08 novembro 2006

Saddam e Cocoons

Ganhei a fotografia ao lado de um jordaniano pouco após a Guerra do Golfo de 1991, quando visitei a região. Na montagem sobre propaganda da Marlboro (a impressão é que todos fumam por lá) o paladino cavalga com as cabeças de Isaac Shamir e de Bush (pai) espetadas no mastro da bandeira iraquiana com a inscrição "Allahu Akbar" (Deus é o maior) bem destacada.

É uma pena que Saddam, o Harum Al Rachid de nossos dias, que tem até seu nome gravado nas ruínas da antiga Babilônia (uma depredaçãozinha básica), tenha seu fim, por enforcamento, anunciado. Essas coisas são sempre lamentáveis. Fora as mortes que causou, a opressão que impôs ao seu povo, o mau gosto de seus palácios e de suas embaixadas, ele era um cara muito legal. Parece até que recebia pessoas humildes em seu palácio aos sábados pela manhã para ouvir o que desejavam. Como Harum Al Rachid, das Mil e Uma Noites. Claro que as audiências eram televisionadas.

Clique na imagem ao lado para ler um texto delicioso sobre Saddam Hussein divulgado nas escolas do DF pelo Departamento de Imprensa da Embaixada do Iraque em Brasília. O livreto também inclui os textos de três estudantes ganhadoras de um concurso de redação cujo tema era "O Iraque". Uma boa iniciativa, aliás.

Há muitos anos recebi o material publicitário quando visitei a embaixada, um prédio isolado das demais representações estrangeiras e próximo a uma estação de tratamento de esgoto. Quem passa por lá pode até acreditar que o forte odor vem da arquitetura do edifício, que tenta debalde reproduzir um palácio modernista - afinal a embaixada é em Brasília. A caixa de fósforos tem um alpendre com colunas dispostas aos pares, em "V", pretensamente niemeyerianas mas que devem ser canos de esgoto engrossados na base e cobertos de massa.

Falando em arquitetura ruim, ninguém me convence que o Memorial JK não é de um mau gosto iraquiano. A estátua de Juscelino é praticamente igual àquela do ditador que foi posta abaixo pelos seus súditos. A obra deles está um pouco melhor. O corpo do fundador da nossa capital é um tubo e o braço levantado que saúda o nascer do sol é desproporcionalmente grande, simiesco. O pedestal em forma de foice (aff), o prédio um tronco de pirâmide, como se fosse o túmulo de um grande faraó... Para piorar, espalharam pela grama em frente ao mausoléu não uma mas dezenas de esculturas esféricas de Darlan Rosa, verdadeiros cocoons, iluminadas internamente.

Coincidentemente, em frente à Embaixada do Iraque há um desses cocoons (os casulos do filme "Cocoon"), coroando ridiculamente um pórtico na Faculdade Euro-Americana.
Mais coincidentemente ainda, em frente ao Arco do Triunfo das Vitórias Militares do Exército Brasiliense, no Pontão do Lago Sul, encontramos outra esfera darlaniana.

Será que é só edificar algo de estética questionável para os cocoons brotarem ao redor?

Logo logo eles surgirão, quais cogumelos, nas imediações do descomunal ovo semi-enterrado que Niemeyer projetou para esconder a Catedral de Brasília, próximos ao CIEP que o arquiteto colocou detrás do Touring...

07 novembro 2006

A Última Esplanada



Comparação meramente formal entre a Última Ceia de Da Vinci e a nossa Esplanada dos Ministérios.

- Os dois edifícios do Congresso Nacional são a dualidade de Cristo - Homem e Deus -, que os bizantinos representavam como estrabismo ou como os dedos indicador e médio em riste;

- O vermelho e o azul de sua vestimenta podem também representar essa dualidade: a situação - homem, tentações, sangue, vermelho - e a oposição - Deus, Celestial, Azul (O PSDB está longe de ser divino, não me entenda mal...);

- A mão de Cristo com a palma para cima é a Câmara e a outra, com a palma para baixo, o Senado. A primeira recebe do alto (a voz do povo é a voz de Deus) e a segunda sanciona;

- As três janelas ao fundo são os três poderes; a trindade é o governo tripartite; o Legislativo é o Pai, que deu a lei aos homens, o Judiciário é Jesus, que julgará os vivos e os mortos, e o Executivo é o Espírito Santo, que age no mundo. Haveria aí uma contradição, pois nos itens anteriores comparei Jesus ao Congresso, o Legislativo. Mas também temos o Jesus que nos deu o mandamento "Amai ao próximo como eu vos amei", o Jesus que legislou;

- O Graal poderia ser a Catedral Metropolitana, que tem a óbvia forma de um cálice, mas está fora da cena (ou ceia);

- Como não poderia deixar de ser, os Apóstolos são os Ministérios; da direita para a esquerda são, se não me engano: Simão, Tadeu, Mateus, Filipe, Tiago (o Maior), Tomé, João, Judas, Pedro, André, Tiago (o Menor) e Bartolomeu. Fica difícil compará-los aos ministérios existentes, pois o número dos apóstolos de Lula supera em muito o de Cristo, e as sedes mudam constantemente. Contudo, me pergunto: Judas seria qual ministério? O de José Dirceu? Lula não citou nomes quando disse que se sentia traído;

- O pão e o vinho, a comunhão, deveriam ser a conexão do parlamentar com o povo. Mas essa idéia, hoje em dia, é surreal! Alguns acreditam que a Santa Ceia da Democracia está prestes a terminar, antes da sobremesa. Há mais Judas do que imaginamos por aqui.

Assim na Terra como no Céu

- Se a partir da perspectiva de um pedestre na Rodoviária vemos a Última Ceia, vista do alto Brasília é uma cidade crucificada, de braços abertos. As chagas nas mãos são os Setores Hospitalares Sul e Norte. Os pés são a Rodoferroviária, por meio da qual o povo vai e vem - o migrante, símbolo da chaga social chamada desigualdade. O Coração é o Setor Comercial Sul, a única área da cidade que manteve o espírito urbano tradicional, com esquinas, gente, confusão. A coroa de espinhos é o agressivo Mastro da bandeira, de Sérgio Bernardes. Acima da cabeça, qual firmamento, mui azul, está o Lago Paranoá. Acima do firmamento, as mansões do Lago. Abaixo dos pés, a maioria das cidades satélites (não, não são o inferno, he he). Apenas para os brasilienses: Quem falar na Torre de TV será excomungado;

- Finalizando, Brasília seria um "proxy" do Brasil. O Brasil tem a proporção de um corpo com os braços abertos, onde a altura - do Rio Grande do Sul ao Amapá (ou Roraima) - é praticamente igual à envergadura - do Acre a Pernambuco. O coração do Brasil "crucificado" é a própria Brasília, que recebe sangue do resto da nação e o bombeia de volta (em teoria). Bom, Amapá não é a cabeça do país, mesmo sendo representado no Senado pelo sapientíssimo autor de Marimbondos de Fogo. Toda comparação tem seus pontos falhos...

Marxismo do 7º dia do Advento do Petismo


Encontrei muitos pontos em comum entre a religião e o marxismo/petismo.

Alguns Deles:

- O Ideal: Bem contra o Mal
- O Paraíso: Sociedade Socialista
- O Inferno: Sociedade Capitalista
- O Juízo Final: Revolução Bolchevique
- O Messias: Marx
- O Evangelho: Manifesto do Partido Comunista
- O Livro do Apocalipse: O Capital (Marx)
- O Fundador da Igreja (o São Paulo): Lênin
- Os Santos: Trotsky, Che Guevara,
- A cruz: Foice e Martelo (estrela)
- A ovelha: O Trabalhador

E mais:

- Os Inquisidores: Fidel, Stalin, Mao
- O Padim Ciço: Lula
- O Marcelo Rossi: Frei Betto
- O animador do Segue-me: Ziraldo
- O Palestrina (missas e motetes): Chico Buarque
- O Templo: Boteco da esquina (capela), Sede do Partido (Igreja)
- Ofertório: Caixa Dois
- Fé: Fé
- Algum Obscurantismo: Muito Obscurantismo
- Dogmas: Dogmas
- Index: Censura à Imprensa
- Fariseus: Elites
- Gentio: Burgueses
- Filhos Pródigos: FHC, Paulo Francis
- Vendilhões do Templo: Privatizações
- Mártir: Perseguido pela Ditadura
- Pecado: Liberdade

Carta Capital: Leporello

Uma das primeiras coisas que Leporello canta na ópera de Mozart é "Voglio far il gentiluomo E non voglio più servir..." (Quero ser um cavalheiro e não quero mais servir).
A Carta Capital quer servir ao "empio non punito" enquanto Leporello não quer mais servir ao "empio punito" - alcunha de Don Giovanni (ou dissoluto).

Leporello até que é honesto e quase sempre diz a verdade (na cena do catálogo), sofre com o patrão, que seduz a sua esposa (ou namorada). Como ele apanha no lugar de Don Giovanni inúmeras vezes, Leporello pode ser a alegoria de todo primeiro escalão petista, que caiu no lugar do patrão.

Se a História tiver lição de moral e a vida imitar a ópera, o nosso Don Giovanni será tragado pelas chamas infernais no auge de sua arrogância.

Leporello, como não poderia deixar de ser, após a queda do patrão canta "Ed io vado all'osteria A trovar padron miglior" (vou para a cantina para encontrar um patrão melhor).

Mas a Carta Capital não ficará órfã. Encontrará seu futuro patrão nos botecos, as igrejinhas dos petistas.

Marchinhas da Posse

Na solenidade oficiosa de posse do Lula, durante o Carnaval, não podem deixar de tocar as marchinhas:

- Ó abre alas que eu quero passar (no dia da posse, Lula será um posseiro?)

- Você pensa que cachaça é água (só o Larry Rohter não poderá cantar)

- Chiquita bacana lá da Martinica Se veste com uma casca de banana nanica (ou seria uma sunga?)

- Mamãe eu quero mamar (nas tetas do Brasil)

- Se a canoa não virar olê olê olá Eu chego lá (ameaças de impeachment pós-dossiegate)

- Ei, você aí! Me dá um dinheiro aí!(mensaleiros e governadeiros)

- A estrela d'alva no céu desponta (infelizmente, a estrela está lá novamente...)

- Taí eu fiz tudo pra você gostar de mim (populismo de um carismático)

- Eu fui às touradas em Madri e quase não volto mais aqui (o Aerolula não será leiloado)

- Chegou a turma do funil (e do churrasco)

06 novembro 2006

Olhar Vulgar

Comentando post do Reinaldo Azevedo:
"Sunga, decoro, Mann e Musil":

Reinaldo, a moral é desejável, o moralismo, que exige uma moral absoluta, não.

Também me considero um conservador, mas tenho consciência que quase tudo é convenção. E algo só pode ser considerado errado (na verdade, crime) quando prejudica terceiros, como disse Stuart Mill. Para homens e mulheres uma tanga bastaria, aqui nos trópicos, e apenas por questões de higiene.

Quase tudo é convenção.

O islâmico defensor do véu pode usar um discurso semelhante ao seu, exaltando a poética de um rosto coberto ou semicoberto pelo véu em oposição às "prostitutas ocidentais", que deixam, além dos ombros e das pernas, a face à vista de qualquer um. Uma cabra coberta por um véu por aquelas bandas deve despertar nos homens desejos impronunciáveis.

No passado nos apaixonamos por misteriosas patas de gazela, pela dona oculta do sapatinho de cristal. Também o comunismo quando estava oculto atrás da cortina de ferro causava suspiros por aqui. E hoje é preciso ser cego para encontrar beleza naquilo.

Quem vê vulgaridade na nudez dos silvícolas?

Já uma pessoa coberta até o pescoço pode ser vulgar.

--//--

Se os homens só existem para que possam honrar seus pais, até hoje apedrejaríamos adúlteras pelas ruas e escravizaríamos nosso semelhante. Com o passar dos anos muitos homens vão perdendo o verniz, que é o que amiúde esconde sua vulgaridade, seus preconceitos. Por isso é mais raro encontrar velhos sábios do que ranzinzas, preconceituosos e atrasados. Estes últimos apenas unem o útil ao agradável quando, não mais influenciados pelos hormônios da procriação e envergonhados de expor suas pelancas ao público, aderem ao discurso moralista, saudosos da época em que tudo ficava escondido.
Mas o Lula de sunga é dose. O estômago estufado de seus churrascos com seus cupinchas é uma agressão aos brasileiros (até aos que não se sentem agredidos).
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