04 dezembro 2006

Inimigos da Informação

Abaixo, alguns sites que tratam do incêndio da Biblioteca de Alexandria. Nenhum dos que visitei responsabiliza os árabes, incluindo o Catholic Encyclopedia, que culpa pelo incêndio final o patriarca cristão Teófilo, contemporâneo ao imperador-caçador-de-filósofos Teodósio, embora afirme que não existam provas definitivas. Na maioria dos sites a culpa pelo incêndio recai mesmo sobre o imperador cristão Teodósio, que foi o tal que extinguiu a liberdade de culto no Império Romano, fechou escolas filosóficas, matou e exilou filósofos, queimou milhares de rolos sobre astronomia, filosofia, medicina, etc. Justiniano, outro imperador cristão, anos mais tarde fechou a Antiga Academia de Atenas, fundada por ninguém menos do que Platão, queimou livros e expulsou os filósofos neoplatônicos para a Pérsia.

E ainda há quem diga que os cristãos são os responsáveis por preservar a literatura clássica... Esqueceram de mencionar os árabes de Córdoba (omíadas, do Egito e outros), que também tinham cópias de Arquimedes, Apolônio, Euclides, Ptolomeu, Pitágoras, etc. Os cristãos fizeram interpolações criminosas nos textos, muitas das quais só foram suprimidas após os escritos serem confrontados com traduções fiéis feitas por árabes como Averróis.

Se Savonarola (teocrata florentino) tivesse destruído quase todas as pinturas européias mantendo as obras mais significativas nas igrejas e em museus como o do Vaticano, haveria quem creditasse à Igreja Católica a preservação da arte profana renascentista...

Um fato interessante é que o vergonhoso Index Librorum Prohibitorum durou até 1966 e incluía livros de Sartre, Voltaire, Balzac, Giordano Bruno, Descartes, Copérnico, Schopenhauer, Nikos Kazantzakis (autor de Zorba, o Grego), Kant, e muitos outros. Como era de se esperar, Mein Kampf, de Hitler, nunca foi incluído no Index. Até a década de 60, nos locais de maioria católica, de Quebec à Polônia, os livros desses autores eram difíceis de ser encontrados em livrarias e bibliotecas, pois raramente eram publicados e o clero criava entraves para traduções e importações, o que nos mostra mais uma vez que obscurantismo e cristianismo (catolicismo) sempre andaram de mãos dadas...


Catholic Encyclopedia
O Catholic Encyclopedia diz que a versão que culpa o sultão Omar é inverossímil porque a acusação só teria aparecido seis séculos após a invasão árabe, e há vários historiadores mais antigos, de Alexandria, que não mencionam acontecimento semelhante. O texto diz que o ato seria contrário ao costume muçulmano de preservar grandes bibliotecas (a de Bagdá, de Córdoba e outras. Eles estimulavam a filosofia, a astronomia e as ciências em geral). Por incrível que pareça, o site diz que provavelmente a última parte da biblioteca foi destruída pelo patriarca cristão Teófilo (a mando do imperador Teodósio), mas que disto não existem provas definitivas.

Educação Terra - História
Queimada pelo imperador cristão Teodósio (que destruiu também os templos pagãos e proibiu o ensino de filosofia).

Wikipedia - Inglês
Júlio César destruiu uma parte da biblioteca, de acordo com Plutarco, em uma batalha como aliado de Cleópatra contra seu irmão Ptolomeu XIII. Aureliano, anos depois, destruiu outra parte. Teodósio, o imperador cristão que proibiu os cultos pagãos e os livros de filosofia, queimou, pela mão do patriarca cristão Teófilo, centenas de milhares de papiros e pergaminhos. O texto diz que não há evidências de que os muçulmanos teriam destruído a biblioteca. A história sobre Omar só aparece em um texto do bispo semita Gregory Bar Hebræus, habituado a escrever contra muçulmanos.

Wikipedia - Português
Causa Acidental

Bede's Library
O texto cita trechos de Sêneca, Plutarco, Sócrates Escolástico e diz que não há quaisquer evidências de ter sido o Sultão Omar o incendiário, e tampouco Teófilo, mas Júlio César, que teria queimado grande parte da biblioteca durante uma batalha. O engraçado no site - e é o que lhe dá uma aura de isenção - é que ele diz que são apenas mitos as histórias de cristãos destruindo textos e bibliotecas pagãos. Em compensação, diz que as perseguições aos cristãos e todos aqueles martírios nas arenas são mentiras contadas pelos cristãos dos séculos subseqüentes.

E History
Diz que todos os textos que acusam Teófilo e Omar são mentirosos. Júlio César destruiu realmente parte da biblioteca, mas Marco Antônio presenteou Cleópatra com 200.000 rolos após o evento, o que mostra que a biblioteca continuou a existir. Para se ter uma idéia do tamanho do estrago, um copista conseguia reproduzir mais ou menos o equivalente a cinco livros de 200 páginas por ano (a informação eu não tirei deste site).

BBC.co.uk
Culpa Júlio César.

NetTime.org
Júlio César destruiu de 40000 (ou 400000) rolos tentando ajudar Cleópatra contra seu irmão Ptolomeu XIII. Marco Antônio, anos depois, presenteou Cleópatra com 200000 rolos vindos de Pérgamo, na Anatólia. O museum ruiu durante as lutas que agitaram o Império Romano durante o século terceiro, e Teodósio, o imperador cristão que proibiu os cultos pagãos, destruiu o resto da biblioteca com o auxílio do patriarca Teófilo, por volta do ano 400 d.C. Em 415 d.C. o historiador cristão Orósio visitou Alexandria e escreveu que não existiam mais livros pagãos (nos templos) em Alexandria e que as construções tinham sido esvaziadas pelos cristãos. Este relato confirma que a biblioteca não foi queimada pelos árabes, que só conquistaram o Egito em 642 d.C.

História do Mundo . com
César só destruiu (acidentalmente) os livros que ficavam próximos ao porto, onde foi travada a batalha contra Ptolomeu XIII. Os edifícios principais da Biblioteca, o Museum e o Serapeum, ficavam longe da cena da batalha e seu conteúdo teria sido destruído por Teodósio para extinguir a literatura pagã. O texto não cita a hipótese do conjunto de edifícios ter sido destruído por árabes.

Encyclopaedia Britannica (Answers.com)
O site answers.com, em artigo da Encyclopaedia Britannica, data a destruição total da Biblioteca de Alexandria no ano de 391 d.C., 251 anos antes dos árabes conquistarem o Egito, e exatamente no ano em que o imperador cristão Teodósio proibiu o culto aos deuses pagãos em todo o Império Romano. (Na ocasião, várias escolas filosóficas foram fechadas, livros destruídos e filósofos exilados. Em Alexandria queimaram livros de astronomia, agrimensura, matemática, medicina, tragédias gregas, etc.)

Jornal da Ciência
Robert Darnton diz que os papiros entraram em decomposição e sumiram sozinhos (de qualquer modo, no novo contexto de cristianismo a cópia e a manutenção dos manuscritos clássicos não foram mais estimuladas em Alexandria).

22 comentários:

Blogildo disse...

É interessante a observação. Parece verossímil. Eu creio que o verdadeiro cristianismo só existiu no primeiro século e metade do segundo século de nossa era. Depois disso, o cristianismo foi corrompido pela cultura greco-romana.
A partir daí, tudo era possível.

Apesar dos crimes da Igreja Católica em todos os séculos, inclundo o século XX e XXI, sempre houve grupos de cristãos que seguiam e seguem o cristianismo primitivo. Afinal, o verdadeiro cristianismo sempre foi religião de uma minoria.

Excelente seleção de textos. De vez em quando passarei por aqui.

Abraço!

Frederico Carpinteiro disse...

Na realidade, não é preciso ser um especialista em história das religiões para saber que a religião cristã sempre teve um comportamento destruidor como actuação.
Não lhes basta chegar ou conquistar, evangelizar, (praticam o princípio de terra queimada).
Os povos Índios que o digam, foi um dos mais violentos e desumanos episódios da história da humanidade, (com a assinatura do Vaticano).
Parabéns pelo blog e pela selecção dos textos.

Imperio disse...

É complicado saber quem foi responsável pela destruição. Provavelmente foi o bispo Teófilo, dado de que não se fala mais da biblioteca depois do édito. Os manuscritos devem ter sido espalhados por particulares que aproveitaram para ficar com esses livros sem desembolsar dinheiro. É provável que continuasse a existir uma biblioteca pública (Roma continuou a ter uma até ao séc. VI), mas sem uma importância comparável.
Q.F.M.

Antônio Carlos disse...

No "resuminho" que você fez de cada site, deu um jeito de inserir toda vez que Teodósio perseguiu os pagãos e expulsou filósofos, mesmo quando o site não menciona esses eventos. Mesmo tendo colocado a informação entre parênteses, ficou redundante e desagradável.
Quanto ao seu texto, não há dúvidas que o cristianismo sempre esteve a serviço da desinformação. Além do extinto index, eles desinformam as populações africanas dizendo que o preservativo espalha a AIDS, são os grandes responsáveis pela cultura de morte nas Filipinas Link para artigo justamente por causa do obscurantismo e da desinformação.

Anônimo disse...

Excelente !

Li o seu comment no "Notícias do Planalto" e vim conferir.

É uma constatação q povo culto é povo q raciocina.......

Isso nunca foi "útil" aos q almejam o poder.

Hoje vemos a tentativa de manipular a mídia, sempre a informação sendo temida e combatida para q haja uma supremacia ditatorial.

Costajr disse...

Permitam-me uma ressalva. Na Idade Média, os cristão estavam mesmo pouco interessados em cultura. A unica coisa que os interessava era salvação e o combate ao paganismo. Com efeito, Teodósio, que dividiu o império em duas partes, pelo Édito de Milão em 391 estabeleceu o cristianismo como religião oficial do império romano e autorizou a perseguição aos cultos pagãos.

Não obstante isso, é impossível não considerar a influência neoplatônica de Sabto Agostinho, isso no século IV e bem mais tarde, a presença de Aristótoles em Tomás de Aquino. Enfim, a bárbarie de alguns sempre coexistirá com a civilização de outros.

pintoribeiro disse...

Você fazia falta neste post. Boa noite, abraço,

Anônimo disse...

Obrigada pela visita e por seu comentário.

Vc está no meu SUPER BLOGS !

Volte sempre !

pintoribeiro disse...

Bom dia. Tinha a ver com um comentário qe deixei no post da Pianola a propósito das comemorações do Natal num pais dito laico. Abraço.

Anônimo disse...

Tenho que concordar com o Costa Jr. E acho que deve ser lembrada a evolucao (ou involucao) das religioes modernas... Nao acredito que seja o cristianismo hoje em dia a religiao que possui o maior numero de fanaticos. Alias, religiao e politica sempre andaram de maos dadas.

Costajr disse...

OH Patricia, ao usar a expressão "tenho que concordar com o Costa Jr" parece que há um esforço sobrehumano de sua parte para concordar comigo. Ainda bem que concordamos nesse aspecto

um abraço.

David disse...

Se eu penso nos 400 livros que tenho em casa, imagine se vivesse naquela época. Teria uma ataque, independente do "partido" do destruidor.

Porém, a versão que me chegou até hoje foi a de Teodósio, atraves de Teófilo.

pintoribeiro disse...

No ponto. Passa lá. Um abraço,

Anônimo disse...

Amigo

Estou completando 1 mês de blogosfera e no meu pequeno reduto fiz um singelo tributo a

todos vcs q me prestigiaram e tiveram paciência para ler meus desabafos.

Agradeço a todos de coração !!!!!!!!!

João Moutinho disse...

Este post está excelente.
Lembro-me de que quando fui visitar a Mesquita de Lisboa ter visto um livro exposto que explicava que Omar não tinha qualquer responsabilidade no incêndio da Biblioteca de Alexandria.

Anônimo disse...

Parabéns pra vc, seu super blog é visita obrigatória para muitos blogueiros e eu estou nessa lista.

Abraços
Sonia SSRJ

Olavo Setúbal disse...

Olá Eneadáctilo
Finalmente alguém com juízo pela blogosfera, kkk
Parabéns pela seleção de textos.
Entrei nos posts anteriores e teci alguns comentários, espero que não assuste seus blogueiros mais cativos.
Como o Frederico Carpinteiro escreveu, os cristãos sempre utilizaram o princípio "delenda est cartago", cortando jarrete dos bois, assassinando crianças, espalhando sal para que as plantas não brotassem. Quando o "ideal" é muito nobre, tudo fica justificado, não é?
Como disse Ludwig Feuerbach, quando a moral depende de Deus as coisas mais imorais são justificadas.

Anônimo disse...

Olá.

Este seu texto foi o ponto de partida para algumas considerações que teci no meu blogue.
Convido-o a dar uma espreitadela e a dizer o que acha.

Catellius disse...

O Manuel (acima) escreveu em seu blog http://brevetempus.blogspot.com/

" Sem querer fazer juízos, pois não sou juiz, é para mim claro que os cristãos desempenharam um papel muito pouco neutro na preservação da cultura clássica, prova disso é a actual falta de textos de determinados autores, por exemplo o meu amigo Epicuro.
No entanto, a meu ver as generalizações são sempre perigosas e inimigas da verdade. Por exemplo, Santo Agostinho e outros dos chamados “Pais da Igreja” semearam as suas doutrinas cristãs em solo pagão e colheram daí efeitos muito saudáveis e ao mesmo tempo acabaram por preservar a cultura clássica. Outro exemplo é o do papa Leão X que foi um autêntico mecenas da cultura clássica e teve por isso um papel importante na recuperação e reabilitação dos clássicos pagãos. No entanto, outros papas houve que seguiram o caminho oposto. Sisto V transformou as colunas de Trajano e de Antonino em meros pedestais para as estátuas de S. Pedro e S. Paulo e mandou demolir o Septizonium de Séptimo Severo para usar os materiais da construção em outros edifícios.
Na minha opinião, os povos árabes são hoje em dia vistos de forma muito unívoca, visto que, normalmente olhamos apenas os aspectos negativos da sua história e cultura. Mas, tal como os cristãos, os árabes contribuiram positivamente para a evolução científica e até moral do ser humano. Basta conhecer um pouco da história da matemática, da astronomia, da recepção dos textos de Artistóteles ou até da medecina, para perceber o seu imenso contributo para o bem estar da espécie humana. Por outro lado, os árabes, tal como os cristãos, foram capazes de feitos terríveis e inconcebíveis, contribuindo para guerras e sofrimentos absolutamente desnecessários. "

Anônimo disse...

DESCULPA O ATRASO, MAS FINALMENTE POSTEI TODOS OS AMIGOS NO UPDATED BLOG.
VC ESTÁ NA MINHA LISTA, E MERECIDAMENTE, JÁ Q FOI UM DOS PRIMEIROS A ACREDITAR NA IDÉIA.
BEIJOS
SONIA SSRJ

Stefano disse...

veja isso
http://www.youtube.com/watch?v=Jr5Q5Volv88
http://www.youtube.com/watch?v=YpcE6Igwr0U
http://www.youtube.com/watch?v=_tKuNmyjG80
http://www.youtube.com/watch?v=rVvNG_DkwzY
http://www.youtube.com/watch?v=YWvl1EKY0jk
http://www.youtube.com/watch?v=K95X2VKqQ9o

Pregador disse...

Que eu saiba foram os Cristãos comandados por Cirilo, o Patriarca de Alexandria, proclamado Doutor da Igreja e Pilar da Fé, além de santificado, que após matarem Hipatia, que era pagã, arrasaram a biblioteca de Alexandria.

É mais um fanático intolerante e assassino santificado pela "santa igreja".

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