28 dezembro 2007

Socialismo é Inveja

Outro dia assisti a um ótimo filme intitulado “A Vida dos Outros”. Ele fala da vida na República Democrática Alemã, a terra do socialismo real. É uma tragédia socialista em três atos. De fato, o único ato subversivo contra o estado socialista é a publicação de um artigo de capa na revista Spiegel que fala que na República Socialista Alemã existe um controle estatístico dos mínimos detalhes da vida do cidadão, mas que o Estado proibe, a partir de 1977, a contabilização dos suicídios para que não se perceba que a feliz república socialista tem a maior taxa de suicídios per capita da Europa.

O primeiro ato é basicamente o seguinte: um dirigente nacional do Partido controla a área cultural e é apaixonado por uma estrela de sucesso. Ela, apesar do nojo que ele lhe desperta, deixa-se ser explorada sexualmente para evitar que o tal chefão do Partido a ponha na lista negra. Ele, não satisfeito, decide usar a Stasi para espionar o namorado da estrela, que é escritor, a fim de encontrar alguma coisa que pudesse ser usada contra ele.

Assistindo ao filme você é levado a refletir sobre o fato de que algumas pessoas simplesmente brilham mais que outras. É um fato da natureza humana desejarmos o que os outros têm e nós não. Como lidar com isto? É difícil. Algumas crianças, por exemplo, costumam quebrar os brinquedos das outras antes mesmo de saber o significado da palavra inveja. Fico imaginando que em uma educação socialista se teria que enfraquecer o ego, uma maneira de se fazer isto talvez fosse não deixar que nenhuma criança desenvolvesse uma relação de pertencimento com nenhum brinquedo para evitar o perigoso pronome possessivo: “meu”.

De fato, o modelo socialista estatista, que é uma religião ainda professada por muitos petistas, se baseia na idéia de que a propriedade dos meios de produção por uma elite capitalista gera exploração. A solução para eles seria a expropriação pelo Estado destes fatores de produção. A partir daí, o Estado organizaria a produção. Já imaginaram como seria a economia planificada brasileira? A Direção Nacional do Partido procuraria acomodar os interesses regionais, das categorias, das panelinhas, dos setores dentro de uma grande roupagem do bem maior da pátria socialista brasileira.

Como diriam os meus amigos, estudiosos de Foucault, onde existe poder existe exploração e não será o desaparecimento do capitalismo que irá resolver isto. Como diriam ainda os weberianos, o estado e sua burocracia buscam os seus próprios interesses e dispõem de poder para isto, afinal, o Estado é poder. Além disso, a psicologia nos coloca mais um problema; um grande número de pessoas com características psicopáticas busca o poder, a ponto de que se você quiser achar um psicopata, busque alguém que exerça um cargo de poder que terá grandes chances de encontrá-lo.

Na complexa economia psíquica, o psicopata seria um sujeito cujos desejos não seriam reprimidos pelo superego, daí este indivíduo não teria culpa em mentir ou agir de forma a obter os seus desejos. A falta de compaixão e um relacionamento com os outros, e talvez consigo mesmo, com gozo associado ao poder, completaria o quadro perverso. Muitos destes perfis são muito carismáticos e quando se identificam com algum ideal, como o socialismo, conseguem anular completamente o superego e podem se entregar sem culpa ao narcisismo revolucionário.

Isto me faz lembrar daquelas estorinhas de criança nas quais temos um príncipe que antes de se tornar rei é obrigado a passar por inúmeras provas de caráter, e a ocupação da liderança é feita dentro de um espírito de serviço que deve ser cumprido. Infelizmente, os políticos que conhecemos querem o poder pelo poder, pelo gozo, afinal poder é melhor que Viagra. As mulheres inseguras, por exemplo, costumam ser péssimas chefes devido ao detalhismo que comumente se traduz em autoritarismo e obsessão pelo controle.

Para piorar, os psicopatas são invejosos, assim, o dirigente do Partido Comunista Alemão do filme precisa se satisfazer explorando sexualmente a estrela de teatro. Quando ele se vê privado momentaneamente de sua companhia, entra em uma depressão que a satisfação de ocupar o seu cargo não é capaz de preencher. É o socialismo da inveja.

10 comentários:

André disse...

Quero ver esse filme, mas acabei vendo O Sobrevivente, de Werner Herzog, do piloto prisioneiro no Vietnam. Sofrido, mas legal. Christian Bale é mesmo um ator extraordinário. O filme é baseado no documentário O Pequeno Dieter Precisa Voar, do próprio Herzog. Bela história.

Ora, se circula a história de q maquiam os números de suicídios em alguns lugares (Brasília, por exemplo — e isso não é exagero, nem estou dizendo isso pq não morro de amores pela cidade, o q vcs já sabem, digo isso pq acontece mesmo, pelo q já me informaram), e lugares democráticos, é claro q na RDA deviam esconder essas coisas.

“O tal chefão, não satisfeito, decide usar a Stasi para espionar o namorado da estrela, que é escritor, a fim de encontrar alguma coisa que possa ser usada contra ele.”

A Stasi era muito eficiente. Alemães... A Securitate romena era cruel também.

Petistas e eesquerdistas em geral nunca foram mais solidários ou menos possessivos, nem idiotas idealistas coletivistas. Eles gostam de poder, os mais astutos e capazes. E de parasitar algo, no caso o Estado, os mais incapazes e fracos.

Foucault era um viadinho (nos dois sentidos) e um obscurantista. Quanto aos psicopatas, dizem q há uma certas “classes” deles q dificilmente são pegas, pq não têm aquela pulsão violenta e incontrolável, a criminosa, nem nenhuma outra pulsão q os leve a fazer algo que termine em prisão. Mas são frios, calculistas e passam por cima de todo mundo. Mais ou menos como vilões de novela das oito. E, repito, jamais são pegos. Os de novela quase sempre são.

São encontrados em muitas empresas e corporações. São perfeitos pra competição, pq esmagam qualquer coisa sem piedade e seus limites só param na fronteira criminosa.

Mas no Estado deve haver alguns, acho.

Bem, em todos os lugares, mesmo nos q não estejam necessariamente ligados ao alpinismo profissional e de poder.

O poder é o melhor afrodisíaco, já dizia o Dr. Henry Kissinger.

Discordo, mulher é ótima pra chefiar. Nem todas são assim, inseguras, controladoras e obssessivas. Deviam botar uma pra administrar a ONU e outros abacaxis. Mulher que administra bem uma casa, o q é um inferno, tira de letra essas burocracias imensas e cabides de emprego. E multinacionais complexas também.

O socialismo é o governo dos piores, dos incapazes, fracos e incompetentes.

André disse...

Millôr

“Ajoelhou, tem que rezar”

Os costumes, graças a Deus, tornam vigente nossa mais bela frase sacroerótica.

E ISSO É ISSO

Meus bons amigos, meus fiéis – e infiéis também, por que não? – leitores, membros desta pequena seita de alfabetizados infiltrados nestes 150 milhões de adeptos de outros tipos de comunicação, meus irmãos – meus inimigos também –, meus afetos-desafetos, minha esperança viva: é com profundo sentido de funemerência que eu me esvaio e também me coagulo nesta emergência cáustica de uma data nem sequer explícita. Jingle bell pra todos, na hemorragia dissonante desta ocasião meretrícia onde diabéticos princípios e esquálidas determinações se encontram para a frutificação nostálgica de velas e permanganatos imolados nas árvores outrora viscerais, hoje inconstantes, no mais profundo de nossos corações amantes – amantes? – equidistantes uns, e divagantes outros, na hora da putrefação do nosso sempre bem-amado ecossistema. Olhem bem nos olhos dos que os têm abertos nesta noite milenar, e nem por isso dórica, e verificarão estarmos diante de mais um marco da fraternidade apreensiva, diante da pungência exemplar dos que acreditam nos tubérculos como finalidade única da nossa agricultura. Mas não serei eu que me demorarei demais neste espaço, que é curto, e neste tempo, que é breve. Nem tentarei coonestar a rapacidade natural dos mais velhos, mas vocês concordarão quando eu disser que, nesta noite, mais do que em todas as outras – o que é mesmo que eu queria dizer? –, ah, sim, não se esqueçam do presente da mamãe, mas também não deixem a vovó comer toda a rabanada.

André disse...

Diogo Mainardi

Ficamos mais bestiais

Luiz Moyses perdeu a mulher na tragédia da TAM. Na tragédia do Aeroporto de Congonhas. Na tragédia do Airbus. Na tragédia da Anac. Na tragédia da Infraero. Na tragédia de Lula. Chame do jeito que quiser.

Luiz Moyses era de Porto Alegre. Depois do acidente, a TAM o acomodou no Hotel Blue Tree, em Moema, perto de Congonhas. Em 31 de agosto de 2007, à noite, ele estava no bar do hotel, acompanhado por dois outros familiares de vítimas do Airbus. No mesmo dia, ocorrera a abertura do III Congresso Nacional do PT. Mais de 150 delegados do partido também estavam hospedados no Hotel Blue Tree. O PT sempre se deu bem com o Hotel Blue Tree. Um dos delegados petistas foi confraternizar com Luiz Moyses, imaginando que ele fosse um correligionário. Luiz Moyses repeliu-o dizendo que Lula era o culpado pela morte de sua mulher. O delegado petista tentou agredi-lo. Insultou-o. Disse que os parentes dos mortos da TAM estavam chorando demais. O agressor só foi contido pelo deputado baiano Joseph Bandeira e pelos guarda-costas do partido.

O próprio Luiz Moyses relatou-me o episódio alguns meses atrás. Nesta semana, à procura de uma imagem que sintetizasse o ano, lembrei-me dele. Mais do que pelo acidente de Congonhas, 2007 ficará marcado pela bestialidade que deflagrou. Da alegria indecente de Lula na posse de Nelson Jobim ao top, top, top de Marco Aurélio Garcia quando o Jornal Nacional falou sobre o reversor pifado, o Brasil desceu mais uns degrauzinhos na escala de civilidade.

Em 2005 e 2006, o conflito foi entre lulistas e antilulistas, entre achacadores e achacados, entre quadrilheiros de um bando e de outro. 2007 foi pior: o conflito passou a ser mais essencial, mais primário, entre a selvageria e a humanidade. Os fatos do Hotel Blue Tree resumem idealmente o que aconteceu no país nos últimos tempos. Num artigo pomposo como este, em que se analisa o passado em busca de ensinamentos para o futuro, cai bem citar um autor ilustre.

É kitsch, mas cai bem. Pensando em Lula, em Marco Aurélio Garcia e no agressor de Luiz Moyses, cito o autor mais manjado de todos, Samuel Johnson: "A piedade não é natural ao homem. Crianças são sempre cruéis. Selvagens são sempre cruéis. A piedade é adquirida e aperfeiçoada pelo cultivo da razão".

A mulher de Luiz Moyses chamava-se Nádia. Foi sua primeira namorada. Eram casados havia sete anos. Quando Nádia morreu, Luiz Moyses vendeu sua empresa e mudou-se de Porto Alegre. Atualmente, ele tenta reconstruir sua vida em outro lugar, ao mesmo tempo que coordena as atividades do grupo de parentes dos 199 mortos de Congonhas. Chegou a ser recebido por Lula no Palácio do Planalto. Perguntou o motivo do descaso do governo com a segurança nos aeroportos. Lula respondeu, segundo ele, que "o povo brasileiro nunca pediu segurança, pediu que modernizássemos os terminais". Lula teria acrescentado que o Brasil "possui os melhores terminais do mundo, com shopping center e tudo o mais".

O ano acabou. A tragédia da TAM ficou para trás. Menos para Luiz Moyses e todas as pessoas que perderam parentes ou amigos. Eles continuam a buscar respostas para os acontecimentos daquele fim de tarde de julho. Reúnem-se, confortam-se, trocam mensagens. A última suspeita que circula entre eles é que o piloto do Airbus teria pedido autorização para aterrissar no Aeroporto de Guarulhos, mas tivera seu pedido negado pelos controladores. Em 2007, o Brasil pediu para aterrissar numa pista longa e segura, mas acabou numa pista incerta e escorregadia, "com shopping center e tudo o mais".

Ricardo Rayol disse...

Mais um artigo esclarecedor. O poder corrompe, mesmo.

PT forever disse...

AGU economiza R$ 30 bi aos cofres públicos em 2007

por Maria Fernanda Erdelyi

Só em processos que correm no Supremo Tribunal Federal, a Advocacia-Geral da União conseguiu economizar, neste ano, mais de R$ 30 bilhões aos cofres públicos. Diversas medidas foram empenhadas pelo contencioso da AGU para evitar pagamentos e indenizações indevidos, além de impedir grave lesão à saúde, à ordem publica e à economia do país.

Em apenas um caso a União evitou o desembolso de R$ 20 bilhões. Trata-se de uma Ação Cível Originária (ACO 453) na qual o estado do Paraná cobrava da União o ressarcimento de despesas com a construção de trecho da ferrovia que liga as cidades de Apucarana e Ponta Grossa. O estado argumentava que a União tinha a obrigação de acordo com convênio firmado entre eles. A AGU demonstrou que toda a obrigação da União neste contrato já havia sido cumprida e que nada mais deveria ser pago. A ação, proposta em 1993, foi julgada improcedente.

“A União é acusada de ser a grande litigante do país e de protelar decisões. Não é verdade. A União só persiste em casos em que realmente há possibilidade de reversão e já deixamos de recorrer em diversos casos onde já há jurisprudência e entendimento pacífico no Supremo”, afirma Grace Mendonça, secretária-geral do contencioso da AGU.

Neste ano, a AGU deixou de recorrer em, aproximadamente, 19 mil processos. São casos em que já existe jurisprudência no sentido contrário a tese da União. A AGU orientou todas as suas unidades por todo país em não insistir para que não haja recursos protelatórios.

No Supremo, a AGU também evitou o pagamento de precatórios que estavam fora da ordem cronológica, exigência básica para que sejam cumpridos. Também impediu o pagamento de outros que já haviam sido autorizados pelo Judiciário, mesmo com valores e perícias ainda questionadas em juízo pela AGU. Estes casos representaram uma economia de R$ 2 bilhões aos cofres públicos. Só em indenizações por desapropriação de terras no Paraná, a AGU também economizou R$ 767 milhões. Ela estava sendo condenada a indenizar por desapropriação de suas próprias terras.

“Quem ganha com tudo isso é a sociedade. Isso é dinheiro público que estava sendo desviado em um pagamento indevido”, ressalta Grace Mendonça, que acompanha a atuação da AGU no Supremo. Em algumas disputas, a União nem consegue apurar o impacto, como a recente decisão do STF que liberou o SUS (Sistema Único de Saúde) de arcar com cirurgias para mudança de sexo e a que impediu a importação de pneus usados.

Revista Consultor Jurídico, 16 de dezembro de 2007

Heitor Abranches disse...

ARTIGO IMPERDIVEL SOBRE OS TECNOCRATAS NA POLÍTICA! A HORA DOS NÃO POLÍTICOS! Por Jorge Fernández Diaz -La Nacion- Trechos.

1. Não diria que a política seja assimilável à literatura ou à pintura, porém posso assegurar-lhes que se trata de uma arte maior e que sua prática necessita uma vocação tão profunda e abnegada tal como um artista verdadeiro se auto-impõe. Em vinte e cinco anos de jornalismo conheci apenas um dirigente de primeiro nível que não era um animal político. Um homem sem tempo livre, quase um prisioneiro da matéria que domina. As vocações vulcânicas apagam o homem do mundo, deixam suas famílias perplexas e também suas necessidades mundanas, e como todo ato de amor torrencial, trata-se de um ato obsessivo.

2. Ninguém consegue chegar aos primeiros lugares sem possuir esse fogo sagrado. Comparar a política real com a política corporativa das empresas é, portanto, um amargo equívoco. A política, apesar de todos os seus gurus e politicólogos, resiste às regras do gerenciamento ortodoxo e da ciência pura. No mundo dos negócios, um mais um são dois. Na política, como todo mundo sabe, dois mais dois não são necessariamente quatro. Os que não são políticos são homens de ideologia pasteurizada, que igualmente se apossam das posições de "centro", e do livre mercado, e que começaram a se meter no lodo da história.

3. Alguns se sentem, no fundo de seus corações, injustamente derrotados por “políticos medíocres" e 'burocratas clientelistas". Eles, os príncipes da nova política, eficientes e limpos, cursaram a universidade e conhecem o mundo: são bastante viajados. Como é possível que possamos ser derrotados por esses políticos de cabotagem, esses imprestáveis de sempre, se perguntam eles. Alguns desses gerentes da nova política dormem com a mala fechada ao lado da cama. Estão sempre prontos para voltar ao setor privado ruminando uma queixa:” Sou demasiado bom e honesto para ficar na política".

4. Na verdade, esquecem que os verdadeiros militantes políticos não têm para onde voltar, porque pertencem de corpo e alma à luta política. Porque não poderiam fazer outra coisa, pelo simples fato de que nasceram para aquilo, porque resolveram agir de uma fora extrema. Um gerente é demasiadamente cerebral e possui um demasiado "sentido comum" para agir assim. Um militante é medido, não apenas pelo modo com que reage a uma vitória, mas sim como se recupera de suas derrotas. Esses senhores necessitam um exame profundo para entender o que está ocorrendo com eles. Na verdade são amadores pensando que são profissionais. Não dominam o assunto completamente, e no fundo, o depreciam um pouco.

5. Toda a nova política está cheia desses personagens bonzinhos e amorfos: Aves de arribação querendo comer as feras ainda cruas. Não é possível ensinar política a um incapaz, assim como não se pode ensinar política a que não tem ouvidos. Entender a política entendê-la de verdade, é um Dom: ou se tem ou não o tem. É um saber que não se adquire nos livros nem nos claustros. Esse saber é adquirido nas ruas e de maneia visceral. O que quero dizer é que parecem possuir grandes convicções, porém lhes falta paciência e flexibilidade para organizar partidos políticos consistentes, com alas de esquerda e de direita, com democracia interna e participação.

6. Abertamente individualistas, um dia recebem três milhões de votos e no dia seguinte não recebem voto nenhum. Têm uma estranha alergia, contagiada pelos pesquisadores de opinião e a “opinião pública" mais toscas dos comentaristas automáticos das rádios, que consiste em acreditar que toda aliança é a Aliança, ou seja, uma montagem invertebrada e incoerente que fracassa ao governar. E também que todo pacto político, é uma aliança para dividir favores.

7. Sem dominar o assunto, sem vocação nem visão pública, sem sentido comum, sem pragmatismo e sem humildade, sem capacidade para compor uma idéia, julgam estar num lugar mas estão em outro. Só se consegue mudar a história com esse apetite insaciável, com essa paixão que um frio gerente não pode gerenciar. Talvez nem sequer possa compreender. A nova política não pode amadurecer nas mãos daqueles que não são políticos.

Heitor Abranches disse...

JANE SANTUCCI :

RIO: UMA CIDADE REBELDE ! alguns trechos.

Nas ruas da cidade os grupos de capoeiras conhecidos também como maltas se enfrentavam na luta pelo controle informal de territórios. Entre 1850 e 1890, o centro da cidade foi dividido em territórios controlados pelas principais MALTAS: “ Nagoas” e “Guaiamus” , formadas a partir de várias falanges que dividiram as freguesias entre si. Sendo rivais, viviam em estado de guerra e arregimentavam até cem pessoas. As maltas comportavam escravos libertos e escravos ao ganho,( aqueles que viviam nas ruas vendendo mercadorias ou oferecendo serviços e pagando uma parcela do que obtinham a seus senhores).

No inicio da Republica, o novo Código Penal transformou a capoeiragem em crime e começou a perseguição aos capoeiras que eram autuados como contraventores. A presença do capoeira na rua tornou-se uma ameaça à ordem pública e a luta compreendida como uma espécie de arma, o caráter coletivo da prática, uma forma de rebelião. As maltas resistiam protegidas em seus guetos que eram os cortiços, espalhados pelo centro, locais onde a policia não entrava.

Intrépidos e ousados, os capoeiras eram temidos e ao mesmo tempo exerciam fascínio nos meninos pobres que sonhavam pertencer ao grupo. A iniciação acontecia em torno dos 10 anos, quando o aprendiz acompanhava as maltas portando as armas. Depois passavam por um treinamento até os 14 anos, momento em que era considerado apto para o combate e dava-se inicio a curta carreira, pois muitos jovens morriam antes de chegar aos 22 anos, na luta contra os adversários ou com a própria policia.

Em cortiços e estalagens moravam cerca de 25% da população carioca, distribuída entre as freguesias do centro. Diante da proliferação de moradias insalubres no centro, nas quais a peste mais vitimava e o crime se alastrava, médicos e engenheiros higienistas, apoiados pela opinião pública, deram inicio a uma campanha pela erradicação dos cortiços da região. O primeiro grande cortiço a cair foi o Cabeça de Porco no mandato do prefeito Barata Ribeiro. O espetáculo da demolição foi um acontecimento que repercutiu por toda a área central atraindo uma multidão. Com grande aparato, o prefeito apresentou-se para a demolição acompanhado de soldados do Primeiro Batalhão de Infantaria, Corpo de Bombeiros e dezenas de operários para colocar abaixo o precário conjunto de moradias. A estalagem estava situada logo atrás de uma pedreira do Morro da Favella,( hoje da Providencia), onde uma das proprietárias do cortiço possuía vários lotes. De imediato se estabeleceram negócios entre a usurária e os despejados dando inicio a construção dos barracos na encosta.

Enquanto as atenções estavam voltadas para os cortiços, a favela crescia silenciosamente e à medida que os cortiços iam desaparecendo com as demolições, a favela ia se firmando e aumentava seus domínios para outros morros que circundavam o centro.

Em 1900 uma matéria no Jornal do Brasil denuncia que o morro da Favella é “infestado de vagabundos e criminosos que são o sobressalto das famílias”. O Jornal Gazeta de Noticias de 21 de maio de 1903, dizia: “ O morro da Providencia sempre foi um lugar célebre de capoeiragem e assassinatos. Outrora no lugar onde hoje só existe um cruzeiro, mandado fazer pela Santa Casa bem no pico da montanha, é que davam lições de capoeiragem. Chamavam o China Seco e a policia monárquica nunca pode acabar com esse centro de horror. Depois da guerra dos Canudos, os mais ousados facínoras voltaram a habitar o píncaro do morro, denominando-o de Favella, porque no reduto não há policia que não seja derrotada”.

C. Mouro disse...

FANTÁSTICO, Heitor!

Magnífico post.
A política é, predominantemente, uma questão psicológica. Por isso as ideologias, mesmo causando as maiores desgraças, sempre persistem com seus valores (a sua moral). Não se obterá exito contra as ideologias caso não se lhes exponha as entranhas. Somente a denúncia de tal estratégia, para que não mais se possa sentir que se está enganando os demais e/ou a si mesmo, será capaz de espantar adesões ansiosas por consolo e participação corporativa, "calor humano" e "justificativas" para as próprias frustrações.
...ansiosos pelo estabelecimento dos valores ideológicos arbitrados, pela escala de valor ideológica, sempre com valores ao alcance de qualquer um - valores fáceis de adquirir ou apenas exibir aos próprios pares convencendo-se da valorização assim obtida.

Não importa a verdade, mas apenas a "verdade" consensual. Daí o valor da propaganda, da visibilidade da soberba sobre os valores ideológicos.

Marx antes de tudo se firmou sob uma idéia moral, a idéia de justiça que construiu com seu besteirol estapafúrdio, contraditório. Com tal idéia de "justissa" ele justificava as ambições materiais e psicológicas dos que iria aliciar. ...E ainda pegou uma carona na exaltação dos pobres como meritórios por serem pobres, de uma moral que atribuia obrigações - sob a idéia de vontade de deus - inerentes de uns para com outros, ou mais precisamente o que seria o direito de uns sobre os outros: dos que precisam sobre os que podem conceder. Essa "obrigação estabelecida por deus" (obrigação moral) resulta no "direito arbitrado por deus", direito dos necessitados sobre os abastados. Desta forma, o Poder político passa a justificar a cobrança de tributos e toda sorte de imposições sob o pretexto de atender os necessitados, o que é justificado moralmente pela vontade divina: a vontade divina, o abitrio divino é por definição o certo e o errado. Ou seja, nada se julga, não se deve julgar, pois a lógica nada vale, mas APENAS DE DEVE OBEDECER A VONTADE DE DEUS. ...Claro que tal vontade é comunicada por aqueles que possuem uma linha direta com deus.
Tal e qual no experimento dos macacos e o jato d´agua, a coisa já está entranhada nas mentes, nem mesmo se percebe nitidamente o porquê de certas opiniões sem fundamento algum, apenas se as tem como opiniões pretensamente axiomáticas. ...e blá blá blá....

Magnifico post, caro Heitor.
É preciso dar mais espaço para considerações sobre psicologia, pois a política não é questão técnica. Por mais que se demonstre, prove algo, a manipulação psicológica sem prova alguma, mas atuando nos interesses, levará a melhor.

Aplaudi de pé o seu post. ...e não rersisti.

Abraços
C. Mouro

Catellius disse...

O post está realmente excelente! Redondo!

Eduardo Silva disse...

Poder e inveja sem dúvida são conceitos bem íntimos. O que seria do ego do poderoso se ele não olhasse para as pessoas e não visse as retinas invejosas e sequiosas do seu status?

Afinal, o poder é construído socialmente, é pura eficácia simbólica, como dizem os sociológos. O exemplo mais claro é o Estado, uma ficção na verdade, mas dotado, socialmente, da maior das eficácias simbólicas.

O poder, como representação, necessita do mito e do rito. Veja-se a nomeação dum magistrado. o mito: homem inteligente, austero e superior. O rito: a consagração pomposa de sua posse e a amedrontadora toga...


Assim construimos o poder como representação, com o mito e com o rito.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...