31 março 2007

Flamenguistas e Petistas

A partir de um comentário do C. Mouro, comecei a refletir sobre as nossas escolhas, e penso que às vezes seria melhor que as chamássemos de "identificações".

Tenho um colega que, apesar de ter nascido em Ipanema, é flamenguista. A explicação é simples; seu pai torce para o Flamengo. Creio que ser rubro-negro não tenha sido exatamente uma escolha para ele. Tenho um outro amigo que é filho de um casal de professores petistas, destes que em todas as eleições vão às ruas agitar bandeiras. Ele é ótima pessoa, correto, bom amigo, mas nenhum argumento conseguiria abalar sua fé no partido. Ele é um torcedor. O sujeito tem até mestrado, mas quando a questão é o PT, nenhuma lógica é capaz de tocá-lo.

Em seu caso, de meu colega flamenguista e no da maioria dos religiosos, acho que a questão não é a escolha mas a identificação, ou seja, no desenvolvimento dos sujeitos houve algum momento em que, ao se aproximarem dos pais, tomaram para si seus valores, e creio que não possam mais deles se desvencilhar por qualquer motivo razoável, salvo em poucas exceções. A legião de jovens vira-casacas botafoguenses, vascaínos e tricolores que o time de Zico e Júnior arrebanhou no começo da década de 80 não pode ser classificada como exceção, é certo.

Se o Flamengo joga mal a culpa é do juiz, que certamente é ladrão, e o torcedor não se importa se o gol do título foi ilegal, pois o que vale é a vitoria. Não quero dizer com isto que eu não tenha identificações; óbvio que sim. Entretanto, tento sempre questionar se minhas preferências refletem algo bom ou se são simplesmente um hábito, uma concessão afetiva ou uma propensão. Contudo, sei que qualquer apóstata terá de lidar com uma crise onde se verá obrigado a redefinir sua relação com seus pais, amigos, com a própria sociedade. Este não é um motivo desprezível para manter as coisas como estão. Pertencer a uma religião, ser de um partido político ou torcer por um time de futebol pode ser um dos poucos vínculos que conseguimos estabelecer com outros seres humanos.

Neste blog tentamos fazer o que aqueles comentaristas de futebol se propõem, ou seja, comentar "desapaixonadamente" e de forma crítica os jogadores políticos. Vocês hão de concordar que o Lula batendo bola no Maracanã só dá força a esta metáfora. Evidentemente, nenhum comentário é imparcial, mas pode ser bem fundamentado. Os torcedores são um pouco mais irritantes, pois necessitam de gritos de ordem... mas podia ser pior.

Na vida real, fora da blogosfera e de fóruns políticos, o torcedor pode ser um sujeito perigoso, um hooligan, e ai daqueles que pertençam a outras agremiações. Endeusa os que vestem camisas iguais à sua e espanca os demais. É por isso que não condeno os adesistas, os vira-casacas; eles simplesmente têm um instinto de autopreservação mais bem desenvolvido do que o nosso. Finalizando; acho que esta é uma atitude a ser buscada: a de comentaristas e críticos dos jogadores. Quem sabe um dia o técnico não nos escuta?

27 março 2007

A TV do Lula

No início do primeiro mandato os petralhas, como diz a Patrícia, tentaram emplacar um Conselho com poderes para cassar os registros profissionais de jornalistas que não tivessem um comportamento considerado ético. A proposta parecia inocente. O catch estava na Comissão de Notáveis para julgar os pares. Era aí que o PT apostava suas fichas. Felizmente, a proposta foi abortada. A esta altura alguns jornalistas já teriam sido cassados, a começar por aquele gringo que insistia no presidente ser chegado em uma cana.

Segundo mandato, estratégia nova. Lá vêm eles de novo, agora com a proposta de juntar a SECOM com a Radiobras para criar uma TV do Executivo sob o comando do jornalista Franklin Martins. Estima-se um orçamento de R$ 250.000.000,00, fora os anúncios das estatais. Lulinha, o jovem magnata das comunicações deve estar felicíssimo com as oportunidades que se avizinham.

Depois que o mito da honestidade dos petistas foi “desprovado” pela sua elite dirigente envolvida em Caixa 2, Mensalão, escândalo do Lixo e outros eventos, agora tentam provar que também não são democráticos, que estão mais interessados em aumentar o seu poder e que este negócio de democracia era papo de quando estavam na oposição. Infelizmente, parece que não basta ao Lula ser o chefe do Executivo. Ele quer ter reuniões semanais com os seus cupinchas no Legislativo. Daqui a pouco terá nomeado os 11 juízes do Supremo e, como se não bastasse, também quer ter uma importante participação no quarto poder, a Imprensa.

Graças ao controle da execução do Orçamento, do poder de nomear para cargos que dão prestígio e cargos que administram grandes orçamentos nas estatais, o presidente constrói uma maioria fisiológica no Congresso da qual espera o voto a seus projetos, sem questionamentos. Isto já seria uma violação do equilíbrio dos poderes. Quando o presidente nomeia os juízes do Supremo, está garantindo que a Constituição será interpretada como ele desejar. Agora, ele ainda quer pautar um poderoso órgão de comunicação que dirá ao povo o que pensar do seu governo. Imaginem como será difícil controlar esta TV durante as eleições… Aliás, o próximo presidente do TSE já terá sido nomeado pelo presidente.

O erro deste projeto é seu pressuposto autoritário de que o próximo chefe do Executivo, eleito em 2010, será seu aliado, caso contrário, ele terá criado mais poder para um inimigo. Portanto, a eleição deverá ser ainda mais violenta, pois o risco de perder o poder pode ser ainda mais desastroso. Este é o problema com projetos autoritários, como a reeleição do FHC; começam visando ampliar o próprio poder, enfraquecem a democracia e tornam a disputa pelo poder ainda mais sangrenta.

2010 é problema do Lula, o problema da democracia é que precisamos de um ambiente onde os poderes funcionem de forma independente, quiçá harmoniosa. Ou seja, o Executivo administra, o Legislativo legisla, o Judíciário julga e a Imprensa informa. De fato, já é um erro a Presidência da República dispor de tantos recursos para fazer propaganda. É por isto que sou contra a TV Lula, que reedita o desejo dos militares por um canal simpático ao regime, como foi o famoso projeto de promoção da Rede Globo na ocasião. Viver com críticas é desagradável mas é mais seguro para todos. Por fim, este desejo de aumento de poder do Lula vai acirrar a guerra que será a eleição de 2010, onde ele próprio poderá concorrer novamente amparado por alguma consulta ao Supremo.

20 março 2007

Arte e Poder

Mecenato

Caio Mecenas foi um grande patrono das letras. Conselheiro de Otávio Augusto, usou a fortuna da família para financiar um círculo literário que incluía nomes como Horácio e Virgilio. Sua reputação se deve ao altruísmo e aos frutos que ele gerou. O mecenato de poderosos, contudo, é mais antigo e sempre teve a autopromoção, ou a promoção de algo, como verdadeiro fim. Com o passar dos anos, épicos, pinturas, esculturas e maravilhas arquitetônicas foram parcialmente substituídos pelo nada eterno marketing, e gênios como Duda Mendonça, capaz de atingir metas que desanimariam São Judas Tadeu, fazem as vezes de artistas como o já citado Virgílio, que, além de usufruir da generosidade de Caio Mecenas, aceitou a encomenda de Otávio Augusto para escrever a Eneida, um épico tão artificial quanto Os Lusíadas, em cujas páginas o poeta latino inventa uma origem troiana para os romanos, além de criar uma correspondência entre Enéas e Augusto.

Como escrevi a um anônimo na sessão de comentários do post Galvão e a Transubstanciação, onde está o poder estão os artistas, engenheiros, arquitetos. Necessitam, quais rêmoras, de um tubarão influente e rico no qual fixar a barbatana-ventosa, para aguardarem o momento em que lhes financiará os tão caros devaneios. Há, na verdade, uma interdependência, já que os poderosos usam a arte e grandes feitos de engenharia para promoverem sua superioridade, vide os Medici, os Sforza, Justiniano, Mehmet II, os Papas, Faraós e nosso bom e velho Otávio Augusto.

A rêmora Mascagni fixou-se em Mussolini, Wagner fixou-se em Ludwig II da Baviera, Niemeyer fixou-se em Juscelino, o Gilberto Gil artista fixou-se no Gilberto Gil ministro. Dizem que não se entendem muito bem, porque um quer sempre tomar o lugar do outro. Nosso ministro-artista é a reedição do Nero inventado por Sienkiewicz. Incendiou a ONU com a ajuda de Kofi Annan. Soltaram a franga e, assim, puniram os cristãos presentes de um modo bem mais cruel do que se tivessem soltado as costumeiras feras dos circos romanos. Claro que muitos artistas não almejavam fama e dinheiro, mas habitavam regiões de pujança econômica, onde novas idéias artísticas e filosóficas fervilhavam.

No Brasil, tudo vai à contramão do mundo civilizado. Os artistas produzem melhor sob ameaça de bordoadas, prisão e extradição do que quando favorecidos por leis de incentivo à cultura ou por outras formas de mecenato oficial. Mesmo com o cenário favorável de supressão das liberdades individuais, alguns artistas não se sentiam suficientemente perseguidos e se auto-exilavam, como Caetano Veloso, para não serem abandonados pelas musas. Quando colocamos lado a lado o que Chico Buarque e outras mentes privilegiadas produziram nos bons tempos da repressão e o que fazem hoje, percebemos o quão vertiginosa foi sua decadência. E idade não é desculpa. Quase todos os grandes compositores clássicos escreveram suas melhores obras no fim da vida, aos trinta e poucos anos (rs).

Menos Poder...

Mas nada como a arquitetura para eternizar um povo, um governo, um governante. O próprio arquiteto do universo, o deus dos maçons, foi eternizado pela sua magnífica obra - o universo -, encomendada pelo supra-deus, que sempre preferiu o anonimato. Como bem lembrou Balzac, os eventos da vida humana, públicos ou privados, estão tão intimamente relacionados à arquitetura, que podemos reconstruir nações ou indivíduos a partir dos vestígios de seus monumentos e residências. Churchill disse que nós moldamos nossos edifícios, e a partir de então passamos a ser moldados por eles.

Poderosa como nenhuma outra instituição religiosa em toda história, a Igreja Católica financiou as mais belas construções dos últimos dois mil anos. Moldou os templos e a cristandade foi moldada por eles. Os primeiros cristãos congregavam-se em catacumbas ou escondidos em suas casas, mas após o Édito de Milão, de Constantino, apropriaram-se das ricas e imponentes basílicas romanas, e acrescentaram um transepto para que a planta formasse uma cruz. As igrejas antigas tinham uma superioridade natural sobre os prédios que as circundavam. O gabarito máximo do resto da cidade era limitado pelos pés do padroeiro ou pelas torres das catedrais. Grandes praças e largos funcionavam como espaço de transição entre a cidade e o espaço dito sagrado, além de remeterem ao átrio do Templo de Salomão. Eram marcos visuais, a identidade de uma cidade. Dentro, a nave simbolizava a Arca da Salvação, a Barca de Pedro, a maternidade da Igreja. A galilé, de onde os não batizados podiam assistir à Missa, simbolizava a jornada de Jesus da Galiléia até Jerusalém, local do sacrifício no Calvário. Sobre a galilé ficava o coro, em uma espécie de mezanino, invisível para os fiéis, afastado do altar. As igrejas eram desenhadas para ser a imagem do Corpo Místico de Cristo posto a serviço de sua cabeça: o deus dos cristãos. O forro plano da antiga basílica deu lugar à abóbada, para simbolizar o firmamento celeste. Era, amiúde, sustentada por doze colunas simbolizando os apóstolos, e o leão, o homem, o carneiro e a águia – símbolos dos evangelistas – ornamentavam as colunas do cruzeiro. As fachadas contavam com inúmeras estátuas que eram uma espécie de catecismo, em frente às quais os professores ensinavam a história bíblica ao povo.

O ocaso da supremacia da Igreja Católica se deu no final do século XIV e século XV, quando o conhecimento científico entrou em conflito com as crenças cristãs e a cosmologia bíblica, e com o advento do protestantismo, que se opunha, entre incontáveis outras coisas, ao vil comércio de indulgências, que perdoavam pecados passados, presentes e futuros, cujos dividendos eram o combustível de trabalhadores braçais de todos os cantos da Itália, artesãos e artistas como Bramante, que se empenhavam na edificação da mais suntuosa construção sacra de toda cristandade: A Basílica de São Pedro. Indiretamente, esta grande obra foi responsável pela asquerosidade dos templos católicos construídos nos dias de hoje.

Mais adiante, os ideais iluministas de Liberdade, Igualdade e Fraternidade entraram em sério conflito com a Igreja. O dízimo foi suprimido e ela teve muitos de seus bens confiscados. Na França, em 1790, foi separada do Estado e os clérigos obrigados a se submeter à constituição do país. A Igreja Católica não viu problema em justificar as decapitações promovidas pelos revolucionários franceses, já que aceitou transferir para o imperador deles, Napoleão, o direito divino que pouco antes pertencia aos nobres guilhotinados. Napoleão, contudo, em um lapso de sabedoria, tomou a coroa do próprio papa Pio VII e a pousou sobre a própria cabeça.

Na Itália, em 1860, Vittorio Emanuele derrotou o esquálido exército papal e se apropriou da Umbria e de Marches. No mesmo ano, tomou todos os territórios pontifícios, inclusive Roma, deixando para a Igreja Católica apenas o quarteirão do Vaticano, de onde um raivoso Pio IX ameaçou com a excomunhão todos católicos que votassem nas iminentes eleições. Teve de abrir mão da outrora abominada punição quando viu que acabaria perdendo quase toda a clientela italiana se insistisse no disparate.

...Menos Arte

A Igreja perdeu poder e, como em um passe de mágica, restringiu radicalmente o mecenato, passando a arcar apenas com a comissão de artistas menores, para não dizer medíocres. Antes, artistas judeus, maçons, agnósticos ou irreligiosos (e católicos, claro) compunham missas e requiems de tirar o fôlego. Hoje, a Igreja conta apenas com a inspiração divina, por esta razão as canções do padre Zeca, do padre Marcelo Rossi e do padre Jonas não impressionam tanto quanto a Missa Solemnis de Beethoven.

As casas de deus foram as que mais sofreram com o secularismo. O deus dos católicos, um caso típico de nobre europeu empobrecido, viu-se obrigado a adaptar suas casas de campo para hotéis, muitos de seus castelos para museus, a ceder, endividado, belos palácios para milionários americanos. Mudou-se para cortiços nos trópicos ou, quando conseguia orquestrar um mutirão entre as atrasadas populações locais, para monstruosidades como a Basílica de Aparecida. Assim, as casas de deus foram ficando cada vez mais grotescas e desproporcionais. Hoje, submetem-se às normas ordinárias do código de edificações e são superadas por grandiosos prédios de escritórios, museus, bibliotecas, e edifícios públicos. A arquitetura de museus, aliás, atrai os grandes nomes da arte mundial e também os grandes investimentos. O arquiteto Mario Botta disse que, na cidade de hoje, o museu cumpre um papel análogo àquele da catedral antigamente. O museu é, na sua opinião, aonde as pessoas vão para entrar em estado de graça. O sentimento “transcendental” que até um ateu experimenta ao adentrar a Basílica de São Pedro, por exemplo, nada mais é do que o estado de contemplação da grandeza do próprio homem, de sua capacidade técnica e artística. Lá admiramos Bernini, Bramante, Michelangelo ou Rafaello, não a "santidade" da Igreja Católica e de seu panteão de semideuses. Estamos em um museu; esta é a grande verdade.

Para muitos católicos tradicionalistas, a culpa não é da perda de poder mas do Concílio Vaticano II, que permitiu que maneirismos protestantes se infiltrassem no seio da Igreja Católica. O protestantismo, naturalmente estéril, teria sido incapaz de produzir um estilo próprio de arquitetura, então os heresiarcas teriam aceitado o culto em galpões e auditórios, o que teria acabado por influenciar negativamente a Igreja de Roma, não sem a ajuda do pusilânime João XXIII e sua mania de ecumenismo e reconciliação. Talvez, realmente, o motivo não esteja na perda de poder mas no fato de que ela almeja principalmente o outrora proibido lucro, que pode, hoje em dia, ser obtido honestamente de milhares de maneiras. Por que a Igreja Católica desperdiçaria na construção de Igrejas seu precioso dinheirinho conseguido a duras penas em Colégios salesianos, rogacionistas, maristas, em universidades, hospitais, estacionamentos pagos, editoras, no aluguéis de imóveis, em rádios, televisões, jornais, em isenções fiscais? Se o Papa autorizar a camisinha entre casados, não duvidem que breve as veremos nas Editoras Paulinas, com a imagem da Sagrada Família impressa na embalagem e os dizeres "Lembre-se, eles só tiveram um filho". Claro que a Igreja gasta um pouco mais em centros de peregrinação que possam alavancar os negócios, mas normalmente deixa que os fiéis se organizem e, ajudados pela providência divina, erijam os projetos arrojados dos padres-arquitetos-frustrados e plantem ao redor a vegetação que os irá esconder. Frank Lloyd Wright disse “A doctor can bury his mistakes but an architect can only advise his clients to plant vines” (já vi atribuírem esta frase a George Sand).

Cinco Exemplos

A arquitetura religiosa daqui de Brasília, com exceções como a Igreja Dom Bosco e a Catedral Metropolitana, é o que de pior o homem pode produzir. A seguir, alguns exemplos de casas de deus no centro da capital do maior país católico de todo o universo conhecido e desconhecido.


Igreja de São Miguel Arcanjo e Santo Expedito.

O anjo padroeiro da Igreja Católica pisa em um homem morcego, que imagino ser satanás, uma vez que o Batman não se deixaria apanhar tão facilmente.
Do lado direito, também pisando em um ser negro alado, Santo Expedito, o das causas urgentes, foi o responsável pela construção da igreja a toque de caixa. Claro que se tivesse levado 400 anos na construção, a casa de deus teria ficado tão boa quanto a Catedral de Colônia, mas o Santo quer tudo “Hodie” (hoje), e este templo foi o melhor que pôde providenciar.
O orelhão da Brasil Telecom significa que na Igreja se pode conversar com deus, o semicilindro envidraçado representa a abóbada vertical, mistério cujo significado ninguém até hoje compreendeu, e os principais elementos arquitetônicos ainda não cresceram, apesar do adubo fortificado doado pelo viveiro cujo dono é devoto do santo de quem espera um aumento urgente nas vendas.


Igreja de Nossa Senhora da Consolata.

A planta é um círculo, simbolizando o boloteiro dos engenheiros, e as aberturas são arcos em ferradura, para simbolizar o modelo de sapato preferido dos atuais arquitetos religiosos. Os vitrais totalmente transparentes simbolizam a luz divina, que tudo atravessa.
Hoje, apenas o tronco da árvore protege a visão do transeunte. A idéia é plantar muitas trepadeiras nas paredes externas e rezar por uma ingerência de Santo Expedito para que cresçam rapidamente.


Igreja do Verbo Divino

O porte-cochère que "sai" da porta de entrada simboliza uma língua, o verbo divino, que fala para as paredes, ou melhor, para a parede curvada que construíram para substituir a vegetação que demorou demais para crescer.


Igreja de Nossa Senhora da Esperança

A sacação aqui foi usar todas as formas geométricas possíveis, o triângulo, o círculo, o quadrado, o retângulo. Outros dizem que o triângulo invertido encimado pelo semicírculo simboliza o cálice e a hóstia transubstanciada. Êita corpão de Cristo, sô!


Igreja de São Camilo de Lelis

O pé-direito baixo, as excrescências pictóricas no altar (anjinhos ao redor de nuvens de algodão estilo "Meu Querido Pônei") e a fachada caótica compõem este até que aceitável templo católico. Mas ficará melhor e mais verde em breve.
São Camilo, um médico caridoso, e seu patrão celestial são protegidos dos malfeitores por lanças perfurantes, verdadeiras ameaças de estigmatização. Vociferam silenciosamente: "tentem entrar aqui e suas mãos ficarão como as do Cristo crucificado".

Em São Mateus, 5, lemos:

39. Eu, porém, vos digo: não resistais ao mau. Se alguém te ferir a face direita, oferece-lhe também a outra.
40. Se alguém te citar em justiça para tirar-te a túnica, cede-lhe também a capa.
41. Se alguém vem obrigar-te a andar mil passos com ele, anda dois mil.
42. Dá a quem te pede e não te desvies daquele que te quer pedir emprestado.


Hoje, os mendigos não se amontoam mais em frente às escadarias das igrejas, como antigamente. São barrados por lanças ameaçadoras, afinal esmolas são contra a cidadania. Só podemos dá-las durante o ofertório, confiá-las aos padres que nada necessitam para si, que moram nos fundos da sacristia em despojadas celas, nas quais repousam seus alquebrados ossos sobre duros colchões de pedra.

15 março 2007

Democracia e Corrupção

Aqueles que já assistiram ao filme Matrix talvez se lembrem da fala de Cypher quando traía os seus companheiros, revelando que escolhera esquecer a Verdade. Ele preferia uma vida feliz no interior da Matrix. Hoje, me dei conta que a Verdade tem um preço muito alto, é um remédio amargo. Quando você ouve boatos de corrupção, jogadas, favorecimentos, venda de cargos e coisas do tipo, sente-se numa areia movediça. Dá-se conta de que não há respeito pelo trabalho e muito menos pelos seus resultados. Não seria melhor ignorar essas coisas, levar a vidinha e deixar as armações desses caras para lá.?

Uma colega minha teve uma reação histérica ao boato de que cargos estavam sendo vendidos - coisa de petista histórica em crise. Disse que este país não está preparado para a democracia, que precisava mesmo era de um Getúlio Vargas para dar ordem ao caos e que a lei de Gerson deveria ser incluída na Constituição por ser uma tradição do nosso povo. Na opinião dela, existe apenas aparência de democracia, afinal pessoas que nunca haviam pleiteado votos estavam decidindo o futuro do país apenas por ocuparem altos postos na hierarquia do partido ou mesmo na hierarquia informal.

Na minha opinião, apesar do Executivo ter cooptado o Congresso com cargos, favores e só Deus sabe o quê, ainda vivemos em uma democracia. Pessoas como eu não são proibidas de criticar o governo; apesar do Presidente da República ter nomeado a maioria do STF, não pode amanhã arrancar os caras de lá. Mesmo que o Presidente da Câmara seja da Tendência do presidente no partido e não permita CPIs contra o governo, ainda assim estamos em uma democracia. E, como eu disse à minha amiga, o poder sempre será uma Guerra.

A vantagem da democracia é que existe um espaço - o Congresso Nacional - onde os interesses de grupos da sociedade são legitimamente representados e onde se procura estabelecer coalizões e alianças de forma a manter a governabilidade e a disputa pelo poder dentro dos limites das instituições. Na ausência da democracia, esta disputa simplesmente se daria em outro lugar. Talvez na cozinha ou na cama do ditador.

Na democracia, a disputa de interesses no Congresso é legitima e as eleições são a forma de disputar civilizadamente (na medida do possível) o poder. De preferência, sem matar ninguém. O poder é maravilhoso. Seja quem for que chegar lá - eu incluso - procurará ficar por lá até morrer. A democracia busca limitar a permanência e estabelecer uma mínima reciclagem para evitar que sejamos dirigidos por uma gerontocracia pós-stalinista.

Não percamos a fé na democracia pois os excessos que se observam no momento são apenas uma confirmação da necessidade de se persistir neste caminho. Corrupção sempre haverá em uma forma ou outra, mesmo que se acabe com a venda de cargos. O que podemos aspirar é a um nível de corrupção dos países desenvolvidos, onde uma empresa (tarefa) demanda 30% de corrupção e 70% de profissionalismo e competência. “Por aca” ainda contamos com 70% de corrupção, amizades e favores, e 30% de profissionalismo e competência. Mas com o tempo e com investimento na formação das novas elites esta proporção pode melhorar.

08 março 2007

Sou do Contra

Quando FHC estava no poder eu o criticava em bases diárias. Eu dizia que aquele negócio de reeleição era um ataque à democracia, que o aumento dos juros e da exposição cambial para combater a inflação era uma estratégia caríssima e que a ALCA era a entrega do Brasil aos americanos. Achava um absurdo a crítica e a depreciação pública dos servidores, mas a gota d'água foi o ataque da Polícia Federal contra a Roseana, além da "paulistada" ter impedido o Tasso de ser o candidato à presidência pelo PSDB.

Com o Lula no poder não tem sido diferente. Eu acho estes esquemas do Mensalão e do Bolsa Família montados pelo José Dirceu infames para a democracia, um absurdo o Lula desperdiçar a chance histórica de crescimento que estamos tendo, patinando na incompetência dos companheiros, e a política externa do PT nos mostra como fracos negociadores e nos enfraquece a ponto do Paraguai querer nos extorquir também. Acho um absurdo dizerem que tudo é culpa das elites e o papo de "nunca antes neste país". E convenhamos, nem ele mais é pobre e tampouco pai dos pobres - pelo menos um dos seus filhos já é milionário.

Já estou cansado do Lula. Quem será o próximo presidente que irei criticar? Ou talvez já seja hora de mudar de atitude? Tem um amigo meu, aliás, bem mais bem sucedido que eu, que diz que sou muito crítico. Ele é muito mais esperto que eu. Quando o FHC estava no poder ele era FHC e agora ele é Lula. Outro dia, ele quase virou gerente de uma divisão... Segundo ele, só perdeu o posto porque um outro gerente conheceu biblicamente a gerente que arrematou o cargo, e liderou a campanha vencedora. Claro que ficou aborrecido, mas vivia de gentilezas com a mulher e quando o referido gerente chamou-o para tomar um vinho e avaliar se a mágoa lhe teria criado mais um inimigo, ele foi, feliz e animado. Resultado: está pronto para a próxima oportunidade que pintar.

No governo anterior, vimos pessoas ligadas ao PSDB enriquecer e prosperar. Desta vez, é a chance da turma do PT. Eu diria que a melhor estratégia é sempre ficar na turma que está no poder. E é melhor para o país assim. É até patriótico. Afinal de contas, se vocês pensarem bem, de que é feito um partido? Eu diria que de um terço de idealistas que enxergam o mundo cor-de-rosa, um terço de invejosos e críticos como eu e um terço de administradores de interesses e gerentes de egos.

Quando um partido está na oposição, a proa é liderada pelos invejosos e idealistas como a Heloísa Helena, mas quando ele chega ao poder os homens que estavam no porão, como o José Dirceu, sobem ao convés para comandar e são confrontados pelos idealistas alienados, agora críticos do próprio partido. Ele precisa mesmo é de adesistas, daqueles que sempre estarão por cima - e é aí que entra o meu amigo. Ele e outros como ele ajudarão o partido a manusear o timão, porque os que assumiram o navio são marinheiros de primeira viagem.

Este é um mundo complexo onde às vezes mais vale um corrupto competente do que um santo incapaz de governar. Neste aspecto, até que não estamos mal de presidentes, pois os dois últimos são daqueles que preferem administrar interesses e gerenciar egos. Podia ser pior se o atual presidente tivesse uma inveja mortal das elites ou se fosse um revolucionário idealista e iconoclasta que preferisse nos fazer regredir às cavernas para começar tudo de novo. É, podia ser bem pior.

05 março 2007

Os frutos das Revoluções

Quando criança eu tinha uma professora de história entusiasta da Revolução Francesa. Era uma jovem socialista casada com um gerente de banco. Gostava muito da parte em que o povo tomava a Bastilha e da parte em que a Rainha era guilhotinada. Também falava com entusiasmo do assassinato de Marat pela sua amante e do fim de Robespierre. Devo dizer que na ocasião fiquei bastante impressionado pela cena de Marat se esvaindo em sua banheira.

Hoje entendo que a Revolução Francesa juntamente com a lógica hegeliana foram as bases para o pensamento político de Marx. Acredito que essa coisa de tese, antítese, síntese, conflito de classes e Revolução inspiraram o velho Karl sobre o futuro da humanidade. Seus seguidores viam nas crises oportunidades para que as profecias do grande pensador se concretizassem. As Revoluções passaram a ser admiradas e desejadas. Os adolescentes almejavam-na para romper com a autoridade e não se submeter ao mundo que desafiavam.

Creio eu que a primeira Revolução da história documentada tenha ocorrido alguns milhares de anos antes, liderada por Akhenaton. No reinado de seu pai, Amenhotep III, o Egito estendeu sua influência a todo o Oriente Médio mantendo sua liderança hegemônica no primeiro sistema de relações internacionais de que se tem notícia. Usava-se então o ouro da Núbia para manter mercenários que garantiam a superioridade militar egípcia. No harém do faraó havia princesas de todos os reinos vassalos do norte, a paz reinava diante do temor dos egípcios e havia prosperidade. O único porém era o faraó dividir seu poder com o clero politeísta.

Akhenaton e seus conselheiros provavelmente acharam que se adotassem o monoteísmo com o faraó como sumo-sacerdote de um único Deus poderiam concentrar mais poder no soberano. Entretanto, esta jogada política resultou no fim da 18ª Dinastia, sendo seu filho Tutankamon assassinado antes da maioridade. Sua tumba foi profanada e seus seguidores forçados a se esconder. O Egito sofreu enorme retrocesso, enfrentou várias guerras civis, invasões, e a decadência acelerou-se.

Certa vez, Deng Xiao Ping, perguntado sobre a Revolução Francesa, teria dito que ainda era cedo para se ter uma opinião definitiva sobre aqueles eventos. Curiosamente, o grande beneficiário da Revolução Francesa foi o Imperador Napoleão, que com o seu exército de cidadãos quase conquistou toda a Europa espalhando os valores revolucionários, como a Constituição.

Nem Lênin nem Trotsky sobreviveram à Revolução Russa, quem sobreviveu foi o “czar” soviético Stalin, que mandou milhões para os campos de concentração da Sibéria e que transformou o governo provisório dos sovietes em um pesadelo de centralização, burocracia e perseguições. Apesar disto tudo, ainda vemos pessoas celebrarem ou admirarem Revoluções sem entender o que estão celebrando.

Celebram eventos que começam com a falta de esperança do povo transformada em histeria e liderada pelo oportunista da ocasião que lhes promete tudo. Aqueles que duvidam se tornam traidores e são assassinados, presos ou exilados. Os que sobrevivem ao turbilhão vivem apenas para ver os ideais renegados e o libertador se tornar um ditador.

Estou exagerando? Olhem para o Fidel e seu povo muito bem educado, orgulhoso e maltrapilho. Olhem para o Chávez e sua truculenta Revolução Bolivariana. São homens que mesmo cheios de boas intenções são ditadores e a negação viva daquilo que defendem. Esta é a grande ironia destas Revoluções, derrubam um Rei e o substituem por um Imperador. E no processo, queimam, destroem, matam e a sociedade se empobrece e civilizações decaem. E, por fim, a geração seguinte tem o trabalho de reinventar a roda, quando muito.
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