25 abril 2007

O Impeachment de Lula

Outro dia, tive o privilégio de assistir a uma palestra de um experiente negociador que nos últimos 20 anos lidou com diferentes empresas e diferentes governos. Quando falou sobre a política brasileira sintetizou sua evolução recente em três palavras: empáfia, inflação e corrupção. Segundo ele, elas explicam a dinâmica dos principais eventos dos últimos 20 anos.

Em sua opinião, a combinação dos três fatores é igual a impeachment. A última vez em que esta combinação ocorreu foi com o Collor, cuja insistência em pilotar caças da FAB, lutar caratê e andar de jet-ski era percebida como empáfia. A inflação, que ele enfrentou com o truculento e traumático Plano Collor, estava voltando e, por fim, seu próprio irmão foi à TV dizer que ele era corrupto. Portanto, a combinação destas três percepções teria resultado no famoso Domingo Negro e no seu impeachment. Para completar, ele pertencia a um partido minúsculo e não controlava o Presidente da Câmara.

José Sarney, seu antecessor, deixou o país com uma inflação de 80% ao mês, além de ser percebido como um oligarca maranhense corrupto e baba-ovo dos militares. Mas o povo e os servidores públicos o viam como um pai complacente, e este ex-líder da ARENA deu ao PMDB em 1986 a maior vitória nas urnas da historia, às custas do Plano Cruzado, que poderia, se bem administrado, ter acabado com a inflação de então. Apesar disto tudo, o Zé do Bigode ainda ganhou um ano extra de governo e hoje, juntamente com sua filha, é um dos grandes aliados do Lula. Ele e seu horrível governo teriam sobrevivido apenas porque ele não tinha empáfia.

O Itamar, vulgo homem do topete, teve o bom senso de convidar Fernando Henrique para ser ministro da Fazenda, que por sua vez chamou os criadores do Plano Cruzado para desenvolverem o Plano Real. O Plano teve sucesso inicialmente, e Fernando Henrique, apesar de ter empáfia, deu esperanças de vitória sobre a inflação, além de ser percebido como um homem correto. Graças a isto, impôs a segunda derrota ao Lula candidato a presidente. Depois de perder uma terceira vez, Lula decidiu refundar o PT sob a coordenação de José Dirceu e fazer uma mudança de imagem com a ajuda do grande marqueteiro Duda Mendonça, que inventou o Lula Light, sucesso absoluto de vendas.

O episódio da aprovação da reeleição e as denúncias envolvendo as privatizações eliminaram a percepção de que FHC fosse correto, e a isto somada sua empáfia de uspiano marxista, faltou apenas que perdesse o controle da inflação para que as coisas se complicassem - e isto quase aconteceu em 1999, quando alguns economistas chegaram a prever uma inflação de 40% ao ano, com o fim da âncora cambial.

Finalmente, temos o eneadáctilo, o homem cuja humildade se contrapunha ao professoral e aristocrático FHC. O homem que era percebido como honesto e que prometera continuar os programas que mantinham a inflação sobre controle. Com isto, e com a insistência do paulistério em apoiar Serra e não Tasso, Lula finalmente chega ao poder. Eu apostaria que uma chapa encabeçada por Tasso e com Roseana como vice teria ganho.

No poder, Lula rebatizou o Bolsa Escola de Bolsa Família, enterrou os traços de marketing do Plano Real para que o governo anterior fosse esquecido - como faz todo governante, sejamos honestos - mas deu continuidade ao programa econômico com uma equipe da mesma linha, entregou a administração ao José Dirceu, como hoje está entregue à Dilma, e continuou a fazer o que sabe: campanha.

O Zé Dirceu tentou fazer a refundação da Republica, mas hoje está cassado e sendo denunciado no Supremo como chefe da quadrilha do Mensalão. Com isto, Lula passou a ser percebido como corrupto, mas nunca foi percebido como arrogante e tampouco perdeu o controle da inflação. Pelo contrario, honrou todos os contratos e hoje o Brasil bate recordes de Risco-País. Por isto, não reúne as condições para sofrer um impeachment. Neste sentido, parece-me um pouco estéril a oposição continuar a bater na tecla da corrupção, porque ela sozinha não é suficiente para inviabilizar seu governo. De fato, mesmo que ele perdesse o controle da inflação, sua habilidade de ser percebido como alguém do povo, com toda a "humildade" que isto envolve, além de contar com um PT forte e com o controle do Presidente da Câmara, inviabilizariam seu impeachment. Na pior das hipóteses ele seria um presidente fraco e desmoralizado como foi Sarney, mas continuaria no cargo até 2010, pelo menos.

19 abril 2007

"Santo Subito"

Mais de um bilhão de ouvintes e telespectadores nos quatro cantos da orbe escutaram a voz de deus a bradar “Santo Subito” por meio dos trezentos mil fiéis e curiosos apinhados na Praça de São Pedro que recomendavam aos vermes dos porões da basílica, construída com os dividendos da venda de indulgências, o corpo de Karol Wojtyla, ex-teocrata do único Estado do mundo onde não há partos (embora não seja possível conceber o número de concepções que se deram sob os olhares dos santos de pedra, bronze e têmpera que habitam os aposentos secretos).

“A voz do povo é a voz de deus”, diz o povo, ou seja, deus. Embora seja sabido que um padre polonês e membros da igreja de seu país distribuíram às pessoas os cartazes com o despacho e tenham puxado o coro popular, indicado a deus o que deveria berrar, em nome deste clamor JPII foi beatificado pouco mais de um mês após sua morte, em um discreto atropelo do Código de Direito Canônico vigente.

Para a canonização não será imprescindível procurar por um milagre, uma vez que os advogados eclesiásticos já têm à mão Marie-Simon-Pierre, uma religiosa de 46 anos que assegurou, tremendo dos pés à cabeça de emoção, ter sido curada de maneira inexplicável do mal de Parkinson graças à intercessão de JPII. De maneira inexplicável ou inexplicada? Quando se tem muita fé nos médicos, como é o caso dos religiosos, tão afeitos a ter fé, se os doutures não explicam algo ele passa automaticamente a ser “inexplicável”. Segundo Carlos Esperança, a Igreja Católica se dá ao luxo de esconder milagres provados: "a impunidade do homicídio do chefe da Guarda Suiça, da mulher e de um soldado. O Vaticano atribuiu o assassínio do casal ao último, que se suicidou com a mesma pistola e uma bala de calibre diferente. Milagre!"

Mais de vinte anos antes, deus já se esforçara em transformar JPII em “Santo Subito” através do martírio - o que reduziria sobremaneira a burocracia para sua canonização. Preparou tudo para que o instante glorioso se desse logo após a bem sucedida morte de John Lennon, que o havia ofendido ao dizer que sua banda de rock era mais famosa que seu filho, mas na hora H, em uma grave ingerência celestial, a Senhora de Fátima desviou os projéteis disparados por Ali Agca, os quais acertariam a cabeça do Papa, para outras partes do corpo. Bem que lhe ocorrera desviar totalmente de JPII as balas, mas lembrou-se que ainda não havia um padroeiro para o mal de Parkinson, e assim achou por bem fazer a coisa ao seu modo. Revelaram-me (ao que não acreditar cabe desmenti-lo) que a Virgem de Guadalupe, que no momento do atentado estava em Cancun ajudando um porto-riquenho a vencer uma partida de arremesso de dardos, zombou da pontaria da portuguesa, e desde então as duas não se falam. Nossa Senhora Aparecida, que segundo os preconceituosos entrou para o panteão romano pelo mesmo sistema de cotas que beneficiou São Benedito, tentou ser a mediatrice, mas as duas não lhe deram ouvidos.

Os percalços foram superados. Karol será mais um semideus da religião que é, na verdade, o próprio politeísmo do Império Romano travestido na heresia judaica chamada cristianismo, cuja sede nunca deixou de ser a Cidade Eterna. “Por que semideus?” – pergunta o católico indignado – “O santo é tão somente um exemplo. Se um parente pode rezar por mim, por que um santo não pode fazê-lo?” Ora, ele ganha poderes especiais após a morte, passa a ser onipresente, já que de qualquer canto do universo poderá ser acionado por meio de preces, ainda que feitas de maneiras diversas por um bilhão de pessoas ao mesmo tempo; passa a ser praticamente onisciente, já que desmascara aquele que mente, o que pensa mal de si, terá presciência; e passa a ser quase onipotente, já que os fiéis, cansados da burocracia de terem de pedir por intercessão, pedincham as coisas diretamente ao semideus, sem delongas, chamando-o de poderoso, conferindo-lhe especializações, invocando-o como casamenteiro, protetor de viajantes, de doentes, etc. Se fossem meros intercessores, por que motivo Júpiter, oops, deus deixaria de atender a um pedido de São Paulo - que no Novo Testamento manifestou-se contra o casamento - para que uma beata encontrasse um varão para chamar de seu, mas atenderia o mesmo pedido feito pelo mesmo créu a Santo Antônio, o casamenteiro oficial?

E qual seria a especialidade de Bento XVI, que acabou de entrar na casa dos 80 e já trilha o caminho da santidade, antevista nas conciliadoras palavras da palestra de Regensburg, no legítimo combate ao secularismo? Padroeiro das raposas? Dos criadores de Rottweilers? Padroeiro do justo conclave? O tempo dirá...

13 abril 2007

A Ressurreição do Socialismo

Há algum tempo, os pensadores americanos imaginavam que a história havia acabado, com a queda do Muro de Berlim e a fragmentação do gigante soviético. Pensavam que o socialismo estava condenado diante da falência do socialismo real. O próprio FHC, um grande ex-pensador marxista, achava que a Globalização Americana seria irresistível e que a tecnologia da informação jogaria a sociedade mundial em uma nova era de crescimento infinito, e de nada adiantava ao Brasil resistir...Era melhor entrar na ALCA e com isto tirar o melhor proveito.

Três crises financeiras depois, além do estouro da bolha da Nasdaq, e a promessa de riqueza infinita e estabilidade foi comprometida. Isto para não mencionarmos a corrupção que caracterizou privatizações em todos os países do mundo. De repente, de onde ninguém esperava, da China, veio a salvação do capitalismo. Os chineses e o Wall Mart controlaram a inflação americana, impediram uma superdesvalorização do dólar, começaram a financiar o consumo americano comprando T-Bonds e a elevar os preços das commodities em todo o mundo.

Quando as Torres Gêmeas caíram, diante da ação dos antigos aliados mujahedins, os EUA passaram a procurar os seus inimigos nos muçulmanos. Seus intelectuais viam nisso uma guerra de civilizações onde o Ocidente, não mais dividido entre socialismo e capitalismo, lutava contra a civilização muçulmana e oriental de forma geral. O diagnóstico era que estas eram civilizações incompatíveis. Na verdade, era uma nova roupagem para a velha idéia de que quem não tivesse uma economia de mercado e uma democracia nos moldes ocidentais era um inimigo em potencial. Aquela velha idéia americana de que as democracias estão destinadas a viver em paz.

Enquanto os americanos se focavam em sua nova guerra contra os muçulmanos, uma série de governos populistas crescia e se desenvolvia sob suas barbas, aproveitando a ressaca da globalização da década de 90. Chegando ao poder, pegaram carona no efeito China, que valorizou suas commodities, como é o caso da Venezuela, que se beneficiou de um aumento do preço do barril de petróleo de US$ 11 para US$ 60, no governo de Chávez. Enquanto os americanos estão ocupados no Iraque, as taxas de juros estão baixas e o efeito China gera grandes superávits comerciais para exportadores de commodities, estes governos populistas se mantêm no poder distribuindo a riqueza do tal efeito China.

Não adianta mais reclamar que estes governos esquerdistas e populistas são corruptos. São mesmo. Tão corruptos quanto os governos anteriores, e a cada dia sabem usar o Estado melhor para servir aos interesses que eles julgam ser também os interesses da democracia e do povo dos seus países, afinal, em suas cabeças, nada seria melhor para os seus países do que a sua permanência indefinida no poder. E eles são criativos, desenvolvem esquemas novos. Dominam as estruturas formais de poder e hoje só lhes falta ampliar seu domínio sobre a imprensa.

A história é quase sempre a mesma. Eles chegam ao poder nos braços da classe média, de ressaca com a malfadada globalização da década de 90 e com esperanças em uma mudança mais nacionalista. E quando chegam lá se tornam corruptos e mudam suas bases para uma clientela mais pobre e menos exigente. Hoje, a preocupação destes partidos esquerdistas é fidelizar estas bases pobres, doutriná-las e ensiná-las que o Estado é como uma divindade que distribui maná abundante, e que este papo neoliberal de que há escassez e necessidade de disciplina de capital é bobagem. Para isto, estão drenando recursos do Estado para montar uma rede de ONGs usando uma série de bandeiras reivindicatórias que permitirão mobilizar estas massas fora da estrutura partidária, criando uma estrutura que talvez possa em algum momento, como foi no caso da Bolívia, tirar o poder das mãos dos partidos tradicionais e suas democracias burguesas.

Bandeiras e ideais são os pretextos para as mobilizações, afinal, as multidões são percebidas pelos meios de comunicação como uma expressão popular. Infelizmente, raras vezes são; manifestações espontâneas e populares são raras. Na maioria das vezes, é um grupo de estudantes matando aula, liderado por um bando de sindicalistas desocupados, transportado por ônibus de alguma ONG e usando o carro de som do sindicato.

O islamismo era a segunda religião preferida do Papa João Paulo II, que a considerava muito semelhante ao cristianismo. Apesar disto, os intelectuais americanos acham que o Islã é o inimigo, e se esquecem de que o verdadeiro problema não são os muçulmanos mas a ressurreição dos socialistas e populistas, que crescem na onda chinesa. Talvez seja hora dos americanos reverem suas prioridades e voltarem a pensar no Ocidente, que está se dividindo novamente. Desta vez, se eles fizerem direito e não movidos pelo protecionismo nacionalista de um lado e pela ganância de Wall Street de outro, talvez haja um crescimento estável na Globalização e uma esperança para a democracia e para o desenvolvimento dos povos.

08 abril 2007

Moisés de Freud

A última obra de Freud foi o livro "Moisés e o Monoteísmo", onde o autor expõe décadas de suas dúvidas e reflexões sobre o personagem fundador do judaísmo. De fato, ele deixou este livro para ser publicado na sua velhice por temer retaliações.

Primeiramente, ele argumenta que “Mosheh” é uma palavra egípcia, provavelmente um diminutivo de um outro nome qualquer – “Thutmose”, por exemplo. Com isto, ele argumenta que Moisés não teria origem judaica mas egípcia. Freud escreve que aceitar que o seu salvador fosse egípcio seria demais para o povo judeu.

Ele acrescenta que o mito do fundador de um povo é o de um filho de um Rei que se torna um herói ao desafiar o pai. Moisés é um desvio do padrão ao ser supostamente um filho de judeus levitas que é criado como príncipe, e para Freud todo o desvio merece ser examinado com cuidado, visando encontrar sua motivação.

Segundo Freud, o judaísmo renuncia a qualquer forma de existência após a morte, além de passar a ser uma religião monoteísta, opondo-se à religião tradicional egípcia. Além disso, o judaísmo condena a feitiçaria, enquanto os egípcios faziam promessas aos deuses, entre eles Amen-Re, da cidade de Tebas, composto do deus da cabeça de carneiro e do deus solar de cabeça de falcão de On.

Foi sob a gloriosa XVIII Dinastia, por volta de 1375 a.C., que o Egito tornou-se uma potência internacional com Amenófis IV, e em seguida seu filho Akhenaton fez uma tentativa de impor o monoteísmo aos egípcios que resultou no fim da dinastia e na perseguição dos seguidores da nova religião. Curiosamente, o deus da cabeça de carneiro, Amen, era também o maior inimigo de Aton. De fato, o fortalecimento do culto a Aton pode ter sido uma reação à força dos sacerdotes de Tebas, o que levou o próprio faraó a fundar a sua cidade de Tell el-Amarna. Com a sua morte, tudo foi destruído, incluindo o seu túmulo e seu passaporte para a eternidade, enquanto os sacerdotes de Amen, ou Amon, garantiram que nenhum traço do culto a Aton sobreviveria.

Em seguida, ele argumenta que Heródoto afirmava ser a circuncisão um costume egípcio - o que viria a ser atestado por diversas múmias. Desta forma, a imposição do costume da circuncisão seria uma “egiptização” das tribos de escravos semitas. Seria um sinal do povo escolhido por Moisés. Este ponto merece ser revisitado, pois o dito “povo escolhido” talvez tenha realmente sido escolhido por Moisés para implantar algures a religião perseguida no Egito.

Moisés é retratado como um homem ardiloso, irascível, violento, capaz de matar e de planejar matanças - características que hoje atribuiríamos a um político, um aristocrata ou um general, mas raramente a um líder religioso. Outro ponto de destaque é ele ser descrito como “pesado de boca” para se dirigir ao povo, logicamente devido ao fato de um nobre egípcio não falar bem a língua de escravos semitas. Nas negociações com o faraó, não houve a necessidade de intérprete.

Não podemos esquecer que Moisés enfrentou várias revoltas contra a dureza da sua religião, e não seria difícil imaginar que no curso de uma destas revoltas ele tenha perecido. Esta hipótese é apoiada por uma tradição que vem do profeta Oséias de que Moisés teria sido assassinado por uma revolta de seu povo contra o rigor da nova religião e enterrado no deserto. Após o assassinato, a religião mosaica teria adormecido enquanto as tribos libertadas do Egito teriam se fundido com seus antigos parentes do deserto.

A origem da tribo levita é um grande mistério na tradição judaica e cabia justamente a ela as nobres funções sacerdotais. A hipótese de Freud é que os levitas seriam originariamente os escribas egípcios e sacerdotes de On que preservariam a cultura e a tradição mosaicas. Teria havido ainda um sincretismo com uma religião vulcânica de Javé, de algumas tribos do deserto, e a criação de patriarcas como Abraão, Isaac e Jacó, cuja existência negasse que a religião adotada tivesse sido importada do Egito.

04 abril 2007

Discutindo Marx

O homem Karl Marx (1818-1883) era um burguês judeu da classe média prussiana que não conseguiu uma vaga de professor por ser um hegeliano de esquerda. Teve cinco filhos dos quais dois morreram provavelmente em função da sua condição miserável. Foram fundamentais as ajudas recebidas do seu amigo rico, Engels, para sua subsistência. Teve também um filho com a empregada de sua casa, que foi criado por Engels. Como bom pai vitoriano, não queria que suas filhas casassem com esquerdistas e buscou casá-las bem.

Ele inverte a causalidade do hegelianismo criando o materialismo histórico, onde a organização da produção material de bens é o determinante último do funcionamento da sociedade e da subjetividade dos indivíduos. Sua teoria foi criticada por Popper, que considerou uma contradição supor que a história obedece a uma lei que torne possível antecipar o futuro, daí considerava inconsistente a previsão da vitória final do socialismo. Além disso, Popper considera suas afirmações não refutáveis e portanto não científicas.

No âmbito da teoria econômica, o seu conceito de mais-valia é o mais celebrado. Entretanto, a mais-valia como explicação para a diferença entre o valor pago aos trabalhadores e o valor dos produtos gerados é apenas uma teoria. Assim como Adam Smith considerava que o valor é gerado pelo trabalho e não pela propriedade da terra, Marx supôs que o mais-valor é roubado dos trabalhadores.

O mainstream da teoria econômica lidou com este problema simplesmente abandonando a teoria do valor-trabalho de Adam Smith e passando a utilizar o conceito de utilidade marginal, a teoria do valor-utilidade. Desta forma, se o mercado estiver equilibrado, os fatores econômicos forem remunerados e ainda houver lucro, passou-se a considerar que estes são decorrentes de risco da atividade ou poder de mercado.

Apesar de descartado pelo mainstream econômico, o conceito de mais-valia foi apropriado por outras ciências sociais, que passaram a utilizá-lo em outros contextos. Desta forma, com o Imperialismo de Lênin, a exploração entre classes passou a ser entre países, e posteriormente passou-se a usar o ângulo de explicação das relações sociais como relações de conflito e exploração de forma generalizada. Duroselle critica esta abordagem ao afirmar que as relações sociais são primeiramente de colaboração e que o conflito subsistiria de forma secundária.

No Brasil, este pensamento foi importado por Florestan Fernandes e pela USP, que viviam o seu recalque no coração do capitalismo tupiniquim bem como Fernando Henrique Cardoso, que ataca a teoria das vantagens comparativas de Ricardo ao afirmar que isto condenaria o Brasil a uma relação de eterno exportador de matérias-primas baratas. Fernandes tornou-se um dos contestadores da idéia de miscigenação racial e passou a afirmar que havia uma relação de exploração também entre raças. Existe também uma leitura marxista para as relações de gênero.

Lacan chegou inclusive a aplicar a idéia de exploração e extração da mais-valia às relações entre superego e ego, onde o superego impediria o mais-gozo. Apesar disto, ele afirmava que a "Revolução" deveria começar dentro de cada um, pois enquanto houvesse explorações nas relações entre os líderes do partido e os liderados não haveria um verdadeiro socialismo. Enfim, espero com esta breve revisão oferecer material que possa subsidiar o debate sobre este pensador que, certo ou errado, muito nos influencia.
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