28 fevereiro 2007

Mahayana ou Hinayana?

No início do budismo havia uma discussão entre os primeiros discípulos se a prática deveria ser restrita àqueles capazes de trilhar o caminho do Buda ou se deveria se estender o ensinamento à população em geral. Este debate, que encerra muito mais nuances do que isto, é conhecido como o debate entre os defendores do pequeno veículo "Hinayana" e os defensores do grande veículo "Mahayana". O universal deste debate é a velha questão da elite versus povo.

No cristianismo este debate esteve presente nos primeiros concílios, e um dos seus momentos mais conhecidos foi a disputa se o cristianismo deveria ser estendido aos gentios ou deveria ser ensinado apenas aos judeus. No Concílio de Nicéia, alguns autores consideram que este foi um dos pontos fundamentais que marcaram a escolha dos Evangelhos sinóticos e do Evangelho de João como canônicos, marcando a vitória do Mahayana também no cristianismo.

Provavelmente, o cristianismo deve a sua sobrevivência à escolha do caminho Mahayana, a despeito das possíveis perdas que possam ter havido na mensagem original ou em termos do cristianismo "esotérico". Afinal, a noção de "irmãos em Cristo" e a caridade foram o fermento do cristianismo em seus primeiros dias de Império Romano.

A sociedade romana tem alguns traços em comum com a sociedade capitalista americana. Ambas são potências hegemônicas que idolatram o sucesso, o mais forte, o mais capaz e outros valores viris. O problema é que existe uma multidão de fracos e desamparados que é incapaz de seguir tal caminho. A esperança é tudo o que lhe resta. Hoje, ela repousa sobre o crescimento econômico. Como já disse Hu Jintao, secretário-geral do PCC Chinês, o que dá ao partido a legitimidade é o crescimento econômico chinês.

Assim como o capitalismo é filho da doutrina cristã do livre arbítrio e da salvação individual, o socialismo é filho da noção de irmãos em Cristo. A nova irmandade seria algo como irmãos trabalhadores. Acredito que venha daí a superioridade petista em termos de organização, ou seja, de uma experiência histórica amplamente favorável.

Recentemente, vi na capa do Correio Braziliense a manchete "República dos Sindicalistas", mostrando a força dos parlamentares ligados aos sindicatos dos trabalhadores. Enquanto isto, temos o PSDB, um partido de elite cujos quadros diminuem todos os dias, sem bases e com cada vez menos chances nas próximas eleições.

Concluindo; desde religiões até partidos políticos, não dá para se viver sem o povo, mesmo que se tenha que oferecer uma versão paternalista de religião e uma versão populista de socialismo. Mesmo o capitalismo, sem a esperança do crescimento - que é uma ilusão para a maioria - também não consegue subsistir.

21 comentários:

André disse...

A esperança de crescimento, no capitalismo, nào é uma ilusão para a maioria. O que é uma ilusãoé a esperança de uma vida melhor. Mas sei q tem gente q vai associar as duas coisas (crescimento com melhoria de vida) --- e não estão errados. Só acho q o buraco é mais embaixo. De qualquer maneira, legal o post.

Façam seus comentários - e também suas apostas - senhores: Mahayana ou Hinayana? Um desses tem q dar em algo...

Blogildo disse...

Concordo com o texto em geral. Mas acho um tanto equivocado afirmar que "o socialismo é filho da noção de irmãos em Cristo".

Helô Helena diz que aprendeu socialismo na Bíblia. Já li a Bíblia algumas vezes e não vi nada disso lá.

Mas tirando esse detalhe concordo com o texto!

Marien disse...

Oi, Catellius!!!

Espero que tudo esteja transcorrendo bem com você.

Recebi sua última mensagem e não sei se concordaria com a tese de que o Mahayana venceu o Hinayana.

Não é o que os 05 concílios budistas demonstram.

Demais disso, inobstante a presença fortíssima do Mahayana no norte da Ásia, o Hinayana ( melhor seria dizer Theravada, para ser politicamente correto) não deixa muito espaço para outras tradições, quando geograficamente falamos da Ásia Meridional.

O autor do texto tentou fazer paralelo entre bombril e bomba atômica. Só poderia ter dado nisso. Isso sem falar que deixou o popularíssimo Vajrayana de fora.

Pecou também ao associar o Império Romano à sociedade contemporânea norte-americana. Na hora em que li o tal parágrafo até senti calafrios. Foi de um reducionismo tão tosco que uns 300 senadores devem ter revirado-se em suas vetustas tumbas marmóreas. Senadores romanos, por certo.

Sigo lendo o material por vc encaminhado. Manifesto-me com parcimônia em virtude do sempre presente acúmulo de processos. Mas a alusão ao Mahayana e ao Theravada quase me faz sair do corpo (risos). Não resisti: resolvi comentar !

Beijos!

P.S: Caso queira, recomende ao autor do texto...
http://www.dharmanet.com.br
http://www.snowlion.com.br

André disse...

Marien, eu também senti calafrios com essa comparação entre os US of A e Roma Antiga. Nada contra nenhuma das duas sociedades de um modo geral, mas realmente não tem nada a ver. Mas já ouvi coisas piores, então o calafrio foi pequeno.

Senadores, um ou outro Cônsul e vários Imperadores devem ter se revirado no Inferno Romano e no Paraíso também.

Sim, o Vajrayana é interessante. Mas não sou entendido nessas coisas. Acho que minha evolução espiritual empacou lá em Constantinopla, Bizâncio. Ou antes, em alguma forma de paganismo pré-cristão...

Luisete disse...

Oi Heitor,
A contribuição sindical obrigatória explicaria melhor a "força" dos parlamentares ligados a sindicatos. Há muito dinheiro em jogo e, não só o da contribuição, já que, de alguns anos para cá, a União celebra convênios milionários com entidades sindicais (para conferir, acessem site www.cgu.gov.br).
As instituições sindicais travam batalhas judiciais em torno da representação de uma determinada categoria de trabalhadores já que o dinheiro virá fácil para a conta bancária daquele que for reconhecido pela Justiça como representante daquela categoria profissional. Sem a contribuição sindical obrigatória, a força desses parlamentares viraria pó em dois tempos. Poucos trabalhadores se filiam a sindicatos, contribuem espontanemante e participam de discussões já que a maioria, além dos salários baixos, não tem consciência política para tal. Mas todos estão obrigados a contribuir, anualmente. E ainda há um percentual (não me lembro qual) incidente nas guias de recolhimento da previdência social que é recolhido em uma conta especial junto à Caixa Econômica Federal.

Portanto, é coisa de elite! Nada a ver com o povão.

O que vemos, de fato, é que o povo se mantém a parte das discussões que exijam um conhecimento maior, uma maior reflexão. Tanto na religião como na política. Enquanto estamos preocupados em atender necessidades básicas de sobrevivência não há espaço para "alçar vôos".

O que acontece, verdadeiramente, é que religião e política apenas usam o povo e o povo se deixa usar.

Ricardo Rayol disse...

O Budismo também é centrado na santissima trindade (conforme o próprio Blogildo vem alardeando). Brahma, Skol e Antartica são poderosos simbolismos sem precedentes na história religiosa da humanidade.

Heitor Abranches disse...

Gostei de debate!

Em primeiro lugar, o ponto central do texto é mostrar que a elite não tem a capacidade de manter nenhuma instituição através dos séculos. Vejam o caso dos Cavaleiros do Templo cujo elitismo os tornou odiados e temidos até dentro da própria Igreja Católica.

Até meados do século XVIII a corte inglesa falava francês mas hoje o mundo fala a lingua da ralé inglesa. Portanto, acho interessante não desprezarmos o povo.

A despeito da sua ignorância deve-se a eles em elevado grau a sobrevivência de instituições seculares.

Neste sentido, a direita brasileira tem muito ainda a aprender com a capacidade de mobilização da nossa esquerda. Não adianta estar certo, é preciso contar com uma multidão que grite mais alto e com uma claque que o aplauda.

Heitor Abranches disse...

Gostaria a acrescenter algo mais ainda sobre o crescimento econômico. Para mim, uma boa imagem de crescimento econõmico é uma fila onde os primeiros são os milhionários e os últimos são os pobres. Se o pobre não vê a fila andar ele começa a perder a esperança e a estabilidade da fila e o respeito a sua ordem começa a enfraquecer. Neste sentido, para que possamos ter ordem precisamos ter progresso como já disseram os positivistas e por outro lado sem ordem também não se tem progresso...Enfim, ordem na fila e progresso e vamos parar de furar a fila senão o negócio pode esculhambar...

Anônimo disse...

Heitor
Milhonario eh o mexicano cheio de espigas p/ preparar suas tortilhas.
Milionario eh um gajo muito abastado. Sugiro q uses um corrector ortografico.

Anônimo disse...

E marien tem razao quando diz que hinayana eh pejorativo e ñ tem quando substitui hinayana por theravada.

Hinayana literalmente significa "veículo medíocre ou vil". O termo surgiu numa época de rivalidade entre membros de comunidades budistas quando um dos grupos passou a chamar certas comunidades de hinayana, e a si mesmos de mahayana, literalmente "o grande caminho". Mais tarde, o termo foi adotado por várias escolas originárias do mahayana para definir uma busca imperfeita do caminho buddhista, a qual deveria ser substituída por uma aspiração maior. Nesse sentido o termo hinayana não se referia mais a nenhuma escola existente. Séculos depois, escritores quiseram identificar o hinayana com a antiga escola Theravada, pelo fato de que esta era a única escola remanescente das escolas antigas pré-mahayana. A identificação, entretanto, é incorreta, não somente pelo fato do Theravada não estar presente na época da rivalidade que fez surgir esse termo, mas por desconsiderar uma série de aspectos característicos das escolas e termos em questão.

Heitor Abranches disse...

Obrigado pela aula sobre as tradições budistas...O ponto central entretanto permanece inatacado. O povo precisa ser tocado. Talvez ele não seja capaz de compreender debates sofisticados e isto já tenha sido percebido a muito tempo. Para o povo precisamos das fábulas, dos dizeres, das parábolas em cujas estruturas as Verdades podem sobreviver...Eu ainda acredito na Verdade...Acredito que a cultura reaja a ela e que ela não possa ser contida em palavras mas somente em pessoas porque o sentido das palavras muda e elas sempre poderão ser usadas e manipuladas por aqueles que pretendem se apossar do seu poder e corrompê-las...Talvez, a Verdade só possa existir mesmo no mundo das fábulas junto com os principes encantados...Talvez o nosso mundo seja o mundo onde o sapo barbudo vire o presidente da República.

André disse...

Boa referência aos Templários, foi isso mesmo.

O positivismo é uma grande bobagem, mas faz parte da tosca mentalidade brasileira, infelizmente.

Involução: da Res Publica romana, chegamos na Res Sindicalista...

Luisete disse...

Oi Heitor,
O povo talvez seja romântico, mas os nossos constituintes de 1988, não. Com o dinheiro da contribuição sindical, garantido pelo inciso IV, art. 8º da Constituição Federal alguns sapos barbudos poderão virar presidente.

André disse...

Essa contribuição sindical obrigatória é uma das várias picaretagens embutidas na CF/88, esse "avanço do retrocesso".

Catellius disse...

Bravo, Ricardo!
Ri muito da sua trindade - Brahma, Skol e Antártica. Faltou dizer que cada cerveja é diferente da outra mas todas são Ambev, o que é um mistério alcoólico inquestionável, só compreensível após os vapores inefáveis subirem à cabeça.
Depois volto aqui para dar pitaco na discussão. Só não posso falar muito sobre concílios budistas... Imagino todos aqueles carecas de mantos laranjas gritando e gesticulando enquanto, do outro lado do mundo, um punhado de barbudos de roupas enfeitadas gritam e gesticulam enquanto uns dromedários da península arábica gritam e gesticulam para definir se o califa legítimo deveria ser descendente de Maomé ou não.
Abraços!

david disse...

Meio confuso:

1) As diferenças básicas entre budismo e cristianismo são maiores do que a opção pragmática quanto a "escolha de adeptos". O budismo, mesmo com todos os concílios, mantêm-se budismo, contrapondo-se aos preceitos católicos;cristãos, que são paulinos.

2) A comparação entre Roma e USA é algo razoável, tendo em mente que o Mare Nostrum hoje é o planeta todo. Grandes civilizações dominantes simplesmente englobam, historicamente, àquelas de territórios imediatamente vizinhos. Como nos tempos das grandes dinastias egípcias, do imperio otomano, grego, persa, etc.
3) Capitalismo filho do cristianismo? Então o pessoal dos dromedários, onde chove petróleo, é comuna? Reinados, ditduras, vá lá, mas capitalistas de facto.
4)"Viver sem o povo" é impossível, pois para se movimentar as carroças faz-se necessário que acha bestas para o serviço. Que sejam jogados na lama, usurpados, extorquidos, mas sempre necessários.

Enfim: quem viaja mais?

Catellius disse...

Marien
O Heitor escreveu que a sociedade romana tem alguns traços em comum com a americana. Qual o problema nestes “alguns traços”? Acho, claro, que a coisa ficaria melhor assim: “todos os grandes impérios bélicos têm em comum idolatrar o sucesso, o mais forte, o mais capaz e outros valores viris”. A comparação poderia ter sido feita entre o império napoleônico e o macedônico, por exemplo.

Heitor,
Não entendi por que o socialismo seria filho da noção de irmãos em Cristo. Os essênios eram irmãos em alguma coisa também, os judeus são irmãos em Abraão, e por aí vai. Qualquer comunidade de poucos indivíduos que deseja sobreviver tem isso de "irmãos". Quando deixa de ser minoritária perde essa irmandade rapidamente. Isto aconteceu com o cristianismo, com o petismo, e até com os judeus que se mudaram para Israel, onde não há a mesma cooperação e irmandade que vemos entre os judeus de São Paulo, por exemplo.

Também acho que não dá para viver sem povo. Será que o PSDB pode viver sem ele? Claro que não. Mesmo se importássemos partidos – mesmo os populistas - de nações mais desenvolvidas, eles seriam vistos como uma elite que aparentemente não quer se misturar ao nosso povo, afinal este só entende a língua do populismo barato regado a Cesta Básica e Bolsa Família.
Abraço

Pênio Moraes disse...

Como diria minha avó, ferrenha defensora dos ideais democrático-totalitários:"isto me cheira a samba do criolo doido. Aproveita e amarra-o ao troco, mas não sem antes trazer-me meu chicote e as botas de cano alto. Ah sim, e um pote de manteiga sem sal."

Heitor Abranches disse...

Recentemente, a besta presidencial disse que quem não acreditasse no Brasil devia ir para outro país numa reedição da frase histórica de médici do - brasil, ame-o ou deixe-o...Considerando a possibilidade dele conseguir o terceiro mandato no fim da reeleição onde ele teria a opção de concorrer uma vez nas novas regras esta é uma perspectiva atraente...Mas ele vai passar...Ele é apenas um surfista que estava em cima de uma onda e que foi catapultado ao poder. Quando a onda passar ele também será vomitado como todos os outros.

Heitor Abranches disse...

E que venha a próxima besta...Enquanto isto vamos indultar o Ze Dirceu e construir uma imprensa que fale bem do PT...Com alguns favores e alguns empresários dóceis, tudo é possível....

André disse...

Heitor, daqui a dez ou quinze anos ninguém mais se lembrará do Lula e o petismo virará mais uma nota de rodapé na História repetitiva "destepaiz". Oito a doze (?) anos de obscurantismo e glorificação da escória (esta, em todos os sentidos), de tudo aquilo q é mais baixo, tolo, ridículo e medíocre.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...