29 maio 2007

Deus, Cidades, Pólvora e EUA

A seguir, algumas de nossas brilhantes invenções. Mas a criação de um sistema de crenças talvez seja superior a todas elas.

Deus

Talvez umas das criações humanas mais inspiradas tenha sido o próprio Deus. Como dizia um psicólogo tentando explicar por que as pessoas acreditam em Teorias da Conspiração, temos uma tendência a procurar uma causa proporcional aos efeitos causados. Por exemplo, se amanhã o Lula tomasse uma cana, escorregasse no banheiro e fosse para o beleléu, haveria aqueles que diriam que foi tudo uma conspiração e não um acidente idiota. A mesma coisa se o Aécio sofresse um acidente fatal qualquer, como aparentemente foi o caso do ultimo futuro presidente da Republica, o Luiz Eduardo Magalhães. Enfim, Deus pode ter sido a criação de um superparanóico que precisava de uma causa cataclísmica para tudo o que existe.

Cidades

A cidade propicia intercâmbio intenso entre seus moradores; foi uma fantástica criação humana (plágio de um cupinzeiro?). Não na visão de Gengis-Khan, que a desprezava. Este conquistador devastou quase todas as cidades islâmicas da Índia a Bagdá, provocando um enorme retrocesso nesta civilização - e provavelmente contribuindo muito para o progresso europeu. Ele foi o responsável pela maior Cruzada de todos os tempos e nunca recebeu um obrigado do Papa. Quanta injustiça. O primeiro Khan aparentemente não entendia por que as pessoas escolhiam viver apertadas em lugares cercados por campos arados, comércio e pastoreio. Enfim, os mongóis eram nômades e, inicialmente, viam nas cidades obstáculos à sua movimentação.

Pólvora

Quinze medidas de salitre, três de carvão e duas de enxofre. A pólvora foi inventada na China há mais de mil anos. Parece que alquimistas, ao tentarem criar um elixir da imortalidade, descobriram acidentalmente a mistura explosiva que passou a ser mais utilizada como "elixir da mortalidade". Na América pré-colombiana havia algumas cidades, havia comércio, ciência, escrita, mas eles tiveram o azar de não ter tido contato com os chineses nem ter desenvolvido tecnologia militar numa seqüência de guerras entre Estados, como foi o caso dos europeus, e encontraram pela frente as tropas de elite espanholas, que em sua época era o que havia de melhor na Europa.

Ideais americanos

Os americanos acreditam que os Estados Unidos são a terra onde o sucesso individual e não a fidalguia define a sua posição social, onde o indivíduo e a sociedade são livres da religião e de dogmatismos. Sua grande sacada, na verdade, foi a sua proposta universal de acolher os oprimidos. Foi com este contingente de miseráveis italianos, alemães, judeus, irlandeses e outros, que os EUA criaram uma densidade populacional capaz de atingir o seu Destino Manifesto duplicando o tamanho do seu país ao anexar quase metade do México, cujos descendentes de espanhóis e índios eram poucos e viviam em uma sociedade muito menos dinâmica. Obs.: Não sei por que estas propostas universais têm tanto poder sobre a nossa psique, sejam de americanos a prometer liberdade de toda a tirania e oportunidades que definirão o seu lugar na sociedade, sejam de marxistas querendo superar todos os egoísmos em prol da igualdade de todos os seres humanos.

26 maio 2007

Elemental, meu caro Watson

Em primeiro lugar, gostaria de agradecer ao Helder Sanches pelo convite para participar deste primeiro debate interblogs, cuja questão é “Será o agnosticismo mais racional que o ateísmo?” - Clique aqui para acessar o post com a exposição do tema e das regras para a discussão.

Provas da Existência de Deus

Para o filósofo (afinal estudou filosofia) Olavo de Carvalho, se analisarmos um livro com a postura da ciência em relação ao universo, reconheceremos a celulose e o nanquim mas ignoraremos sua essência, aquilo que faz dele um livro. Para ele e a maioria dos crentes, uma analogia passa a ser a prova de algo, assim como uma evidência anedótica. Dentro do espírito desta analogia, pergunto se após uma mosca cerrar seu mosaico de olhos, genufletir quatro perninhas perante um exemplar do Rei Lear e juntar as outras duas em prece para que o Bardo de Avon lhe faça sentir o abnegado amor de Cordélia pelo injusto pai, passará a ter o inseto alguma gnose da tragédia?

Orlando Fedeli, o católico taliban responsável pelo site-bomba Montfort.org.br que acusa Olavo de Carvalho de grave heresia gnóstica - logo o nobre filósofo que sacrificou a própria credibilidade em prol da causa católica - diz provar a existência de seu deus usando os desgastados argumentos contidos na Suma Teológica de Tomás de Aquino (de Aristóteles, na verdade). Especialmente a IVª Via - Dos graus de perfeição dos entes – demonstra que Orlando e Olavo desconsideram totalmente a Seleção Natural e a Mutação das Espécies.

De acordo com o catecismo, os milagres seriam provas da existência de deus: "...para que o obséquio de nossa fé fosse conforme à razão, Deus quis que os auxílios interiores do Espírito Santo fossem acompanhados das provas exteriores de sua Revelação. Por isso, os milagres de Cristo e dos santos, as profecias, a propagação e a santidade da Igreja, sua fecundidade e estabilidade 'constituem sinais certíssimos da Revelação, adaptados à inteligência de todos', 'motivos de credibilidade' que mostram que o assentimento da fé não é 'de modo algum um movimento cego do espírito'". (§156) É desnecessário dizer que os supostos sinais não puderam ser adaptados à inteligência de todos, tanto que são (sempre foram) mais freqüentes em locais de baixíssimo IDH.

Para muitos teístas, a evidência da existência de um deus está no gosto de uma uva suculenta, na imensidão do mar, na majestade das montanhas. Como disse Ariex, Se lhe ensinassem que os elfos causam a chuva, toda vez que chovesse você veria a prova dos elfos.” A evidência da existência do deus das moscas - se elas fossem capaz de criá-lo -, estaria no saboroso gosto de excremento, na beleza de uma ferida aberta, na majestade de um cachaço enlameado.

Também dizem que a prova de que deus existe é você poder encontrá-lo dentro de si mesmo, no mesmo lugar onde as vestais encontravam Vesta e os vikings encontravam Odin. Quero evitar falar desses deuses e do deus bíblico porque já sucumbiram em contradições que envolvem desde mandamentos conflitantes a códigos morais anacrônicos e invencionices descaradas hoje adaptadas pelos exegetas para "simbologias".

Alguns crentes tentam convencer o cético garantindo-lhe que dobrará a língua quando chegar a oximórica vida após a morte. Ou "Quando Jesus voltar você verá!". Ou usam a Aposta de Pascal como argumento de que deus existe porque é melhor acreditar nele, já que só teríamos algo a perder se, ele existindo, não lhe tivéssemos dado crédito. Se Pascal tivesse levado em conta a possibilidade da existência dos deuses de todas as civilizações, inclusive anteriores à nossa era, sua aposta teria sido bem mais arriscada. É o que os participantes deste debate mais têm enfatizado: Por que ser agnóstico em relação a deus se não o somos em relação a fadas? Sujeitos inteligentes como Conan Doyle - não tanto quanto sua mais famosa criatura, o racional Sherlock Holmes - possuíam motivos suficientes para crer na existência de elementais. Acessem por aqui o livro completo de Doyle intitulado "The Coming of the Fairies" e decidam se são "a-fádicos" ou agnósticos em relação às pequeninas.

E há os quase duzentos argumentos bobos para a existência de deus, como os Ontológicos:
Eu defino Deus como algo X. Já que eu posso conceber na minha mente o X, então o X deve existir. Então, Deus existe.
Ou: Deus existe. Já que Deus existe, então ele é perfeito. Aquilo que é perfeito tem que existir. Então, Deus existe.

Sou Agnóstico em relação a Agnósticos

Apesar do termo "agnóstico" ter sido criado por Thomas Henry Huxley, as bases do agnosticismo estão em Hume e Kant. Este afirmou ser impossível a matéria ser eterna e também ser impossível ter surgido do nada. A partir daí, desiste da metafísica por não poder especular sobre ela. Acho que a questão da causa primeira, porém, tem a ver com a Navalha de Ockham. Concordamos que o universo ter sempre existido soa absurdo. Mas criar uma instância a mais, transferindo meramente a questão para “um deus ter sempre existido”, não é nada econômico. E quem criou deus?

O agnóstico é aquele que diz ser impossível que o homem possa ter o conhecimento da existência de deus. Ele não se convenceu das provas listadas acima, mas isto não obrigatoriamente o impediria de crer em um deus impessoal, descrer nos deuses mitológicos, de não se importar com tudo isso, de fingir não se importar, de sentir deus como o amputado sente seu membro fantasma, de sentir culpa por descrer e de estar ligado a toda sorte de superstições. Eu diria até que a esmagadora maioria dos crentes é formada por agnósticos teístas, já que alguém não pode crer ou descrer de algo que sabe. “Crença e descrença sugerem a possibilidade de erro; conhecimento implica em que o erro esteja além das probabilidades razoáveis”, diz Robert T. Carroll. E isto também é válido se substituirmos “crença” por “confiança”.

Os agnósticos ateístas, por sua vez, não teriam um deus mas considerariam a possibilidade de acreditar em um caso lhes fosse provada sua existência. Pensando desta maneira, praticamente todos os ateus são agnósticos, uma vez que poucos são dogmáticos a ponto de, mesmo perante provas irrefutáveis, insistirem em refutá-las sem argumentos, como os criacionistas radicais fazem em relação ao evolucionismo. Eu, por exemplo, se me deparasse com o Mickey dançando sobre minha mesa, matasse-o a garfadas, analisasse seu interior e confirmasse não se tratar de um boneco, acreditaria plenamente na sua existência. Mas afirmo que ele não existe, e meu erro está além das probabilidades razoáveis. E conheço seu criador, Walt Disney.

Conhecemos também o criador de deus. O homem tomado pelo medo e ansiedade fez um deus onipresente porque necessitava de um espantalho para manter seus pares afastados dos frutos proibidos, para não dar ao assassino a sensação de completo anonimato, o homem fez um deus onisciente para poder ser ouvido, para que fossem conhecidas suas íntimas angústias, para que a divindade lhe desse presciência por meio de sonhos e visões, e, por fim, fez um deus onipotente por não dominar senão limitadamente o mundo natural, principalmente por estar à mercê da morte e dos acidentes. E o deus onipotente é movido pelas preces, o volante do motor, que fazem com que o homem compartilhe da onipotência divina, com que possa alterar a quantidade de lava expelida pelo Krakatoa apenas juntando as mãozinhas e tendo fé. Deus, o amiguinho imaginário dos medrosos, também ajuda a lidar com a solidão e a desesperança.

A grande questão que envolve os agnósticos, ao meu ver, é: eles não aceitam as alegadas evidências da existência de deus apontadas pelo teísta dogmático, as quais calham de ser o motivo pelo qual a idéia de deus existe. Um exemplo: Blondlot, no início do século passado, disse ter descoberto um novo raio, a que chamou Raio-N, e demonstrou com aparente sucesso sua tese por meio de experiências, que foram confirmadas por dezenas de outros cientistas. Mas posteriormente foi provado que todas evidências da existência dos tais Raios-N eram ilusórias. Assim, as falsas provas que alegadamente confirmavam a existência de Raios-N confundem-se com as falsas evidências ou razões que por primeiro levaram Blondlot a pesquisá-los e até a batizá-los. Ser agnóstico em relação a Raios-N é completamente irracional. Admitir a possibilidade da existência de algo como deus ou Raios-N, como faz o agnóstico, sendo que até mesmo a possibilidade nasceu de supostas evidências ou provas que o próprio agnóstico rejeita, não é algo racional, ao meu ver.

Conclusão: os agnósticos ou são ateus que não querem muita confusão ou são crentes cheios de dúvidas. Se é que existem agnósticos...

Update: o C. Mouro comentou - e concordo com ele - que nada impede que raios que não conhecemos existam e sequer venham a ser descobertos, bem como vida inteligente hoje desconhecida. Mas o erro daquele que afirma que o mundo natural que conhecemos não sofre interferências de um deus criador movido ou não por preces está além das probabilidades razoáveis. Se há um deus criador indiferente e não há como comprovarmos sua existência, tanto faz ele existir ou não. Então, por economia, não existe. Na verdade, a idéia de deus é uma questão secundária; o que interessa realmente é se existe ou não a oximórica vida após a morte. Tudo leva a crer que não existe, mas aí entramos em outra discussão. Sem vida após a morte o conceito de deus perde todo o sentido. Não quero, com este update, dar mais visibilidade à minha resposta ao comentário do Mouro. Desejo, ao contrário, evidenciar a sua pertinente colocação. Mas o termo "agnóstico" não pode ser estendido até aí, pois seríamos todos agnósticos em relação ao que não conhecemos - o que é uma boa de uma redundância. Usei o agnóstico para fadas e Raios-N apenas como analogia.

22 maio 2007

A Herança Maldita

O chefe do Executivo, sempre quando acuado por algum problema, gosta de dizer que tudo é culpa de uma "herança maldita" vinda de FHC e outros membros de uma pestilenta elite. Ele, o homem mais poderoso do Brasil, se diz perseguido pelos meios de comunicação que não mostram "as coisas boas" do seu governo. Ele devia procurar conhecer melhor a Carta Capital, a Tribuna da Imprensa, a Agência de Notícias do Planalto, a Caros Amigos, a Hora do Brasil e outros meios de comunicação patrocinados pelos seus aliados. Acho que seu problema é querer que todo mundo fale bem dele e do seu governo. Ele não gosta de crítica nem de oposição.

Ultimamente, sentindo o ceticismo em relação à sua pessoa, tem gostado muito de dizer "vocês vão ter que me engolir", evocando o desabafo de Zagallo após vencer a Copa América. Por outro lado, quando a notícia é boa ele adora se jactar com a frase "nunca antes na história deste país" ou "da humanidade", dependendo do quanto estiver embriagado... pelo próprio discurso.

Embora ele seja um sindicalista de origem humilde e nordestina, muitos do grupo que o cerca são da famosa geração de 68. São aqueles jovens esquerdistas de classe média que queriam mudar o mundo, que participavam de Manifestações na Cinelândia, roubavam bancos, justiçavam, faziam guerrilha e praticavam atos terroristas contra o regime Militar. Queriam implantar no Brasil algo como uma Revolução Cubana. Foram vencidos pelos militares e expulsos. Mas voltaram.

O curioso é que eles vivem da herança deixada pelos seus inimigos. O Lula herdou a estabilidade econômica iniciada no governo de Fernando Henrique Cardoso com o Plano Real, que venceu a inflação, e hoje o Brasil bate recordes de redução do Risco País graças à gestão do Banco Central por um ex-banqueiro internacional e ex-membro do PSDB.

O alarde em torno da autosuficiência em petróleo, que incluiu uma visita sua vestido de operador a uma plataforma, foi graças à "herança maldita" do regime militar no qual o próprio Geisel foi presidente da Petrobras e durante cujo governo passou a ser explorada a bacia Campos, que após anos de pesquisa e investimentos, durante o governo FHC, nos proporcionou finalmente a autosuficiência.

Pelas exportações agrícolas ele pode agradecer à Embrapa que, fundada pelos militares em 1973, promoveu uma verdadeira revolução em nossa agricultura, aos fortes investimentos durante o governo FHC, aos latifundiários, além, é claro, à China, que paga regiamente pelos nossos produtos. Pela Companhia Vale do Rio Doce ele também pode agradecer aos militares, bem como pela Embraer e pelo Pró-Álcool, que hoje nos abre as portas para grandes oportunidades na indústria do etanol.

Está na hora de pensar na herança maldita do PT. A desprofissionalização do Serviço Público com a introdução de milhares de cabos eleitorais do PT, a existência de mais de 300 Grupos de Trabalho Ministeriais, o uso de cargos de confiança para arrecadar dinheiro para o partido. O reconhecido uso de Caixa 2, a troca de apoio por cargos que movimentam grandes orçamentos nas empresas públicas, uma TV Oficial que terá como objetivo falar bem do governo, a transformação de altos comissários do partido em consultores de grandes empresas.

Ao menos eles foram forçados a amadurecer e abandonar parcialmente o discurso fácil, inconseqüente e superficial, como ameaçar não pagar a dívida externa, e sentem na pele as dificuldades de se fazer as coisas. Se o Brasil tiver sorte, esta será a grande herança do período Lula; uma esquerda mais amadurecida. Se não tiver sorte, teremos uma esquerda mais corrupta, mais autoritária e instituições democráticas enfraquecidas. Curiosamente, estão a se formar alguns clãs de coronéis da esquerda, irmãos, filhos e netos que herdam o poder dos seus parentes... Apenas mais uma contradição destes "socialistas".

17 maio 2007

Adiós Carismáticos?

A viagem de negócios de B16 ao Brasil foi um sucesso na visão de Ana Maria Braga, Louro José, Reinaldo Azevedo e dos jovens que lotaram o Pacaembu para saltitar ao som amplificado do inquisidor a demonizar a peça de látex que possivelmente muitos deles carregavam no bolso, preparados que deviam estar para praticar a castidade que aprenderam no Segue-me. Também foi um sucesso para as beatas, verdadeiras groupies à espera de seu Bono Vox. A saia branca armada por anáguas, as rendas, os anéis, colares, sapatilhas vermelhas, a touquinha forrada de pele de arminho, os carros de luxo, mitras e báculos do séqüito, brasões, bandeiras e o aparato militar para proteger o teocrata das fãs deixaram estas maravilhadas com o poder da divindade da qual ele se diz único representante. Para os não tão entusiasmados, os seguranças de preto ao redor do alienígena davam a impressão de que os Men In Black haviam enfim capturado o Imperador daquela famosa e distante galáxia.

A viagem foi um desastre, contudo, para as raposas de sotainas que esperam ver um Estado laico tornar obrigatório o ensino do catolicismo nas escolas, que sua multinacional não possa ser processada na justiça trabalhista, que suas isenções fiscais sejam consolidadas, que seja transferida ao governo a responsabilidade pela manutenção do patrimônio artístico e arquitetônico católico, que os missionários tenham livre acesso a reservas indígenas e a reservas ecológicas (talvez para catequizarem veados), entre outras propostas indecorosas. "Obrigatório" é uma palavra forte, e os núncios do Papa que diz respeitar a laicidade passaram óleo de peroba na cara e expuseram sua vontade ao governo brasileiro. Otávio Cabral, na revista Veja desta semana, conclui singelamente que pedir não mata ninguém; "o governo brasileiro disse que não adotaria a medida. Ponto final.". É "mais mió" pedir do que roubar...

Mas o verdadeiro êxito da visita será sentido ao longo do tempo: outra brilhante idéia de B16 é tornar sua empresa mais forte por meio de um downsizing. Para os clientes e funcionários mornos e aqueles adeptos do catolicismo à la carte a porta da rua é a serventia da casa. Ele quer fazer crer que a inevitável apostasia de católicos - há décadas uma realidade alarmante para a tesouraria de seu enclave - se dará por estratégia do líder de uma Igreja "que não faz proselitismo", usando suas palavras. As coisas existem ou não existem, acontecem ou não acontecem, por decisão do Papa. Ele já extinguiu com uma canetada o limbo, Pio IX, a grande inspiração para seu combate à modernidade, livrou Maria de um pecado original que de original não tinha nada, já que engravidar de outro antes do casamento é algo mais do que comum, Ratzinger quer fazer crer que a ICAR inventou a família, a paz, a vida, deus e o diabo (estes foram invenções da turma da qual faz parte, é mister reconhecer).

Como se sabe, o downsizing se dará em meio a um fundamentalismo que condena o relativismo - aquela bobagem advinda do Concílio Vaticano II, que ousou chamar os excomungados protestantes de "irmãos separados" e retirar o "pérfidos judeus" do missal da Sexta-feira Santa -, a música dançante ao som de instrumentos ditos profanos, até mesmo a música sacra "operística", cujo expoente máximo é a Missa de Réquiem de Giuseppe Verdi, fundamentalismo este que pretende trazer de volta a missa em latim, para seu anacrônico deus entender melhor as preces, e a separação entre a massa com ovos e a massa sem ovos: mulheres de um lado da Nave, homens de outro.

Será que a pomba jurada de morte por São José, adormecida por quase dois mil anos e recém ressuscitada pelos carismáticos, será expulsa da Igreja Católica juntamente com os elefantinhos e outros animaizinhos que dão glórias a deus ao som dos sapateados de Marcelo Rossi? O artigo 37 da lei de crimes ambientais de nº 9.605 afirma que, se o animal for nocivo às pessoas, ele pode ser sacrificado, desde que sob autorização dos órgãos competentes, que orientarão quanto à forma de abate. Sabemos que os pombos podem transmitir doenças como a toxoplasmose, que pode causar cegueira, aborto - tão combatido pela Igreja - e até a morte, além de histoplasmose, erisipela, salmonelose, candidíase e aspergilose.

A pomba só começou a operar todas as maravilhosas curas, glossolalia e visões proféticas no rebanho católico carismático após os excomungados evangélicos americanos encontrarem uma brecha na lei bíblica - o pentecostes - para inserirem a catarse de seus ritos africanos. Como os cristãos devem analisar os frutos para julgarem a qualidade da árvore - eles para os quais os fins justificam os meios - as cerimônias vodu africanas, plenas de feitiçaria, sacrifícios humanos e orgias sexuais, seriam boas porque permitiram que a pomba voltasse a agir na cristandade.

A debandada para seitas pentecostais seria radicalmente maior se a Renovação Carismática buscasse o contato com a pomba sem música, glossolalia, profecias, danças e catarses, apenas com as mesuras, incensos e obras polifônicas dos compositores que B16 faz revirar no túmulo cada vez que senta ao piano.

Se ele deseja retornar aos bons tempos de Pio IX, imagino que esteja abrindo mão da Renovação Carismática, filha caçula do Vaticano II, que é composta em grande parte pelos que teriam debandado para os concorrentes se a Igreja nunca tivesse brigado pela clientela.

10 maio 2007

A Culpa pelo Atraso Brasileiro

De quem é a culpa pelo atraso brasileiro? Este é um assunto recorrente nas rodas de bate papo. Quais são os problemas que impediram ou impedem o país de se desenvolver? O que se opõe ao Brasil atingir sua vocação de "gigante pela própria natureza"? Os diagnósticos são os mais variados, mas muitos deles se baseiam, na minha opinião, em preconceitos.

Temos a tese separatista, defendida geralmente por pessoas de imigração recente que acreditam que o culpado pelo nosso atraso é o Nordeste, que o Brasil carregaria nas costas, e vivem lamentando a presença dos migrantes nordestinos. Pessoalmente, considerando a origem do nosso presidente e a decisiva votação obtida por ele na região em sua reeleição, quando teve em torno de 80% dos votos, até me sinto tentado a apoiar este argumento. Entretanto, não conheço nenhum país que tenha se fortalecido dividindo-se.

Outra idéia comum, especialmente entre os intelectuais ateus, é a questão das nossas origens católicas e a incompatibilidade entre o capitalismo e o catolicismo, que via o lucro como um pecado, o que teria enfraquecido a livre-iniciativa. Além disso, acredita-se que a doutrina católica (cristã) da salvação não exige esforço individual pois haveria salvação pela graça, o que não estimula as pessoas.

A tese da colonização portuguesa também é bastante popular. Seríamos assim porque recebemos um monte de degredados da "terrinha" que trouxeram para cá todos os vícios imagináveis. Muitos adeptos desta tese lamentam a expulsão dos holandeses. O curioso é que muitos portugueses não se consideram europeus e têm uma auto-estima muito baixa. Acho que uma de nossas diferenças em relação a eles é que somos bipolares, temos momentos alternados de euforia megalômana e de depressão lusitana.

A tese da exploração marxista da colônia pela metrópole também é bastante forte. Segundo esta visão, os portugueses roubaram o ouro de Minas Gerais e o entregaram aos ingleses, e nos teríamos tornado preguiçosos porque tínhamos os escravos africanos para explorar. Desta forma, teriam se formado instituições decorrentes deste sistema de exploração ligados a uma elite indolente e a um povo ignorante e analfabeto que juntos teriam impedido o desenvolvimento do país.

Temos ainda um vertente nacionalista que acredita que a culpa é dos Estados Unidos, que apoiaram o golpe que derrubou o Imperador Dom Pedro II apoiando o Exército pró-república contra a Marinha Imperial. Em decorrência disto, teríamos submergido na República dos Coronéis até sermos salvos pelo "coronel", "ditador" e fundador do Estado Brasileiro, Getúlio Vargas - o "velhinho" pai dos pobres, o criador da CLT e homem que implantou a CSN em hábeis negociações com os americanos. Aliás, o pragmatismo de Vargas incomodou tanto os americanos que apoiaram a sua retirada do poder em 1945. Mais tarde, os EUA também teriam sido culpados pelo Golpe de 64, o que teria impedido o Brasil de seguir os passos gloriosos da Revolução Cubana de 1959.

Sob alguns aspectos, um país se comporta como uma pessoa. Tenho certeza que todos já viram adolescentes, adultos ou velhos culpando os seus pais ou sua família por todas as desgraças que ocorreram em suas vidas. Alguns nunca chegam a ter maturidade suficiente para assumir os seus atos. Um dos mitos a que estamos afeiçoados para atenuar as nossas responsabilidades é o de que o Brasil é um país jovem. Nem tanto; nossas primeiras ondas de colonização datam de 1530, enquanto as dos americanos começaram 100 anos depois. Acho que a solução dos nossos problemas começa com os indivíduos assumindo a responsabilidade pelos seus atos.

Não podemos nos esquecer dos agricultores japoneses que chegaram aqui há cerca de 100 anos com uma mão na frente e outra atrás, discriminados por serem orientais e que após muito trabalho plantando as suas hortinhas constituem hoje uma minoria rica e cujos filhos são temidos em todos os vestibulares.

06 maio 2007

Diderot e Nietzsche: Melhores que Nostradamus

Texto de C. Mouro

Diante da realidade que grita em todos os ouvidos e ilumina todos os olhos, muitos daqueles que se admitem esquerdistas, socialistas, marxistas e etc, quando não apelam para a esquizofrenia descarada, apelam para dissimulações e/ou afirmam a “deturpação do socialismo” ou do “comunismo/marxismo” por alguns líderes, tentando manter a aura embelezadora de tal perniciosa e perversa ideologia, que visa unicamente a defesa do poder totalitário, ou Estado Coercitivo Totalitário, em beneficio dos que dele usufruem materialmente e hierarquicamente segundo a escala de valores que este impõe como verdade.

Porém, a natureza intrinsecamente nociva da ideologia do Poder, que o preconiza como panacéia salvadora ou mesmo como utopia, antes mesmo de seu funesto resultado prático já tinha sido denunciada por Nietzsche, que põe por terra qualquer tentativa de embelezamento ou dissimulação da funesta ideologia, até como sonho utópico, deixando a nu esta teoria deliberadamente fraudulenta, comprovada na prática: uma farsa ética, fracasso moral e material. Mero projeto de Poder absoluto.

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Começo citando Diderot, em sua primorosa clarividência, aconselhando:

“Examinem todas as instituições políticas, civis e religiosas; ou eu muito me engano ou vocês verão nelas o gênero humano subjugado, a cada século mais submetido ao jugo de um punhado de meliantes”

Aproveito ainda para citar uma frase, de autor desconhecido, imperativa em sua natureza categórica:

“Quem tem por hábito usar a força para conseguir o que quer, tem por hábito querer sempre mais.”

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Já Nietzsche, escreveu o seguinte em seu livro “Humano demasiado humano”, que com "Aurora", "Para Além do Bem e do Mal’ e outros, é genial:

“O Socialismo é o fantasioso irmão mais jovem do quase decrépito despotismo, o qual quer herdar. Suas aspirações são, portanto, no pleno sentido mais profundo, reacionárias. Pois ele deseja uma plenitude de Poder estatal como só a teve alguma vez o despotismo, e até supera todo o passado por aspirar ao aniquilamento formal do indivíduo: o qual lhe parece como um injustificado luxo da natureza e deve ser melhorado e transformado por ele em um ‘órgão da comunidade’ adequado a seus fins.
Devido a sua afinidade, o Socialismo sempre aparece na vizinhança de toda excessiva manifestação de poder, como o antigo socialista típico, Platão, na corte do tirano siciliano: ele deseja (e em algumas circunstâncias promove) o estado ditatorial Cesário deste século, porque, como foi dito, quer ser seu herdeiro. Mas mesmo essa herança não bastaria para seus objetivos; ele precisa da mais servil submissão de todos os cidadãos ao Estado absoluto, como nunca existiu nada igual; e como nem sequer pode contar mais com a antiga piedade religiosa ante o Estado, tendo, queira ou não, que trabalhar incessantemente por sua eliminação - pois trabalha para a eliminação de todos os Estados existentes -, não pode ter esperança de existir a não ser por curtos períodos, aqui e ali, mediante o terrorismo extremo. Por isso ele se prepara secretamente para governos de terror e empurra a palavra 'justiça' como um prego na cabeça das massas semicultas, para despojá-las totalmente de sua compreensão (depois que este entendimento já sofreu muito com a semi-educação) e criar nelas uma boa consciência para o jogo perverso que deverão jogar.“


Nietzsche estava perfeitamente certo, como a história o tem provado – acertou também sobre a comunidade européia que menciona em “Humano, Demasiado Humano”, inclusive já detectando a semi-educação (desinformação?) para o embelezamento do funesto objetivo.

Ainda Nietzsche:

“o indivíduo é nesse caso posto de lado como um inseto desagradável: está baixo demais para poder despertar por mais tempo sentimentos torturantes em um dominador do mundo. (...) Assim também se passa com o juiz injusto, com o jornalista que com pequenas deslealdades induz em erro a opinião pública.”

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Platão preconizava um Estado absolutista interferindo na vida de todos, inclusive atribuindo ao Estado a tarefa de educar as crianças uniformemente (doutriná-las: adestrá-las como a animais), em lugar das famílias que, com variadas reflexões individuais poderiam promover a busca pela verdade em meio a inúmeras visões debatidas até entre os “comuns mortais”.

A uniformização do pensamento em Platão, a ser produzida por uma única fonte, já antes de Gramsci e a uniformização de todas as fontes, já aparecia como fundamental para incutir nas mentes a hierarquia social que ele próprio propunha, vislumbrando os magnânimos “benfeitores profissionais”, cuja vontade amparada pelo Poder absoluto coagiria a humanidade à “perfeição” arbitrada segundo o interesse de pretensos e vaidosos “homens-deus”, que deliram com a idéia de exercerem sobre os “homens imperfeitos” o mesmo poder que atribuem a deuses idealizados à sua imagem e semelhança.

Platão acreditava, ou queria crer, que “iluminados” deveriam governar, determinando sobre a vida de toda a população. Já não lhes permitindo o livre-arbítrio na Terra (este concebido como justificativa para a impotência dos deuses no mundo real), para impor-lhes de fato a vontade salvadora dos “homens-deus”... Em nome do “bem comum”... É claro! E eivado de “boas intenções”, o tirano demagogo pleiteava uma hierarquia social discricionária, imposta de cima pelos “sabichões” que almejam destruir a idéia de liberdade. Platão era um aristocrata ambicioso; não era um trabalhador nem empreendedor, como os que por si realizam cientes de seus limites, mas sim um intelectual vendendo ideologia ou apologia ao poder absoluto de maníacos que querem ser como os deuses que idealizam, possuidores da fórmula da felicidade eterna, concebida em sua pretensa onisciência uniformizadora, contrária às escolhas subjetivas.

O que Nietzsche escreveu é evidente, basta que se pense e se chegará às mesmas conclusões. O maior mérito deste é que esteve mais perto do reflorescimento destas funestas idéias socialistas, antes que se pudesse ver o que produziriam em sua prática, desvendando-lhes a natureza pérfida e destruidora. Ou seja, se opôs a elas com bases vulneráveis a discursos demagógicos, teóricas, questionando-as ainda como idéias que se revelariam na prática. Atualmente, mesmo com as provas “berrando”, ainda se finge não saber a que servem tais embustes ideológicos para pleitear o poder absoluto de maníacos que o desejam, para se crerem assemelhados a suas idealizações imbecis.

Platão e as classes de uma sociedade hierarquizada “sem classes”:

"Sois todos irmãos os que fazeis parte do Estado; mas o Deus que vos criou fez entrar o ouro na composição de vós outros que sois aptos para governar. Por isso mesmo os tais são mais preciosos. Misturou prata na constituição dos guerreiros; o ferro e o cobre na dos lavradores e artífices".

O celebrado Platão reforçou sua idéia hierarquizante preconizando a segregação em classes, mais propriamente castas, só que por aptidão individual e não por hereditariedade ou “eleição de representantes”, mostrando-se elitista e estúpido, tal qual os “intelectuais” que se oferecem como ideólogos das “castas superiores” a se estabelecerem como “guias geniais” para salvar as massas.

Vejamos:

"Tendo todos uma origem comum, tereis ordinariamente filhos que se vos assemelhem. Poderá, porém, acontecer que o cidadão de raça de ouro tenha um filho de raça de prata; e, por outro lado, que o de prata produza o de ouro e, que o mesmo suceda a respeito das outras raças. Por isso ordena Deus, principalmente aos magistrados, que se ocupem acima de tudo em conhecer de que metal é feita a alma de cada criança e, que, se em seus próprios filhos encontrem alguma mescla de ferro ou cobre, os tratem sem mercê e os releguem à categoria dos artesãos ou lavradores.
Também requer Deus que, se estes últimos tiverem filhos que venham ao mundo com mescla de ouro ou prata, elevem aqueles à categoria de magistrados, estes à de guerreiros. Porque há um oráculo que diz que a república perecerá no dia em que for governada por ferro ou bronze".

Admirável mundo velho!

O preconceito elitista quer um governo de “superiores” ou “eleitos por deus” a governar em nome do “bem comum”, determinando que os que trabalham e produzem são “inferiores” ou, mais objetivamente, que os “inferiores” é que devem trabalhar para custear a hierarquia dos “bons” ou “superiores”, que devem praticar coisas “mais elevadas” como as artes, a guerra (agora a paz), a filosofia (agora descaradamente a ideologia) e a autoridade governante.

A idéia daqueles que se querem crer a “elite intelectual” ou “deuses provedores”, bem como dos oportunistas menos recalcados ou maníacos, é a de que o trabalho de produzir bens e serviços úteis não deve ser atribuição dos “virtuosos” nem das “autoridades”, mas sim dos indivíduos “menos nobres” ou “feitos de ferro”. Como se os que produzem bens e serviços úteis devam se entregar ao arbítrio dos “salvadores” que conhecem a fórmula da “felicidade universal” para homens uniformes ou uniformizados/igualados.

Estes que se postam como “salvadores de massas”, “novos messias”, entre eles o notório Hitler, pensam o mundo tal como este bem o explicitou, dizendo que os doutrinadores devem estabelecer fins, e os políticos devem fazer o que for possível em nome destes fins, utilizando-se de quaisquer meios; cabendo ao povo segui-los, obedecê-los e custeá-los. Explicitamente afirmando: independente dos fins serem ou não realizáveis. (obs.: e certamente independente da sua natureza, se bons ou não, pois que “supremos”, logo acima do bem e do mal julgados subjetivamente: o “ser coletivo” (sic) sobrepõe-se ao indivíduo).

O que pensam estes que se querem impor como elites salvadoras, “de ouro” ou mesmo de “prata”, é semelhante ao que nos esclarece Platão, partilhando da mesma fantasia. Assim, artistas se colocam acima dos “comuns mortais” achando que o governo deve tirar dos que produzem bens e serviços úteis, para sustentar-lhes o fausto; tentando justificar isso na “superioridade da cultura e das artes”. As autoridades e altos burocratas também querem se ver como “superiores que defenderão os pobres da ganância dos malvados”; atletas querem convencerem-se que são o “supra-sumo da espécie” que representam seu povo; também pleiteando que o povo os sustente a tripa forra. Os clérigos não ficam atrás, pois se acham “escolhidos de deus” e querem privilégios e comando (arbitrar a moral). E por aí vão, vaidosos, os que se querem “de prata” e “de ouro”, reivindicando que os “de ferro ou bronze” trabalhem e produzam para sustentá-los. (Obs.: a verborréia da “luta” tem a ver com “os bons”, os “valiosos guerreiros” de prata em defesa de idéias de ouro).

Assim, para realizarem suas manias de glória e hierarquia social (status), não percebem outro meio que não um Poder Coercitivo Absoluto, o Estado Totalitário, capaz de explorar os que trabalham para custear “os melhores da espécie humana”. Não passam de espertalhões e maníacos a seduzir imbecis e recalcados.

Fazem política, então, para doutrinar imbecis e frustrados/invejosos, elevando o Estado à categoria de “deus” abstrato, que existe através dos “homens-deus” que o controlam e determinam as suas magnânimas vontades. Como não poderia deixar de ser, enquanto os “servos do deus” trabalham e produzem para o rebanho (coletivo), os que lhe dão vida destes se utilizam para se locupletarem e realizarem suas manias e glórias - isto é humano, demasiado humano.

Contudo, penso que estes que se querem “rodeados de servos” possuem mesmo é excremento em sua constituição, a julgar pelas asneiras que produzem e as desgraças à que têm empurrado a humanidade. É a vaidade que os ensandece. ...cuisp!

C. Mouro

01 maio 2007

Espaço, Silêncio e Tempo

Certa vez estava assistindo a um especialista em luxo definir o que era luxo em sua opinião, e ao invés de dizer que era ter um super carro, roupas de marca ou os últimos lançamentos tecnológicos, era simplesmente ter espaço, silêncio e tempo. Fiquei intrigado com sua definição e após alguma reflexão só pude concordar com ele.

De fato, é só olhar os novos lançamentos imobiliários onde são oferecidos apartamentos de 3 quartos com 80 m² nos centros de algumas cidades como sendo "de luxo" e a preços elevadíssimos para se perceber que algo está errado. Não demorará até que passemos a morar em apartamentos com ambientes divididos por biombos japoneses. Na minha opinião, por mais mármore, câmeras de segurança, fitness e office centres agregados ao empreendimento, as unidades não poderão ser chamadas de luxuosas. Luxo é dispor de espaço.

Não são poucos os que trabalham nas famosas baias de escritório e são expostos à intimidade tóxica de outras pessoas, obrigados a conhecer detalhes sórdidos de suas vidas, especialmente os mais desagradáveis como valor da pensão para os filhos, o dinheiro emprestado a parentes ou então a viagem para a Europa com a terceira esposa. Mas algumas pessoas são assim, como elas mesmas gostam de dizer, "autênticas". Parecem nutrir um prazer secreto em incomodar os outros. Luxo é dispor de silêncio.

Por fim, temos a questão do tempo. Eu, pelo menos, às vezes tenho uma sensação de aceleração do tempo. Hoje mesmo nem parece que já estamos em maio. O tempo voa e cada vez mais rápido. Não sei como é este fenômeno, que talvez tenha muito de ansiedade e medo da velhice. Lembro-me que quando eu era criança 15 minutos eram uma eternidade, e hoje não são nada (talvez a eternidade a que se referem os religiosos seja um estado mental). E o tempo passa. Em 1/3 dele estamos dormindo e nos 2/3 restantes sonhando ou tendo pesadelos acordados. Luxo é dispor de tempo.

Um dos problemas parece ser a excessiva urbanização. Hoje, em alguns lugares, é um privilégio se ver um pedaço de céu. Em outros, se alguém quiser ver uma nesga de chão não asfaltado terá de ir a um parque. Árvores só as vemos em regiões ou ruas um pouco mais "luxuosas". Para que tudo isto? Afinal, já não vivemos em uma sociedade do conhecimento, altamente informatizada e com um amplo espectro de possibilidades de comunicação? Então, por que mantemos o hábito da Revolução Industrial de nos apinharmos em centros urbanos?

Além disso, precisamos considerar que o impacto dos cada vez mais numerosos seres humanos sobre o meio ambiente é crescente, e crescimento econômico neste contexto tende a ampliar esta exploração, como diriam os ecologistas marxistas. Embora não seja ecologista do tipo Marina Anti-hidroelétrica da Silva e muito menos marxista, acho que se as pessoas se espalhassem um pouco mais, geograficamente, daria para mais pessoas viverem em imóveis maiores, verem o céu, andarem à sobra das árvores e até mesmo reduzir a pressão sobre sistemas hídricos à beira do colapso, sem a necessidade de muito crescimento econômico. Resta a questão: Como fazer isto?
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