tão legal! Para alguns, contudo, os "evangelistas" moravam em Bizâncio sob o governo de Constantino.

- O rato aconselhou o dono da casa a matar o gato... e a comprar queijo!
Obs.: Sejais humildes, não resistais ao mau, não julgueis, amai vossos inimigos...

- "Cebola é um prato nobre", diz o pobre.
Obs.: "Funk carioca é meu estilo musical preferido", diz o analfabeto musical que só consegue fazer aquilo. "O Cristo Redentor é uma das sete maravilhas do mundo", diz o pobre do brasileiro...

- Quando perguntaram à mula "Quem é teu pai?", ela respondeu: "O cavalo é meu tio!"
Obs.: Quem é teu pai? - perguntaram ao filho do Vavá...

- Nunca o mercador diz: "Meu azeite está rançoso".
Obs.: Na República do Marketing o mercador, ou marqueteiro, ao invés de se calar, de se omitir, diz que o azeite rançoso será o melhor que o cliente jamais provará.

- "Que frio!", comentou o avaro quando o filho viu o sorveteiro...
Obs.: Comentário idiota: Se eu fosse filho do avaro lhe responderia: 'Mesmo no frio, tomar sorvete esquenta, papai, por causa das calorias.'

- Não te esforces por saber do luar ou do boato: ambos acabarão por chegar até ti.

- "Podem ficar tranqüilos: a raposa me garantiu que não vai mais pegar galinhas".
Obs.: B16 fala em tolerância e reza voltado para Meca em mesquita turca poucos dias após a inocente palestra de Resenburg.

- Aperta-lhe a mão, mas confere os dedos depois.
Obs.: Eu juro que vi, durante os debates de 1989 entre os presidenciáveis, o Maluf apertar a mão do Lula. Se este soubesse contar, o torno mecânico não teria sido tão difamado.

- A parede queixou-se ao prego: "Por que me perfuras?" Ele respondeu: "Pergunte ao martelo!"
Obs.: Assim pensa o indivíduo cujos valores morais lhes foram revelados, não atravessaram os neurônios antes de influenciar suas ações.

- O que é mais doce do que o mel? Vinagre grátis.
Obs.: Temos o “De graça até injeção na testa”. O povo adora embarcar em um “compre este suporte para televisão por apenas nove mil novecentos e noventa e nove reais e leve este televisor de LCD grátis”.

- Antes inimigo do príncipe do que do guardinha.

- "Desembainhou, use!"
Obs.: Ajoelhou, tem que rezar! Ou “acusou, prove”.

- Não será a bondade a recompensa da própria bondade?
Obs.: Há um outro provérbio árabe cujo significado é semelhante: “Quem comete o mal, comete-o contra si mesmo.”


18 junho 2007

O Desprezo Petista pela Democracia

Nesta semana, enquanto todos levam suas vidas tranqüilamente, o PT trama mais um golpe contra a democracia representativa. O roteiro é sempre o mesmo; começa com uma boa intenção e termina no inferno. A desculpa desta vez é a moralização da política por meio de uma reforma que faça com que um parlamentar haja em coordenação com o seu partido. É uma nobre intenção, sem duvida.

Na visão do PT, as bancadas na Câmara e no Senado são órgãos subordinados à Executiva Nacional do partido, ou seja, os representantes escolhidos pelo povo estão subordinados ao famoso Campo Majoritário. Os lideres do Campo Majoritário ficaram famosos na época do Mensalão e outros escândalos: o Zé Dirceu, o Zé Genoino, o Mercadante, o Berzoini e outros.

A idéia da quadrilha - palavra usada pelo ex-procurador-geral da República, que a denunciou no Supremo - era aprovar a chamada lista fechada, ou seja, o povo brasileiro não poderia mais votar em pessoas, apenas nos partidos. E quem escolheria as pessoas que ocupariam os cargos? Os Zé Dirceu da vida. Os homens fortes do aparelho partidário.

Para amaciar o Congresso propuseram a idéia dos candidatos natos, ou seja, uma fórmula de garantir que os atuais ocupantes dos cargos tivessem precedência sobre novos aspirantes aos seus cargos. Mas os parlamentares, que de bobos não têm nada, ficaram cabreiros. Os próprios parlamentares petistas ficaram assustados, mas a Executiva já os ameaçou inclusive de expulsão com perda de mandato.

Nem no PMDB, protagonista da maior farra de cargos já vista na história deste país, os parlamentares se comprometem a votar bovinamente qualquer matéria de interesse do governo bem como encabeçar projetos de interesse do PT nos quais eles não queiram sujar as mãos, nem eles estão conseguindo engolir o tal projeto. Mas o canalha do Chinaglia não desiste e vai voltar à carga na semana que vem.

Enquanto isso, o Lula passeia por aí inaugurando novas paradas como o Cristo Redentor e como a P-52. É claro que ele está fazendo isto de helicóptero, porque enquanto ele brincava de estadista realizador o Rio de Janeiro vivia mais um dia de terror com a Linha Vermelha e a Avenida Brasil fechadas. A solução talvez venha com a TV Lula, que começará a falar bem do Brasil com um orçamento inicial de R$ 350 milhões. Como disse o Lula, só brasileiro fala mal do Brasil. Não demorará muito para que quem critica o seu governo seja considerado traidor.

Isto tudo não é novidade, considerando-se a tentativa de implantar uma censura aos jornalistas logo no inicio do primeiro mandato seguido pelo próprio Mensalão, que pagava em dinheiro vivo a lealdade dos parlamentares que apoiassem o governo, numa escala nunca antes vista na história deste país, como disse o próprio Mangabeira Unger. E ainda tem gente que tem coragem de criticar o Congresso. Ele e a tão criticada imprensa, incluindo a Veja, são as únicas coisas que nos separam de uma Venezuela ou Cuba.

Falando em Congresso, outro dia um bando de Sem Terra foi lá fazer o maior quebra-quebra. A repercussão foi tão negativa que o líder da manifestação deve ter de ser expulso da Executiva Nacional do PT. Mas o futuro da democracia petista está nas mãos deste conselho de "sábios" e "santos" que certamente saberão escolher melhor do que o povo as pessoas que deverão representá-lo no Congresso.

Para completar a reforma que irá moralizar a política brasileira, propuseram arrumar mais R$ 1,7 bi para financiar as campanhas dos partidos. Se somarmos isto ao R$ 1 bi arrecadado pelas centrais sindicais que fazem parte do Campo Majoritário e que mandam na Executiva Nacional do PT, acho que se está garantindo bastantes recursos para as próximas campanhas do partido. E os sujeitos ainda têm a cara de pau de dizer que o partido tem uma dívida de R$ 60 milhões...Mas quando compram um dossiê contra os inimigos não têm dificuldade de desembolsar R$ 1,3 milhão...

15 junho 2007

Cicatrizes e Beiços de Pau

Texto de C. Mouro

Se indivíduos são capazes de forjar cicatrizes em si e até rasgar o lábio para nele introduzir um disco de madeira, mais fácil é exibir adoção de ideologia redentora, de benevolência, santidade e qualquer coisa que os valorize num meio, sobretudo se triunfante, gabola.

Cicatrizes

Uma moral que crie valores consensuais, mesmo que sem valor algum fora da expectativa de consenso, é dos mais potentes narcóticos que o homem conseguiu criar. Certa vez, li sobre tribos onde a "moral" valorizava o indivíduo pelo número de cicatrizes que exibisse no seu corpo. Imagino que em tudo pode haver uma tentativa de razão. E esta tentativa por vezes revela-se uma caricatura onde a vontade de criar aparências faz com que se exagere o destaque das características marcantes, que por si garantem a associação com a figura real. Assim, pode-se imaginar que cicatrizes são característica de um caçador ou guerreiro, e, portanto, possuí-las é indicativo de valor individual. Isso porque para uma tribo o caçador e o guerreiro são de grande utilidade, presumindo-se valentia e habilidade em quem a estas atividades se dedique. Diante de tal "moral" os silvícolas ansiavam por cicatrizes, culminando com o desenvolvimento até de rituais para produzir cicatrizes nos chefes, guerreiros e caçadores, para que desta forma pudessem exibir o seu valor aos demais.

É claro que cicatrizes podem ser conseqüência da inabilidade e até obtidas num acidente durante uma fuga vergonhosa. Porém a estreiteza das dicotomias de aparências concebe que quem não caça e nem combate, restringindo-se a "tarefas menores", dificilmente terá cicatrizes, enquanto que mesmo um guerreiro ou caçador hábil as possuirá, dado os enfrentamentos em que se envolve. Tipo: só se machuca quem faz, quem não faz não erra nem se machuca. Não é muito racional, é uma "lógica" apressada e burra, mas serve como referência de aparência fácil para criar valores opostos; não é preciso pensar e julgar, basta ver cicatrizes. Então, na miscelânea mental das aparências fáceis, o indivíduo que possui cicatrizes é alguém admirável e qualificado; alguém valioso por presumidas qualidades. E pronto! Então, vai daí que produzir cicatrizes em si torna-se o mesmo que possuir as qualidades que estas possam caracterizar. Desta forma, quem tem, ou quer, valor para exibir, facilmente o consegue exibindo suas "cicatrizes", mesmo artificialmente produzidas para tal fim. (Obs. 1)

Digo mesmo que impressionar pelo menos um dos sentidos torna-se o "ideal de comprovação" para aqueles que desejam enganar, tanto quanto para os que desejam ser enganados, ou se enganar, amparados na preguiça e incapacidade de pensar e julgar que acomete as massas (estas tomam a forma que lhe dão). A verborragia insistente, contrária aos fatos que se pode perceber racionalmente, é uma tentativa de fazer com que aquilo captado pelos ouvidos se sobreponha ao que pode ser captado pela razão - palavras podem ser percebidas por todos os ouvidos sãos, mas nem todos os cérebros, mesmo sãos, captam e julgam a realidade. Se indivíduos tendem a aderir a consensos, as palavras são mais fortes que raciocínios, tanto mais quanto mais emocionam.

Elaborar julgamentos é algo já de há muito condenado: "não julgueis para não serdes julgados", propondo o conveniente acobertamento mútuo, corporativo. Assim, finge-se a verdade através de falsas aparências e ao mesmo tempo finge-se crer nela, também exibindo falsa aparência. Assim, dizer que se quer o bem é querê-lo, sobretudo quando se o "prova" opondo-se ao que se afirma ser o mal: amar o pobre e o assalariado é facilmente "provado" pelo ódio que se afirma ao rico e ao empresário; ou seja, uma coisa é boa porque se opõe a outra que é má; ou "X" é verdadeiro porque se opõe a "Y" que é falso. Nada mais fácil e antigo para os estultos adotarem "valores" e verdades, através de falácias, lógica chinfrim.

Beiços de Pau

Outra questão interessantíssima envolve as tribos de índios "beiços de pau" aqui mesmo no Brasil. Vi uma entrevista com determinado cacique botocudo, e este explicava que os meninos tinham que fazer um corte abaixo do lábio inferior e nele introduzir um semidisco de madeira. Faziam isso para demonstrar valor, possivelmente coragem, resistência, masculinidade ou coisas do gênero. Não fazê-lo era depreciativo para o indivíduo. Quanto maior o disco de madeira mais caracterizada a qualidade do sujeito. Os mais velhos, mais habituados, exibiam grandes "beiços". O velho índio informava que o início "doía muito, muiiito" e que ele ia para a mata tentando resistir a tal suplício sem expor sua angústia.

Bem, talvez irrefletidamente pretendessem exibir, previamente, capacidade de resistir à dor sem esmorecer, já que de fato esta é uma qualidade útil a quem a possui. Mas talvez tenha surgido apenas como um desafio. Quando um ou mais sujeitos resolveram que realizar algo incomum, muito difícil e contrário à natureza humana, era algo que os fazia mais "valiosos" (Obs. 2). Isso até parece lógico, porém desprovido da análise racional é apenas uma estupidez. Contudo, a tendência de tomar o suplício como atributo de valor (e redentor), sem maiores reflexões, tornou-se uma realidade baseada em falso e pretenso silogismo de "lógica irracional": consigo tudo que outros conseguem; outros não conseguem tudo que consigo; donde sou superior. Isto é uma estultice, posto que aquilo que consigo além dos outros não traz qualquer benefício, ao contrário, só prejudica quem o consegue. Demonstrando, sim, o quão insano é aquele que se prejudica injustamente, almejando aparentar "superioridade" física ou moral. Particularmente, eu considero isso prova inversa, ou seja, de nítida inferioridade. Por exemplo, um ricaço que se lança na miséria em busca de aparência santa é um néscio, um traste sem valor algum.

No final das contas, todos, ou a maioria, acabam por supliciarem-se apenas para não se verem depreciados perante a triunfante opinião alardeada de um indivíduo (ou grupo) que se gaba, com espalhafato, de ser, em oculta realidade, mais tolo que os demais. Mesmo assim, ante a gabolice triunfante, legiões são arrastadas para a estupidez e até para o suplício ao tentar repetir em si o "orgulho" que outros parecem exibir por determinados fatos, como indicativo de valor, agindo assim apenas porque ninguém ousou gabar-se, com a mesma visibilidade, de não partilhar de tal imbecilidade. Pois, funesto que seja, aquilo que não se exibe para a fácil percepção da turba é algo que "não existe". Logo, se ninguém cria um valor oposto àquele alardeado, igualmente alardeando-o com espalhafatosa efusão, tem-se a impressão que a jactância do tolo é uma sincera manifestação de glória sentida, decorrente dos motivos que apresenta (verdadeira), fazendo com que os demais pretendam igualmente senti-la (repeti-la em si - herança símia), imitando aquele que a exibe. Ou mesmo, apenas imitam a atitude alheia, cada um receoso que outros pensem que é inferior àquele que exibe tal "orgulho", aceitando até submeterem-se a suplícios para esconderem sua possível inferioridade ou para que ninguém suspeite de que seja inferior. O "valor" da humildade alheia é reconhecido por esta esconder o prazer consigo, capaz de ferir quem não o sente. E, como não poderia deixar de ser, sendo a humildade um valor consensual, muitos apenas a exibem por mera arrogância (ostentação de orgulho simulado). Ou seja, escondem a confiança e o orgulho sinceros com um simulacro valorizado - um estúpido arrogante dogmático não devia ser repulsivo por ser arrogante, mas sim por ser estúpido: na minha opinião, mais vale um antipático com razão do que um simpático sem razão.

O Rei está Nu

É algo como na estória do rei que se vestia com "belas roupas" só percebidas pelas "melhores pessoas", de forma que todos, cientes de tal pretenso fato, queriam se exibir como integrantes do grupo dos "melhores", e passaram a exibir sua anuência para com a beleza das "roupas" do rei, num consenso de mútua atribuição do conceito de "melhor pessoa". A estória dá a entender que todos acreditavam que os outros realmente viam as roupas, onde cada um tentava esconder dos outros e de si o fato de não as enxergar. Sendo então despertados de seu estúpido transe quando uma criança teve a impensada ousadia de gritar "o rei está nu!" - criança ainda
não se preocupa com a opinião alheia.

Esta é uma estória, porém na realidade as coisas não são tão simples, até pelo fato de que nem todos conseguem acreditar que as "belas roupas" existam, apenas exibindo sua anuência com tal no intuito de obter os ganhos morais e/ou até materiais só possíveis adequando-se ao consenso predominante (mais visível), pouco importando-se com a realidade do fato, e muito com o que dele se possa usufruir. No mundo real, tão logo alguém grite que "o rei está nu!", interesses e conveniências fazem com que outros imediatamente gritem que uma "má pessoa" se revelou. Fazem isso antes que mais alguém revele a nudez do rei, e diga que só estúpidos fingem ver suas roupas, ameaçando assim o habitat conveniente com a possibilidade de dissidência no conveniente grupo das "melhores pessoas", ainda sob risco dos dissidentes formarem outros consensos; e até mesmo o grupo triunfante dos que não se deixam enganar por fantasias.

Lamentável que seja, a discrição e a imobilidade contra os canalhas é tudo o que eles precisam para prosperar, pois que as massas vivem atrás de "valores" consensuais exibidos com estardalhaço, transitando alegremente entre morais ou ideologias que os ofereçam, por mais inverossímeis e contraditórias que se apresentem. O que impressiona a massa é o consenso sobre valores exibidos num grupo e os mútuos afagos corporativos, com exibição de prazer e autoconvencimento, para atrair carentes, frustrados e receosos da opinião alheia. Grupos criam consensos morais valorizadores, e aqueles que não exibem valorização mútua, corporativa, tornam-se dispersos e não atraem o "homem massa" para seu grupo, pois nem mesmo tal grupamento existe. Ou seja, aqueles que não exibem um objetivo moral triunfante (ideologia) que os represente como "algo superior" e redentor, não atraem as massas. Daí que a liberdade deve ser defendida sobretudo como um objetivo moral, um fim, e não apenas como o meio de progresso material.

Por mais aberrante que seja, para seres ditos racionais, a sedução da louvação mútua, principalmente explícita, tem sobre os indivíduos efeito semelhante ao das drogas. É o pior dos vícios. Tanto mais sentirão sua necessidade quanto mais frágeis em sua auto-imagem. O temor da repulsa também exerce grande influência na decisão. A combinação da necessidade de aprovação com o temor da repulsa, tem o efeito irresistível de induzir ao agrupamento corporativo. Pois, deste modo, os membros do grupo perdem o medo da repulsa externa, compensados pela louvação interna. É bem conhecido o fato de que indivíduos, quando em grupo, serem capazes de atitudes que não tomariam sem o apoio de seus pares (Jung). A violência que certos grupos manifestam só é possível pela adoção, por parte dos integrantes, de uma obscura "consciência coletiva" do grupo. Substituindo a razão própria pela ostentada aprovação grupal a seu integrante, contra o meio externo. Ou seja, o grupo cria uma moral particular para relacionar-se com o meio externo, e outra para uso interno, entre membros. Assim, cada integrante, enquanto presumir o apoio do grupo, com base na sua moral particular, não terá medida para seus atos contra o meio externo, tão pouco se importando com a censura da moral externa, já que almeja, antes de tudo, o apoio corporativo de seus pares.

Isso faz com que indivíduos incapazes da prática de atitudes que condenariam se sozinhos, ao integrarem-se num grupo presumindo apoio mútuo, percam completamente o controle e pratiquem atrocidades, sem qualquer remorso enquanto amparados pelo "calor" grupal ou "consciência coletiva". A anuência passiva e principalmente o apoio a atos racionalmente condenáveis por parte de seus parceiros dão ao indivíduo a tranqüilidade que sua consciência talvez não permitisse, sobretudo se, ao contrário, fosse bombardeada por censuras insistentes. As gangues e o crime organizado são exemplos característicos de implacável moral interna, necessária para impedir concessões ao meio externo e enfraquecimento da união corporativa dos membros. Os grupos surgem motivados por objetivos e interesses comuns, e as dissidências sempre tendem a gerar novos grupos de ideologia aparentada ou objetivos semelhantes.

Infelizmente, não basta gritar que o rei está nu, é preciso fornecer um novo objetivo moral a quem afirma ver as "roupas" do rei por interesse, necessidade ou medo, almejando integrar-se em um grupo com um consenso moral consagrador, pelo simples fato que pouco se importam com o mundo real ou com a razão, apenas querem, sim, um consenso que os faça parecer melhores do que imaginam ser.

Canto da Sereia

Em âmbito mais audacioso, qualquer grupo de indivíduos que afirme, em consenso, um foco moral alardeado como atributo de superioridade ou consagração de seus integrantes ao pódio dos "benfeitores da humanidade", respaldados pela mútua louvação interna, encantará muitos que de tal louvação espalhafatosa desejam participar, na esperança de que, como suspeitos para afirmarem-se "os melhores", poderão contar com o apoio alheio, de seus pares, para afirmá-lo, simulando um desinteresse próprio através da consciência alheia "insuspeita", consciência esta que adere aos integrantes do grupo palavras que já contém em si um conceito, como se dispensando o público restante de analisar suas idéias e conceituá-las (julgá-las e por elas aos adeptos). Assim procedem pela utilização de palavras e inferências com conceitos e significados já cristalizados nas mentes, embora a análise das idéias a que tais palavras são associadas possam levar a conclusões opostas aos conceitos que estas palavras transmitem.

A coisa funciona propondo-se uma idéia afirmando-a previamente como um "bem geral", logo, quem se opõe a tal proposta é automaticamente associado ao mal, como alguém que não queira o "bem geral" - mesmo que este "bem geral", se analisado, possa revelar-se um "bem grupal" ou um mal, ou ainda as idéias propostas para alcançá-lo não conduzam a sua realização, constituindo-se apenas uma fraude para ludibriar incautos de mentes preguiçosas, ou ainda para atingir outros objetivos encobertos em sua complexidade, que poderão ser efetivamente desejados por quem não tem a coragem de afirmar tal intenção.

Analisar idéias e suas conseqüências não é das tarefas mais fáceis, geralmente exige esforço. No mais, deixar-se hipnotizar por fantasias, tentando vivenciá-las na imaginação até que se revelem à realidade, não deixa de ser um prazer, pois que imagina-se exatamente o que se deseja. A ressaca ou dependência é só para o futuro, e o que importa é saborear o momento. Depois é só adotar uma nova fantasia e aguardar até que seja desmoralizada. Enquanto isso, saboreia-se o "canto da sereia" até que as rochas provoquem novo naufrágio, até a próxima dose. Enfim, um "indo e vindo infinito".

Observações:

1) As exibições artificiais para produzir a "percepção" alheia daquilo que se deseja que pensem, de forma que qualquer tolo possa ser sugestionado. Prova-se "amor aos pobres" manifestando ódio aos ricos; preferência pelo assalariado ao depreciar os patrões e etc. Ou seja, diante da dificuldade de convencer e aliciar pelo que se propõe, apela-se para a destruição do simétrico, até fazendo-o antagônico, para facilitar a "demonstração". Esso é a política ao alcance dos néscios. Como disse Arthur Schopenhauer: "para uma sociedade de homens comuns, a concórdia é conseguida por meios corriqueiros, por exemplo: chá ou café? servem a este objetivo." Schopenhauer perguntaria aos intelectuais e povança da atualidade: Socialismo ou "Capitalismo"? ricos ou pobres?, patrões ou empregados? .e certamente... Esquerda ou
direita?...só isso já ocuparia o tamanho dos intelectos. Retornar

2) No maniqueísmo fácil ou dicotomia facilitadora, as platéias tendem a crer naqueles que exibem menor afeição por si que pelo "coletivo", considerando-os desinteressados e, então, confiáveis. Pois pouco se importar com o próprio mal pode "provar" potencial para o bem de outros (os alvos), por mais falsas, falaciosas, inócuas e insinceras que sejam tais exibições. Retornar

C. Mouro

12 junho 2007

Brasil 2022

Em 2022, o Brasil estará completando 200 anos de independência política de Portugal. Preocupado com esta importante data, Lula criou a Secretaria de Ações de Longo Prazo sob o comando de Mangabeira Unger. Se o Lula está preocupado, como bons cidadãos devemos nos preocupar também, afinal, há uma grande probabilidade de ele ser presidente do Brasil de então.

Os Evangelhos recomendam que não nos angustiemos com o amanhã; aí está algo bastante difícil de seguir.

Qual será o país que teremos daqui a quinze anos? Ninguém sabe. Não sabemos sequer se estaremos lá. Mas ainda assim arrisco alguns prognósticos. Quais serão os fatores preponderantes para o Brasil neste período?

Na minha opinião, será um embate entre duas forças que poderão gerar três cenários diferentes. Como primeiro cenário, o Consenso de 68 - distribuição de renda, nacional-desenvolvimentismo, proteção à industria nacional e ativismo estatal -, que poderá ser retomado com vigor com um Ciro Gomes; um cenário moderado, onde haveria coexistência do Consenso de Washington e do Consenso de 68 sob a liderança de Lula/Aécio; e um terceiro cenário seria a aplicação do Consenso de Washington - privatização, controle da inflação e abertura da economia - pelo Democratas sob a liderança de Arruda.

Cenário 1: Ciro Gomes/Marina Silva – eleito em 2010 e retorno de Lula em 2014 (Ciro não se re-candidata por lealdade e Lula constrói uma maioria com a esquerda).

Setores menos competitivos serão beneficiados bem como setores intensivos em mão-de-obra não remunerada. Informalidade crescente, retornos elevados com riscos de expropriações e aumentos de impostos, efetiva implantação das quotas raciais, fechamento da Rede Globo, crescente déficit da previdência, Bolsa Família implantado em larga escala, construção do Gasoduto Venezuela-Argentina atravessando o território brasileiro, problemas de infra-estrutura, tabelamento de preços, consolidação do PT como partido hegemônico, estatização da Vale.

Cenário 2: Lula/Aécio – eleito em 2010 e retorno de Lula em 2018 (Lula retorna como uma reação às medidas do PSDB e novamente e constrói uma maioria com setores moderados).

Economia usando alternadamente instrumentos do Consenso de Washington e do Consenso de 68, liberalização marginal das regras de investimento em infra-estrutura, flexibilização da CLT, implantação da TV Lula, aliança PT/PSDB, gestão partilhada das estatais com os sócios privados.

Cenário 3: Arruda/César Maia – eleito em 2010 e retorno de Lula em 2018 (Lula retorna como uma reação às medidas dos Democratas mas não consegue revertê-las, apenas aproveita a capacidade financeira do Estado).

Crescimento acelerado da economia, privatização da Petrobras e do Banco do Brasil, aumento da capacidade de investimento do Estado, foco em educação e saúde, redução da dívida pública, abertura da economia beneficiando os setores mais competitivos, atração de investimentos, fechamento da TV Lula, alta rotatividade de mão-de-obra, aliança Democratas/PSDB. Retomada da ALCA.

Uma suposição heróica seria que os efeitos EUA, China e resto do mundo afetassem igualmente os três cenários. O mais plausível, contudo, é que uma recessão mundial beneficie o cenário 3, pela exigência de maior disciplina de capital, enquanto o cenário 1 seria muito beneficiado pela continuação da enorme liquidez que a economia mundial tem experimentado.

06 junho 2007

O Consenso de 68

Duroselle afirma que todo Império necessita de consensos para sobreviver; segundo ele, o fim dos Impérios é explicado pelo fim dos consensos. Desde a nossa independência, tivemos uns cinco consensos liderados por vários grupos muito ligados a algumas gerações, quais sejam: D. Pedro I como líder das colônias portuguesas na América, apoiado por um conjunto de servidores do Império Português e, posteriormente, seu filho, D. Pedro II, apoiado por uma elite brasileira, ambos centralizadores; o consenso da Republica Federalista Positivista Americanista descentralizadora do Café com Leite, liderada pelo grupo dos cafeicultores paulistas; o consenso modernista industrializante, estatizante, urbanizador e centralizador da década de 1920, liderado por Getulio Vargas; e o consenso justicialista socialista estatizante da geração de 68 liderado por Lula. Não podemos nos esquecer do Consenso de Washington - defendido aqui no Brasil pelo governo FHC -, que pregava o controle da inflação, privatizações, regulação de setores da infra-estrutura, abertura da economia, um estado pequeno com um núcleo estratégico e focado na educação e saúde. Mas por aqui tal consenso foi derrotado duas vezes nas urnas por Lula e a Geração de 68.

Na Republica do Café com Leite, vivia-se em estado de sítio e o povo votava no cabresto. Os cafeicultores paulistas e mineiros tinham como consenso o desejo de descentralização política e a não-intervenção do Estado na economia, exceto quando eram beneficiados. Este consenso, por sua vez, foi destruído pela Crise de 1929, que permitiu a Getúlio a oportunidade de dar um golpe nos falidos coronéis paulistas.

Getúlio chega ao poder como um representante do consenso surgido na década de 20 com os tenentistas, os modernistas e outras lideranças que queriam ver um país não apenas agrícola mas industrial, urbano e centralizado sob a liderança de um estado poderoso, que alavancasse o desenvolvimento. Esta geração de 20 teve no tenente Geisel e seu esforço nacional industrializante o seu último representante, e nos deixa a "Herança Maldita" da industrialização e urbanização. Como disse o embaixador Azambuja, em 50 anos passamos de 20% para 80% da população nas cidades sem nenhuma guerra, emigração ou peste para nos ajudar.

Com a Revolução Cubana de 1959 foram lançadas as bases para a Geração de 68, que veria nela um exemplo a ser seguido por toda a América, especialmente depois da CIA ter participado ativamente do Golpe de 1964. Esta geração, aluna de uspianos marxistas como Florestan Fernandes, passou a carregar as marcas destes acontecimentos e deu origem ao consenso que atualmente governa o Brasil, liderado pela elite petista paulista.

Este consenso tende a ver o Brasil como explorado, vide teoria da dependência de FHC, e, portanto, não teria de pagar a dívida externa. Na sua versão mais moderada, haveria uma dívida social histórica com os escravos, os pequenos agricultores e os marginalizados das cidades que deveria ser paga. Sua forma de atuação se dá por meio de ações afirmativas, assistencialismo e preponderância da via política sobre o mercado e do coletivismo sobre o indivíduo.

Lamentavelmente, assistencialismo não gera desenvolvimento humano, quando muito ajuda a reter gente no campo. Quanto à tendência de redução da concentração de renda, esta já vem desde 1995 com o Plano Real. Infelizmente, o IBGE não fará nenhuma revisão destes números.

Neste contexto, tem-se as cotas raciais, que também não resolverão o problema dos negros de forma geral, apenas de uma elite parda. Alem do mais, muitos deles já estão na classe média, iriam ingressar na universidade pública de qualquer maneira, mas agora se tornam devedores do PT e possíveis adversários da miscigenação racial.

Eles acreditam na integração sul-americana como uma resposta ao imperialismo ianque. Entretanto, a união sul-americana esbarra nas agendas políticas internas da Bolívia, que nos vê como exploradores, da Venezuela, que nos vê como concorrentes numa disputa por uma hegemonia regional, assim como a Argentina nos vê com ressentimento diante de nossas aspirações a um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. O Paraguai, animado com o exemplo boliviano, já se arvora em querer rever o tratado de Itaipu.

Acreditam na ficção histórica do nacional-desenvolvimentismo, como diria Amado Cervo, e com isto ainda vêem sentido em uma aliança do governo com a burguesia de estado, que gera um estado inchado, cheio de corporações chantagistas e com pouco foco nas áreas estratégicas. O excesso de intervencionismo do Estado em infra-estrutura (aeroportos, rodovias, eletricidade,...) impede os investimentos privados e, sem infra-estrutura, trava-se o crescimento do país.

Os da geração de 68 não consideram legítima o que chamam de democracia burguesa e, acostumados a roubar bancos na época da ditadura, parecem não ter grandes escrúpulos em se valer dos mesmos recursos de seus adversários, tais como caixa 2 e outros. Hoje usam a Polícia Federal e suas operações escandalosas como propaganda de uma ética inexistente, afinal o Mercadante, principal interessado no dossiê contra Serra, saiu ileso, o resto dos generais petistas foi reeleito e muitos continuam a agir nos bastidores, apesar de denunciados no STF pelo Mensalão. Isto para não falar da maior negociata de cargos já vista "nestepaís", que se arrasta há meses.

Talvez a saída seja a ida do PT para o centro, como o Lula já parece estar fazendo, e uma adesão discreta ao Consenso de Washington que eles tanto criticaram na era FHC. Em matéria de esquerdistas, o velho FHC continua sendo o primeiro da classe, sendo seguido a passos de tartaruga pels seus coleguinhas mais lentinhos. Se arrependimento matasse... Por que eu não votei no Serra?


01 junho 2007

Propaganda é Violência

Desde antes da conquista de Constantinopla, quando os turcos transformaram a Igreja de Santa Sofia em uma mesquita, removendo os símbolos cristãos e cobrindo seus mosaicos magníficos por um reboco tosco, até o hábito corrente entre os políticos de lançar pedras fundamentais de tapa-buracos, persegue-se o mesmo objetivo: a propaganda.

É uma lógica maluca, mas funciona. Desde os egípcios e seus gigantescos monumentos, passando por Hitler e chegando ao PAC, tem-se governos buscando se associar à grandeza e às realizações da sociedade. Outro dia mesmo, o Lula disse que os investidores deveriam agradecer a ele pela valorização da Bovespa e que os problemas aéreos eram mais uma herança maldita de governos anteriores. Talvez devamos agradecer a ele pelas chuvas que impedem o retorno do Apagão.

Alguns governantes chegam a querer ter o monopólio da propaganda. Um dia desses, assistindo ao fechamento da TV venezuelana de oposição, lembrei-me de Krishnamurti e a forma como discorria sobre a violência. Para ele, a violência começa no ego. Este amalgama de associações, identificações e desejos que quer se impor ao mundo. Este esforço para negar a própria nulidade só pode resultar em violência.

Lembrei da TV Lula e do desejo do seu grupo de influenciar ainda mais as massas e garantir a sua permanência no poder. O pior é que se eles aprenderem a fazer novela como a Globo, poderão governar 50 anos como o PRI do México. Marx estava errado; a dialética material não move a historia, porque a história não se move mas se repete, do velho panem et circenses romano chegamos ao Bolsa Família e à TV Lula.

O ego só gera violência. Mas vivemos em um mundo tão violento e negativo que nos esquecemos do real significado da violência. Diferentemente da informação, a propaganda quer nos dizer o que fazer, como nos sentir e até quem somos - como o agente Smith, de Matrix, que transformava nele mesmo todos em quem tocava. Portanto, a propaganda, seja pela repetição de comerciais visando criar associações seja pelo velho corpo a corpo de garçons tentando fisgar turistas indecisos, é uma forma de violência.

Em sua viagem ao Brasil, o Papa Ratzinger se mostrou sábio ao dizer que a Igreja Católica deveria buscar crescer por atração e não por proselitismo. Quando existe alguma Verdade em algo, ela é buscada e reconhecida, não precisa ser vendida por nenhum marqueteiro. Resta saber se estes poucos verdadeiros cristãos os quais Ratzinger diz querer pastorear são suficientes para compensar esta estrutura política de propaganda que chamamos de Igreja. Porque é inegável que o cristianismo é essencialmente proselitista, necessita de pregadores para espalhar a "boa nova"; ainda no berço, o cristianismo destruiu templos pagãos e adaptou a maioria para servir ao próprio culto, do mesmo modo que Mehmet II fez com a Santa Sofia. E, a despeito do sábio discurso de Ratzinger, muitos padres continuarão a falar de Cristo sem conhecê-lo e suas palavras continuarão mentirosas, a ser apenas propaganda, e os ouvidos dos que os ouvirão continuarão a ser violentados. Por outro lado, eu disse ao Catellius, um dia desses - e ele concordou comigo -, que apesar de achar justas muitas de suas críticas à Igreja Católica, devemos tomar o cuidado para não jogar o bebê fora junto com a água suja da banheira; devemos tentar deixar que a verdade de algo seja seu principal atrativo, refiro-me aqui particularmente à propaganda contra outros propagandistas.

Concluindo, na propaganda se encontram as Igrejas, Hitler, Chávez e todos aqueles que acreditam que o mundo seria melhor se parecesse mais com eles mesmos. Eles estão surdos e cegos, estão cheios de suas Verdades sempre insufladas por puxa-sacos que não lhes faltam. Como já disse Gurdjieff, em um dos seus momentos de moderação: ”Malditos sejam aqueles que, cegos, querem guiar os outros. Que o inferno lhes seja implacável.” E que Deus tenha piedade de nós!
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