28 fevereiro 2007

Mahayana ou Hinayana?

No início do budismo havia uma discussão entre os primeiros discípulos se a prática deveria ser restrita àqueles capazes de trilhar o caminho do Buda ou se deveria se estender o ensinamento à população em geral. Este debate, que encerra muito mais nuances do que isto, é conhecido como o debate entre os defendores do pequeno veículo "Hinayana" e os defensores do grande veículo "Mahayana". O universal deste debate é a velha questão da elite versus povo.

No cristianismo este debate esteve presente nos primeiros concílios, e um dos seus momentos mais conhecidos foi a disputa se o cristianismo deveria ser estendido aos gentios ou deveria ser ensinado apenas aos judeus. No Concílio de Nicéia, alguns autores consideram que este foi um dos pontos fundamentais que marcaram a escolha dos Evangelhos sinóticos e do Evangelho de João como canônicos, marcando a vitória do Mahayana também no cristianismo.

Provavelmente, o cristianismo deve a sua sobrevivência à escolha do caminho Mahayana, a despeito das possíveis perdas que possam ter havido na mensagem original ou em termos do cristianismo "esotérico". Afinal, a noção de "irmãos em Cristo" e a caridade foram o fermento do cristianismo em seus primeiros dias de Império Romano.

A sociedade romana tem alguns traços em comum com a sociedade capitalista americana. Ambas são potências hegemônicas que idolatram o sucesso, o mais forte, o mais capaz e outros valores viris. O problema é que existe uma multidão de fracos e desamparados que é incapaz de seguir tal caminho. A esperança é tudo o que lhe resta. Hoje, ela repousa sobre o crescimento econômico. Como já disse Hu Jintao, secretário-geral do PCC Chinês, o que dá ao partido a legitimidade é o crescimento econômico chinês.

Assim como o capitalismo é filho da doutrina cristã do livre arbítrio e da salvação individual, o socialismo é filho da noção de irmãos em Cristo. A nova irmandade seria algo como irmãos trabalhadores. Acredito que venha daí a superioridade petista em termos de organização, ou seja, de uma experiência histórica amplamente favorável.

Recentemente, vi na capa do Correio Braziliense a manchete "República dos Sindicalistas", mostrando a força dos parlamentares ligados aos sindicatos dos trabalhadores. Enquanto isto, temos o PSDB, um partido de elite cujos quadros diminuem todos os dias, sem bases e com cada vez menos chances nas próximas eleições.

Concluindo; desde religiões até partidos políticos, não dá para se viver sem o povo, mesmo que se tenha que oferecer uma versão paternalista de religião e uma versão populista de socialismo. Mesmo o capitalismo, sem a esperança do crescimento - que é uma ilusão para a maioria - também não consegue subsistir.

23 fevereiro 2007

Não Creio

O presente texto é um tanto longo, então apelo à vossa paciência para que o leiais inteiro. Pensei em publicá-lo em cinco posts mas mudei de idéia para não dispersar o conteúdo. Meu intento é mostrar àqueles que usam o discurso "os crimes dos humanos não invalidam o amor de Cristo" que existem discussões totalmente distintas neste objeto. E também expor meu pensamento - não apenas meu - a respeito dos tópicos abaixo:

I - Deuses
II - Deus Bíblico
III - Sobrenatural
IV - Moral e Cristianismo
V - Religiões

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Parte I - Deuses (índice)
Para mim, é impossível que eu não exista. Meus semelhantes e as coisas em meu derredor até poderiam ser produção de meu cérebro, mas como não tenho domínio mental sobre eles, nem se me esforçar por anos a fio, prefiro acreditar que existem independentemente de mim. É impossível que Deus ou deuses não existam? Claro que não. É impossível que existam? Não vejo motivos para crer, e a maior parte dos crentes praticamente concorda comigo; cristãos e muçulmanos são ateus em relação às divindades dos outros, incluindo profetas, santos e outros semideuses.

Acho que os deuses nasceram de nosso medo da morte após tomarmos consciência dela, de nossa ansiedade em relação ao porvir, da necessidade de explicar a origem das coisas, de uma causa primordial (o universo ter sempre existido é menos absurdo que Deus ter sempre existido?), da necessidade de se ter um sentido transcendental para a vida, de haver uma justiça post mortem para os criminosos inimputáveis aqui da Terra - os poderosos, os anônimos - e alguns deuses funcionaram como espantalhos onipresentes que vigiavam os atos do homem e o mantinham longe das plantações de frutos proibidos. Acho que esta crença foi fundamental em determinado momento e ainda pode ser benéfica, principalmente para os irreligiosos como o Onildo (visite seu blog), já que não estarão sujeitos aos representantes divinos com poderes temporais e suas verdades absolutas reveladas, perniciosas de per se, independentemente de seu teor.

"A ciência não pode provar que Deus não existe", dizem. É verdade. Mas o ônus da prova, se raciocinarmos nestes termos infantis, cabe ao fulano que afirmou que existem deuses e não àquele que não acreditou no fulano. O mundo parece funcionar muito bem sem eles. Não adianta classificar como divino tudo o que não compreendemos (falácia divina), como bem alertou Epicuro. Anhangüera colocar fogo na aguardente, idêntica à água, foi um ato mágico para os índios Goiá, mas para nós do século XXI é o esperado quando associamos comburente, combustível e ignição.

A contemplação da natureza, dos mistérios do universo, a exaltação de valores não materiais, o altruísmo, o amor, a fantasia saudável, o envolvimento com a arte, a meditação, a filosofia, tudo isto pode dar mais "transcendência" à vida do descrente do que o materialismo do crente que só trabalha, só fala de dinheiro, de notícias do JN - e que não é nem um pouco raro, convenhamos. Não podemos confundir descrença com materialismo ou descrença com vida destituída de sentido.

Claro que há também a questão utilitarista. Na revista X aparece que a fé e os rituais de fé fazem bem ao indivíduo. Eu gosto de ver como alguns analisam dados estatísticos. Chegam a conclusões como "o europeu que se banha na lama das Ilhas Fiji vive mais ", e esquecem que só o europeu desestressado e rico é capaz de viajar até lá para testá-lo. Do meu ponto de vista, quando o homem tinha pouco mais do que fé para recuperar a saúde, vivia em média metade do que hoje. Pelo menos a penicilina, o antibiótico, a assepsia, os exercícios físicos, a vida sem stress, a educação, o amor e os avanços cirúrgicos estão ao alcance do descrente, para que ele também viva mais. Mas minha fé nos benefícios tangíveis da fé é tanta que criei uma oração para meu cérebro: "Ó suprema massa cinzenta que regeis meu ser, guardai-me de ser mesquinho com o próximo, sede minha inteligência e curai-me de meus males enviando vossos anticorpos-da-guarda, com a intercessão de são bulbo, são cerebelo e de santo hipotálamo, o supremo organizador do caos cerebral. Que a vossa serotonina sagrada conduza meu coração, meu sono e meu apetite, e dai-me a endorfina de cada dia, amém".

Parte II - Deus Bíblico(índice)

Porque está na Bíblia" não é satisfatório para mim, "porque eu sinto e o experimento" não é satisfatório. As vestais deviam "sentir" a deusa Vesta durante os rituais. "Porque ele faz milagres" não é satisfatório - talvez quando a humanidade se unir em oração e conseguir de Jeová que regenere um membro amputado, a falangeta do dedo mínimo que seja. Mas Deus não cura amputados, não é mesmo?

Os escritos canônicos bíblicos não batem com os apócrifos. E o cânon - ou a relação dos livros bíblicos - foi estabelecido por concílios. Tudo por decisão humana. Nenhum livro bíblico diz quais livros devem ser parte do cânon, e se dissessem seria apenas, no fim das contas, a Bíblia dizendo que a Bíblia está correta. E esses concílios não são inspirados por Deus, para mim, mas por interesses mundanos. Se não fosse assim, o de Nicéia, de Trento e do Vaticano I ainda seriam plenamente válidos, mas contêm um punhado de porcaria anacrônica.

Não vejo sentido em Deus criar homens e mandá-los para o inferno porque não creram nele, ou em mantê-los longe sem puni-los quando é a sua fonte única de prazer, não vejo sentido em pecado original, e se o pecado original é tão somente um impulso para o mal inerente ao homem, por que Deus nos criou com ele para em seguida tirá-lo de nós após um ritual de batismo, e por que foi imperativo que viesse ao mundo como homem para isso? Estamos falando de um criador onipotente ou de um oniburocrata? Não vejo sentido em Deus não querer vir ao mundo a partir de uma cópula porque o sexo de duas criaturas é imundo demais para ele, em Maria ter ascendido aos céus simplesmente porque o Papa Pio IX quis que todo Papa fosse infalível quando fala ex-cathedra - sei, evangélicos, vosso Deus não falou isto.

Mas gosto da Bíblia. Também gosto de suas historinhas legais e na maior parte das vezes educativas. Leio a fábula de Sansão e Dalila, ouço a fantástica ópera homônima de Saint-Säens, assisto ao filme com o canastrão Victor Mature e a bela Hedy Lamarr, e me emociono. A ópera Nabucco, as comoventes Paixões de Bach. Comovo-me também com Romeu e Julieta, com a mitologia grega, mas se visse uma comunidade vivendo de acordo com os ensinamentos de Dionísio, julgando-o um deus de fato, eu falaria o mesmo que falo da Bíblia, esta bela peça de mitologia (e História): boa como literatura, apesar de inferior a Sófocles, Shakespeare e uma miríade de outros, redundante nos bons ensinamentos, pródiga em maus exemplos. A propósito, Eliseu amaldiçoar as crianças que o chamaram de careca e Deus comprar sua indignação enviando ursos para matá-las é simbólico, dureza de corações, mistério bíblico, mentira ou crueldade divina? Se a Bíblia é tão dependente da interpretação e esta varia radicalmente com o tempo, o céle(b)re conjunto de livros não é um canal de comunicação aceitável ente nós e o suposto criador. Melhor seria se suas páginas estivessem em branco. Voltando: Gosto também da historinha do vociferante João Batista, talvez pela ópera de Richard Strauss, pelo drama de Fagundes Varela e pela peça de Oscar Wilde. E também porque estive nas escavações do Templo de Herodes em Maqueronte, na Jordânia. Os túmulos do Egito Antigo emocionam mais até mesmo que o Santo Sepulcro em Jerusalém (certamente falso), contudo, não creio que aqueles homens com cabeça de cachorro sejam deuses.

Parte III - Sobrenatural (índice)

É impossível que inventem uma máquina que registre almas deixando os corpos e que possibilite que conversemos com elas? Acho que até seria possível. Teríamos então, caso fossem detectadas nas mesmas circunstâncias, apenas uma nova dimensão para o mundo natural. Para muitos crentes, contudo, o sobrenatural estaria comprovado cientificamente. Mas acho muito difícil tal máquina ser inventada, pois todas as descobertas ligadas ao funcionamento do cérebro indicam que tudo o que atribuímos à alma é, na verdade, química, eletricidade. Tanto que, dependendo dos hormônios, da química do cérebro, de alguma área afetada por algum tumor ou mesmo extirpada, um sujeito pode variar do manso São Francisco ao sádico Calígula. Para que alma então? Para mim, o que é real é a sensação de alma e de imortalidade que nosso infinito ego produz.

Todos os animais captam e enviam informações externas por órgãos externos, e elas passam a ser interpretadas pelo cérebro. É o mesmo que acontece em um computador. O som entra pelos microfones, o texto pelo teclado, a imagem pela webcam, o som sai pelas caixas de som, a imagem pelo monitor. Gritar para um processador convencional uma tarefa seria estúpido. Do mesmo modo, acreditar que o cérebro possua capacidade para enviar ou receber informações sem o auxílio dos órgãos adaptados para estas tarefas é insano, mas amplamente aceito pelos que crêem em paranormais. Falando nestes embusteiros, não entendo como apreciam tanto a pecúnia mas não descobrem um jeito de convencer James Randi a lhes dar US$ 1 Milhão demonstrando-lhe seus poderes. Na hora "H" sempre apelam para o "platéia hostil" para desistirem das demonstrações.

Eu não vejo evidências suficientes da existência de almas penadas, vidência, domínio sobre os elementos (Cacique Cobra Coral), e outras coisas. Então parto do pressuposto que não são verdade. Outras pessoas partem do pressuposto que podem ser verdade. Cada um com a sua postura. A minha é de acreditar quando uma coisa faz sentido e deixar de acreditar quando perde o sentido. Em meio aos bilhões que aceitam o "sobrenatural" sem pestanejar e exigir provas, que acreditam piamente no velhinho que disse que viu um fantasma (afinal, velhos e crianças não se enganam e tampouco mentem), acho que pessoas que duvidam e explicam as suas razões não podem ser maléficas para a sociedade. Já do lado dos crédulos pode estar também o maria-vai-com-as-outras, que é, amiúde, inofensivo. Mas é fácil de ser manipulado por espertalhões, por governantes inescrupulosos. Como escreveu a Clarissa, a grandeza de uma nação está diretamente ligada ao espírito crítico da população, em relação à política, à religião, a tudo.

Parte IV - Moral e Cristianismo(índice)

"Se as pessoas abrirem mão de Deus, tudo será permitido, até matar e roubar", é o que os crentes mais ignorantes dizem. Pagãos como Aristóteles e Marco Aurélio - ainda que seus sistemas não nos sirvam mais - produziram tratados éticos muito avançados, de sofisticação raramente igualada por moralistas cristãos. E seus deuses eram meras comparações de virtude.

"Mas tinham a centelha divina", dizem os leitores do catecismo. Então mudemos de exemplo. O comportamento social dos nossos primos mais próximos não é caótico. Em comunidades de chimpanzés, na África, vemos cordialidade, cooperação, afeto, hierarquia, lideranças desafiadas, assassinos expulsos pelo bando, usurpadores, macaquinhos honrando os pais, os pais dando a vida pela prole, um membro alertando os demais para perigos iminentes. Alguns subgrupos sequer recorrem à violência para resolverem seus problemas, como é o caso dos Chimpanzés Bonobos. Mas... Sem terem alma? Claro, isso é comum a todos animais sociais: Cooperação. Dentre os animais sociais, parece que apenas bandos errantes de jumentos do Sinai precisam receber do próprio criador do universo um “não matarás" sulcado na pedra ... Vemos comportamento altruísta em babuínos. Muitas vezes, em bandos atacados por leopardos, machos foram observados retardando-se para enfrentar a fera, em uma luta quase suicida. Enquanto o macho, normalmente mais velho, atrasa a perseguição do leopardo sacrificando-se, as fêmeas e os mais jovens conseguem escapar e “seguir seu destino”. O heroísmo que nós vemos, de tempos em tempos, em nossos semelhantes é muito anterior às nossas enfeitadas religiões e seus deuses.

Do outro lado, os ateus Warren Buffet e Bill Gates, os demônios capitalistas, são os maiores filantropos da história. Não porque são ateus mas porque são seres humanos, como o Heitor escreveu no post Populismo Étnico do PT. Aliás, 10% dos americanos são ateus, mas apenas 0,2% da população carcerária de seu país é atéia. Isto quer dizer que os ateus são os bonzinhos da história? Talvez segundo a análise da estatística feita pela revista X, mas para mim estes números indicam apenas que os ateus estão em melhores condições financeiras, são menos ignorantes e menos dependentes das orações para resolver seus problemas. É aquela velha questão: Nossa Senhora da Saúde só existe onde há doença. A santa se alimenta dela. Invente um jeito de curar todas doenças e os santos perecerão pela falta delas.

Entre os de nossa espécie, emoções são contagiosas, e são raros os que podem ser felizes em uma sociedade triste. É de nossa natureza sermos felizes em meio à felicidade e tristes em meio à infelicidade. É de nossa natureza, "graças a Deus", almejar a felicidade para nossos semelhantes ao mesmo tempo em que a desejamos para nós próprios. Ela é maior quando compartilhada.

Se Jesus representou um avanço moral, não quer dizer que não haja moral fora do teísmo ou fora do cristianismo. Os Franceses não inventaram a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade. Além disso, o inferno que existe na doutrina de Cristo põe o cristianismo em um patamar inferior ao de algumas outras filosofias. O "amar ao próximo como eu vos amei" é inútil, já que Jesus, se fosse mesmo Deus, teria nos amado infinitamente, o que tornaria o mandamento impossível de ser seguido, portanto inútil para nós mortais. Quanto a libertar escravos, todos serem iguais, amar o inimigo, fazer ao próximo o que gostaríamos que fizessem por nós, tudo isso é maravilhoso, mas não obrigatoriamente divino. E pode ser encontrado em outras culturas mais antigas. Quanto à singularidade de Jesus, Mitra, um deus persa adorado também em Roma e que sumiu após o advento do cristianismo, também recebeu ouro, incenso e mirra por ocasião de seu nascimento, venceu o mal, ressuscitou, criou um ritual que envolvia pão e vinho (estou questionando a singularidade de Jesus e não afirmando que o cristianismo veio do mitraísmo, como fazem alguns autores sensacionalistas), e vemos a virgem com um menino representada em outras mitologias, na figura de Isis. Prometeu era representado em uma cruz, e foi um deus que sofreu horrores pelo homem. Por fim, como escrevi acima, acho este método de Deus tirar o pecado original (tirou? não fiquei sabendo), ou o pecado inerente ao ser humano, virando homem algo muito mitológico. Não sei por que tanta gente ainda acredita nisso. Assim como a transubstanciação, que é tão absurda que nenhum católico crê nela de fato. O próprio Papa Leão X, o santo que construiu a Basília de São Pedro com dinheiro de venda de indulgências e que viu o protestantismo nascer, teria dito, segundo John Bale: "Quantum nobis prodeste haec fabula Christi..." E Santo Agostinho: "Não creria nos Evangelhos, se a isso não me visse obrigado pela autoridade da Igreja".

Parte V - Religiões(índice)

Na Internet tem de tudo. Certamente muito mais blogs e sites que promovem os nobres valores cristãos e que ensinam orações para pedinchar aos santos ou para agradecer os "privilégios" – muitas vezes para não perdê-los - do que sites criticando a Igreja Católica. É importante mostrar aos que não estão muito familiarizados com a história como ela se portou com os reis absolutistas, com as ditaduras fascistas, com a escravidão no Brasil, com os protestantes, sua postura atual em relação a preservativos, laicismo, liberdade religiosa, divórcio, etc.

Os crentes abraçaram uma igreja supostamente santa e criada pelo próprio Deus que quando acerta é divina e quando erra é humana. Para mim, quando acerta é humana e quando erra é humana. Por que haveria de ser diferente? Será que todos esses santos católicos se converteriam ao cristianismo se tivessem nascido na China? No máximo seriam sábios budistas, isso sim, defensores do bem, da ética, dos bons costumes, da moral. Religião é cultural, ao contrário da espiritualidade, que aparentemente é genética. E isto foi fácil de ser percebido no estudo de gêmeos univitelinos separados após o nascimento. O grau de espiritualidade é quase sempre semelhante, mas a religião varia de acordo com o meio cultural, com pouquíssimas exceções. Por isso vemos mais santos cristãos na Itália do que nos EUA e China. Para a maioria a religião é pouco mais do que um time de futebol ou uma escola de samba do coração.

Podem me dizer que a França é divina (no sentido literal). Eu lhes falarei de Napoleão e dos milhares guilhotinados durante o Terror, e ouvirei que só pego exemplos ruins, que os franceses são contra Bush e a invasão do Iraque, que nos legaram grandes filósofos, que belas construções como o Palácio de Versalhes mostram que realmente a França é divina. Boa parte dos católicos que conheço não quer saber se os maus ensinamentos do Alcorão são “simbólicos”, se a maioria dos muçulmanos é boa, se foram mais tolerantes do que os cristãos séculos atrás. Deliciam-se com livros que expõe sua misoginia, como se ela não tivesse sido combatida na Europa apesar do catolicismo. Acham graça quando vêem mulás ensinando em atrasadas madrassas sauditas que o mundo é plano, esquecendo-se que já queimaram cientistas por afirmarem o contrário. Há meio século domesticado, o catolicismo se considera a religião perfeita, e quem falar dos 1600 anos anteriores está agindo de má fé, está “pegando fatos pontuais alheios à sua essência”.

Jesus não amenizou as críticas aos fariseus com elogios por eles serem bons pais, por eles darem esmola, mesmo que arrogantemente, do mesmo modo não queremos saber, enquanto estamos julgando os crimes de uma pessoa, se dias antes ela beijou a esposa e os filhos ou se distribuía sopão aos sábados. O réu é julgado pelos seus crimes. E a punição, ao contrário do inferno bíblico, deve servir para prevenir que o crime se repita, para reeducar o criminoso, se for o caso, e como exemplo ao resto da sociedade. Então os religiosos (líderes) não devem mais se imiscuir em política, não devem mais interferir em questões de saúde pública, devem ter seu poder temporal extremamente reduzido, devem ser enjaulados, do padre ao Papa, quando cometem crimes, principalmente de intolerância e sexuais. Se dermos as condições e o poder que a Igreja Católica almeja recuperar, o passado se repetirá. Duvidam? Vejam como é hoje a quasi-teocracia nas Filipinas e a atuação da Igreja na África, onde o povo é desinformado e supersticioso como nenhum outro. Mais de 50% dos quenianos acreditam que o preservativo ajuda a espalhar a AIDS. Uma instituição tão gigantesca quanto a Igreja Católica passa quase a ter vida própria, e a lutar selvagemente para se perpetuar no poder, apesar dos homens que a integram serem, essencialmente, bons. O documentário "The Corporation" mostra isto muito bem (apesar dos inúmeros exageros).

Como escrevi anteriormente, é extremamente penoso para o católico ver os seus religiosos no banco dos réus quando sempre estiveram no posto de juízes. E não são poucos.

Minha intenção não é que as pessoas abandonem sua religião mas que questionem absolutamente todos os dogmas e que vigiem absolutamente todas as ações dos religiosos. O mundo só tem a melhorar. Poder temporal aliado a verdades absolutas nas mãos de representantes divinos NÃO FUNCIONA!
Precisamos de uma sociedade civil organizada, de opinião pública, de meios de comunicação livres, poderes separados, Estado laico, impostos bem aplicados, informação disponível a todos, religiões domesticadas, principalmente as três monoteístas (considerando o cristianismo e seus três deuses, deusa e semideuses como monoteísmo). Este é o único jeito, inclusive, para elas sobreviverem aos desmandos de alguma religião hegemônica. Pessoalmente, acho mais saudáveis religiões com poucos fiéis e pouco poder.

Enquanto não inventarem um "Index Blogorum Prohibitorum”, continuaremos a atirar pedras contra nossos monstruosos moínhos de vento. Aos católicos incomodados que desejem reforçar suas crenças eu recomendo o Catecismo Online.

21 fevereiro 2007

Corrompendo Congresso e Povo

No Brasil, é muito comum as pessoas afirmarem que o Congresso é uma vergonha, que é um absurdo isto, um absurdo aquilo. Esquecem-se que o Congresso é o lugar de discussão, de debate e a última instância de nossa frágil democracia.

Elas são injustas em relação ao Congresso porque esquecem ou desconhecem que ele é dominado pelo Executivo. Para começar, o Governo manda toneladas de Medidas Provisórias, que por terem prioridade na votação trancam a pauta e deixam o Congresso parado. O único que pode marcar as votações é o presidente da Casa, eleito com o apoio do chefe do Executivo. O primeiro só marcará as votações se o líder do governo tiver reunido votos suficientes para aprovar as MPs. Enquanto isto, as iniciativas dos parlamentares dançam. O resultado é que 80% das leis aprovadas são de iniciativa do Executivo.

E como o líder do governo arregimenta os votos da base do governo no Congresso? Fácil; os parlamentares precisam de recursos para se reeleger e o Executivo controla os recursos do Orçamento e os cargos da Administração que têm acesso a recursos ou que possam dar visibilidade aos parlamentares ou seus grupos. O certo é que o parlamentar ou grupo de parlamentares que não votarem as MPs do Executivo não terão nenhuma dessas benesses. O sistema é coerente. Os parlamentares podem ganhar emendas no orçamento e os populares podem ganhar Bolsa Família. Como já disse Cristóvam Buarque, Bolsa Família é corrupção.

Na verdade, no primeiro mandato do Lula ainda tem-se notícia de um expediente inédito, que foi o uso de caixa 2 para sustentar a base de apoio do governo durante o mandato. Geralmente, o caixa 2 é usado na campanha mas não creio que ninguém houvesse pensado em usá-lo durante o governo. Certamente, a vantagem de um esquema desses seria a redução da distribuição de cargos em troca da entrega direta dos recursos. Seria um avanço, como foi a substituição das cestas básicas pelo Bolsa Família.

Enfim, este me parece ser um retrato mais acurado da realidade do que a simples repetição da crença da maioria, às vezes estimulada pelo próprio Executivo, que critica o Congresso por não querer aprovar as medidas com a presteza desejada ou de se atrever a querer discutir o "mérito" das propostas.

Neste nosso recente aprendizado da democracia, acho que o evento de cassação do Collor foi fundamental para que se estruturasse esta forma de relacionamento entre Executivo e Congresso. Percebeu-se que o chefe do Executivo tinha de ter um presidente da Câmara aliado, caso contrário poderia aceitar um processo de impeachment. Lula mesmo já teve uns 20 pedidos de impeachment, incluindo o do Mensalão, engavetados.

Resta saber se a idéia de três poderes independentes é, afinal, uma utopia de Descartes. Será que em alguma democracia no mundo os três poderes são realmente independentes e suas relações não são viciadas? Talvez os petistas achem que isto seja coisa de democracia burguesa e que a democracia popular começa no sindicato e termina na rua, como fez Chávez recentemente.

17 fevereiro 2007

O Populismo Étnico do PT

O principal erro das cotas é de diagnóstico. O problema real é o ensino fundamental e médio público não ser de qualidade, tornando muito difícil aos pobres competir com seus colegas de escolas particulares pelas vagas nas universidades públicas, fato agravado pelo pouco tempo de que dispõe para se debruçar sobre livros, já que muitas vezes são obrigados a conciliar estudo e trabalho ainda na adolescência. As cotas são apenas mais uma operação tapa-buracos; a educação permanecerá ruim, e sem crescimento econômico o adolescente continuará a prejudicar seus estudos por ter de trabalhar. A propósito, o sistema de cotas favorecerá, em primeiro lugar, negros (e pardos) das classes média e alta, os quais já têm condições de ingressar no ensino superior por conta própria.

Mas por que o PT não enxerga esta realidade simples? Porque as cotas raciais são um projeto político que visa criar uma clientela eleitoral composta pelos beneficiários destas cotas, assim como os beneficiários do Bolsa Família, que foram decisivos na reeleição do Lula.

Com este intuito, recentemente, conseguiu-se articular a aprovação de uma verba de R$ 3,4 bilhões do MEC para as universidades que extingam o vestibular e implementem as cotas étnicas. A expectativa é que esta política multiplique as vagas das cotas nos próximos anos. O próximo passo será a mobilização destes jovens para se tornarem o curral eleitoral ou os cabos eleitorais do partido de quem serão devedores.

O mais grave da questão das cotas é o vício petista de enfraquecer os critérios que favorecem o mérito individual, como o vestibular ou a avaliação individual dos formandos na universidade. A meritocracia é incompatível com os valores petistas.

O discurso em defesa das cotas raciais busca estabelecer uma relação entre “Raça” e "Classe", seguindo uma tradição marxista uspiana a la Florestan Fernandes. Estas releituras neomarxistas buscam encontrar e enfatizar o conflito nas relações entre sexos, raças (etnias) e classes. Na tese em questão, a mais-valia teria sido roubada pelos escravocratas brancos dos escravos negros. O discurso alega que para se indenizar a perda desta “mais-valia” se justifica uma política de cotas raciais.

Esquece-se que a escravidão era um instituição africana a que estavam sujeitos os prisioneiros de guerra. Claro que o cativeiro não era aviltante como o que posteriormente lhes impuseram os europeus, e obviamente a enorme demanda internacional por escravos fomentou cada vez mais a captura de africanos por outros africanos. Esquece-se que o racismo do brasileiro não impediu que muitos negros tivessem ascensão social, o que não é muito perceptível porque a maioria de seus descendentes se miscigenou, vide Aleijadinho, Ataíde, Machado de Assis, Carlos Gomes, entre outros.

Costuma-se confundir rótulos e agentes causais. São Francisco não era bom por ser cristão, Bill Gates e Warren Buffet não são os maiores filantropos da história por serem ateus, o comunismo não faliu por abrir mão de Deus, e não foi por serem brancos que os europeus escravizaram os africanos, do mesmo modo que estes não foram escravizados por serem negros.

12 fevereiro 2007

Todo o Poder às Mulheres

Finalmente, nós mulheres chegamos ao poder. Na França, temos Ségolène Royal, a gazela, concorrendo à presidência pelo partido Socialista. Na Alemanha, temos Angela Merkel como primeira-ministra. Nos EUA, a frontrunner do Partido Democrata é a senadora Hillary Clinton. No Chile, a presidente é a "grande mãe" Michelle Bachelet, que dividiu o seu ministério entre 10 homens e 10 mulheres. Curiosamente, ela era ministra da Defesa e a ministra da Defesa continua sendo uma mulher, assim como no Equador.

No Brasil, temos a ministra chefe de staff da presidência da República, a ex-líder guerrilheira, Dilma Rousseff. Além de ser a principal ministra do governo Lula após a queda de Dirceu e Palocci, ela ainda é presidente do Conselho Superior de Administração da Petrobras. Portanto, ela ocupa simultaneamente o mais alto cargo executivo da República após o presidente e o cargo mais alto da maior empresa da América do Sul. Salvo engano, ironicamente o ministério da Educação, que teria uma vocação para ser ocupado por mulheres, não o é desde a ministra Esther de Figueiredo Ferraz, do período dos militares.

Uma candidata pode representar a esperança de mudança e de um mundo mais compassivo. A partir do ano que vem, poderemos ter, nos EUA, a potência hegemônica, uma mulher como "líder do mundo livre". E, em 2010, diante do vácuo deixado nas lideranças paulistas do PT com a queda de Dirceu, Palocci, Genoíno e Mercadante, crescem as articulações para o lançamento da candidatura de Marta Suplicy à presidência da República.

Mas que mulheres são estas que estão tomando o poder? São seres humanos extraordinários como a Secretária de Estado Condoleezza Rice, que trabalha de segunda a segunda e não tem família por opção, e a doutoranda em Economia Dilma Rousseff, que foi uma das principais líderes do movimento guerrilheiro Val-Palmares, tendo ainda passado uns dois anos presa em um quartel do Exército.

Será que o mundo vai melhorar conosco no poder? Simplesmente porque somos mulheres?

07 fevereiro 2007

Livrai-nos do Mal



O documentário Deliver Us from Evil, indicado para o Oscar de melhor documentário deste ano, cita o livro Sexo, Padres e Códigos Secretos (Sex, Priests, and Secret Codes: The Catholic Church's 2,000-Year Paper Trail of Sexual Abuse), recém traduzido para o português, e considera seus autores, Thomas P. Doyle, A.W.R. Sipe e Patrick J. Wall, especialistas teológicos e canônicos sobre o assunto.

Thomas P. Doyle foi enviado aos Estados Unidos pelo Vaticano no início dos anos 80 e redigiu, conjuntamente a outros autores, um extenso relatório entregue aos bispos americanos que alertava para a dimensão incontrolável que atingia o abuso sexual por parte dos sacerdotes católicos.

Pouco tempo depois, em 1984, estourou o escândalo dos padres pedófilos nos EUA. Centenas deles, a partir de então, deixaram o costumeiro posto de juízes para ocuparem o banco dos réus, expondo ao bilhão de fiéis da Igreja Católica o cancro do qual padece há séculos mas cuja imagem repugnante permanecia escondida sob os panos - e nos confessionários, sacristias, seminários e casas paroquiais.

Os julgamentos desencadearam denúncias por todo o mundo, da Irlanda ao Brasil, das Filipinas à África. O abuso sexual de menores por membros do clero demonstrou, inclusive, não ser um fenômeno novo. O psicoterapeuta A.W.R. Sipe afirma que cerca de 30% dos 50.000 padres americanos são homossexuais e que a investigação lhes permitiu concluir que quase 10% dos padres americanos dos últimos 50 anos abusaram sexualmente de menores. Os três homens da Igreja revelam a assombrosa dimensão da pedofilia clerical, e contam como já no século I o problema preocupava os cristãos, como atestam documentos extraídos de arquivos oficiais.

Os escritores questionam a imposição do celibato aos religiosos e criticam a cúmplice omissão de bispos e cardeais, que se limitavam a pôr panos quentes sobre as situações “inconvenientes” que vinham à tona e a transferir os lobos para outros rebanhos. Em artigo publicado na Reuters alguns anos atrás, lê-se que um documento dos arquivos da Arquidiocese de Boston “indica que o Vaticano preferiu evitar escândalos a zelar pela segurança de crianças ameaçadas por padres pedófilos. (...) O documento (...) indicava que o papa João Paulo II aconselhou que um padre com um histórico de molestar garotos deveria deixar a área onde sua ‘condição’ era conhecida ou continuar ali contanto que isso não provocasse nenhum escândalo”.

Há pouco mais de um ano, a Justiça de Los Angeles apreendeu os arquivos pessoais confidenciais de 126 membros do clero da Arquidiocese Católica Romana local acusados de abusos sexuais contra crianças. Lemos, no artigo do The New York Times que eles “fornecem uma narrativa entorpecedora de 75 anos de vergonha da Igreja, revelando caso após caso em que a Igreja foi alertada do abuso mas fracassou em proteger seus fiéis”. O cardeal Roger M. Mahony e seus antecessores costumavam transferir discretamente os padres para terapia e então para novas funções. Em outros casos era oferecido aos pais terapia para os filhos e o pedido enfático para que permanecessem em silêncio.

No Brasil não foi e não é diferente. A certeza de impunidade e acobertamento por parte dos superiores atrai pedófilos latentes para os seminários, de modo que os casos de pedofilia pululam por aqui. Há poucos dias um padre de Mariana-MG foi preso por molestar um garoto de 10 anos. Estava foragido da justiça em um asilo de idosos desde que lhe fora dada voz de prisão.

Os homossexuais também são atraídos para a Igreja, mas quando a relação é consensual e entre adultos não me interessa bancar o juiz. Mas salta aos olhos a hipocrisia desses que combatem com tanta veemência a homossexualidade do alto do púlpito, estimulando mil preconceitos na massa de crentes, mas levam em privado uma vida dupla.

Entre pastores protestantes não se vê tantos casos de pedofilia. Parece que preferem molestar mulheres adultas e manterem hipócritas relações com gays. Ted Haggard, um mentiroso e embusteiro, segundo definiu-se o próprio após ser pego com a boca na botija, era um dos mais influentes pastores evangélicos dos EUA e quem inspirava G. W. Bush na cruzada contra o casamento homossexual até ser desmascarado publicamente por um dos garotos de programa com os quais aliviava as tensões.

A crença dos padres de que estão acima da lei dos homens e o decorrente acobertamento por parte de seus superiores, aliados ao celibato forçado, parecem ser os maiores responsáveis pelo alto número de acusações de abuso sexual contra religiosos católicos, muito superior ao verificado em outras áreas que exigem proximidade com crianças, como creches, grupos escoteiros e escolas primárias.

Os fiéis são as principais vítimas do problema, contudo, engana-se aquele que aposta em uma diminuição de clientes católicos e protestantes após tantos escândalos. Os primeiros e seus “irmãos separados” - que antes do Vaticano II eram “excomungados” - já vêm sendo vacinados pelos seus manipuladores há algum tempo. Quando um "santo homem" prediz que os bons serão difamados, que o demônio é astuto e convincente nas suas argumentações, que falsos profetas aparecerão, que o próprio mundo é falso, então os desmascaramentos são lidos como difamações, a lógica é lida como astúcia, sábios podem virar falsos profetas. E graças à indolor agulhada os prosélitos da Renascer continuarão a eleger sanguessugas, os católicos a confiar seus filhos a predadores sexuais de vestidos de renda e a dizer que os homens são culpados mas a Igreja é santa, os fiéis um pouco mais esclarecidos continuarão a fazer pesquisas direcionadas no Google para encontrarem exemplos de não-cristãos malvados, o mal freqüentado bairro de Roma (palavras de Carlos Esperança) continuará a ser o único Estado do mundo sem uma maternidade, os eunucos morais continuarão a se envolver na educação sexual de crianças e adolescentes, a profilaxia da AIDS continuará a ser prejudicada na África pelos demonizadores de preservativos, e os santos e seus milagres se multiplicarão, pois quando a Igreja mais necessita...
...Deus a socorre...

05 fevereiro 2007

Socialismo do Século XXI

Jovens esquerdistas brasileiros se alvoroçam quando falam da China e dos novos líderes latino-americanos, especialmente Chávez. Ficam ansiosos pelo momento em que a China irá desafiar a hegemonia americana e excitados com Chávez dizendo poucas e boas para os gringos. Entretanto, enquanto permanecem aferrados aos seus delírios socialistas esquecem de observar algumas realidades mais mundanas destes regimes.

Hoje assisti a uma palestra muito interessante sobre a China dada por um dos discípulos da Maria da Conceição. Ele me dizia com grande satisfação que a China era tão complexa e os seus mecanismos de decisão tão obscuros que qualquer investidor estrangeiro que quisesse investir por lá era obrigado a fazer uma Joint Venture com uma empresa chinesa.
Já quase em júbilo pela política industrial dirigista do estado chinês, ele me relatou que negociadores chineses passaram pelo Brasil querendo adquirir algumas centenas de unidades do ERJ 100, desde que fosse instalada uma fábrica da Embraer em seu território. Diante da hesitação da empresa brasileira, eles teriam informado que iriam em seguida ao Canadá visitar a Bombardier. O resto é história; a Embraer fez uma Joint Venture e se instalou na China.

A teoria econômica anglo-saxônica afirma que um marco regulatório estável e transparência na tomada de decisões reduzem o risco de investimentos, incentivando-os. Os chineses parecem ter superado os anglo-saxões neste particular pois a falta de regulação e transparência, desde que alavancada por um mercado consumidor cuja classe média é quase do tamanho da americana, pode estimular investimentos. Além disso, como eles se dão por Joint Ventures com os chineses, fica bem mais fácil ter acesso às tecnologias das multinacionais para pirateá-las e, posteriormente, inová-las.

Em 2006 a China cresceu 10,7%, e a sua fome de energia é enorme. Projeta-se que a sua demanda de petróleo cresça cerca de 400.000 barris/dia por ano. Recentemente, a China assinou um acordo com a Venezuela para a importação de 500.000 barris por dia. Infelizmente, a produção venezuelana é declinante. Para resolver o problema, Chávez iniciou uma rodada de expropriações.
Em 2006 a Venezuela de Chávez expropriou, apenas da Petrobras, 310 milhões de barris, ou seja, o suficiente para atender este contrato por 620 dias - quase 2 anos - e obter uma receita em torno de US$ 12 bi.

A teoria econômica anglo-saxônica afirma que o respeito aos contratos e à propriedade privada estimula o crescimento econômico por dar garantia aos agentes privados de que os futuros investimentos obterão retornos. Isto atrai mais capitais, aumentando a competição e reduzindo os lucros.
Talvez seja por isto que a produção venezuelana seja declinante, pois o risco de desenvolver reservas e ser expropriado é crescente por lá. É fácil ver jovens esquerdistas chocados criticando os imensos lucros da indústria de petróleo. Difícil será explicar-lhes que o lucro absurdo desta atividade é conseqüência de sujeitos como o Chávez, que tornam os investimentos neste setor tão arriscados que demandam uma altíssima taxa de retorno.

A Bolívia de Morales, por sua vez, assinou recentemente um contrato com a estatal argentina prometendo vender uns 10 milhões de m3 de gás por dia. O detalhe é que a Bolívia não tem este gás desenvolvido e já anunciou que irá retirá-lo do gás destinado ao GASBOL, que tem capacidade de levar 30 milhões de m3 por dia para São Paulo. Desta forma, pretende chantagear a Petrobras a retomar os investimentos interrompidos após a expropriação de vários bilhões de dólares com a perda das refinarias, campos de petróleo e aumento forçado do gás. O curioso é que a Petrobras tinha um investimento previsto para a duplicação do GASBOL, antes das políticas nacionalizantes deste ídolo esquerdista, mas agora, como algum dirigente "responsável" poderia pensar em colocar a segurança energética brasileira nas mãos de Morales ampliando nossa exposição aos seus caprichos? O problema é que nossos dirigentes não são responsáveis, prova é que ainda estudam construir o famoso gasoduto "Transpinel", com capacidade de 100 milhões de m3 por dia, cuja torneira estará nas mãos do grande líder da Revolução Bolivariana, o Chávez.

Será que vai dar certo este socialismo do século XXI? O tempo dirá. O triste é que, seja no sistema capitalista americano, no comunismo chinês, no bolivarianismo venezuelano ou no etnopopulismo boliviano, o papel do Brasil parece o de ser sempre um país liderado, destinado a sofrer prejuízos e perdas, eterna fonte de matérias-primas para americanos e chineses, e tungado pelos vizinhos latino-americanos. Recentemente, os paraguaios entraram na onda de Morales e Chávez e pediram a revisão do Tratado de Itaipu. D. Dilma concordou, garantindo que o aumento da tarifa nem seria sentido pelos consumidores...

Pelo menos o petismo do século XXI é generoso, benevolente e condescendente com os vizinhos, com os companheiros (José Genoíno que o diga) e com o seu curral eleitoral nordestino. É um socialismo em que toda perda e desgraça é marquetologicamente transformada em vitória. Neste particular, lembro-me do chanceler Celso Amorim, que habilidosamente desmoralizou os críticos da pusilânime negociação brasileira com a Bolívia ao sugerir que eles queriam, na verdade, que o Brasil imitasse a atuação dos EUA no Iraque e invadisse a pobre Bolívia. Esta, tenho que reconhecer, foi de mestre.

Os chineses tiveram Mao Tse Tung, cujo gênio militar na Grande Marcha reunificou o país. Em seu governo, mais de 60 milhões de opositores morreram, outros incontáveis milhões foram para campos de reeducação e algumas centenas de chinesinhas tiveram a honra de contrair sífilis diretamente do grande timoneiro. Felizmente para os chineses, ele morreu e Deng Xiao Ping adotou uma política econômica com características de mercado, resultando no incrível desenvolvimento observado atualmente. Nós, os brasileiros, temos o Luiz Inácio e a sua capacidade genial de conciliação e enrolação - um herdeiro da nossa melhor tradição cordial autoritária nordestina; o Mitterrand dos pobres.

Provavelmente não teremos o sucesso chinês, mas os marqueteiros do PT e o gênio do nosso grande líder convencerão o povo de que não está comendo capim mas caviar. E se por acaso ele desconfiar disso, a culpa então por não estar comendo caviar será do bicho-papão, quer dizer, do capitalismo, das elites rancorosas e dos Estados Unidos, que sempre buscam nos sabotar e atrapalhar nosso desenvolvimento.

Não vai demorar para que se comece a buscar os sabotadores e os traidores dentro do país, e quando terminar a caça às bruxas e a histeria decorrente, o povo nem sequer se lembrará por que tudo começou. Daí provavelmente surgirá um novo grande líder, que proporá a nova fundação do país e também condenará a herança maldita do passado. Mas isto só deve acontecer no século XXII - ou século XLIX, se vigorar o calendário chinês. Quem sabe então a culpa pelo nosso fracasso não passe a ser da China.
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