12 novembro 2007

A Vaia de Carmen Miranda

Assistindo a um documentário sobre a vida de Carmen Miranda, fiquei mais uma vez com a impressão de que não valorizamos o que é brasileiro, talvez devido aos governos se apropriarem de símbolos da nossa cultura para justificar o seu poder, como fez Getúlio Vargas, que usou a senhora Miranda como propaganda do regime. Desta forma, a repugnância a um regime acaba sendo transferida para um artista, herói, ou idéia apropriada por este regime.

Era um tempo diferente, onde quem cantava samba eram os negros e em que a elite ainda não era americanizada e sim afrancesada e os artistas ainda não tinham o status social que gozam na atualidade como formadores de opinião. Nos EUA, a sua imagem era a de uma moça ingênua como convinha a uma mulher de então. De fato, dificilmente consegue-se ser tão inteligente em outra língua quando na sua própria, e no início ela deu entrevistas onde dizia conhecer apenas duas palavras em inglês: men e money.

Outra coisa que impressiona são pessoas suas contemporâneas hoje na casa dos 80 ou 90 anos com perfeito domínio das suas faculdades falando daquele tempo e mostrando uma boa capacidade de análise crítica e imparcialidade. Nos EUA, ela foi usada pela propaganda de guerra no esforço americano de aproximação da América Latina para uso de seus mercados e matéria-prima, daí a acusação de que ela havia se americanizado.

Na primeira vez em que voltou ao Brasil após o seu grande sucesso na Broadway, decidiu fazer um show para a alta sociedade carioca. Talvez em um esforço de aproximação, cumprimentou a platéia com um good night que foi seguido de um silêncio sepulcral, e após algumas musicas teve que se retirar do palco. O resultado era previsível, afinal a elite ainda não havia se americanizado e nunca tivera nenhuma afinidade com a cultura popular dos morros. Provavelmente, havia algo de inveja também mascarado por este desprezo.

Alguém já me disse que tolerar o sucesso de alguém extraordinário é possível, mas tolerar o sucesso de alguém normal é quase insuportável. Os judeus que o digam; o seu sucesso material tem um papel importante no ódio e inveja de que são objetos, além do fato de seus antepassados terem matado Jesus e Moisés (segundo Freud). O sucesso é difícil de se engolir até hoje, a Madonna que o diga.

Boa parte da doutrinação de esquerda parece esconder a inveja de uma "classe média esforçada" mas não muito bem sucedida que se volta contra os valores que sustentam o mérito dos bem sucedidos. Um tipo de vingança. Vejam o velho Marx, por exemplo, que antes de engravidar a sua empregada não conseguiu uma vaga de professor na sua universidade e passou a vida sendo sustentado por Engels enquanto preparava os seus petardos contra o capitalismo. A inveja é foda.

7 comentários:

André disse...

Heitor, o PT não controla tanto assim o STF, apesar dos ministros serem indicados pelo Presidente.

Das três, (UNE, CUT e MST), as duas últimas sempre foram e sempre serão problemas mais sérios. Mas ainda que sejam braços do PT, não acho que sejam tão decisivos assim.

Quanto a essa TV, vai virar um ninho de esquerdistas e um ralo imenso de dinheiro público, mas vai ser mais um canal estatal que ninguém vai ver. Sempre namorando o “traço” (zero) no Ibope. Aliás, dizem que a Record News está assim, se for verdade, que bom. Essa tv petista não vai ter muita influência em nada, acho. Mas mesmo quando o PT sair do poder, vai continuar sendo um foco de esquerdismo, como se vê em boa parte da programação da TV Câmara e da TV Senado.

“Com as chefias das casas legislativas e com uma boa chance de interpretação favorável por parte do STF. Se vc fosse petista, qual seria o seu plano?”

O mesmo de que já falei. Tentar usar um decreto legislativo pra pedir um plebiscito. Ou então ele pula essa história de plebiscito e simplesmente tenta comprar mais de 1/3 de uma das Casas (Câmara, povavelmente) para que eles proponham uma emenda. Nada de decreto pra conseguir um plebiscito, acho isso muito trabalhoso. Bem mais fácil assim, imagino. Basta abrir a torneirinha, soltar a grana e comprar os caras. Quer dizer, isso é fundamental, mas não é tudo, claro.

A Carmem Miranda era legal. Morreu, dizem de “desgosto”, depressão profunda. E o inglês dela era perfeito, ela era muito inteligente, aliás.

“e os artistas ainda não tinham o status social que gozam na atualidade como formadores de opinião”

“O Brasil é o único país onde cantor de música popular vira intelectual.” (Evaldo Cabral de Mello, diplomata aposentado e historiador)

Sim, tolerar o sucesso de alguém extraordinário é possível, mas tolerar o sucesso de alguém normal é quase insuportável. É o q o Gene Hackman fala para o policial em Sob Suspeita. Afinal, ele era rico, um advogado tributarista (tax attorney), mas se considerava, e era, um homem comum, ordinário. Ele disse que num atleta ou artista o sucesso é tolerado, mas que quando as pessoas ordinárias vêem alguém como elas, uma delas, (ele, no caso) com dinheiro e uma bela mulher ao lado (no filme era a Monica Bellucci), vêem isso como se fosse uma ofensa. Grande diálogo esse.

“Boa parte da doutrinação de esquerda parece esconder a inveja de uma ‘classe média esforçada’ mas não muito bem sucedida que se volta contra os valores que sustentam o mérito dos bem sucedidos.”

Nem sei se esforçada, acho que a maioria não é, mas certamente classe média. Radicais de classe média que imaginam representar a classe trabalhadora e os pobres em geral. Um tipo de vingança mesmo. Normalmente detestam qualquer um mais rico do que eles, pior ainda se for famoso ou bem-sucedido.

E os esqueridstas de classe alta não se consideram tão “alta” quanto os outros pensam, não se acham tão ricos assim.

Os da média não tem a menor dificuldade pra encontrar alguém com mais bens e dinheiro pra invejar ou odiar, claro.

Mas são todos uns merdas. Mandaria todos para uma vidinha camponesa na Coréia do Norte se pudesse. Todos esses aí vivem criticando o capitalismo e as multinacionais mas não abrem mão da viagem de compras pra NY, do carro importado, das sitcoms de tv americanas e dos produtos fornecidos pelas multinacionais.

Há até os que boicotam algumas, por exemplo, os que boicotam a Nestlé. Por uma série de motivos e historinhas que não cabem aqui (outro dia conto, mas adianto que parece ser tudo bobagem ou exagero), tem gente dizendo que a Nestlé é “má” e merece ser boicotada. Eu, viciado em chocolate, é que não boicoto mesmo.

Não sei se Marx teria sossegado ou moderado no radicalismo se tivesse tido uma vida fácil, com bons empregos e salários. Ou se tivesse nascido aristocrata, sei lá.

Ricardo Rayol disse...

a inveja é uma baita merda já dizia o antigo provérbio austro-hungaro-otomano.

Catellius disse...

Lá do Expressionista:

Rio quando a adepta do Catolicismo Independente do Êxtase Por "Impalação" dos Últimos Dias repete insistente e bovinamente o que o Reinaldo Azevedo soltou algum dia por ocasião da visita do Sapatinhos Vermelhos ao Brasil, que a doutrina da ICAR é essa aí, que a compre quem quiser, que ela não faz proselitismo, etc. Vamos analisar a Suprema Estultice desta auto-definida cínica:

"(o católico) Nao deveria nem transar, porque nao pode fazer sexo antes de casar. E se casar, tem de ser fiel, e nao sair como um maniaco por ai transando com qq mulher."

A guria não casou mas já transou com sabe-se lá quantos homens - e ainda o faz, pressuponho, uma vez que está largada no mundo com os seus hormônios e consciência não vigiada por fiscais da moral - e deve usar preservativos, já que não é "bruta ignorante sem educação nem cultura", como a adepta do catolicismo-rodízio (só pega a carne que apetece) se referiu aos africanos que fazem o mesmo que ela mas não têm acesso aos preservativos como os que ela carrega na bolsa. Mas considera-se católica e defende sua Igreja com unhas e dentes. Será que já usou pílula anticoncepcional? Sim? Hum... Aí cometeu incontáveis abortos, afinal o zigoto é tão homem quanto Jesus. E bingo! Aborto gera excomunhão automática! Ela acha que faz parte dos "vivos", como o personagem de Bruce Willis no filme Sexto Sentido, he he, quando na verdade é uma excomungada, apartada do rebanho do qual julga fazer parte; está "morta" e não sabe.

Se estivesse ao alcance da ICAR dificultar a difusão de preservativos em locais civilizados, se no 1º mundo todos engolissem a propaganda criminosa da ICAR de que o vírus da AIDS passa pela camisinha e que ela é um facilitador do contágio, quero ver qual seria a atitude dos hipócritas do catolicismo-rodízio-de-carnes (também no sentido de promiscuidade). Deveriam obrigar os mentirosos que estivessem para ser operados a ter o corpo invadido por mãos de médico não envolvidas por látex, já que os vírus passam de qualquer jeito.

Deixe-me tentar entender a confusão mental da pobre coitada:

- os africanos não seguem os preceitos da ICAR;
- não são católicos exemplares portanto;
- logo a ICAR pode fazer uma verdadeira cruzada contra o uso de preservativos junto a estes adeptos promíscuos que a desafiam abertamente violando a castidade, e a crentes de outras religiões, inclusive difundindo mentiras como a que a camisinha ajuda a espalhar o vírus. Se puderem, podem impedir a entrada de camisinhas em determinadas comunidades e impedir que esposas fiéis ainda não infectadas façam sexo com camisinha com o próprio marido. Ou seja, as mulheres, mesmo fiéis, não podem usar camisinha por medo de contrair a doença de um marido infiel. Danem-se também as crianças que contraírem a doença das mães, afinal quem mandou nascer em um continente onde humanos transam com macacos? A mulher do marido infectado deve renunciar eternamente ao sexo ou esperar que ele morra para casar com alguém livre do vírus. Aí é só transar à vontade e aguardar as dezenas de filhos que deus enviar. Só vale tentar evitar filhos parando de transar ou fazendo a inútil tabelinha, afinal usar camisinha não é estar aberto à vida e a pílula é abortista.

",,,se respeitassem mesmo a lei da igreja, nao seriam todos portadores de Aids. So transa quando casar, e se casar so transa com uma pelo resto da vida."

Ou podem transar antes de casar com mais de uma pessoa mas usando camisinha. Aí "é como" se fossem virgens ou liberais adeptos do catolicismo-rodízio-de-carnes e já podem criticar os que pegaram AIDS e chamá-los de animais. Ou podem ter êxtases com "impalações" e manterem a virgindade para o sacrossanto maridão. Ah, não vale o marido pegar AIDS e passar para a esposinha fiel. Aí não vale! É contra as regras...

A hipócrita não quer ver que são "animais" porque não usam camisinha, porque acham que transar com virgens afasta a doença, são "animais" porque acreditam nas mentiras absurdas da ICAR, porque são supersticiosos e corruptos.

Se todos respeitassem mesmo a lei da igreja não haveria assassinatos (exceto aqueles em nome de deus). Grande coisa.
A questão é que ninguém diz que a ICAR infectou as pessoas. Aí está a barata falácia da pressuposição que a guria usa. A ICAR é um entrave para a profilaxia, para políticas governamentais de combate à doença, uma vez que naquelas terras o sobrenatural mete mais medo do que o natural, ainda mais quando o vírus, como os espíritos, também é invisível a olho nu.

"...se o sujeito eh catolico mesmo ele segue as regras da Igreja e fim de papo. Logo a igreja nao pode ser a responsavel pela AIDS que o sujeito pegou, pois o sujeito claramente contraiu Aids por NAO seguir as regras da igreja."

De novo o mesmo raciocínio chinfrim, a mesma falácia da pressuposição, a mesma bovina papagaiação, a mesma torpe análise, a mesma vileza.

"Para mim os africanos morrem de Aids porque sao uns brutos ignorantes, nao tem educacao nem cultura, apenas isso, e porque a Africa eh o continente mais corrupto do mundo. Voce acha que eles morrem de Aids por causa da religiao, beleza."

Antes eu achava que ela era apenas uma alarvidade ambulante, com necessidade de chocar, he he. Agora vejo que acredita mesmo naquilo que papagaia, vejo que sua parvoíce está entranhada, é sua natureza. Como discutir com aberrações assim? O Janer tem uma paciência infinita, he he.

Catellius disse...

Muito bom texto, Heitor. Vi alguns filmes com ela. A "pequena notável" era sempre o pano de fundo pitoresco de um romance entre dois gringos. A irmã dela, Aurora Miranda, contracenou com o Zé Carioca e o Pato Donald naquela famosa animação da Disney.
Volto já!

André disse...

Qualquer religião adora lugares atrasados, onde possa dar vazão à práticas reprimidas ou proibidas em sociedades avançadas. Tiram todo o proveito. O primitivismo local torna aceitáveis coisas que elas nem teriam coragem de sair sugerindo por aí. E, de um modo geral, controlar as massas em lugares muito pobres também é muito mais fácil.

O mais engraçado é aquela recomendação: abstinência. Não faça. Ora, isso não resolve NADA.

Se ela já usou anticoncepcional, deveria saber que pesquisas recentes apontam uma possível correlação entre o uso disso e enfarte e derrame. É sério.

A tabelinha... tive um professor de cursinho, alto funcionário da Câmara e católico fanático, que a defendia. Vivia pregando. E a noiva dele era evangélica, que família maravilhosa não devia ser essa...

Muitos religiosos também condenam o sexo durante a menstruação, como se fosse algo sujo e pecaminoso.

“Leis” da igreja... feitas sabe-se lá por quem, e sabe-se lá em que época e condições, mas nem falemos nisso...

“e se casar só transa com uma pelo resto da vida" Se ela realmente acredita nisso, desconhece a vida.

Mas o problema de alguns crentes é que eles acreditam demais...

Bocage disse...

Livro derruba mitos sobre Carmen Miranda
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LUIZ FERNANDO VIANNA
da Folha de S.Paulo

Há cinco anos, ao começar a pesquisar a vida de Carmen Miranda para uma biografia a que se dedicaria com exclusividade a partir de abril de 2003, Ruy Castro ainda considerava plausíveis alguns mitos em torno da vida da cantora. Agora, ao lançar "Carmen - Uma Biografia", poucos desses mitos ficaram de pé.

O cruzamento de dezenas de entrevistas com pesquisas em jornais e arquivos pessoais derrubou para sempre uma série de lendas. Mas, para Castro, essa operação, em vez de diminuir a "pequena notável", aumenta seu tamanho.

Leiam matéria completa, de 2005

"A segunda lenda, mais famosa, tratava das vaias que ela sofrera ao se apresentar na Urca em 15 de julho de 1940, logo após retornar de sua primeira e muito bem-sucedida temporada norte-americana.

'Não ouvi de ninguém e não li em lugar nenhum que houve vaia. Houve gelo. Mas era uma platéia formada em boa parte por gente do governo Vargas, que na época estava próxima do fascismo e do nazismo. Como iam achar graça em Carmen dizendo 'good night, people' e cantando 'South American Way'? E ela ainda estava resfriada', afirma Castro, que contou com depoimentos de quatro pessoas presentes ao cassino naquela noite.

Dois meses depois, Carmen voltaria ao mesmo palco e seria fartamente aplaudida por uma platéia mais afeita ao seu repertório, então já atualizado com respostas como 'Disseram que Eu Voltei Americanizada', especialmente composta por Vicente Paiva e Luiz Peixoto."

Heitor Abranches disse...

Bocage,

Quem menciona esta vaia foram os contemporâneos da Carmen, um inclusive, seu ex-primeiro namorado, um ex-campeão sul americano de remo.

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