31 março 2007

Flamenguistas e Petistas

A partir de um comentário do C. Mouro, comecei a refletir sobre as nossas escolhas, e penso que às vezes seria melhor que as chamássemos de "identificações".

Tenho um colega que, apesar de ter nascido em Ipanema, é flamenguista. A explicação é simples; seu pai torce para o Flamengo. Creio que ser rubro-negro não tenha sido exatamente uma escolha para ele. Tenho um outro amigo que é filho de um casal de professores petistas, destes que em todas as eleições vão às ruas agitar bandeiras. Ele é ótima pessoa, correto, bom amigo, mas nenhum argumento conseguiria abalar sua fé no partido. Ele é um torcedor. O sujeito tem até mestrado, mas quando a questão é o PT, nenhuma lógica é capaz de tocá-lo.

Em seu caso, de meu colega flamenguista e no da maioria dos religiosos, acho que a questão não é a escolha mas a identificação, ou seja, no desenvolvimento dos sujeitos houve algum momento em que, ao se aproximarem dos pais, tomaram para si seus valores, e creio que não possam mais deles se desvencilhar por qualquer motivo razoável, salvo em poucas exceções. A legião de jovens vira-casacas botafoguenses, vascaínos e tricolores que o time de Zico e Júnior arrebanhou no começo da década de 80 não pode ser classificada como exceção, é certo.

Se o Flamengo joga mal a culpa é do juiz, que certamente é ladrão, e o torcedor não se importa se o gol do título foi ilegal, pois o que vale é a vitoria. Não quero dizer com isto que eu não tenha identificações; óbvio que sim. Entretanto, tento sempre questionar se minhas preferências refletem algo bom ou se são simplesmente um hábito, uma concessão afetiva ou uma propensão. Contudo, sei que qualquer apóstata terá de lidar com uma crise onde se verá obrigado a redefinir sua relação com seus pais, amigos, com a própria sociedade. Este não é um motivo desprezível para manter as coisas como estão. Pertencer a uma religião, ser de um partido político ou torcer por um time de futebol pode ser um dos poucos vínculos que conseguimos estabelecer com outros seres humanos.

Neste blog tentamos fazer o que aqueles comentaristas de futebol se propõem, ou seja, comentar "desapaixonadamente" e de forma crítica os jogadores políticos. Vocês hão de concordar que o Lula batendo bola no Maracanã só dá força a esta metáfora. Evidentemente, nenhum comentário é imparcial, mas pode ser bem fundamentado. Os torcedores são um pouco mais irritantes, pois necessitam de gritos de ordem... mas podia ser pior.

Na vida real, fora da blogosfera e de fóruns políticos, o torcedor pode ser um sujeito perigoso, um hooligan, e ai daqueles que pertençam a outras agremiações. Endeusa os que vestem camisas iguais à sua e espanca os demais. É por isso que não condeno os adesistas, os vira-casacas; eles simplesmente têm um instinto de autopreservação mais bem desenvolvido do que o nosso. Finalizando; acho que esta é uma atitude a ser buscada: a de comentaristas e críticos dos jogadores. Quem sabe um dia o técnico não nos escuta?

20 comentários:

Blogildo disse...

Concordo em gênero, número e grau! Excelente texto.

Um tanto óbvio ao meu ver, é o fato de que quando o ser humano passa a ser consciente ele deve refletir em suas crenças.

Meus pais têm razão?

A cultura em que fui criado é saudável?

A religião a que pertenço é correta?

Enfim, aquela máxima grega de questionar a própria existência e coisa e tal.

A paixão nos esportes é um bom exemplo. Conheço crianças que torciam pra o Flamengo e na adolescência passaram a torcer para o Vasco só para irritar os pais. E também há o contrário.

A questão é: O que vai te motivar a mudar de idéia/conceito? Mera afronta? Todos da minha geração fazem isso? Ou é uma legítima busca de uma verdade ou algo intelectualmente mais nobre?

Não sei se me fiz entender. O que me incomoda não é mudança. Mas o que a motiva.

Heitor Abranches disse...

Acho que é importante que estejamos conscientes do que nos faz querer tal coisa, gostar de tais idéias ou pessoas.

Pode ser que o motivo seja absolutamente idiota ou outras vezes reflete uma escolha de vida ou mesmo uma tendência.

Já trabalhei em uma empresa que havia um sindialista que parecia um hippie, vivia mal penteado, mal barbeado e a única vez que o viamos ativo era quando eles ligavam o carro do sindicato para ficar berrando em frente a fábrica. No caso dele, o esquerdismo e coisa e tal me parece refletir uma preguiça qualquer.

Por outro lado, um herdeiro de uma fortuna tende a ser de direita porque se não o for não se sentirá bem com sua fortuna ou então será um esquerdista como o Chico Buarque que terá o seu apartamento em Paris...

Acho que as pessoas que tomam suas decisões conscientes dos seus motivos tendem a ser mais justas.

Assim, em debates os politicamente bonitinhos ou neoliberais se lembraram que são assim por isso ou aquilo e não porque isto seja o certo.

C. Mouro disse...

Grande Heitor,
uma boa reflexão.

Eu creio que é impossível, ou quase, controlar sentimentos, exige técnica e treino, não se improvisa.
Ser imparcial é mais fácil, mas é penoso pelo esforço racional que se tem que fazer, digo em questões importantes.
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Desgraçadamente os individuos tentdem a viver em disputas tolas, que por vezes nem percebem, e se fazem representar por times e toda sorte de coisas sem sentido.
Refletir sobre a paixão por times de futebol é algo surpreendente: o que é um time? é um nada absoluto, é uma mera palavra sem significado algum, nada lhe é próprio além das cores e simbolos desenhados. ...não faz o menor sentido.
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O post é excelente para uma reflexão.
...show de bola! ...hehehe!
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Forte abraços
C. Mouro

C. Mouro disse...

Aliás, esse blog é primoroso.

Abraços
C. Mouro

André disse...

Bom, conheço muita gente q nem sabe porque é direitista/liberal ou esquerdista/estatista. Isso é comum, e não se limita só ao mundo comezinho da política. Gente sem conseqüência na vida, inconsciente de si mesma, há aos montes. O bom é saber das coisas, pensar sem ser o subproduto de uma mera necessidade. E ser impermeável a surpresas e decepções. Viver sem ilusões. Sou um conservador em política e - alguns - costumes e um liberal em economia, mas sei o q sou e porque.

Bom texto. E um blog primoroso, como disse o C. Mouro.

A marca a ser quebrada agora é a de 200 comentários num post. E sem um Anônimo sequer.

Ricardo Rayol disse...

Só posso imaginar o que leva um sujeito a passar por cima da lógica e das evidências e se tornar um torcedor, seja lá do que for.

Como sou uma anta, pelo menos pluricelular, não entendi bem a relação entre ipanema e ser flamenguista mas tudo bem, o que dizer de milhares de flamenguistas arrebatados pelo melhor time que o Flamengo já produziu?

Anônimo disse...

Tenho um colega que, apesar de ter nascido em Ipanema, é flamenguista.

E TEM UM TIME DE IPANEMA? que ideia de jerico

Anônimo disse...

Vocês hão de concordar que o Lula batendo bola no Maracanã só dá força a esta metáfora.

e tb nao entendi isso daih

Blogildo disse...

Como assim sem um anônimo sequer. Vocês conhecem os anônimos que freqüentam o blog?

Catellius disse...

Muito bem, Heitor!
Estive viajando e não pude comentar, e estou de saída para o cinema.
Acho este post super pertinente e penso que devemos aprofundar o assunto. O C. Mouro escreveu algo interessantíssimo no post passado, e acho importante repeti-lo por aqui:

Pelo consenso, o homem precisa já do apoio externo, a própria razão não reconhece os “valores”, já que em si não se refletem. O homem precisa então “ver” estes valores refletidos na multidão para toma-los como verdade. Assim, pelo consenso, o homem associa-se a um grupo com interesses semelhantes e repete slogans, mantras absurdos e frases de efeito em meio a seus pares. Pois sinceramente sabe que não há um reconhecimento sobre a verdade, mas sim um mero consenso sobre o que se deseja ser a verdade; então, não mais o homem apoia-se em sua consciência para estar “em paz” consigo, mas sim, busca o apoio externo para estar em paz dentro de seu grupo, de sua “classe” ou congregação.
.
O “homem coletivo” não é mais um indivíduo, é apenas um pedaço de um grupo, e sua consciência já não lhe é própria, mas sim é a “opinião do grupo”, o senso comum divulgado ou um consenso mínimo estabelecido em vista dos interesses do grupo, ou para ele determinados. A verdade deixa de ser um objetivo, substituída pelo consenso exibido pelo grupo. O “homem coletivo” não se importa com os julgamentos da própria consciência, que só ele pode ver, mas sim com a “consciência coletiva” que exibe-se ao meio grupal através das lideranças que a estabelecem. A moral, e mesmo a ética, do homem coletivo é o objetivo grupal, e assim não se dá qualquer limite neste sentido, a tudo se permitindo na conveniência grupal independente de coerência ou verdade. Ou seja, a certeza obtida nos julgamentos da própria consciência é preterida em favor da crença na opinião alheia exibida, senso comum alardeado ou consenso estabelecido – a razão e a verdade nada valem ante o interesse grupal. De forma que o mundo deixa de ser o que se percebe como realidade, para ser uma crença comum sustentada por uma “consciência coletiva” que não pode prescindir de lideranças para exibi-la, elabora-la e oferece-la aos partidários e adesistas.


Depois comento com calma. Por enquanto, digo que o reforço comunal é importante para validar crenças como raptos por alienígenas, viagens astrais e a própria fé nos milagres que acontecem a rodo cristandade afora. Escrevi ao Blogildo recentemente:

A inexistência de Thor e Odin só é considerada uma verdade absoluta porque não existem crentes que reclamem sua existência. Se no futuro ninguém reclamar a existência de Jeová, não tiver sobrado nenhum daqueles que o criaram a sua imagem e semelhança, sua existência gerará tantas dúvidas quanto a existência de Thor e Odin. Mas houve um tempo em que um viking conhecia pessoas que conheciam pessoas que conheciam pessoas que haviam sido ouvidas por Thor. O deus parecia muito mais real do que agora, nas páginas de gibis e em livros de mitologia.

Catellius disse...

p.s.
O texto completo do C. mouro, intitulado "Valores? ...que pena!", pode ser lido aqui, no post A TV do Lula.
Abraços a todos
Fui

C. Mouro disse...

Grande Catellius!
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Eu ia postar o comentário no post do Heitor, mas preferi "A TV do Lula" para não ficar tão "cri-cri" de sempre estar me estendendo em posts alheios - diga-se esse do Heitor um show! para a reflexão. ...logo, digo que você pegou perfeitamente a idéia (inteligência é fogo!), muitos também o perceberam, mas vale quem manifesta.
.
Essa questão ´do grupo e da pressão e influencia que ele exerce é uma velha tese minha, vez por outra eu postava algo a respeito, até que há um bom tempo atrás o Paulo Moura, se não me engano, publicou um artigo no Casa Grande que mencionava uma pesquisa que comprovava exatamente aquilo que a simples observação foi capaz de mostrar.
Vou ver se acho o post do Paulo, principalmente, para postar aqui, ou algum dos que eu andei postando na rede (é dureza encontrar entre mais de mil, e perdidos em CDs de backup).
.
Abraços
C. Mouro

André disse...

Não, Blogildo, não conhecemos os anônimos. Eu só fiz uma brincadeira: passar de 200 posts sem um único anônimo pra “ajudar” a conseguir essa marca.

Catellius, esse homem coletivo pode ser descrito como o homem-massa de Ortega Y Gassett. Só vive em bandos. Instinto de rebanho. Esse assunto é vasto...

Mitologia escandinava: me lembro da Jormungand, a serpente q envolve o mundo. Nas histórias da Marvel (Thor) ela não era nem um pouco amistosa.

“The serpent, Jormungand was the middle child of Loki and the giantess, Angrboda. He had 2 siblings, Hel, and the wolf, Fenrir. Alarmed that Loki had fathered these children, Odin sent a group of gods to kidnap them. Once captured, Odin threw Jormungand into the ocean surrounding Midgard, where he lived from then on. The serpent grew so much that he encircled the whole world and bit his own tail.

"At Ragnarok, Jormungand will escape to dry land and spew venom over all the earth and sky. He will then fight Thor, Son of Earth, who will kill the serpent at Vigrid, not before he is poisoned by Jormungand's venom. Thor will only be able to take 9 steps after killing the serpent before he also falls dead.”

É cada site… bom, esse ao menos tem algum valor mitológico, pra mim:

http://www.deliriumsrealm.com/delirium/index.asp

Também descobri q os Serafins nem sempre foram anjinhos. Já foram serpentes do Inferno. Waaal...

Bom, melhor parar por aqui. E cuidado pra não invocar nenhum demônio, de rabinho e garfo, nesse site aí, pessoal!

Abreu disse...

Heitor,

Belo texto, no qual "meto minha colher". Já vi torcedeores perderem a vibração fanática por seus "clubes-do-coração", e já vi muitos dizere, que capitularam e "não torcem mais". Tudo mentira!

E falo por experiência própria. Torcem menos, mas não deixam de torcer.

Você já viu algum "ex-gay"? "Ex-macho", provavelmente sim, mas "ex-gay" parece difícil. O mesmo se aplica a torcedores.

No entanto, conheço "pencas" de ex-petistas. Outro dia, li um texto [se não me engano no Reinaldo Azevedo], em que ele dizia ter abandonado definitivamente seus "ideais" socialistas no dia em que conseguiu ler inteiramente o livro Casagrande e Senzala, do Gilberto Freyre.

Se este seu amigo petista ainda tiver algum resquício de neurônios em razoável funcionamento, faça-lhe um bem impagável: presenteie-o com tal livro e liberte-o desse grilhão maldito. Hehe!

Sds.,

Heitor Abranches disse...

Valeu Abreu,

Taí um livro que eu ainda preciso ler.

abs,

Suzy Tude disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Costajr disse...

Não sei se entendi bem. Quer dizer que torcer pelo flamengo é a mesma coisa que ser petista?

Acho que você está certo! Nossas escolhas, quando apaixonadas ou quando envolvidas numa aura de mística, não há intelecto ou provas de que são - as escolhas - débeis, que as demovam.

Heitor Abranches disse...

Acho que o que eu quero dizer é que vc pode ter um petista que é assim porque o pai e a mãe são, vc pode ter um que é assim porque é um sindicalista que teve oportunidade de fazer carreira na cúpula do partido ou ainda ser petita porque vc acredita que este partido é aquele que defende a democracia, a justiça social e a ética...Eu acredito que aqueles que fizeram a escolha baseada em valores mais conscientes tendem a questionar se os meios refletem os fins a que se propuseram. Eu pessoalmente acredito que os meios devem refletir os fins a que se propõe ou então se terá muitos problemas como a corrupção, a nomeação de sindicalistas para a posição de técnicos ou o desejo de adequar o Estado ao desejo de poder do seu grupo como me parece ser o caso da TV Lula.

pennywise disse...

Heitor você é um dos maiores torcedores que eu conheço, e com direito a blog filósofico!... não me admirarei se Pugnacitas se tornar uma religião em breve...

Anônimo disse...

Fuck you all!!!!!

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